Sócrates e o catedrático

Enquanto não conseguem calá-lo de vez, vão-nos chegando da prisão os desabafos de José Sócrates sobre aquilo que descreve como um complô de cobardia, cinismo cúmplice e indiferença, de que está a ser alvo por parte de “políticos, alguns jornalistas, professores de Direito” ‒ sem esquecer as “pessoas decentes” que olham para o lado, porque confiam cegamente no funcionamento da Justiça e põem as mãos no fogo pelos magníficos magistrados que aí pululam.

Quando Sócrates, no texto que o Diário de Notícias hoje publica, fala do cinismo de certos professores de Direito, ocorre logo aquela frase cínica, de extremo mau gosto, do catedrático Marcelo Rebelo de Sousa, incomodado com o facto de o preso protestar publicamente contra a sua prisão: “Sócrates só morto é que se cala”. A refinada filha-da-putice dessa boca ambígua e assassina, impensável num catedrático de Direito, é bem o retrato moral de quem a proferiu – essa figura híbrida de jurisconsulto, professor, comentador, criador de factos políticos, intriguista e putativo candidato à presidência da República, esse ilusionista que dominicalmente “educa” um milhão de portugueses que o escutam ou veneram.

O contexto em que tal frase foi dita não deixa dúvidas. Segundo Rebelo de Sousa, o abusador Sócrates “está a usar a praça pública para se defender”, quando deveria permanecer muito caladinho. E o catedrático carregou as tintas, retratando Sócrates como um anti-social, um egoísta torpe: “Só pensa nele, sempre pensou só nele”. Daí o não ter ficado em resignado silêncio, como devia, quando o enfiaram no xilindró. Porque, presume-se, as pessoas de bem, quando são presas, ficam muito caladinhas, à espera que as lixem ou as julguem na praça pública ‒ como Marcelo Rebelo de Sousa também fez a Sócrates.

Acredito mais na inocência de Sócrates do que na idoneidade moral e na isenção política dos magistrados e polícias que o investigaram e prenderam. Alguém em Portugal terá hoje dúvidas de que polícias e magistrados pouco idóneos e politicamente motivados podem querer tramar alguém como o ex-primeiro-ministro? Eu não tenho nenhumas dúvidas disso, recordado que estou das calúnias que foram lançadas sobre Sócrates (e outros) em sucessivas histórias anteriores, através de fugas insidiosas de informação e outros passes clandestinos  ‒ uma longa campanha negra que preparou e “legitimou” a prisão de Sócrates. Por isso, e porque é um direito que a todos assiste, acho natural e legítimo que Sócrates se defenda, proteste, se indigne e se debata na praça pública, que é o lugar onde desde sempre tem sido atacado, e dos modos mais soezes. A escumalha fascizante que há muito o quer amordaçar ‒ e que há muito mais o quer ver preso e condenado ‒ vai ter que pacientar. Sócrates tem o direito de falar e espero que continue a fazê-lo, porque isso provará que ainda vivemos em liberdade.

20 thoughts on “Sócrates e o catedrático”

  1. que não se cale mesmo e que os factos, a verdade, também não. é disso que estou à espera, pois continuo a não poder afirmar que não pode ser culpado. vamos ver.

  2. Não acredito na inocência de Sócras. E não acho bem uma pessoa em prisão preventiva fazer declarações á imprensa. Só mesmo neste páís 3º mundista é que isso ocontece.
    Ele não vê que assim está a alimentar ainda mais o “reality show”. Depois não se queixe. :(
    VW

  3. Ó volkswagen, fácil, na próxima vez que escrever, basta que a imprensa não publique.

    Ah espera não me digas que és como o professor martelo…

  4. É com grande desencanto que sou obrigado a concordar consigo, caro Júlio: “Acredito mais na inocência de Sócrates do que na idoneidade moral e na isenção política dos magistrados e polícias que o investigaram e prenderam”.

    Que Deus deles nos livre!

  5. Este é o caso em que o mensageiro denuncia o conteúdo da mensagem. Se a acusação tivesse chegado à praça por meios legítimos e desinteressados, seria razoável colocar dúvidas à seriedade de José Sócrates, mesmo perante uma história tão inverosímil. Agora, com este circo montado pelos mesmos Felícias, Dâmasos, Saraivas e Cerejos de sempre fica muito difícil não aceitar estarmos perante uma monstruosidade abominável.

  6. Júlio: Os intocáveis justiceiros estão ressabiados com Sócrates por este lhes ter cortado “regalias”, logo em 2005, após o “corte” nas farmácias. Os policiais também não esquecem: foram-lhes cortados os “passes” nos transportes públicos, que, para eles, eram à borla. Os supremos justiceiros, esses, ainda mantêm essa regalia. Vão de Lisboa a Braga, no Alfa, à borla. Um privilégio que mais ninguém tem.
    Todos estes privilegiados, ainda não esqueceram a afronta. Daí que procedam com raiva, vingança e ódio.

  7. ” … Sócrates tem o direito de falar e que continue a fazê-lo, porque isso provará que ainda vivemos em liberdade”

    Mas, e se o calarem? Continuaremos a viver em liberdade?
    É que, conforme o andar da carruagem, jão nada me espantará.

  8. O julgamento continua, baseado em investigações
    jornalísticas, fugas de informação e justificações um
    pouco tardias como a da viagem marcada para o dia
    24 de novembro, no entretanto, já se fala em corrupção
    activa e passiva depois de ter saído do Governo!?!
    O diretor do “DN” não apreciou a Carta do detido
    pois, não repondeu às perguntas enviadas … se calhar
    até respondeu, escrevendo a vermelho!
    Ver o “grande” jornalescritor das orelhas grandes na
    abertura do Telejornal encher a bocarra com o recluso
    que escreveu mais uma mensagem … só vem por em
    evidência o que disse Fernado Gomes à saída da visita!!!

  9. Bom texto, Julio. Na mouche. O martelo sempre foi juiz em causa propria, Intriguista mor do reino. Tagarela banalidades ao serão dos Domingos, como o padrinho, para os deserdados do fascismo se babarem! Mais decencia? Isso n consta nos cursos de direito. E como ganharia ele a vida?

  10. Se Sócrates é culpado ou não, desconheço.Mas o modo como o caso tem sido tratado é desanimador. É este comportamento que devemos esperar dos nossos magistrados e da nossa justiça? O Julgamento de Sócrates já foi feito, se se vier a provar que não houve corrupção, a comunicação social desmentirá tudo o que escreveu’? O povo apagará da memória o que se disse sobre ele? foi uma tristeza ver certos comentários, chegando até ao pedido de condenação à morte, de abate, sei lá. O papel foi cumprido, conseguiu-se implementar um ódio ao Sócrates. Tinham de ter o bode expiatório ,para a crise do País. Os outros foram anjinhos.

  11. ó pá! Baie a fazere u teue travalhu de caza meue! Tu debias era ter iscritu u seguinte: o Marcelo Rabelo da Sôsa num se caloue quandu a amiga LEONOR BELEZA andoue a fazere campanha pra num sere cundenada, caragu! Num talemvras cu gaju beio à telebisãoe exibire uma sentença e falare beie dela!! Ó pá, tu meresses apanhara neça cara meue! pois tu num talembras quando aquele gaju do pruença de carbalhu sem bê, publicoue um libru e beio cá pra fora bulir coe mais outros tantos a defesa da gaja, pá? Entaõe e tu fazes-me um artigu destes e num mencionas esta gaita, meue»?

  12. oube, ainda ta queru dizere maijistu, o socrates pá é um burro meue, ele debia tare caladu sim, pá, cus magistradus gostam diço, meue. O adbogadu dele, eça coisa parba que pença que teie humore debia era fazere o cus magistradus gostam pá! só falare quandu debe. O gaju ustiliza-os pá. O socrates debia calarçe e só falare quantu vasta pa. olha ca fila das bisitas aumentaba meue. oue tu penças quele é o unicu que istá embolbido pá? hein? Esta trampa pa, resolbia-se doutra forma pá!! o gaju tá a disparare pra todos us ladus, pá, debia apontare certu, meue, e pra já era currere com o monte de asnada cu anda a defendere, pá.

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