Balancete

Quando em Maio deste ano António Costa, incarnando a crescente insatisfação que grassava entre os socialistas, desafiou a liderança de Seguro, este acusou-o de estar a abrir um “gravíssimo precedente” no partido. Na mesma altura, Seguro queixou-se de ter havido no seio do partido, durante os três anos da sua liderança, “um movimento oculto e invisível” contra ele. Ou seja, a contenção demonstrada durante esses anos pelos seus críticos internos era rotulada de conspiração surda e até “hipócrita”, enquanto o desafio franco e directo à sua liderança era tido como uma traição e como um acto contrário à história do partido. Seguro só tinha, pelos vistos, uma ideia: amordaçar toda a crítica à sua liderança, em nome de uma unidade que ele próprio ia destruindo.

Sem se preocupar um segundo com o novo “precedente” que ele próprio ia criar, Seguro decidiu então que, em lugar de convocar um congresso extraordinário, de acordo com os estatutos do partido, iria antes fazer uma revisão dos ditos, de modo a poderem realizar-se primárias para a escolha do “candidato do PS a primeiro-ministro”. E as eleições directas do secretário-geral ficavam onde, no novo sistema? Nunca disse. Até hoje, também ninguém me conseguiu explicar porque é que Seguro introduziu as primárias. Para caçar o apoio da maioria silenciosa, os simpatizantes, dado que o partido organizado lhe fugia? Para segurar pela base a sua contestada liderança? Se foi para isso, podemos hoje concluir que o feitiço se virou contra o feiticeiro. Seguro criou, involuntariamente, o instrumento ideal do seu urgente despedimento.

Seguro insistia também , contra toda a evidência, que tinha obtido uma significativa vitória nas europeias, lamentando apenas não ter conseguido capitalizar o “descontentamento contra o sistema político”. A culpa, portanto, não seria da sua liderança, nem da fraquíssima oposição que desde 2011 chefiara, mas sim do “sistema político”, que haveria que reformar. E como se faria isso? Nomeadamente, reduzindo o número de deputados 230 para 180 – uma “reforma” cujo verdadeira razão e oportunidade ninguém ainda descortinou, muito menos no preciso contexto em que foi anunciada, senão como uma cartada populista desesperada e um insulto aos seus pares do hemiciclo. Parece óbvio que uma tal proposta, a fazer sentido (e eu creio que poderá justificar-se), teria que ser objecto de cuidada preparação e discussão, em conjunto com, pelo menos, um outro partido. A opção por transformá-la num slogan solitário de propósitos populistas inutilizou-a por mais uns anos.

6 thoughts on “Balancete”

  1. parabens pelo poste.joão soares fartou-se de tecer eleogios às primarias introduzidas pelo seguro,só se esqueceu de dizer o motivo que o levou a adotar um esquema, que antes tinha rejeitado.o medo que os militantes tal como antonio costa, não aprovassem o seu consulado e como tal vamos buscar fora do partido,nomeadamente gente de direita. simplesmente fodeu-se !

  2. o pcp começou o dia com duas derrotas.o pai de moedas é comunista. os pais do medina vice da camara de lisboa,o pai e a mãe eram conhecidos e reconhecidos comunistas.assim se vê a força do pcp. é neste “comboio descendente” que o pcp pretende aproximar-se ao ps,para nessa altura estar em condiçoes de convencer os socialistas a adotar a a democracia do bernardino soares .acreditem, o pcp é uma empresa com milhares de trabalhadores que no poder iam para o desemprego,nomeadamente os sindicalistas e funcionarios do respectivos sindicatos.como tal há que fugir do poder a todo custo e sem pedidos de desculpas aos seus militantes que anda a enganar há mais de 90 anos.

  3. Gostei dos 2 comentários anteriores. Falta complementar que já se tinha equacionado haver primárias do tempo dos governos de Sócrates. João Galamba, entre outros defendeu este sistema . Seguro foi sempre contra. Aliás, foi sempre contra tudo, em especial contra os governos do PS. Ali estava ele, acantonado na última fila da AR , com ar de consciência da nação, à espreita de atacar pela calada !!!A manhosice lixou-o !!!

  4. O que muita gente ignora e outros, como este valerico, sabem mas preferem insultar a lucidez da malta, é que seguro foi aclamado SG quase por uma unanimidade que sabia, muito melhor do que a generalidade das pessoas, que também o sabia por ser óbvio, que seguro era um idiota chapado. Este post palhaço e hipócrita quer branquear um dado fundamental, ou seja, que seguro foi posto lá a prazo e que os que o elegeram SG fizeram-no premeditadamente para o destronar quando já não precisassem dele. Seguro é , sempre foi, consabidamente uma merda e a falta de respeito que o PS demonstrou por si próprio e, numa altura crítica, pelo país, ao elegê.lo, é uma evidência que faz da leitura deste post do valerico um duro exercício de resistência à hipocrisia ou à ingenuidade.

  5. enapa, seguro não deu chances a ninguem,pois marcou logo a sua posiçao quando socrates ainda estava a fazer o discurso da derrota.quanto as aclamaçoes por unanimidade a gente sabe como ´e basta irmos ao estadio do luz,ver o benfica moreirense a aplaudir um terceiro golo atraves de um penalty em que o adversario que provocou a queda estava a tres metros.nos congressos actuais (que eu discordo) as aclamaçoes saõ naturais,mas não duram meia-hora como no regime sovietico,por que o primeiro a deixar de aplaudir levava um tiro nos cornos.no pcp felizmente não é assim, mas só param quando as mão começam a queimar depois de aclamar o seu lider maximo do pesoal minimo(10%) de votantes!

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