Todos os artigos de Júlio

UMA FARSA MALCHEIROSA

Um primeiro-ministro autoproclamado “transparente” recusou hoje no parlamento “fazer strip tease” das suas contas bancárias, invocando o direito à reserva da vida privada do deputado Passos Coelho e do primeiro-ministro homónimo. Ora acontece que o ponto fulcral da denúncia do anónimo “Vasco” contra Passos Coelho, em 2 de Junho de 2014,  era a revelação dos movimentos de dinheiro com que em 1997-2001 o deputado foi pago pela Tecnoforma (ou pela “respeitável” ONG que ela criou), com a indicação das “concretas contas bancárias utilizadas” (despacho da PGR, p. 3). Mais, o denunciante “Vasco” requeria do Ministério Público que esses movimentos de dinheiro fossem cruzados com a contabilidade da Tecnoforma e da tal ONG (despacho da PGR, p. 10).

Na terça-feira passada, o denunciado Coelho requereu da PGR que esta esclarecesse se ele cometeu ou não algum dos crimes de que foi acusado . Ora a PGR já tinha em Junho aberto um inquérito com base na denúncia do “Vasco” e logo o tinha mandado arquivar. As datas desta trapalhada não são claras no documento ontem divulgado pela PGR, intitulado “Despacho de encerramento do processo”, que tem a data de 25 de Setembro (ontem). Mas quando é que o inquérito da PGR foi realmente encerrado? A PGR não diz! O jornal Público julga saber que o inquérito foi arquivado pela PGR “de imediato”, isto é, logo em Junho.

O procurador que redigiu o despacho ontem publicado explica que a investigação requerida pelo denunciante foi recusada porque os eventuais crimes já tinham prescrito  e que, por isso, a PGR não podia sequer investigar se em 1997-2001 foi cometido algum crime de fraude fiscal ou de recebimento indevido de vantagem (aquilo de que o Coelho era acusado).

O mais curioso é que a PGR, não podendo, por efeito da prescrição, investigar se houve ou não crimes em 1997-2001, solicitou (não diz em que data) à Tecnoforma os registos da sua contabilidade de 1997-2001. Se os crimes denunciados tinham prescrito, porque solicitou a PGR essas contas? Não diz! A Tecnoforma é uma entidade privada e parte plausivelmente interessada neste processo, até à ponta dos cabelos.  Ora, se a PGR, não podendo investigar, solicitou as contas da Tecnoforma, porque não tratou  também de obter os movimentos bancários do denunciado, factos que poderiam confirmar ou infirmar as contas em questão? Mistério.

E que concluiu a PGR da contabilidade da Tecnoforma? Que o exame dessas contas “em nada contribuiu para o esclarecimento material da factualidade objecto do processo”. Que raio quer isso dizer? As contas mostram ou não mostram os movimentos de dinheiro denunciados pelo “Vasco”? A PGR não diz! E como conclusão-brinde, a PGR afirma ainda que das contas da Tecnoforma não se retira qualquer elemento que permita suspeitar de ocorrência de “quaisquer outros factos, para além daqueles que foram objecto da denúncia.” Que outros factos? A PGR não diz! Referir-se-á, por acaso, a branqueamento de capitais, crime que, a ter sido cometido, ainda não prescreveu?

O exame das contas da Tecnoforma pela PGR, que “permitiu” a esta dizer que nada pôde concluir, serve de poeira atirada aos olhos da malta. O primeiro-ministro, por seu turno, julgou que  se podia escudar numa não-conclusão. A PGR não esclareceu nada com o seu esclarecimento público, apenas suscitou mais perguntas. A cronologia do processo é confusa. Tudo isto cheira a farsa!

pós-primárias

O deputado Seguro deveria abandonar a bancada socialista e até o partido depois das primárias. Já não tem condições para permanecer no PS. Provavelmente, ele acha que sim, que tem. Talvez pense criar uma facção com a percentagem que pingar no domingo, para poder continuar o seu ego trip, agora na função de oposição interna ao futuro líder da oposição. Se apostar nesse perfil e mantiver a postura que revelou durante a campanha, Seguro terá mais tarde ou mais cedo que largar o barco. Se não o fizer, durante quanto tempo vão os socialistas suportar a acção nefasta deste fulano sedento de vingança?

O Marinho Pinto não deve querer um empata destes no seu partido, o que é pena.

Ganda Manel…

“Não esteja para aí com essas ideias subversivas” – disse na SIC Manuel Carvalho da Silva a Diogo Feio, deputado europeu do CDS. O Feio, de repente, até parecia que tinha levado um caldinho. Ideias subversivas… Toma, que é popular!

Desde que rompeu com os estalinistas, o Manel até já tem graça, que é o sal da vida.

Um anticolonialista de caca

Venho falar desse vendido ao Terreiro do Paço, de seu nome Alberto João Jardim. Já perdi a conta às vezes que esse falso nacionalista madeirense denunciou o domínio colonial exercido pelo “continente”. E que faz ele agora, num momento em que escoceses e catalães lutam corajosamente pela sua independência, mostrando a via e dando o exemplo? Nada. Pior do que nada, o traidor vem dizer que a Madeira não tem um projecto independentista!

Em 23 de Setembro de 2011, Jardim tinha declarado: “Se há dois países, a Madeira e o Continente, então dêem-nos a independência”. Repare-se no “dêem-nos”. O homem não saberá que as independências não se pedem nem se oferecem numa salva de prata? Claro que sabe, não sabe ele outra coisa! Pouco depois de fazer esse idiota pedido, que sabia de antemão que não seria levado a sério, Jardim retractou-se, para declarar que, afinal, era contra a independência madeirense. Obviamente! Falou verdade, mas como era a fingir que estava a fingir, os madeirenses piscaram o olho uns aos outros e perdoaram-lhe. Com aquela cratera lunar nas contas da região e com o pretexto de ser necessário continuar a chuchar na teta do “continente”, Jardim lá vai convencendo os madeirenses que a independência não é para já. Os pobres dos madeirenses acreditam, porque  se convenceram que Jardim é exímio a ludibriar os continentais. O problemazinho é que, para Jardim, a independência nunca é oportuna. Está no horizonte, onde o sol se põe o mar. É sempre para amanhã.

Jardim desdiz-se constantemente e, apesar dos desmentidos, parece não abdicar de agitar o papão da independência. Mas é sempre tudo a fingir, porque ele sabe que essa chantagem ja está completamente desacreditada. Em 2013 Jardim afirmou que a “solução mais arrojada” para a Madeira, a independência, pressupunha a realização de um referendo na região autónoma. Ora porque é que Jardim nunca tentou organizar esse referendo, mesmo á revelia das leis nacionais, como agora fazem os independentistas catalães? A razão é muito simples, e seria bom que os nacionalistas madeirenses se compenetrassem dela de uma vez para sempre: Jardim é um traidor à causa independentista da Madeira. O fulano inventa obstáculos, como esse do referendo, para opor ao legítimo desejo de autodeterminação dos madeirenses. Quando não é o referendo é a Constituição. Quando não é a Constituição é o buraco das contas. Quando é que os madeirenses irão perceber que ele é um vendido, um anticolonialista de caca a soldo de Lisboa?

Os novos Marretas

O (muito) antigo militante do PS, António Barreto, disse ontem, no programa “Olhos nos Olhos” da TVI24, que não se revê neste Partido Socialista. Quando interrogado sobre isso, fingiu pensar, pensar, pensar e depois, num pungente desabafo de alma, deu a grande, a enorme novidade: não! Podia ter acrescentado: nem neste nem nos outros Partidos Socialistas, desde há, pelo menos, um quarto de século. Mas como a Judite não perguntou…

Advogando, com o outro marreta do programa, um Estado Social mínimo, com uma educação “mínima” e uma saúde “mínima” (ai, que saudades do Estado Novo máximo), Barreto disse ainda outras coisas suculentas. Por exemplo, que as eleições directas nos partidos – não só as primárias que o Seguro engendrou no PS – são “talvez o maior ataque à democracia portuguesa” e “a verdadeira destruição dos partidos políticos e do sistema democrático partidário”. Estava inspirado, o ilustre sociólogo. “Uma eleição directa destrói um partido” – acrescentou. Porque o congresso e as secções “desaparecem”. Assim, sem mais: desaparecem! Acho que o Jerónimo lhe vai enviar a ficha de inscrição, com um cartãozinho: “Volta, camarada, que estás perdoado.”

Mais um fiasco

A equipa de Vítor Bento ainda não aqueceu o lugar no Novo Banco e já está de malas aviadas. Mais uma burrada do Carlos Costa, mais um fiasco monumental do governo.

O slogan do Novo Banco é, ou era, Um bom começo, dando a entender que estava no bom caminho e que dias felizes se avizinhavam. Na realidade, o banco estava “parado”, como disseram os porta-vozes de quem lá trabalha, atribuindo a culpa disso ao governo e ao BP. Tirando a ingénua equipa de Bento e o pessoal da casa, parece que ninguém mais queria que o “banco bom” começasse coisa nenhuma. A concorrência, que teve que pôr lá dinheiro, quer reavê-lo já e, se possível, ficar com os clientes do banco.  Aproximando-se a hora da verdade, o governo confessa agora não acreditar na estratégia de engorda do banco antes de ser vendido e quer desfazer-se dele quanto antes. Por tuta e meia, como o BPN. Nem que tenha depois que aumentar o IVA para 30%, pondo as culpas no Sócrates. Talvez ainda pegue…

O sr. procurador da “Asfixia Democrática”

Durante a investigação “Face Oculta” foram interceptadas ilegalmente, porque não autorizadas pelo Supremo Tribunal de Justiça, 11 conversas e um número indeterminado de mensagens telefónicas trocadas entre o primeiro-ministro José Sócrates e Armando Vara. Ainda assim, o então procurador-geral da República, Pinto Monteiro, ouviu as conversas, leu as mensagens e considerou que o seu conteúdo era pessoal e sem qualquer relevância criminal. O presidente do Supremo de então, Noronha do Nascimento, fez o mesmo e concordou, decretando a nulidade dessas escutas e a sua destruição. Isto em 2010.

É notícia hoje, 8 de Setembro de 2014, que estão finalmente a ser destruídas 5 conversas e 26 mensagens trocadas entre Sócrates e Vara que ainda estavam por destruir. Estão a ser destruídas, mas às 17h 22 ainda não o tinham sido. “Isso está a ser feito com cuidado. Estão a seleccionar as escutas que é para manter e a gravá-las noutros DVDs” ‒ explicou um tal Brandão, juiz-presidente da comarca de Aveiro. Claro que quatro anos e meio não chegaram para levar a cabo tão complicada e exigente tarefa. E, de resto, toda a gente sabe que é muito complicado destruir DVDs. É preciso ter à mão, pelo menos, “um x-acto, uma tesoura e um alicate” (sic), que são os instrumentos destruidores que estão a ser utilizados, segundo o Público.

Trocando por miúdos, a decisão do presidente do Supremo não foi acatada pelo procurador João Marques Vidal, que considerou, contra a opinião de Pinto Monteiro e Noronha do Nascimento, que o conteúdo das intercepções indiciava um crime de “atentado ao Estado de Direito”. E de que crime de lesa-Estado de Direito é que seria suspeito Sócrates, que justificasse o não acatamento por um procurador da decisão do presidente do Supremo? Diz o Público, geralmente tão bem informado como o Correio da Manha, que “estaria em causa uma tentativa de controlo da comunicação social em Portugal” e que Sócrates “estava no centro das suspeitas”.

Suspeitas em que processo? ‒ pergunto eu. Em algum processo judicial? Ou terá sido no processo político movido pelo gang da propaganda laranja contra o governo de José Sócrates?

Tudo se passou, como estamos bem lembrados, no tempo de Sua Excelência a Asfixia Democrática, aquela velha bruxa das relações de Manuela Ferreira Leite, que ela contratou para a campanha eleitoral de 2009. Foi portanto uma entidade imaginária, saída das meninges dos profissionais laranja em manobras de diversão, manipulação e propaganda, que ditou o comportamento do magistrado responsável pela Face Oculta. E a conclusão é que o procurador Marques Vidal actuou ‒ e depois não obedeceu a uma ordem dada pelo presidente do Supremo ‒ movido por meras acusações políticas fabricadas pelo PSD durante um período pré-eleitoral. Haverá agora um processo contra Marques Vidal?

O alija-culpas

Falando a Fátima Campos Ferreira em Penamacor, a sua terra natal, o androide busca desesperadamente culpar alguém pelo seu próprio fiasco.

“Agora que nos preparávamos para afirmar ainda mais a nossa alternativa e conquistar a confiança dos portugueses, Costa colocou o PS nesta crise.”

Delira com alternativas que não existem e quer fazer esquecer que a crise é ele. Diz, quase lacrimejante, que desde pequenino “sonhava em fazer bem às pessoas”. Bem, até agora só conseguiu fazer mal ao seu partido, mas ideias inovadoras não lhe faltam:

Revolução digital com impressão em 3D

António José Seguro anuncia em Penamacor “um plano de reindustrialização do país, assente em três eixos: um eixo associado aos sectores ditos tradicionais, outro aos produtos endógenos – a nossa agricultura, as pescas e também o turismo – e um terceiro, associado a uma nova revolução industrial que está a acontecer no mundo, a revolução da era digital, ligada também à impressão, ãããã, às impressoras de três dimensões, e que, no fundo, conecte o país, ligue todas as capacidades produtivas que o nosso país tem, para que de facto esse motor impulsione o crescimento da economia do nosso país”.

Portugal e a questão ucraniana

O apoio de Portugal aos golpistas da Ucrânia e o alinhamento do governo português com os interesses expansionistas da NATO e da Alemanha no Leste europeu é algo que nunca foi objecto de verdadeiro debate em Portugal. Nesta questão, como noutras, os portugueses estão a ser tratados como gado descerebrado pelo governo e pela comunicação social. A oposição portuguesa, tirando os russófilos profissionais do PCP, não parece ter opinião própria sobre o que se tem passado na Ucrânia desde que o presidente democraticamente eleito foi derrubado na rua. Tudo se passa como se houvesse aqui matéria incontroversa, sem lugar a qualquer análise ou discussão. Como se não tivéssemos outro remédio senão alinhar com a estratégia germano-americana da NATO. Como se Portugal não fosse um país independente e não tivesse interesses próprios nem direito a ter uma política externa qualquer. Vamos alinhar nas sanções contra a Rússia como imbecis obedientes, ainda que isso prejudique o nosso comércio externo.

Este fim de semana, Barroso, o velho militante anti-soviético que ainda é presidente da comissão europeia, deu o mote e logo o aluno Passos Coelho começou, automaticamente, a debitar declarações: que a UE não pode “assobiar para o lado” na questão ucraniana, etc. O PS de Seguro parece estar à espera de que uma posição sobre o assunto lhe seja soprada pelos socialistas europeus. Nada se pode esperar da cabeça do líder da oposição.

A histeria anti-Putin grassa livremente, há décadas, no Ocidente. A questão ucraniana é só mais um capítulo dessa novela. Putin foi eleito com mais de 60% dos votos? Pois foi, mas é um “ditador” – diz-se. A sua política em relação à Ucrânia tem o apoio de mais de 80% da população russa? Pois tem, mas o regime russo “não é democrático” e Putin “governa com mão de ferro” – acrescenta-se. A sagrada integridade territorial da Ucrânia, de que a UE e os EUA agora tanto falam, afinal é o quê? Esse país, que nunca tinha existido autonomamente nem nunca tinha tido fronteiras certas, foi criado pelos bolcheviques sem perguntarem nada aos vários povos que lá viviam. A Crimeia foi oferecida à Ucrânia em 1954 por Khrushchev, completamente à revelia dos russos e dos outros que lá viviam. Quando da desagregação do regime soviético, todos os povos tiveram direito a fazer valer os seus direitos, excepto os russos da Ucrânia do Leste. A maioria dos eleitores da Ucrânia independente e democrática elegeu, mesmo assim, os pró-russos Leonid Kuchma e Viktor Yanukovitch para presidentes? Não interessa, eram “ditadores” e “corruptos”… porque eram aliados da Rússia e não da NATO. É esta palha bafienta que até agora nos têm dado de comer.

Seguro contra “assaltos ao poder”

Em entrevista ao Económico, Seguro rotula hoje de “assalto ao poder” o desafio de António Costa à liderança do PS. É assim que ele encara a expressão lógica do descontentamento e da legítima contestação que há muito grassa no seio do partido e entre o potencial eleitorado socialista – um “assalto ao poder”. Ou seja, qualquer coisa de ilegítimo ou violento, a pedir castigo exemplar.

Nunca uma direcção socialista, incluída a de Constâncio, foi tão contestada por sectores das bases, nem o partido esteve tão dividido e desmoralizado como está hoje sob o comando de Seguro. Até Jorge Sampaio, secretário-geral em 1989-1992, manteve o partido coeso, apesar de ter sido cilindrado nas eleições de 1991. E ainda conseguiu uma segunda vitória na câmara de Lisboa (1993) e duas vitórias em presidenciais (1996 e 2001).

O magro resultado socialista das europeias de 2014, que só para Seguro significou uma “grande vitória”, não foi o primeiro sinal de descontentamento oriundo das fileiras da esquerda democrática. Seguro provoca, de facto, a indiferença e a desafeição de muitos socialistas e simpatizantes do PS praticamente desde que em 2011 chegou à liderança. Apesar de não lhe faltar ambição pessoal, o que até lhe ficaria bem, de imediato se revelou um líder fraco, sem garra de lutador nem poder persuasivo, e um repetidor robótico de frases desgastadas. Em suma, o retrato ideal do manequim inútil que qualquer governo impopular gosta de ver a chefiar uma oposição. Sucessivas decisões erradas, indecisões incompreensíveis, silêncios, ausências e declarações idiotas fizeram dele o alvo de crescentes críticas vindas do seu quadrante político. A princípio eram sobretudo coisas murmuradas em conversas privadas ou desabafos largados na livre e democrática blogosfera. Após a “estrondosa derrota da direita” e a quase estagnação do PS nas eleições europeias, essas críticas e esse descontentamento tomaram naturalmente vulto, fazendo germinar em cada vez mais cabeças a ideia de uma alternativa à sua liderança. De facto, pareceu a muitos que o líder da oposição ameaçava tornar-se no Seguro de vida deste governo.

Após anos de contenção, começados a contar em 2011, António Costa veio enfim corporizar esse estado de espírito e essa alternativa desejada por muitos. É assim que se deve proceder num partido sintonizado com a opinião das suas bases e do seu eleitorado. Em democracia, quando há descontentamento, pode e deve agir-se colectivamente para que cessem as razões desse descontentamento. Quando um líder não satisfaz, pode tentar nomear-se outro. A democracia implica sempre a possibilidade de contestar e mudar o que está, desejavelmente para melhor. A eleição de uma direcção partidária não é um cheque em branco nem uma fatalidade que tenha que suportar-se a todo o custo durante o prazo formal de um mandato. Numa organização política democrática tem que haver sempre mecanismos estatutários que permitam contestar e mudar o que está.

É isto que o fraquíssimo, mas empertigado secretário-geral do PS finge ignorar. Ora Seguro, que já exigiu repetidamente a demissão do governo de Passos Coelho e a convocação de novas eleições, deveria sabê-lo muito bem. Ou só há “assaltos ao poder” quando são contra ele?

Quando se jogava por amor e vício

O futebol-negócio de hoje mete nojo. E não é só quando somos obrigados a assistir às indecorosas barganhas de clubes, empresários e jogadores em torno dos milhões dos passes e dos ordenados. É em geral. Safam-se as competições entre selecções, e nem sempre.

Mas o futebol romântico de outrora, quando se jogava “por vício” ou “amor à camisola”, também tinha as suas misérias e escravidões. Veja-se esta carta que António Faustino, craque do Sporting entre 1931 e 1937, escreveu, já velhote, ao jornal do clube em 1970. Ignoro se o jornal a publicou.

A Faustino 1970-1a

O Faustino a jogar, por volta de 1934

jogando 2

Uma badalhoquice

António Araújo, do blogue Malomil, é um rapaz culto, inteligente e tem ironia para dar e vender. Entre os seus inúmeros afazeres políticos, jurídico-profissionais, intelectuais e familiares, encontrou tempo para manter um blogue onde já publicou textos com valor. Mas o seu pezinho, afinal, revela tendência para a chinela do José Agostinho de Macedo, que há duzentos anos também não era nada burro nem falho de sarcasmo.

Vem isto a propósito de uma soez crítica que Araújo publicou há dias no seu blogue.  O alvo da sanha corcunda do Araújo, a fazer inveja ao tal José Agostinho, é um livro de Isabel Moreira, Apátrida, que eu não li. Também não conheço pessoalmente a Isabel, que escreve por estas paragens, apenas sei dela o que todos sabemos, via televisão e jornais, mais o Aspirina.

Não é necessário ler o livro da Isabel Moreira para se perceber que a “crítica” do Araújo é um exercício impassível de desonestidade intelectual e moral. Não vou aqui perder tempo a tentar prová-lo. No seu próprio blogue, alguns dos comentadores já lho explicaram, se ele precisasse.

Há, porém, um ponto no post do Araújo em que a badalhoqueira excede os limites da tolerância que se costuma ter com incontinentes, qualquer que seja a sua cor política. Diz a dada altura o Araújo, sobre a autora de Apátrida, que ela…

…vem confirmando uma postura política, mas sobretudo ética, de rejeição estridente do alinhamento à direita, em confronto furioso, mas nem sempre coerente, com o fascismo das consciências e dos afectos, outrora presente em instituições sinistras como a PIDE ou o campo de concentração do Chão Bom do Tarrafal (reaberto por portaria ministerial de 17 de Junho de 1961).

É vilíssima esta última alusão ao Tarrafal, com que o Araújo, fingindo-se liberal, pretende amesquinhar, de forma despropositada, tortuosa e cobarde, não o ministro em causa, que reverencialmente não nomeia, mas o desalinhamento à direita de Isabel Moreira – esse sim, o grande e órrível crime que enfurece o blogueiro. Que me conste, até a PIDE sabia distinguir, por vezes, entre pais e filhos. Só estalinistas é que nunca quiseram saber disso, nem o lobo da fábula do carneiro. Nem o Araújo, pelos vistos.

As gorduras da Cultura

O ministro da Cultura tem feito prodígios para combater as chamadas gorduras do Estado. Por exemplo, na Biblioteca Nacional de Portugal, que não é propriamente uma agremiação cultural de bairro, nunca se viu uma coisa assim: a primeira biblioteca portuguesa, que cobra oito euros a cada leitor para validar o seu cartão, deixou de atender pedidos entre as 13 e as 14 horas. Os pedidos acumulam-se nesse intervalo e depois de almoço começam a ser novamente satisfeitos, lentamente, porque não há pessoal suficiente. A direcção da casa não tem dinheiro para assegurar um serviço que SEMPRE prestou à hora do almoço.

Hoje a Biblioteca Nacional tem menos de metade do pessoal que tinha há vinte anos. O enclave de deficientes da mesma biblioteca, criado nos anos 80 com o meritório objectivo de criação de postos de trabalho útil para pessoas com capacidades diminuídas, está a ser actualmente utilizado como reserva de mão-de-obra para substituir funcionários não-deficientes que se reformam e cujo lugar não é preenchido. Os deficientes fazem o seu melhor e alguns até são tão competentes como os outros, mas tal situação parece uma completa deturpação da lei que criou os enclaves de deficientes.

A suspensão dos pedidos à hora do almoço é só um problema. Vários serviços prestados pela BN são afectados pela falta de funcionários. Lutando com cada vez maiores dificuldades para assegurar as suas funções mais elementares, a BN parece-me estar na situação daquele cavalo cujo dono decidiu dar-lhe todos os dias menos ração. A coisa a princípio ia muito bem, mas quando o cavalo estava já quase a habituar-se a não comer, morreu…

No tempo de Sócrates, a BN sofreu cruciais obras de ampliação e renovação que implicaram o (inevitável) fecho da sala de leitura por uns meses. Pois fizeram-se petições contra o fecho e a comunicação social foi invadida por gente histérica, intelectuais e aparentados, sobretudo aparentados, muitos dos quais não punham os pés na biblioteca, mas que acharam oportuno vociferar contra o governo. Quem fala agora em defesa da Biblioteca Nacional?

Eleições antecipadas?

A direita quer muito renovar o seu mandato de governo para poder continuar a fazer o exacto contrário do que prometeu aos eleitores em 2011. Tarefa difícil, dada a brutalidade com que os eleitores foram iludidos e castigados por ela. Por isso, tem vindo a equacionar-se insistentemente, em certos meios conspirativos, um cenário de eleições legislativas antecipadas para fins de 2014 ou princípios de 2015, que permitiria explorar em suposto benefício da direita a crise de liderança no PS. Com Cavaco na presidência, embora ele tenha ultimamente negado que quer eleições antecipadas, todas as golpadas e todos os ditos por não ditos são de esperar. O Conselho de Estado convocado para 3 de Julho poderá vir a examinar esse cenário, dado abundar por lá quem o apoie, como Cavaco bem sabe. Seguro, que decidiu há muito tempo reclamar eleições antecipadas, não deixaria de o apoiar também, o que lhe permitiria ainda desembaraçar-se de António Costa, alegando a inoportunidade do seu desafio à liderança do partido. Fora do Conselho de Estado, o PCP também alinharia, porque eleições antecipadas são o seu manjar favorito. Quase uma união nacional.

Começou a ante-pré-campanha eleitoral

O presidente do BCP, Nuno Amado, deu ontem o mote para a próxima campanha eleitoral. Explicou que, em resultado das eleições legislativas a realizar no segundo semestre de 2015, “poderá suceder a descontinuação do processo de implementação de políticas económicas com vista à restauração da sustentabilidade da dívida pública e ao necessário ajustamento orçamental que vigorou durante o período de vigência do Programa de Assistência Económica e Financeira a Portugal”. Mais explicou que, caso se verifiquem essas alterações de política económica, isso poderá “ter um impacto nas condições de acesso aos mercados de financiamento internacionais, quer para a República Portuguesa, quer para o BCP, o que poderá resultar num segundo resgate”.

Ou seja, o presidente do maior banco privado português diz que, se a direita perder as eleições, vem aí segundo resgate e o BCP vai deixar de poder financiar-se no mercado internacional. Este slogan eleitoral soprado a Passos Coelho é também um curioso aviso subliminar aos clientes, accionistas e parceiros do BCP para se porem a salvo antes que o banco estoure de vez, caso as sondagens continuem a indicar uma derrota da direita. E o aviso é feito quando o banco se prepara para fazer em Julho um aumento de capital de 2,25 mil milhões de euros. Grande banqueiro, este político…

Cotovelite aguda

Nos últimos dias João Soares chamou “completo disparate” à actuação de António Costa, acrescentando que o autarca de Lisboa se devia dedicar a “tapar os buracos das ruas.” Não contente com isso, veio ontem à noite à televisão declarar, “com toda a ternura”, que o artigo que o pai dele publicou no Público era “um disparate tão grande como aquilo que o António Costa está a fazer”.

Foi a primeira vez que eu vi alguém, político ou não político, em qualquer meio de comunicação social, com ternura ou sem ternura, acusar o seu próprio pai de dizer disparates. Mário Soares, além de seu pai, é um senhor que este ano faz noventa anos. Já nem falo do seu passado na política, onde anda há mais de setenta e onde ganhou a consideração e o respeito até de muitos não socialistas.

Ora quem é este Joãozinho e o que é que o autoriza a distribuir o epíteto de disparatado a estas duas figuras gradas dos socialistas, uma delas o seu próprio pai?

É o rapaz que subiu à presidência de Câmara de Lisboa em 1995 porque Jorge Sampaio cometeu o “completo disparate” de se candidatar a PR, em detrimento do seu dever de “tapar os buracos das ruas” de Lisboa. É o mesmo rapaz que depois ganhou as eleições de 1997 com os votos do PCP, mas que em 2001, sempre com os ditos votos, perdeu para Santana Lopes. É ainda o menino que nas directas de 2004 se candidatou à liderança do PS e teve 4% dos votos, quando José Sócrates, apoiado por António Costa, o esmagou (a ele e também ao Alegre) com 78%.

Parece que o Joãozinho tem raiva ao Costa. Será porque o actual presidente da Câmara de Lisboa ameaça triunfar sempre onde ele nunca conseguiu? Se é isso, é mesquinho e é triste. Espero que, ao menos, não tenha raiva ao seu pai.

Convoquem lá o congresso

Finalmente, Manuel Alegre falou qualquer coisa e falou bem. Disse aquilo que Mário Soares talvez não queira dizer, nem se ousaria exigir-lhe que dissesse, porque se respeita a sua idade e o seu passado. Simplesmente isto: António José Seguro deve convocar o congresso extraordinário, para “clarificar posições” dentro do PS. Mário Soares subescreveria. E até Assis, se não tivesse sido escolhido por Seguro para encabeçar a lista socialista nas eleições europeias. Tudo normal. Mas convoquem lá o congresso, porque ou é agora ou poderá ser tarde demais.

Só o MRPP é que perde eleições

O PS ganhou e o Seguro não se demite.
O PSD e o CDS estão eufóricos,  com o governo seguro pelo Seguro.
O PCP está cada vez mais perto da vitória final.
O partido terráqueo lá pôs o bastonário em Bruxelas.
O Bloco ainda não é desta que desaparece.
O Livre teve votos em Lisboa e o Tavares será deputado nas legislativas.
O partido animal abana a cauda a pensar nas legislativas.