Todos os artigos de Aspirina B

Cascatas e alhos-porros

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Cascata de São João
do site portodailyphoto.blogspot.com

Em tempos idos, tal como hoje, os moradores dos bairros populares do Porto organizavam-se em comissões, para angariarem donativos, que revertiam para as despesas destinadas a enfeitar as ruas do seu bairro em homenagem ao Santo Precursor.
Festejou-se, entretanto, o São João da Corujeira, de Cedofeita, da Lapa (inicialmente o mais burguês), do Bonfim e do Palácio de Cristal (o eleito dos namorados) – supostamente, sendo em Cedofeita que o povo se reunia primitivamente para festejar o santo, com actos religiosos e pagãos (bailaricos, descantes, bombos e violas).
Já referenciados no século XIV, os festejos mudaram-se depois unicamente para a Lapa e o Bonfim, locais onde o São João, por volta de 1834, era festejado com a maior animação popular.
Nas Fontainhas, por esses anos, começou por se fazer uma «cascata», que criou fama, dando origem a que se deslocassem ali diversos grupos – as rusgas – com roupas festivas, cantos e balões dependurados em ramos, numa afluência de gente ida de todos os cantos do Porto para se divertir e comemorar o santo.
Havia também o hábito de servir café quente, aguardente e aletria. Tanto bastou para que o povo (ainda por isso) acorresse às Fontainhas, aproveitando igualmente para lavar o rosto numa fonte existente no local, antes de nascer o Sol no dia 24, a manter a tradição da água benta, propiciatória e purificadora.
Nos mercados do Anjo (hoje Praça de Lisboa) e do Bulhão era grande a procura das plantas e ervas sagradas e profilácticas (procura que se mantém), principalmente do indispensável «alho-porro» ou «alho de São João», para com ele bater na cabeça de quem passa, num desejo ritual de boa sorte e de fortuna – desde os anos sessenta com o martelinho de plástico colorido a substituir a tradição da planta sagrada, que muitos, felizmente, teimam em levar à festa, no desejo de conservar a antiga praxe (atitude que o santo não deixará, por certo, de ter em conta).
Actualmente (recuperado que foi o São João em 1924, após vários anos em que não se realizou), diz-se que “tudo começa e acaba na Ribeira”, estendendo-se às praias da Foz e à Boavista. Todavia, parece ser no Bonfim que se concentra a maior parte do povo e se faz a grande festa são-joanina portuense, embora os pequenos arraiais dos bairros se espalhem por toda a cidade: Massarelos, Vilar, Miragaia, Entre-Quintas, São Pedro de Azevedo, Cantareira, Terreiro da Catedral, São Nicolau, Bairro da Sé, Cais da Estiva, etc., com ornamentações e iluminações festivas, tasquinhas de comes e bebes, fogueiras e bailaricos, num São João popular, folião, de convívio e alegria.
Por épocas mais antigas o São João no Porto contava já com iluminações e ornamentações nas ruas, música, descantes e danças, barracas de petiscos, diversões de todo o género, marchas dos bairros populares, colchas nas janelas, grandes ramos de carvalho encostados às casas ao longo das ruas, o chão coberto de juncos, espadanas, alecrim, rosmaninho e outras plantas aromáticas (que perfumavam a cidade, como acontece actualmente, ao juntarem-se às fogueiras) e o fogo-de-artifício, ou «fogo-de-São João», lançado da serra do Pilar (Cova da Onça), agora visto da Ribeira, lançado à meia-noite de 23 para 24 nas margens do rio Douro, junto da Ponte D. Luís.
Dos costumes antigos, nenhum se perdeu. Ganhou-se, isso sim, em 1911 o feriado municipal do Porto, instituído no dia de São João.
Quanto aos altares ao Santo Precursor, continuam também a armar-se dentro das igrejas, constituindo as imagens de São João Baptista, espalhadas em número considerável pelas igrejas do Porto, algumas de grande qualidade artística, assim como as preciosas pinturas onde ressalta a figura do santo, um património de valor inestimável.
As pequenas «cascatas» são-joaneiras, que povoam a cidade (com origem provável nos presépios), são erguidas num qualquer recanto, junto de uma parede, no passeio público ou nas soleiras das portas, geralmente pelas crianças. Embora surjam as «cascatas» mecânicas ou de grandes dimensões (por vezes monumentais), como a do Lordelo do Ouro, entre outras. Todavia, a mais importante, conhecida e tradicional é, sem dúvida, a da Alameda das Fontainhas, erguida, anualmente, há perto de setenta anos na fonte ali existente.
Outra alegoria a merecer a atenção dos Portuenses e de quem visita o Porto no São João, é a que se ergue ao cimo da Avenida dos Aliados, por deliberação da Câmara Municipal, frente aos Paços do Concelho, com São João a baptizar Jesus Cristo.
As tradicionais «cascatas» – sinónimo de água, alusiva ao rio Jordão – com a figura do santo em lugar de destaque, incluem uma imensidade de enfeites e de figurinhas de barro, fabricadas outrora (como hoje), principalmente, em Avintes e Barcelos, pelos artistas oleiros dessas localidades.
Os manjares cerimoniais desta data continuam a ser o caldo-verde com broa e o carneiro ou anho assado. Se bem que a sardinha assada acompanhada com broa e salada de pimentos constitua o prato mais popular da noite da festa. A sobremesa recai no leite-creme queimado.
Depois disso, manda a tradição que se beba o café com leite (a lembrar o antigo café servido nas Fontainhas) e saboreie o pão com manteiga – sem esquecer as «orvalhadas», que obrigam a que ninguém se deite antes de apanhar o orvalho bento «para ser feliz e ter saúde o resto do ano».
Devoção popular feita de alegria contagiante, a Festa de São João no Porto há quem a considere única no Mundo.

Soledade Martinho Costa
Festas e Tradições Portuguesas, vol. V
Ed. Círculo de Leitores

Lamentação e pranto de Jill McBain em Sweetwater

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Lamentação e pranto de Jill McBain em Sweetwater
para Cláudia Cardinale em ‘Aconteceu no Oeste’

Não tive tempo para nada.

A trompete ajudou com as suas notas sincopadas a simular os meus soluços que ninguém ouviu. Nunca tinha visto um banquete de morte. Lá longe, em New Orleans, as mesas servem sempre para as refeições e para a alegria dos encontros. Aqui de nada serviu a recomendação de Brett à filha para cortar as fatias do pão muito maiores que o habitual.

Não tive tempo para nada.

Nem para as lágrimas que são a água salgada da revolta perante a injustiça da morte. Nem para perceber quem mandou matar uma família inteira. Nem para perceber porquê. Ainda era cedo. Sei agora a diferença entre a água doce do meu poço e o sal da água azul do Oceano Pacífico que está num quadro da parede da carruagem de luxo de Mr. Morton.

Não tive tempo para nada.

Afinal ainda é cedo para saber de um homem, moreno e triste, capaz de, como quem cumpre uma sentença, matar a vários assassinos depois de tocar uma melodia vagarosa numa harmónica velha, presa ao pescoço por uma corda muito mais pequena e estreita do que a outra, a utilizada para enforcar o seu irmão mais velho numa infância já distante.

Não tive tempo para nada.

Aos poucos percebi como é possível construir um sonho em miniatura. A madeira está paga, os barris cheios de pregos estão à espera. É só contar os passos e marcar o perímetro das primeiras casas de Sweetwater. A Estação e a Igreja, o Banco e o Hotel, as primeiras lojas. O sonho de Brett McBain não pode ficar adiado. A roldana do poço espera por mim. Os primeiros operários do caminho-de-ferro acabam de chegar e estão mortos de sede.

José do Carmo Francisco

Noite dos Prodígios

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Enquanto nos centros urbanos as celebrações a São João desde sempre se limitaram aos festejos ornamentais e à diversão, nos meios rurais as festividades cíclicas em honra do Santo Precursor – por ter vindo anunciar a chegada do Messias – assentavam, predominantemente, em práticas divinatórias e propiciatórias relacionadas com rituais mágico-profilácticos associados ao Sol, às plantas, ao fogo, ao orvalho e à água das fontes, dos rios e do mar, invariavelmente em benefício do amor, do casamento, da felicidade, da beleza, da saúde ou da prevenção da doença.

Soledade Martinho Costa
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«O caso Fernando Charrua»

Do artigo de A. Marinho e Pinto hoje no Público:

«O primeiro-ministro certamente não ignorará o que dele se dirá no quartéis, nas salas de professores das escolas, nos hospitais e, em geral, nas repartições públicas do país. E, nem por isso, daí vem nenhum mal especial para o funcionamento dos órgãos do Estado e da administração.

«Em contrapartida, o procedimento disciplinar instaurado ao professor Fernando Charrua será (sobretudo se acarretar qualquer sanção) um convite à generalização da delação entre os funcionários públicos.

«Há no aparelho de Estado, sobretudo na administração pública, pulsões liberticidas e de delação que urge combater. Essas pulsões têm as suas raízes na cultura dominante no Estado Novo. O que havia de pior nesses tempos de tirania não era a actuação repressiva das polícias ou de outros organismos de vigilância e protecção do regime. O que havia de pior era, precisamente, a existência dos “informadores”, dos “bufos”, ou seja, de pessoas aparentemente normais, que se sentavam à nossa mesa, que entravam nos nossos gabinetes e até nas nossas casas, com quem por vezes se tinha conversas reservadas e até íntimas, mas que, depois, traiçoeiramente, pela calada, iam comunicar essas conversas à polícia ou aos superiores hierárquicos.

«É essa actuação ignóbil, é, em suma, essa imensa ignomínia, que urge banir definitivamente da sociedade portuguesa e da administração pública.»

O garfo

Era um restaurante com alguma distinção, mas ele insistia em dizê-lo ‘de bairro’.
Limpou o garfo ao guardanapo, gesto muito seu, e disse:
– Não é, já vês, o tipo de relação que nos convém.
Eu esperava algo assim, após dias sem um telefonema.
Vínhamos naquilo há meses. Era o divórcio deles, era o reatamento deles, eram os sogros deles, tudo a atrapalhar.
– Lá por isso… – fiz eu, quase tão ténue como o som do guardanapo.
Olhou-me desconsolado. O garfo estava mais que limpo. Vi-o tomar balanço e cravá-lo com convicção no lado mais palpitante do peito.
A carteira, essa, é que não esteve para tragédias.

Viradeira

O facto é que depressa nos cansámos. De fazer andar as fábricas de panos, de plantar vinhas novas, de aprender alguma coisa nas escolas, de blasfemar contra a fatalidade. E de ver a espirrar o sangue azul dos Távoras, que nos enterneceu o manso coração. De modo que, morto el-rei, voltámos aos marialvas, às procissões, à fadistagem e aos pátios das cantigas.

Ele havia umas estradas, no reino, por fazer. E logo se mandou que uns alvenéis lavrassem, numa serra, uns marcos monumentais, para assinalar cada légua aos viandantes. Dispunha cada marco dum relógio de sol. Porém algumas léguas terminavam à sombra, como é frequente acontecer, quando o sol se lembra de acordar. E ou bem que se ofendia o rigor das medições, ou se esbanjavam as custas do relógio.

Não chegou o desempate a ir a cortes, nem se lhe alcançou resolução. E as estradas ficaram por fazer.
Veio-me à lembrança um tal aperto, a propósito dum aeroporto que também anda aí nas mãos da viradeira.

Jorge Carvalheira

São Pedro de Alcântara

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São Pedro de Alcântara (Estaleiro)

No limite da luz do horizonte dos telhados
Fica à esquerda a Sé do nosso São Vicente
Ali a cidade pede perdão dos seus pecados
E vai rezar a Santo António quase em frente

Logo à direita fica um arco de conquistas
Louvando o poder da espada e da guerra
Cá em baixo passam os bandos de turistas
Sem tempo para ver o que o arco encerra

Ao centro está o Tejo sempre igual e eterno
O som da voz dos calafates chega à janela
O vento neste porta-contentores moderno
É o mesmo que empurrou naus e caravelas

Daqui deste meu jardim onde um estaleiro
Me impede de ver Lisboa como um espelho
Salva-me um tempo lisboeta tão verdadeiro
Num quadro cheio de luz de Carlos Botelho

José do Carmo Francisco

Camilo contra as chapas

Volto sempre a Camilo. Problemas de saúde, hemoglobina a disparar, problemas de trabalho, dois desempregados em cinco pessoas, problemas de dinheiro, frequentes saldos negativos na conta, enfim, o diabo a quatro, mas volto a Camilo e a disposição melhora logo. Reparem neste divertido texto de 1858 sobre o trivial que ameaça os cronistas a todo o momento:

«Obriga-se o cronista a manter invariáveis os seguintes adjectivos quando vierem usados para os seguintes substantivos: Prelado será sempre virtuoso; cantora será sempre mimosa; jornalista será sempre consciencioso; jovem escritor será sempre esperançoso; patriota será sempre exímio; negociante será sempre honrado; caluniador será sempre infame. As maneiras de quem dá um baile serão sempre amáveis; os convidados sairão sempre penhorados. O folhetinista será sempre espirituoso: o poeta será sempre inspirado. Os irmãos terceiros serão sempre veneráveis. Os sócios de qualquer coisa mercantil serão sempre acreditados. Os meninos recém-nascidos serão sempre robustos. As viúvas serão sempre inconsoláveis. Se o ricaço der doze vinténs aos inválidos, este feito será sempre um rasgo filantrópico e a fortuna dele será sempre abençoada. Não haverá baile que não seja animado, nem jantar que não seja lauto, nem serviço que não seja abundante ou profuso, para variar. Nenhum homem rico terá amigos que não sejam numerosos. Todo o casamento será próspero. Ninguém poderá morrer que não fique sendo bom cidadão, bom pai, bom marido e terá tudo de bom.»

Hoje, tal como em 1858, as chapas continuam a ser uma rasteira para os cronistas – que somos todos nós. Ontem nos periódicos feitos a chumbo; hoje nos blogs da Internet.

José do Carmo Francisco

Uma memória de luz ou pequena dissertação sobre a Primavera

Uma tarde estava eu na Ilha de Murano
A ver o esplendor do fogo das forjas
De onde saem peixes, relógios e cavalos
Quando me lembrei da força da terra
Não da terra propriamente dita, o planeta
Mas a terra de onde viemos e nos espera

Terá sido porque tinha estado em Burano
E no caminho vi o cemitério de Veneza
Cruzando a força das rendas das mulheres
E das redes dos pescadores dessa laguna
Com a fragilidade das flores mais secas
Sobre as pedras com as datas e os nomes

José do Carmo Francisco

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Favores activos

PÚBLICO, 13 Jun Edição Porto

Pinto da Costa foi acusado de corrupção activa desportiva no caso dos alegados favores sexuais aos árbitros Jacinto Paixão, Manuel Quadrado e José Chilrito, que estão acusados de corrupção passiva.

Tudo bem, à superfície! Mas no caso de os papéis estarem invertidos, mantinha-se a acusação?
E o jornalista continuava a escrever?

Jorge Carvalheira

Linha vermelha

– Nem mais um soldado para as colónias!
– O povo libertou o grande educador da classe operária!
– Em frente pela destruição da escola capitalista!
– Passagens administrativas já!
– O proletariado revolucionário fuzilará a linha negra!

Nenhuma destas consignas está no editorial do PÚBLICO de hoje, 15 de Junho. Mas bem podia lá estar.
Mutatis mutandis, claro. E até suspeito de que os trinta dinheiros saem da mesma bolsa.

Jorge Carvalheira

O baú

Deu-lhe muito trabalho. Mas ao fim de cinco semanas tinha metido tout Leiria no computador. Descarnara-lhe as histórias uma a uma e apertara-as em fórmulas algébricas que até faziam dores à vista. Mas detectava-se já um princípio de movimento.

Passou uma noite ajustando os códigos, e quando a cabeça lhe tombava saiu a primeira frase. Num vago português, sugeria universos paralelos. Inabitáveis todos.

Decidiu então educar o programa. Não tinha Mário-Henrique querido educar o Mundo? Naquele quarto sem luz do dia, levou nisso mais uma semana, se é que o tempo lá fora passava. As latas de refrigerante rolavam pelo chão, as pizzas começaram a escassear.

Estava ele, caído de borco, no melhor dum sono, pôs-se a impressora a ronronar. Ergueu a fronte e olhou. Linhas, e mais linhas, e mais linhas. E parou. Retomou a marcha, encheu mais uma página. E prosseguiu. Sempre. Até o papel faltar.

Ele ia percorrendo, febril, as folhas. Em todas se narravam coisas com cabeça e pés, aí perpassando, ventura das venturas, um sopro de desvario. Estava inventada a máquina dos contos. A guerra das editoras não demoraria a estalar. E ele poderia, finalmente, aumentar a casa e trocar o carro.

Ninguém acreditou que ele não andara remexendo o baú do Mestre.

Jong Portugal vs. Jong Oranje

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Imagem de arquivo…

Lá vai ter de ser. Mais noventa minutos de coração despedaçado. A desejar que um ganhe,
receando que o outro perca.

Sei que a íntima festa será um pouco maior se a velha pátria vencer. Mas ir passar as próximas semanas rodeado de tristeza também não é para festas.

«Jong Oranje» é a designação habitual para tudo o que seja de ‘esperanças’ holandesas. A alusão à laranja tem a ver com a cor habitual da camisola, que por sua vez remete para a Casa de Orange, a dinastia que, de há séculos, governa o país.

O surradíssimo cliché «Laranja Mecânica» dos locutores, lá voltaremos a gramá-lo. Pobre Burgess!
A tradução «Laranja de Corda» – no limite, «Laranja-Relógio» – era bem mais exacta.

10 de Junho e cortesias

Passo o dia em Montesinho, onde dormita um Portugal cansado. Não há contrabandistas no rio Pingadeiro, nem já se passa nele a raia a salto, que a fronteira é uma porta escancarada. Vim ver o Parque Natural, desobrigar-me, talvez, de multidões. E embora seja isto uma lonjura, daqui mando cortesias à tribuna do 10 de Junho, que as distâncias de agora não são nada.
A primeira, segundo a ordem canónica, a Sua Excelência o Presidente da República. Quando falou do passado, o seu discurso trouxe-me lembranças caras, que eu já tinha por perdidas. Era uma redacção da 4ª classe, puseram-me a lê-la na festa da paróquia, haverá cinquenta anos. E o tema era a Gesta Lusa. Eu tinha sobre o assunto uma ideia muito vaga, e mais ainda seria a do povo todo que me ouvia. Mas a professora garantira-me sucesso, e assim foi. Falei dos nossos heróis, que na altura tinham marca registada, falei do orgulho nas conquistas do mar, arrisquei mesmo que Deus nos estava agradecido por causa da fé cristã, e acabei a enaltecer o comprimento da Pátria, que chegava de Lisboa à Sibéria, ou coisa assim.
No final não se calavam os aplausos, foi um dia triunfal. Para dizer tudo, foi a minha bebedeira de glória. Falo da euforia dela, porque a ressaca só chegaria mais tarde. Voltei agora a vivê-la, a bebedeira de glória, a euforia.
A segunda cortesia é a João Benard da Costa, se ma aceita. Com o jeito que ele tem, acendeu bóias na rota sobre as águas. Sempre ajudam quem quiser a atravessar o canal. Melhor só terá feito Jesus Cristo, quando acautelou a Pedro, a gritar que se afundava:
– Vê bem onde estão as pedras, minha besta!

Jorge Carvalheira

A TRADIÇÃO DA FESTA

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Das festividades em honra de Santo António, realizadas em Lisboa no século XVII, as touradas e o teatro eram considerados os divertimentos de maior agrado popular, com “verdadeiras multidões a deslocarem-se ao Rossio e ao Terreiro do Paço”, onde decorria o arraial e a feira e se armavam os palanques de madeira para a Tourada de Santo António, efectuada, ao que parece, desde os finais do século XVI, primeiro no Terreiro do Paço e depois no Rossio.

Anteriormente, as celebrações restringiam-se aos importantes actos litúrgicos, passando depois a comportar manifestações como a tourada e outros divertimentos: cavalhadas, música, danças, pantominas e fogo-de-artifício – festejos que contavam com grande adesão popular e que cessaram após o terramoto de 1755.

Soledade Martinho Costa
Festas e Tradições Portuguesas

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Marchas e Tronos

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Corria o ano de 1932 quando foram incluídas nas festividades em louvor de Santo António as “marchas populares”, com desfiles colectivos dos moradores de cada bairro da capital, ao som de músicas alegres, a obedecer, tal como as letras, os trajos dos marchantes e a própria ornamentação dos arcos enfeitados com balões, a um tema alusivo – histórico ou referente às características de cada bairro.

Poder-se-á dizer que a ideia foi apenas retomada em novos moldes, ou seja, (re)criada e (re)construída como criação lúdica de um espectáculo de rua, adoptado depois pelo povo reunido nas colectividades de recreio dos bairros da capital, que torna as marchas num símbolo festivo, popular e urbano e um dos pontos altos das festividades lisboetas, tal como então foram concebidas e hoje as conhecemos.

Soledade Martinho Costa
Festas e Tradições Portuguesas

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«Carta a mim mesmo no dia dos meus anos»

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José Luís Tavares (Santiago, Cabo Verde, 10 de Junho de 1967) faz hoje 40 anos.
O Aspirina deseja muitos. Anos, poemas. E felicita-se por poder publicar, hoje, esta

CARTA A MIM MESMO
NO DIA DOS MEUS ANOS

Como poeta nasci já quase canónico
(vede se isto não tem seu quê de cómico),
fazem-me quase um preto gentio camões —
não ligueis, que amanhã príncipe dos anões

serei. É certo que não errei o fio à vida,
seus corsos e naufrágios — fui mais fundo
que os demais? — em modo assaz rotundo
percorri-lhe as voltas, os sustos, a recaída.

Saberão vez alguma que nesta escura feira
tudo é sombra e deriva? Que nem as agudas
razões do pranto desvanecem esta surdina?

Não te iludas com os louros na cabeleira:
mais depressa se rirão das tuas agruras
dizendo «outro que não escapou à sina».

José Luís Tavares