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Os sofismas de VPV

“Sócrates decidiu transformar um processo puramente jurídico num processo público e político” – escreve hoje Vasco Pulido Valente no jornal do costume.

Três afirmações ardilosas e improvadas numa única frase. O resto da crónica afina pelo mesmo diapasão.

Começa VPV por proclamar sem discussão, apelando à fé dos seus leitores, que o processo de Sócrates é puramente jurídico – quando é precisamente sobre isso que muita gente, Sócrates incluído, legitimamente se pode questionar. VPV parte, portanto, da conclusão para as premissas.

Declara em seguida, mentindo sem vergonha, que foi Sócrates quem tornou público o seu processo, quando todo o país sabe e viu que foram fugas criminosas de informação para a comunicação social, admitidas já pela PGR, que trouxeram esse processo para a praça pública. O facto de Sócrates contestar acusações concretas que circulam livremente no espaço público – em virtude da prévia violação do segredo de justiça – é interpretado por este e outros sofistas a soldo da direita como… uma violação do segredo de justiça!

Sustenta, por fim, VPV que foi Sócrates quem politizou o seu processo, quando até um débil mental entenderia, se estivesse para aí virado, que um processo contra um político que sectores da direita e da extrema-esquerda vingativas há muito defendem que deveria estar preso, nunca poderia deixar de ser um processo judicial suspeito de politização. As sistemáticas violações do segredo de justiça em relação a Sócrates , desde sempre, são um fortíssimo indício disso mesmo. Depois da sua detenção, a politização do processo passou a facto do foro público: aí estão, para quem os quiser interpretar, os aleluias de felicidade incontinente tweetados pela militância laranja quando da prisão de Sócrates, a manifestação de regozijo de nazis no Campus da Justiça, o direito à “presunção da culpabilidade” de Sócrates sustentado, sem vergonha na cara, por um seu velho e confesso inimigo político. Poderia alongar muito a lista. Não vale a pena.

O que o ex-intelectual VPV diz ou deixa de dizer há muito que perdeu qualquer relevância. É um facto. Mas as teses que ele defende não são dele. Visivelmente esclerosado, ele já só vai conseguindo repetir o que Rebelo de Sousa, Marques Mendes e outros comentadores da mesma laia e grau de isenção têm sustentado. Trata-se de acusações sofísticas, que invertem deliberadamente a realidade e se destinam a criar no público o sentimento de que Sócrates não pode nem deve defender-se. Querem calá-lo, para melhor o poderem condenar. Querem, de facto, julgar Sócrates na praça pública, com o argumento pérfido, hipócrita e canalha de que foi ele quem trouxe indevidamente o seu caso para a praça pública.

Sócrates e o catedrático

Enquanto não conseguem calá-lo de vez, vão-nos chegando da prisão os desabafos de José Sócrates sobre aquilo que descreve como um complô de cobardia, cinismo cúmplice e indiferença, de que está a ser alvo por parte de “políticos, alguns jornalistas, professores de Direito” ‒ sem esquecer as “pessoas decentes” que olham para o lado, porque confiam cegamente no funcionamento da Justiça e põem as mãos no fogo pelos magníficos magistrados que aí pululam.

Quando Sócrates, no texto que o Diário de Notícias hoje publica, fala do cinismo de certos professores de Direito, ocorre logo aquela frase cínica, de extremo mau gosto, do catedrático Marcelo Rebelo de Sousa, incomodado com o facto de o preso protestar publicamente contra a sua prisão: “Sócrates só morto é que se cala”. A refinada filha-da-putice dessa boca ambígua e assassina, impensável num catedrático de Direito, é bem o retrato moral de quem a proferiu – essa figura híbrida de jurisconsulto, professor, comentador, criador de factos políticos, intriguista e putativo candidato à presidência da República, esse ilusionista que dominicalmente “educa” um milhão de portugueses que o escutam ou veneram.

O contexto em que tal frase foi dita não deixa dúvidas. Segundo Rebelo de Sousa, o abusador Sócrates “está a usar a praça pública para se defender”, quando deveria permanecer muito caladinho. E o catedrático carregou as tintas, retratando Sócrates como um anti-social, um egoísta torpe: “Só pensa nele, sempre pensou só nele”. Daí o não ter ficado em resignado silêncio, como devia, quando o enfiaram no xilindró. Porque, presume-se, as pessoas de bem, quando são presas, ficam muito caladinhas, à espera que as lixem ou as julguem na praça pública ‒ como Marcelo Rebelo de Sousa também fez a Sócrates.

Acredito mais na inocência de Sócrates do que na idoneidade moral e na isenção política dos magistrados e polícias que o investigaram e prenderam. Alguém em Portugal terá hoje dúvidas de que polícias e magistrados pouco idóneos e politicamente motivados podem querer tramar alguém como o ex-primeiro-ministro? Eu não tenho nenhumas dúvidas disso, recordado que estou das calúnias que foram lançadas sobre Sócrates (e outros) em sucessivas histórias anteriores, através de fugas insidiosas de informação e outros passes clandestinos  ‒ uma longa campanha negra que preparou e “legitimou” a prisão de Sócrates. Por isso, e porque é um direito que a todos assiste, acho natural e legítimo que Sócrates se defenda, proteste, se indigne e se debata na praça pública, que é o lugar onde desde sempre tem sido atacado, e dos modos mais soezes. A escumalha fascizante que há muito o quer amordaçar ‒ e que há muito mais o quer ver preso e condenado ‒ vai ter que pacientar. Sócrates tem o direito de falar e espero que continue a fazê-lo, porque isso provará que ainda vivemos em liberdade.

Os alvitristas

1. Marcelo dá ideias.
“Sócrates só morto é que se cala” ‒ opinou a hiena comentadora da TVI.
Fica a sugestão.

2. Marques Mendes quer mais presos.
“Um primeiro-ministro dá orientações, mas não toma decisões de adjudicar obras, empreitadas, parcerias ou de fazer contratos. Isso ou são ministros e secretários de Estado ou dirigentes da máquina do Estado.”
Não era de prender o anterior governo todo?

3. Duarte Pio propõe revolução.
“A Justiça finalmente está a funcionar” – piou o pretendente. Mas ainda “precisamos de uma revolução cultural”.
Cabeças a rolar, queria ele dizer.

Confiança total

“Confio totalmente na justiça” – disse hoje à noite o Coelho, que declarou há semanas, perante a passividade total da justiça fiscal, que os rendimentos que auferiu numa ONG marada durante cinco anos eram despesas de representação e, como tais, não sujeitas a IRS.

 

Um sindicato incoerente e sem vergonha

O presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público declarou “vergonhosas” as declarações de Mário Soares à saída do estabelecimento prisional de Évora onde o ex-primeiro ministro José Sócrates se encontra detido. O referido dirigente sindical, que presumo tenha alguma formação jurídica, não disse se Mário Soares ou qualquer cidadão português tem ou não tem o direito de emitir a opinião que lhe aprouver sobre actos de magistrados portugueses.

A propósito de opiniões sobre os magistrados portugueses, sugiro a esse dirigente sindical que releia uma entrevista que ‒ no tempo do governo socialista, claro ‒ um conhecido sociólogo e homem de direita deu ao Expresso (27 de Fevereiro de 2010), em que dizia literalmente isto: “Não é possível viver com um sistema em que algumas pessoas na Procuradoria ou na magistratura judicial condicionam a vida judicial de uma maneira insidiosa, sub-reptícia, clandestina e eu acho que paga.” O dito sociólogo, questionado ainda sobre se achava que havia pessoas no MP ou na magistratura judicial que eram pagas por fazer fugas de informação, respondeu: “Eu suspeito que são pagas.”

Pois não consta que esse sociólogo tenha sido incomodado, embora nunca tivesse apresentado provas do que afirmou. Nem sequer me consta que o próprio Sindicato dos Magistrados do Ministério Público tenha jamais vindo a público classificar essas palavras arrasadoras como “vergonhosas”. Não fez coisa nenhuma, calou-se muito caladinho, como se pode constatar fazendo uma busca no site do SMMP.

Já agora, se este presidente do sindicato dos magistrados acha assim tão “vergonhoso” que Mário Soares opine sobre os pés de barro da magistratura portuguesa, sugiro-lhe também que, em nome sua organização corporativa, processe o homem. Ele até ia gostar de mais esse combate pela liberdade.

Responsabilidades por um canudo

A Joana Marques Vidal, que se gaba de ter um canudo em “Jornalismo Judiciário” pela Lusófona, não impediu o enésimo crime público de violação do segredo de justiça. Desta feita foi a recolha de imagens no aeroporto, pelos media avisados do costume, da detenção de José Sócrates e a imediata divulgação a esmo de supostos detalhes do processo, à mistura com boatos e afirmações difamatórias (veja-se o que a Infelícia do costume insinua no pasquim Sol).

A Joana, que não quis ou não soube impedir tal crime, diz agora que vai abrir um inquérito, o enésimo, para apurar responsabilidades. Todos sabemos perfeitamente, mesmo sem uma pós-graduação pela Lusófona, como vai acabar tal inquérito. A Joana também o sabe. É só mais uma declaração hipócrita, um ritual repetitivo de fuga às responsabilidades próprias.

O homem a abater

José Sócrates é o homem a abater pela direita e pela extrema-esquerda portuguesas desde que se candidatou às legislativas de 2005, isto é, ainda antes de conquistar a primeira maioria absoluta de um partido da esquerda, vitória que só agravou a sanha. De 2005 a 2008 já as ratazanas todas se atiravam ao homem, na tentativa de o emporcalhar ou, até – ainda não havia crise – de o apontar como a mais séria ameaça à liberdade em Portugal (sic).

Seguiu-se, a partir de 2009, a maior campanha político-mediática de ataque ad hominem de que há memória no país. Está ainda na memória de todos. Sócrates foi por fim afastado do poder em 2011 pela coligação negativa da direita e da extrema-esquerda, mas a sanha persecutória não diminuiu um milímetro. Tinha-se investido muito na campanha de ódio, mentiras e insinuações e os resultados pareciam encorajadores. A direita voltara ao poder, graças a Deus! Havia que continuar a explorar o filão até ao osso – até porque não havia mais nada para dizer ao país. O espantalho Sócrates, laboriosamente fabricado, tinha que ser agitado sem cessar, para a direita se aguentar até às próximas eleições e poder ganhá-las outra vez – e para a extrema-esquerda continuar a alimentar o sonho necrófilo de se apoderar dos despojos do Partido Socialista.

Mais recentemente, Sócrates apareceu na RTP a comentar a política portuguesa – e a ter que se defender permanentemente dos remoques dos entrevistadores de serviço, pois não se chama Rebelo de Sousa nem Marques Mendes. Como já não existe polícia política (só há polícias políticos) nem a abençoada Direcção dos Serviços de Censura, fizeram-se petições públicas para tapar a boca ao homem. Muitos milhares de censores frustrados subscreveram-nas, mas sem resultado. Era preciso mudar de táctica. O ideal era mesmo meter Sócrates na prisão. Colunistas histéricos e histéricas começaram a falar de um Sócrates “delinquente” que era vital engaiolar. Meses depois, uma revista malcheirosa publicou uma reportagem falsa, ilustrada com um retrato de Sócrates de página inteira, atravessado por uma inscrição em letras garrafais: APANHADO. Foi um orgasmo precoce dos neo-fascistas, que tomaram os seus desejos por realidades. Teve que vir a público a PGR – de onde só pode ter partido a fuga de desinformação – para desmentir formalmente as tretas. Entretanto continuavam activamente, pela calada, os preparativos para o ataque final, que se deu ontem. As tretas são parecidas, só que agora há que prová-las, o que é uma grande chatice. Mas mesmo que nada se prove, as repercussões mediáticas disto tudo vão render até ao abrir das urnas em 2015.

Nem Ricardo Salgado foi tratado pela organização judicial como Sócrates está a ser. A detenção no aeroporto para ser interrogado no dia seguinte, com estadia obrigatória na prisão, obedeceu a uma intenção clara de achincalhamento e aviltação do ex-dirigente socialista, a que não faltou a reportagem vídeo agendada com os ratos do costume. Como é óbvio, a notícia tinha que ser “Sócrates detido” e não “Sócrates interrogado”. Porque interrogados há muitos, mas um detido já é meio culpado.

Mais uma anedota

Maria Luís Albuquerque disse hoje na comissão parlamentar de inquérito que não imagina como é que o Marques Mendes teve conhecimento da solução para o BES e, posteriormente, a foi explicar na SIC (2 de Agosto), antes de o próprio governo a anunciar ao público (3 de Agosto).

Como é sabido, a CMVM suspeita fortemente que houve quem, com acesso a informação privilegiada, andou criminosamente a negociar na bolsa e a safar milhões (1 de Agosto), antes que a solução para o BES fosse conhecida e oficialmente anunciada pelo governo.

A ministra das Finanças explicou que sabiam com antecedência da resolução tomada em relação ao BES as seguintes (poucas) entidades:

– Carlos Costa e o Banco de Portugal (assim em geral);
– o primeiro-ministro;
– o vice-primeiro-ministro;
– ela, a ministra;
– algumas pessoas que trabalharam com ela, a ministra;
– a secretária de Estado do Tesouro;
– a Direcção-Geral da Concorrência (sic);
– o Banco Central Europeu e, em particular, os governadores do BCE que estiveram numa videoconferência a 1 de Agosto;
– “mais umas pessoas que ao longo desse fim de semana que estiveram a trabalhar no processo”;

A ministra das Finanças concluiu a sua enumeração com bastante graça: “Não tenho conhecimento de que mais gente soubesse. Admito que houvesse mais gente”.

Como é que o Marques Mendes soube? É mesmo um mistério, não é?

——

ÚLTIMA HORA:   Melhor ainda: segundo o Público, a ministra das Finanças reconheceu ainda, no final da sessão de seis horas de perguntas, que ANTES de a solução para o BES lhe ter sido comunicada pelo Banco de Portugal, já ela, a  ministra, e o governo todo (o conselho de ministros) sabiam o que estava para vir.

Por um punhado de euros

Por uns míseros 1400 milhões de euros – muito menos do que vai custar ao Estado português o estouro do BES – a Agência Espacial Europeia (ESA) fez aterrar uma sonda no cometa 67/P, um enorme pedaço de gelo sujo que há uma semana voava a 500 milhões de quilómetros da Terra. A missão Rosetta, iniciada em 1996, custou na sua globalidade o equivalente a quatro aviões Airbus 380, menos do que a fuga ao IVA em Portugal durante um ano. A coisa foi paga pelos cidadãos dos países europeus membros da ESA, Portugal incluído, à razão de 20 cêntimos anuais por cabeça durante os dezoito anos que o programa durou.

Quando o módulo Philae aterrou no calhau e começou a enviar postais ilustrados do sítio, logo apareceram os habituais velhos do Restelo, sobretudo uns forretas ingleses, a dizer mal da Europa (inveja dos alemães) e a declarar que a viagem até ao cometa era uma ruinosa inutilidade (lá se vai o futuro dos nossos filhos). Responderam-lhes dizendo que a missão aumentara enormemente os conhecimentos científicos e práticos da ESA, fazendo aparecer a Europa no mundo da investigação espacial ao lado dos EUA e da Rússia. E que ainda criara centenas de postos de trabalho altamente qualificados, com efeitos positivos no crescimento económico. E que ninguém podia prever todos os efeitos úteis de uma investigação pioneira como esta. Uma cientista citou o exemplo da World Wide Web, que nasceu de um sistema engendrado por físicos de partículas do CERN para comunicarem entre si mais eficazmente. Tudo bagatelas para os forretas dos bifes, que contam entre os seus fãs em Portugal o Coelho, o Merdina Carreira e o Campos e Cunha.

A propósito, não me importava nada de ver esses três, mais o Gaspar, a mandarem uma selfie do cometa 67/P. Antes de as baterias se esgotarem…

Danado prá brincadeira

“Eu preferia a solução do Partido Comunista, que era a nacionalização do banco [BES], essa tinha sido melhor para nós”, declarou ontem Fernando Ulrich na Quadratura do Círculo.

De facto, se o BES tivesse sido nacionalizado, o Estado é que ia lá meter os sete ou oito mil milhões. Assim é uma grande chatice: o BPI teve que arriscar 700 milhões no Novo Banco e o negócio pode dar prejuízo, que é o mais certo. (Se der prejuízo, o Ulrich diz que vai processar o Estado e o Banco de Portugal, pois então! Trapézio, para ele, só com rede.)

Claro que o PCP não pensa que a sua solução seja a melhor para os banqueiros. O Ulrich, que é danado para o pagode, estava a brincar, como sempre.

A solução do PCP tanto para o BES como para o sector financeiro, incluindo o BPI, é o célebre “três em um”: não pagar a quem emprestou dinheiro a Portugal, saída do Euro e controlo público dos bancos (eufemismo para nacionalização do sector financeiro e estatização da economia, como em 1975).

Assim, os banqueiros, incluindo o Ulrich, tinham que fazer as malas e ceder os seus lugares ao Octávio Teixeira, ao Eugénio Rosa e a outros eu-génios da finança soviética. Se se portasse bem, o Ulrich poderia ir fazer de palhaço no Circo do Estado, onde a progressão na carreira seria automática. Não lhe confiariam a bilheteira, mas, dada a sua experiência, sempre podia dar uma mãozinha no trapézio. Com o Coelho a fazer de rede.

É tudo assédio?

Haverá algo de comum entre os piropos que se podem ouvir na rua como “Lambia-te toda” ‒ que Fernanda Câncio hoje relata no DN, da sua própria experiência de criança de 12 anos – e “Have a nice day”, que é um dos cem piropos que uma americana adulta ouviu passeando pelas ruas de Nova Iorque durante dez horas, tudo registado em vídeo?

Para algumas pessoas, há, e muito.

Para a revista que expõe o vídeo, são tudo formas de “assédio verbal”. Dizer “God bless you”, “Smile” ou mesmo “Beautiful girl” seria algo de equivalente, na sua essência, a seguir ao lado de uma mulher durante dez minutos, dizendo alarvices ou fazendo propostas, como acontece num caso do vídeo. É tudo assédio. É tudo piropo. É tudo igual.

O vídeo em si tem bastante interesse e fixa a nossa atenção. As conclusões são tendenciosas.

A mulher vai pela rua silenciosamente, nem a cabeça vira. Não reage, nunca responde a nenhum dito nem a nenhuma provocação. Seria interessante fazer-se um vídeo em que a mulher interagisse com os piropeiros, para rejeitar os elogios ou as propostas. Tiraríamos melhor as nossas conclusões.

Fernanda Câncio, que diz que o piropo de rua (qualquer piropo, presumo) é uma “forma de agressão” e de “dominação das mulheres”, lamenta contudo que as mães aconselhem mal as raparigas quando lhes dizem “Se se meterem contigo nunca respondas” ou “Mulheres honestas não têm ouvidos”. Porque Fernanda Câncio acha que as mulheres não se devem calar nem ter medo, devem sim reagir ao piropo (se não gostarem dele, presume-se). Muito bem. Ora o que vemos no vídeo é uma mulher bombardeada por ditos e dichotes e que sistematicamente se cala, que não reage. E se ela tivesse logo dito “Fuck off” àquele palerma que seguiu ao lado dela durante dez minutos?

É preciso ter muita lata…

A ministra Cruz disse que só se fala do Citius por causa das reformas da Justiça que ela já fez  e das que vai ainda fazer, porque com isso tocou em interesses e “criou condições para o fim da impunidade”. Por essa razão, disse ela, é que está a “apanhar” – e não por ter emperrado os tribunais todos do país, não senhor!

De facto, não sei se já repararam, a ministra está quase, quase a acabar com a impunidade em Portugal.  Graças sobretudo às tais reformas que ainda não fez, mas que há três anos prometeu fazer. Como aquela famosa “iniciativa legislativa” que ia acabar com os recursos em cascata, as manobras dilatórias de advogados e arguidos e as escandalosas prescrições de processos – uma reforma prometida pela ministra em 2011, para acabar de vez com a tal “impunidade”.

Cadê essa reforma, Madame Cruz? Cadê ela?

O que se passou foi que logo em 2011 apareceram uns tantos advogados, penalistas e outra gente do seu partido (pessoas que não representam interesses nenhuns, não é, Madame?) a atacar a prometida reforma, sustentando que não era preciso mudar a legislação, que a lei já continha instrumentos para combater a litigância de má-fé, etc., etc. Esses argumentos esperavam que a estupidez natural do público o impedisse de perguntar: – Se as leis que há já são boas e suficientes, porque continuam a existir manobras dilatórias, litigância de má-fé e prescrições escandalosas em cascata?

O que é certo é que a ministra nunca mais falou da tal iniciativa legislativa. E agora tem a lata de vir dizer que as suas reformas tocaram em interesses!

Três em um

O projecto de revolução, perdão, o projecto de resolução que o PCP apresentou há dias no parlamento, a que se chamou “três em um” e que, como previsto, foi chumbado por quatro quintos dos deputados, advogava, sob a forma de eufemismos, três grupos de medidas.

Primeiro, a “renegociação da dívida”, que propunha basicamente o não pagamento de “pelo menos” metade do montante da dívida do Estado e a descida dos juros da dívida restante em “pelo menos” 75%, alvitrando ainda que fosse suspenso todo o pagamento da dívida enquanto a sua “renegociação” não fosse concluída (tal como nas greves, enquanto não há acordo).

Segundo, sob o lema da “libertação do país da moeda única” e da recuperação da “soberania monetária”, propunham os comunistas que se iniciassem os preparativos para a saída do euro e, logicamente, o saudoso regresso ao escudo, crismado “nova moeda”, com medidas complementares como o controlo do comércio externo, o controlo administrativo dos preços para debelar a inflação, o “combate à fuga de capitais” e uma interessante conversão de toda a dívida nacional, incluindo a privada, para a nova moeda nacional (esperando talvez que, desvalorizando esta, diminuiria a dívida em euros ou dólares…).

Em terceiro lugar, os comunistas propunham a “recuperação do controlo público da banca comercial e de outras instituições financeiras”, ou seja, um remake perfeito do 11 de Março de 1975 para todo o sector financeiro, começando logo pela intervenção “de emergência” do Estado nos bancos em dificuldades (isto é, em todos).

O Bloco de Esquerda apoiou a primeira e a terceira medidas, abstendo-se na segunda, isto é, o regresso ao escudo, por alguma razão misteriosa.

O projecto de resolução comunista NÃO propunha nem a ressurreição de Vasco Gonçalves, nem a recriação do Conselho da Revolução, nem a reanimação da Aliança Povo-MFA, nem a nacionalização da comunicação social.

Um projecto moderado, portanto.

Ig Nobel da Economia para Cavaco

Para este ano já vai tarde, mas o ainda pesidente de todos os putugueses merecia o Ig Nobel da Economia de 2014.

Cavaco desmentiu hoje todos aqueles que andam a dizer (como o seu primeiro ministro e a sua ministra das Finanças) que eventuais perdas da CGD na venda do Novo Banco se reflectiriam indirectamente nos contribuintes, dado que a CGD é propriedade do Estado. “Totalmente errado” – disse o economista de Boliqueime, que  é mais coelhista que o Coelho. Para Cavaco, a CGD, apesar de detida pelo accionista único Estado, está metida no mundo mercantil, daí que as suas perdas pela participação no fundo de resolução do BES não se repercutam nos contribuintes, mas apenas nos lucros ou prejuízos da CGD resultantes da sua acção “mercantil”.

Genial! Mas a CGD não é do Estado, ó estúpido?

Parece, de facto, que para este avantesma a CGD já é privada…

Cá se fazem…

A ministra que pôs a Justiça em estado de Citius contratou há uma semana Bruno Sá, o técnico que ela tinha despedido numa “reestruturação” manhosa, para salvar a monumental trapalhada informática em que os tribunais estão mergulhados há mais de um mês.

Bruno Sá foi nomeado em 2009 pelo governo socialista para presidir ao Instituto das Tecnologias de Informação na Justiça. Antes tinha sido subdirector-geral da Administração da Justiça entre 2005 e 2009. Com a refodação coelhina, veio a senhora Cruz e criou o Instituto de Gestão Financeira e Equipamentos de Justiça, suprimindo o atrás mencionado Instituto das Tecnologias de Informação na Justiça. Ou seja, pôs a gestão financeira a cavalo na informática (têm tudo a ver, não têm?) e “aproveitou” para rifar o Sá, suspeito de socratismo e de ter cometido erros em 2005-2009. Agora, a senhora teve que se humilhar e ir buscar o técnico despedido, que está a pôr aquilo em ordem, trabalhando de dia e de noite, segundo o DN de hoje. Dentro de alguns dias a maioria dos processos estará já identificada, informa o jornal.

A senhora Cruz decerto não deixará de agradecer ao técnico, que está a resgatar a porcaria a que ela superintendeu, tentando responsabilizá-lo pelo desaparecimento, em Agosto de 2014, de três milhões e meio de processos dos computadores dos tribunais. Ainda não o fez explicitamente, mas no parlamento já tentou uma aproximaçaozinha. Conhecendo os tiques e os elevados padrões morais da cáfila que actualmente nos governa, não me admirava nada que a Cruz tentasse crucificar o técnico que a safou. Entretanto, vai ter que lhe pagar a dobrar aquilo que “poupou” na reestruturação manhosa.

Cá se fazem, cá se pagam. Bem feita!

Vai chover lama até 2015

Muitos sinais indiciam já que a campanha negra contra Sócrates, que serviu à direita para saltar sobre o poder, está a começar a ser direccionada, e em força, contra António Costa. Vamos ver de tudo, como no caso de Sócrates. Em particular, todas as decisões do executivo camarário de Lisboa vão ser passadas a pente fino  ‒ não como até agora, como normal e necessário escrutínio público da acção de qualquer órgão de poder em democracia, mas sim como campanha destinada a enlamear e desqualificar moralmente o candidato a primeiro-ministro da oposição.

A ampliação do parque de estacionamento do Hospital da Luz ‒ uma obra urgentíssima, dado o trânsito caótico e as filas intermináveis que há anos se formam todos os dias naquela zona ‒ foi agora alvo de acusações por parte do anterior director-geral do Ordenamento do Território, Paulo Correia, que tinha sido nomeado para esse cargo em 2012 por Assunção Cristas. O pretexto do ataque foi o ter-se ampliado o dito parque antes da aprovação do novo Plano de Pormenor daquela zona, que viabiliza outras obras do Hospital da Luz (ampliação das instalações hospitalares), obras que ainda não começaram e que nada têm que ver com a ampliação do parque do hospital, feita ao abrigo do Plano de Pormenor que estava em vigor. Para apimentar a acusação, diz o cabeçalho da notícia do Público que a ampliação do parque foi feita “a pedido do grupo Espírito Santo”. Obviamente, o licenciamento da ampliação do parque foi pedido em 2009 pela entidade proprietária do hospital, a Espírito Santo – Unidades de Saúde, nem outra coisa seria de esperar. Mas dizer que o pedido foi feito pelo “grupo Espírito Santo” soa agora muito melhor. Também já pretenderam conotar Sócrates com o grupo Espírito Santo.  Agora é a vez de António Costa.

Qualquer lama serve, desde que chova todos os dias sobre Costa. Até 2015 é esta a previsão meteorológica para Portugal.

Balancete

Quando em Maio deste ano António Costa, incarnando a crescente insatisfação que grassava entre os socialistas, desafiou a liderança de Seguro, este acusou-o de estar a abrir um “gravíssimo precedente” no partido. Na mesma altura, Seguro queixou-se de ter havido no seio do partido, durante os três anos da sua liderança, “um movimento oculto e invisível” contra ele. Ou seja, a contenção demonstrada durante esses anos pelos seus críticos internos era rotulada de conspiração surda e até “hipócrita”, enquanto o desafio franco e directo à sua liderança era tido como uma traição e como um acto contrário à história do partido. Seguro só tinha, pelos vistos, uma ideia: amordaçar toda a crítica à sua liderança, em nome de uma unidade que ele próprio ia destruindo.

Sem se preocupar um segundo com o novo “precedente” que ele próprio ia criar, Seguro decidiu então que, em lugar de convocar um congresso extraordinário, de acordo com os estatutos do partido, iria antes fazer uma revisão dos ditos, de modo a poderem realizar-se primárias para a escolha do “candidato do PS a primeiro-ministro”. E as eleições directas do secretário-geral ficavam onde, no novo sistema? Nunca disse. Até hoje, também ninguém me conseguiu explicar porque é que Seguro introduziu as primárias. Para caçar o apoio da maioria silenciosa, os simpatizantes, dado que o partido organizado lhe fugia? Para segurar pela base a sua contestada liderança? Se foi para isso, podemos hoje concluir que o feitiço se virou contra o feiticeiro. Seguro criou, involuntariamente, o instrumento ideal do seu urgente despedimento.

Seguro insistia também , contra toda a evidência, que tinha obtido uma significativa vitória nas europeias, lamentando apenas não ter conseguido capitalizar o “descontentamento contra o sistema político”. A culpa, portanto, não seria da sua liderança, nem da fraquíssima oposição que desde 2011 chefiara, mas sim do “sistema político”, que haveria que reformar. E como se faria isso? Nomeadamente, reduzindo o número de deputados 230 para 180 – uma “reforma” cujo verdadeira razão e oportunidade ninguém ainda descortinou, muito menos no preciso contexto em que foi anunciada, senão como uma cartada populista desesperada e um insulto aos seus pares do hemiciclo. Parece óbvio que uma tal proposta, a fazer sentido (e eu creio que poderá justificar-se), teria que ser objecto de cuidada preparação e discussão, em conjunto com, pelo menos, um outro partido. A opção por transformá-la num slogan solitário de propósitos populistas inutilizou-a por mais uns anos.