Todos os artigos de guida

Eu é que sou o Presidente da Comissão

Ontem, na Quadratura do Círculo, Lobo Xavier aceitou quebrar a tradição dos participantes no programa de não falarem sobre os seus cargos, para se defender da acusação de conflito de interesses, feita pelo BE, acerca da sua nomeação para presidente da Comissão de Revisão do IRC. Explicou que não o fazia por ele, mas sim pelos restantes membros da tal comissão. E que tinha, então, para dizer em sua defesa? Que não há conflito nenhum porque os seus interesses, ou seja, os cargos que ocupa na administração de várias empresas, são conhecidos. Fiquei esclarecida. E acrescentou que não tem por missão fazer leis. Só faltou dizer que na realidade não vai fazer absolutamente nada, que a sua nomeação é só uma jogada para nos fazer crer que, afinal, Vítor Gaspar de vez em quando até faz a vontade a Portas, o que até lhe dá, a ele, Lobo Xavier, muito jeito, pois é mais um cargo com o qual se pode pavonear. E quem o ouve há anos naquele programa onde nunca, ou muito raramente, diz alguma coisa que se aproveite, não teria dificuldade em aceitar esta hipótese.

Então e quanto à sua isenção no programa? Também não há problema nenhum. Os seus colegas de debate também já ocuparam cargos (não tão importantes como o seu) e tal não os impediu de serem isentos. Mais uma vez, esclarecida. E passou o tempo todo do debate, acerca da mensagem de Cavaco, a tentar provar a sua isenção repetindo que, para ele, há uma norma do Orçamento, claramente, inconstitucional. O que também serviu para demonstrar os seus vastíssimos conhecimentos em Direito, que, aliás, parecem ser muito superiores aos dos juízes do Tribunal Constitucional. É que perante a dúvida do Pacheco Pereira em relação ao tempo que o Tribunal demora a apreciar as normas, Lobo Xavier explicou que tudo aquilo era muito complexo e demorado, só pessoas sábias e entendidas como ele é que podem entender a complexidade da coisa. Tirando a tal norma que, de caras e sem perder tempo nenhum, se vê logo que é inconstitucional.
A sua sorte é que o ridículo ainda não paga IRC.

Não é possível evitar uma crise de algo que não existe

Cavaco justificou a promulgação do Orçamento com o argumento de que não se pode juntar uma crise política à crise económica e social que o País enfrenta. Paulo Portas já nos tinha brindado com o mesmo argumento. Aparentemente, este argumento usado pelo parceiro de coligação no Governo e pelo Presidente da República, só por si, já bastaria para provar que a tal crise política já se instalou há muito. Ficámos a saber que a coligação está colada com cuspo e que, apesar de Passos dizer que tem uma relação de excelência com Cavaco, Governo e PR, pelo menos em público, estão em rota de colisão. E, se calhar, noutros tempos e com um governo de outra cor, o facto de em dois anos consecutivos existirem dúvidas quanto à legalidade dos orçamentos, também chegaria e sobraria para se falar de uma grave crise política. Mas não. Não estamos perante nenhuma crise política. Da mesma forma que para podermos falar de uma crise do petróleo é preciso que haja petróleo, também para falarmos de uma crise política seria necessário que houvesse política e ela não se vislumbra em lado nenhum. Temos um Presidente da República que nunca se assumiu como político, pelo contrário, sempre desprezou a política e os políticos, e que se limita a tentar (sem sucesso) ficar bem na fotografia. No Governo, temos um monte de gente cuja única preocupação é lambuzar-se no pote, liderado por um ministro das Finanças, que é quem manda, que é tudo menos político. A menos que se reduza a política a um emaranhado de contas, ainda por cima, mal feitas.
Portanto, poupem-nos e não nos digam que têm de evitar uma crise política.

Saco de gatos

Miguel Relvas, que no último fim-de-semana apareceu em todo o seu esplendor, anunciou o seu apoio à candidatura de Fernando Seara à Câmara de Lisboa, antecipando-se mesmo ao próprio candidato. E ainda acrescentou que está disponível para fazer campanha por ele dia e noite. Isto é que é empenho! Até é caso para perguntar se está a pensar sair do Governo, não vá algum assunto da governação atrapalhar a campanha.

Quem não gostou nada de tanta dedicação às Autárquicas, de tal forma que nem esperou pelo próximo domingo para espalhar o seu veneno, foi Marcelo Rebelo de Sousa, que comparou o apoio de Relvas a um ‘beijo da morte’. E não se ficou pelo Relvas, explicou que governantes muito desgastados não devem andar para aí a apoiar candidaturas. Se calhar tem razão. Mas então quem é que, dentro do PSD, poderá aparecer a fazer campanha? É que o tal desgaste aplica-se aos governantes, ao presidente do partido e, se calhar, à maioria dos apoiantes do Governo. Só se o professor está a sugerir que apareçam ao lado dos candidatos os críticos do Governo. Seria uma originalidade.

Para os que não vêem diferenças entre Passos e Sócrates

Durante os seis anos da governação de Sócrates, assistimos a uma verdadeira revolução na Educação. Desde o prolongamento do horário escolar no primeiro ciclo, facilitando, e muito, a vida aos pais, passando pela introdução do inglês, música, etc., até à remodelação das escolas, fez-se muito pela igualdade de oportunidades no acesso à Educação. E ainda se aliou a tudo isto uma forte aposta na Ciência e Tecnologia. Percebia-se a estratégia: arrepiar caminho, para que se reduzisse o colossal desnível que, em matéria de escolaridade, separa Portugal dos países mais desenvolvidos. Inexplicavelmente, ou talvez não, esta estratégia teve opositores para todos os gostos. A começar pelos professores e pela extrema-esquerda e a acabar na direita em peso. Tudo gente que vive muito melhor com a triste realidade da Educação em Portugal do que com a simples ideia de que é possível, com as medidas certas, melhorar o desempenho do País.

Se não gostaram da estratégia de Sócrates, talvez prefiram o plano de Passos e companhia. Talvez apreciem a frieza, e o alívio, com que o actual primeiro-ministro diz que a Constituição não é empecilho para que se alterem as regras de financiamento do ensino público. Ignorando por completo as dificuldades que as famílias já sentem para manter os filhos na escola, mesmo sem essas novas medidas. E omitindo as inevitáveis consequências negativas de tal decisão.

Agora, sim, vai fazer sentido falar em festa. A festa do abandono escolar e a grande festa que vai ser ver Portugal cada vez mais na cauda do Mundo.

Afinal, queremos ser iguaizinhos à Grécia

Vítor Gaspar anunciou ontem no Parlamento que Portugal beneficiará das novas condições que serão aplicadas à Grécia. É um anúncio espantoso. O Governo não pode ouvir a oposição, ou seja quem for, falar em renegociação do Memorando. A postura tem sido a de total subserviência em relação à troika, creio que o primeiro-ministro chegou mesmo a dizer que se sentia muito confortável com as condições que nos têm sido impostas. Por outro lado, a falta de solidariedade com os gregos tem sido inacreditável. Ninguém, e muito menos Portugal, quer ser confundido com tal país. Se não estão satisfeitos é deixá-los espernear sozinhos, que nós por cá não temos nada a ver com isso. Mas, atenção, se os gregos conseguirem melhores condições, nós queremos igualdade de tratamento. O que chamar a uma postura destas?

E, já agora, o Governo que diga o que chamar a isto. Já vi a palavra ‘renegociação’ escrita nalguns jornais, mas é óbvio que não é a palavra certa.

Ensinem o homem a programar

Foi maravilhoso ver Passos a descrever as qualidades dos alemães e dos portugueses. Sobre os primeiros disse umas banalidades, que são persistentes, trabalhadores e possuidores de uma grande auto-estima. Tudo qualidades que, evidentemente, os portugueses não têm. Mas no seu entender os portugueses também têm duas ou três qualidades que merecem destaque. Disse qualquer coisa sobre a flexibilidade perante os problemas, que temos a capacidade de nos ajustarmos, seja lá isso o que for, e que temos a capacidade de inovar, mas que o fazemos sem programação, precisamos de aprender a programar.

Que Passos não queira elogiar a aposta na inovação do Governo anterior, vindo de quem vem, não admira, mas pelo caminho escusava de espezinhar os portugueses e as empresas portuguesas que apostaram na inovação e que se tornaram altamente competitivas em qualquer ponto do Planeta. Para o primeiro-ministro, essas empresas inovaram, mas sem programação. Tiveram sorte, obtiveram sucesso porque calhou. É assim que Passos promove o que de melhor se faz no País. Está a falar de si próprio, pensa que as empresas portuguesas são todas como aquelas por onde passou, onde a base da programação é o chico-espertismo. Isto também explica o que temos visto quanto à programação do Governo que lidera.

E está a cuspir na sopa. É que é graças à aposta na inovação e à excelente programação, quer do Governo anterior, quer dos empresários, que os resultados da economia não são hoje mais desastrosos. Mas, lá está, para o primeiro-ministro, as exportações do País aumentaram nos últimos anos por sorte, calhou.

A direita é muito esquisita

Ultimamente não temos sido muito visitados por chefes de Estado estrangeiros. O que não espanta. Durante os governos de Sócrates ficámos a saber o quão esquisita é a direita portuguesa na escolha dos seus parceiros de negócios estrangeiros. Não lhes serve qualquer um. Nesse tempo, todos os que nos visitavam estavam cobertos de defeitos dos pés à cabeça. E quase todas as visitas oficiais eram motivo de grande gozo. Uns gozavam com as escolhas do Governo enquanto outros rebolavam a rir dos acordos assinados. Por isso, quando o Governo mudou, fiquei bastante curiosa. Quem seriam, a partir dali, os privilegiados? Mas passado um ano e meio, e apesar das inúmeras viagens de Portas por esse mundo fora e das do próprio Passos, continuamos à espera. Não sabemos se os nossos governantes não retribuem as visitas que fazem com convites semelhantes, se os convidados os recusam, se têm vergonha do País que governam, se não há em Portugal empresários inteligentes em número suficiente que justifiquem a trabalheira de organizar uma visita oficial, ou se, no entender do actual Governo, já temos exportações que cheguem.

Isto para dizer que nem tudo é mau na visita que a senhora Merkel nos fará na próxima segunda-feira, pelo contrário. Para além dos muitos negócios que se farão naquelas seis horas, tantos que deverão chegar para inverter a queda acentuada das exportações portuguesas, a direita mostra-nos, finalmente, o que é um parceiro comercial perfeito, isento de defeitos.
Pelo menos, desta vez, não se vê ninguém a rir.

E ainda dizem que a direita não tem alternativas

Espanta-me a falta de curiosidade dos jornalistas em relação a algumas matérias. A Ferreira Leite apresenta uma alternativa para resolver os nossos problemas, desta vez sem ironia, e não tentam saber mais? Por exemplo, quando é que descobriu que a democracia não serve para resolver problemas complexos? Antes ou depois de ter exercido cargos governativos? Será que está a tentar justificar o desastre que foi a sua passagem pelo Ministério das Finanças? Mas a senhora não se ficou por aí, mais tarde, foi eleita líder do PSD, candidatou-se a eleições e correu sérios riscos de ser eleita primeira-ministra. Ora, nem é preciso perguntar-lhe, sabemos que, nessa altura, já via a democracia como um empecilho. Então, candidatou-se para quê? Para resolver os complexos problemas do País não foi. Será que foi para impedir que uns quantos democratas lhe estragassem a teoria? Ou foi simplesmente porque lhe soava bem o ‘primeira-ministra’ antes do nome?

E, uma vez que o assunto parece ser para levar a sério, a questão dos seis meses de suspensão também levanta algumas dúvidas. Todos sabemos que os problemas complexos são como as ervas daninhas, mal se resolvem uns aparecem logo outros. Se calhar também acaba por ser muito complexo estar a suspender a democracia por uns meses, de seguida retomá-la, e, passados quinze dias, estar a suspendê-la novamente. Por favor, peçam lá à senhora para desenvolver.

Com amigos destes, não precisamos de inimigos

Muito pior que o complexo de superioridade dos países do Norte da Europa é o complexo de inferioridade dos nossos actuais governantes, que pedem ajuda a uns técnicos desconhecidos do FMI para cortar nas funções sociais do Estado. Claro que o fazem para não assumirem a responsabilidade das medidas que, sabemos, defendem há anos, ou seja, por cobardia política. E nem se apercebem, ou não querem saber, do ridículo a que expõem o País. Pedir ajuda para cortar nas despesas do Estado?! Mas isso é a única coisa que o Governo já mostrou que é capaz. Já que querem colocar-se, e colocar-nos, nessa posição de menoridade, peçam ajuda para aquilo que realmente não fazem a mais pálida ideia de como conseguir: pôr a economia do País a crescer. Faria muito mais sentido, pois é esse o segredo dos povos do Norte para manterem os seus ricos estados sociais.

Mas não, o Governo prefere dar-lhes razão e assumir que somos um povo de incapazes, de oportunistas e de desgraçadinhos todos a viver à conta do dinheiro do Estado e, por isso, sem a mínima hipótese de, sequer sonhar, aproximar-se deles através da criação de riqueza.

Já agora, peçam aos técnicos para fazerem a conta a quanto custa ao País o desespero, a falta de confiança e de esperança que resultam deste tipo de atitudes.

Um pequeno grande linguarudo

Então no mesmo dia em que os apelos do Governo ao PS para que participe na tal refundação do memorando dominaram quase por completo a discussão do Orçamento, vem o Marques Mendes dizer que afinal o abate do Estado Social já está mais do que negociado com o FMI?

Ó Marques Mendes, se calhar isso não era para dizer. Como é que fica o Paulo Portas que garantiu solenemente no Parlamento que aquele era um apelo sincero? E que margem tem agora o Seguro para responder positivamente à cartinha do Passos Coelho?

Está bem que o senhor, enfim, tem sempre de se pôr em bicos de pés e de provar constantemente que é o comentador mais bem informado cá do burgo, mas isto não se faz à malta amiga do Governo.

Não é uma maratona, é uma corrida de malucos

A propósito da declaração de Vítor Gaspar em que comparou o processo de ajustamento a uma maratona, Marcelo Rebelo de Sousa pediu ao Governo que se decidisse quanto ao tipo de corrida, pois tinha começado por ser uma corrida de poucos metros e já ia na maratona. Penso que, nesta altura, a questão não é essa, uma vez que o ministro já se decidiu pela maratona, e nem era preciso pois já todos percebemos que a corrida é longa. A questão é que, apesar de ter sido muito preciso e de ter informado que a corrida já levava 27 quilómetros percorridos, faltando apenas correr um terço, Vítor Gaspar não sabe o que é uma maratona. É que numa maratona o percurso está bem definido, nunca se altera a meio, e todos os maratonistas sabem onde está a meta e o que ganham caso lá cheguem. Mas não é isso que se passa nesta corrida em que o Governo está constantemente a alterar o percurso, a mandar-nos correr para becos sem saída, ou para ruas que são verdadeiros obstáculos intransponíveis, como é o caso do Orçamento do Estado que está em discussão, por exemplo. Que é como se, de repente, os maratonistas fossem desviados para uma rua com 20% de inclinação, com o piso ensebado e sem fim à vista. E depois vem dizer que o sucesso não está garantido. Pudera! Mas mesmo que, por milagre, fosse possível terminar a corrida, o ministro não diz qual é o prémio. Talvez por saber que o único prémio a que teremos direito é um bilhete para voltarmos a participar numa corrida organizada por si, ou seja, mais uma corrida de malucos.

Façam-lhe um desenho

Louçã já não estará no Parlamento para a discussão e votação do Orçamento. E se Seguro, que foi tão rápido a pôr-se em bicos de pés para substituir Sócrates, não fosse tão lento a perceber que a sua permanência à frente do maior partido da oposição agrava ainda mais o descalabro em que o País se encontra, passaria a bola a outro e também já não participaria nessas sessões parlamentares. Em praticamente ano e meio, não teve uma ideia digna desse nome, e as que teve foram para esquecer, são muito mais os que o criticam do que os que o elogiam (na verdade, não são nenhuns), só viu o PS subir nas sondagens por demérito (isto sou eu a ser simpática) da concorrência, para não falar das sondagens que indicam que a maioria preferia ver outro no seu lugar, o que lhe falta para perceber que também ele está ali a mais?

O Cavaco tem sido menos visto do que o Fidel

A nossa comunicação social tem dado grande destaque a Fidel Castro. Pelos vistos, interessa bastante aos nossos jornalistas o estado de saúde do senhor. Nada contra. Estranho é não terem a mesma curiosidade em relação a Cavaco. Afinal, quando é que o fotografaram pela última vez? A verdade é que deixou de ser visto em inaugurações, já não visita empresas nem escolas nem nada. A última vez que soubemos dele foi através do Facebook, mas terá sido mesmo ele a escrever aquele recado ao Governo? Não sabemos. Será que, ao contrário de Fidel, que não se lembra da última dor de cabeça, Cavaco tem sido assolado por enxaquecas terríveis que o impedem de aparecer em público? Vá lá, senhores jornalistas, investiguem, e se possível publiquem uma foto.

O sentido de responsabilidade de Portas vem tarde e a más horas

Foram tantos os elogios que Portas foi ouvindo nos últimos anos que deve ter-se convencido de que era um infalível mestre da política. Enganaram-no bem, em vez de lhe criticarem o populismo barato, elogiavam-lhe a inteligência e a experiência política. E Portas, pelos vistos, não percebeu que na maioria das vezes elogiá-lo era só uma forma de os comentadores de direita criticarem os líderes do PSD. Estava tão seguro da sua superioridade neste Governo que subestimou a capacidade da dupla Passos/Relvas para o tramar e pensou que seria possível ter tudo controlado mesmo estando fora do País a maior parte do tempo. Para agravar ainda mais a coisa, e porque não quis convidar alguém que lhe pudesse fazer sombra dentro do CDS, escolheu dois patetas para o acompanharem no Governo. Agora deve andar às voltas a tentar perceber como é que de repente lhe caiu tudo em cima, incluindo o seu próprio partido.

Mas não abandona o populismo, até porque não sabe ser outra coisa, e tenta justificar o injustificável com o seu suposto sentido de responsabilidade, sem o qual Portugal mergulharia no caos grego. Vem tarde. Teve oportunidade de mostrar o tal sentido de responsabilidade aquando da votação do PEC4, mas nessa altura estava demasiado ocupado a garantir a boleia que o levaria ao pote.

Piores do que condutores bêbados

Estamos muito mais descansados. Primeiro foi Portas que nos veio tranquilizar através de um comunicado onde garante que o CDS votará favoravelmente o Orçamento, pois não quer provocar uma crise política. Esquece que só a simples existência do comunicado já é a prova provada de que existe uma grave crise no Governo. Se não é uma crise política, não sei o que será. De seguida, aparece Passos Coelho a garantir que ‘o Governo não está para cair’. Esquece que o facto de ter de dizê-lo é a prova provada de que o Governo está por um fio. E, pior ainda, o primeiro-ministro diz uma frase destas no estrangeiro e a caminho de um Conselho Europeu. Ou seja, mesmo aqueles dirigentes europeus mais distraídos que ainda não tivessem conhecimento da grave crise política que se instalou no Governo português, com aquela frase ficaram esclarecidos. E é desta forma, ainda mais fragilizado, que Passos se vai apresentar neste Conselho Europeu para defender os interesses do País.

Depois queixam-se de que o caminho é estreito. Os condutores bêbados também se queixam do mesmo. Até em estradas larguíssimas lhes falta margem de manobra.

O Orçamento é uma merda

Pensava eu que durante os governos de Sócrates se tinham esgotado os nomes feios para chamar aos governantes e as piores analogias e metáforas para ilustrar as suas acções. Como se tem visto nos últimos tempos, estava redondamente enganada. Por estes dias, até arrepia ler os jornais tal é a quantidade de material bélico e catástrofes naturais e outras que aparecem associados a este Governo e ao Orçamento. Pensar que, para os catastrofistas, no tempo dos PEC dos governos de Sócrates, o grande perigo que o País enfrentava era o de estar prestes a bater numa parede. Uma parede. Aposto que, perante esta avalanche de desgraças, muitos têm saudades dessa parede.

A verdade é que não é nada fácil escolher um termo que ainda não tenha sido utilizado, e ainda menos um que seja mais devastador. Por isso, decidi ir por outro caminho e escolher um termo mais simples, que toda a gente percebe e que, apesar de resumir o que todos pensam, ainda não vi escrito em nenhum jornal: o Orçamento é uma merda.

Gaspar a brincar com o fogo

Há muito que o consenso que havia à volta deste Governo se foi, mas parece que Vítor Gaspar ainda não está satisfeito. Ter o País de pantanas, o Governo estilhaçado e a coligação em guerra aberta ainda é pouco. Quando ontem confessou ‘embaraçado’ (os sonsos são os piores) que não tinha estudado as declarações do Presidente da República, Gaspar revelou uma imprudência colossal. É que não devem ter sido só as últimas declarações de Cavaco que lhe passaram ao lado, Gaspar deve ter andado muito distraído nas últimas décadas e desconhece por completo uma das principais características do actual PR: o seu espírito vingativo. Com aquela simples frase, Gaspar deve tê-lo deixado laranja de raiva. E não é que Cavaco, depois de tudo o que disse e fez contra os governos anteriores, não mereça este tratamento, mas, por muito que nos custe, continua a ser Presidente da República e não se espera de um ministro das Finanças que o trate publicamente com este desprezo. Além disso, fica bem demonstrada a disponibilidade deste Governo para ouvir os outros.

Por onde andarão agora os que berravam indignados e exigiam a Sócrates, apesar de ser de outro partido e de obviamente ter ideias diferentes, que ouvisse todos os conselhos e cumprisse à risca as ordens que vinham de Belém? Se calhar também andam muito ocupados e ainda não se aperceberam desta guerra entre Belém e S. Bento. Ocupados a assobiar para o lado.

Temos, urgentemente, de apurar esta raça

Todos sabemos, porque todos os dias disso somos lembrados, que o endividamento é um dos principais problemas do País. Também sabemos que existe uma dívida pública e uma dívida privada, contraída pela banca, empresas e famílias. Portanto, de uma maneira ou de outra, somos todos responsáveis pelo endividamento do País, é o que se conclui. Mas afinal parece que não é bem assim. No último debate quinzenal fomos surpreendidos por uma revelação verdadeiramente espantosa, a de que o primeiro-ministro pertence a uma raça de homens que, não sendo os próprios “a causa do endividamento”, gostam de pagar o que devem. Ele falou no singular, mas não me parece adequado, se o primeiro-ministro fosse um caso único, não seria uma raça, mas sim uma aberração. Adiante. Como é que, ao contrário dos restantes portugueses, esta raça de homens não é responsável pelo endividamento? Somos quase tentados a pensar que é uma raça acabada de chegar de um planeta distante, o que explicaria muita coisa, mas não, temos a certeza que estes indivíduos vivem há muitos anos entre nós. Nesse caso, como é que evoluíram e se distinguiram de todos os outros? Apesar de só agora termos conhecimento da existência desta raça, há coisas que podemos deduzir. Por exemplo, é mais do que certo que esta raça de homens nunca usufruiu de serviços prestados pelo Estado. Nunca frequentaram escolas públicas, nunca puseram um pé nos transportes públicos, nunca viram um minuto de emissão da RTP, nunca recorreram ao SNS, ou melhor, provavelmente, os indivíduos desta raça nunca adoecem. Nunca, mas nunca utilizam as auto-estradas, circulam apenas por estradas secundárias e caminhos de cabras. De certeza que nunca recorreram ao crédito, nem em nome individual nem em nome de eventuais empresas por onde tenham passado, e muito menos se candidataram a quaisquer fundos ou subsídios estatais. E é óbvio que não consomem energia, nem pensar, não contribuem para a factura mais pesada das importações. Aliás, não devem consumir nenhum tipo de produtos importados. Isto é extraordinário, e o estudo desta raça, para além de poder fazer de nós um país riquíssimo, talvez traga a solução para muitos dos problemas que afectam a Humanidade. É só perguntar-lhes qual o segredo. Tem é de ser com jeitinho e com muito cuidado com as palavras, pois, aparentemente, esta raça é muito sensível e bastante medrosa.
Enfim, a Natureza não é perfeita.

A PIDE não faria melhor

Até ontem julgo que nunca tinha visto um interrogatório tão pidesco como o que José Gomes Ferreira fez a Paulo Campos. Para aquele interrogadorzeco não há cá presunções de inocência, Paulo Campos e, já agora, todos os que se relacionaram com Sócrates, são culpados de todos os males que nos afectam agora e afectarão nos próximos milhares de anos. O interrogadorzeco tem provas de tudo, está munido de relatórios e pareceres que anulam todos os outros que os acusados possam usar para se defenderem. E se se mostrarem, enfim, ineficazes para os seus propósitos acusatórios, o interrogadorzeco, tem um plano B, que passa por perder todo o respeito por si próprio, e por quem o ouve, e desatar a bombardear o interrogado com perguntas/acusações acerca dos seus rendimentos, das suas amizades e dos seus medos. Medo, por exemplo, de que com a nova Procuradora-Geral, em quem ele, pelos vistos, deposita muita esperança, as investigações possam ter outro desfecho. Este espectáculo deplorável revela muito mais acerca do interrogadorzeco do que do interrogado que, obviamente, mesmo que fosse culpado jamais o assumiria em directo num programa de televisão. Mas tem uma justificação, o exagero do interrogatório, que o próprio reconheceu, deve-se a uma enorme preocupação. O interrogadorzeco está preocupadíssimo com o que estamos a deixar para os nossos filhos e netos. E eu também. Preocupa-me que, em vez de jornalistas, os nossos filhos e netos tenham de levar com estes ranhosos.

PSD e CDS, partidos do arco da desgovernação

Na última campanha para as legislativas, a direita chantageou os eleitores ameaçando os que pretendiam votar PS com cenários de instabilidade, ou eles ou o caos. Apregoavam estar em vantagem em relação ao PS porque à direita havia a possibilidade de coligação o que não se verificava à esquerda. Está bem à vista de todos onde nos levou essa vantagem. Mas, pior ainda, este Governo é a prova de que a direita, para além de não saber fazer oposição, e talvez por causa disso, não sabe governar. Nem mesmo com o apoio mais do que alargado que o actual Governo teve, nem com a troika a ditar-lhes o que fazer, nada os impede de se estatelarem ao comprido. Ou seja, tivemos recentemente dois governos de maioria da direita, qual deles o pior. Na oposição também nada há a elogiar, muito pelo contrário. Pelo PSD passaram uma série de líderes, qual deles o pior. Nem no poder nem na oposição se lhes conheceu uma ideia digna desse nome. Não espanta por isso o desnorte e falta de rumo de todos os líderes, que neste partido são descartáveis. E isto, sim, devia ser uma preocupação para o exército de comentadores de direita, que há um ano e meio alinharam na chantagem garantindo que só haveria competência e estabilidade com um governo PSD/CDS, e que agora sugerem remodelações mesmo sabendo que não servirão para nada, muito menos para devolver a credibilidade a esta maioria. Mas, em vez disso, preferem dizer que o PS não é alternativa, embora saibam que isso não é verdade. É que não é o PS que não é alternativa, é o Seguro. Sabem perfeitamente que qualquer pessoa consegue enumerar vários nomes de políticos socialistas que de um momento para o outro poderiam alterar completamente esse cenário onde o PS não se apresenta como alternativa. E à direita, que alternativas existem? Do CDS nem vale a pena falar, sem Portas o mais certo é desaparecer. E no PSD, quem são as alternativas aos inseparáveis Passos e Relvas? Enquanto esperamos pela resposta, podemos recordar os últimos governos minoritários do PS e concluir que, apesar dos problemas que enfrentaram, que foram muitos e variados, é muito mais estável e competente um governo minoritário do PS do que as maiorias de direita todas juntas.