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A valsa dos mentirosos

Nos últimos anos, tudo que o PSD fez, enquanto oposição, foi mentir. E mentir. E depois mentir ainda mais. Mentiram tanto, e tão descaradamente, que isso se tornou um modo de vida, uma maneira de estar. Qualquer assunto, qualquer acontecimento, qualquer desenvolvimento é já processado, automaticamente, segundo a melhor maneira de mentir sobre ele. E  aconteceu uma coisa curiosa, entretanto: de tanto o fazer, tantas vezes e tão naturalmente, sem serem confrontados, começaram a acreditar nas próprias mentiras. A fronteira com a realidade começou a esbater-se, tal como acontece com os comunistas, e criaram a sua própria. Isto é o que eles são neste momento: uma máquina bem oleada de spin. Ou seja, de mentira.

É por isso que me espanta a ingenuidade de quem pergunta, perante o inevitável confronto com a realidade que a governação acarreta, se entretanto “já viram a luz”, se já “perceberam a crise internacional”, se “já dão razão a Sócrates”. Espanta-me que se pense que quem vive a mentira de uma maneira tão natural e profunda possa subitamente mudar quando é governo, como se achassem que antes estavam apenas equivocados ou, no máximo. de má-fé. Não estavam, eles sabiam perfeitamente qual era a situação, as suas causas, e as soluções possíveis para sair dela. Há reputados economistas, gestores e académicos no PSD, que estavam fartos de saber o que se passava. Há lá gente inteligente. E todos eles, após cuidada análise das causas, consequências, e evolução da crise, mentiram. Processaram essa realidade para a realidade alternativa, aquela que sai cá para fora através dos média que controlam totalmente, e dos outros que se deixam controlar. Não houve melhor exemplo do que a de Miguel Frasquilho, que escrevia uma coisa nos seus relatórios profissionais, sérios e ponderados,  enquanto dizia o oposto em público com a cara mais natural do mundo. E quando confrontado, deixava a entender que, no fundo, só o escrevia porque a tal era obrigado. “Enganar o bifes”, estão a ver? É só isso, o Sócrates está a mandar isto para o abismo com as suas políticas erradas, isso é que têm de acreditar, não é no meu “relatório”.

E é este tipo de comportamento que vai continuar a acontecer agora que, no governo, têm a responsabilidade. No primeiro grande teste do embate com a realidade, o downgrade da Moody’s, vimos um exemplo do futuro. Pegar na realidade – o país, com a trajectória que segue, está condenado como a Grécia –  e transformá-la noutra coisa, um “ataque” de uma força malévola com más intenções, uma “conspiração americana” contra o Euro. Vimos quase todos os comentadores, em tom histérico, a defender esta teoria ridícula como antes celebravam e se se atiravam a Sócrates quando o rating descia. Mentir, novamente, com tal ferocidade e de maneira tão avassaladora que todo o país foi atrás. Estava criado o bode expiatório, a mentira que ocultava a situação para onde nos empurraram. O mesmo se vê agora, com o “desvio colossal” e os novos impostos. Porque eles sabem, perfeitamente, que a meta do défice é quase impossível de cumprir, que as medidas no acordo com a Troika são muito difíceis de implementar (Fusão de autarquias? Com este governo? Está certo…), que não terão força suficiente, nem competência, nem a vontade férrea para os cortes necessários, e que mesmo que tivessem o efeito recessivo é de tal maneira que as receitas são afectadas. A pescadinha de rabo na boca que ditou o falhanço das medidas na Grécia, que condenou a Irlanda, e que vai ter o mesmo efeito por cá, porque o que interessa não é cortar, é crescer. O défice, no final do ano, vai estar acima do acordado, e todos sabem isso. Todos eles. Por isso, tem de se arranjar desde já mais um bode expiatório: um “desvio” nas contas do governo anterior que escapou a toda a gente: governo, FMI, União Europeia, todos os que certificaram as contas antes do empréstimo. É importante dar a entender, para os cidadãos, que há “algo” que não se pode falar nem medir, que se sussurra à porta fechada e que é “veementemente” negado em público, mas está lá. Para no final do ano, a “folga” resultante do novo imposto servir para encobrir a incompetência (e para ser justo a impossibilidade)  em reduzir os gastos. Mais uma vez, mentir, desta vez por antecipação. É apenas a isto – mais uma mentira – que se resume o folhetim do “desvio colossal”. É tão óbvio que dói. Chegará a altura em que a anterior governação deixará de ser desculpa? Podem esperar sentados, e ter a certeza que outro bode expiatório virá. Enriquecimento ilícito, alguém? Substima-se esta gente sob própria conta e risco.

Por isso, enquanto não se convencerem do tipo de pessoas com que estão a lidar e ajustarem a estratégia de acordo com essa realidade, a imagem que o PS e o seu provável novo líder querem passar para o eleitorado vai ser, curiosamente, a mesma o PSD lhes quer colar: o partido responsável. Nessa dança de salão, eu sei quem irá conduzir, e quem se deixará guiar.

Dear Jean

No dia 11 de Julho, o primeiro-ministro grego, George Papandreou, escreveu uma carta a Jean Claude Junker, carta essa que creio que será lembrada como um dos ponto de viragem desta crise. É também um documento hilariante, pela maneira magnífica como a linguagem oficial é usada para, essencialmente, mandar a União Europeia e as suas soluções à merda. O documento oficial está disponível aqui, mas isto é tão bom que faço uma transcrição comentada:

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Os limites da igualdade

Graduating students from the school were preparing to dance for Madeleine Onne, then head of the Royal Opera, in the hopes of getting a job. The students – and many more in the Swedish dance world along with them – were shocked when none of them were deemed to be good enough. Sweden’s ballet education had deteriorated to a level where the dancers couldn’t be employed by the country’s main institution for classical dance, and the contracts went to foreign dancers instead. How had it come to this?

Uma lição sueca.

O homem transparente

Ninguém, fora do aparelho, sabe o que este homem defende. Ninguém, fora do aparelho, sabe quais são as suas posições, as suas convicções, qual o rumo que quer para o partido, muito menos para o país. Ninguém, fora do aparelho, o viu combater por qualquer coisa que seja, defender o que quer que seja, revoltar-se pelo que quer que seja. Da sua boca, apenas banalidades tiradas da “Enciclopédia das generalidades em política”, estudadas ao milímetro para não provocar polémica e não o comprometer. Todas as críticas para os adversários internos são indirectas, entendidos, meias-palavras, frases assassinas no sentido da morte pelo tédio, ditas apenas nas alturas convenientes.  Todas as críticas para os adversários externos são suaves, “responsáveis”, politicamente correctas, submissas para não ofender e não “crispar”, podemos ser todos amigos não é, claro que aplaudo de pé, Sr. Presidente, olha o “respeito institucional”. Comparado com ele, o Jaime Gama parece o Hugo Chavez. Este homem é a encarnação da abominável expressão “fulano esteve menos feliz”. Não tem chama, não provoca qualquer tipo de entusiasmo, não ofende, não ameaça, não nada. É o politico genérico, marca branca. Para efeitos práticos, não existe. O anti-Sócrates de tal maneira perfeito, que o único motivo pelo qual não se aniquilaram num flash de luz é porque um deles é constituído exclusivamente de neutrões. Este homem, a ser eleito, completará o círculo de uma maneira que nem Sá Carneiro sonhava: Uma maioria, um governo, um presidente, uma oposição. Mas se calhar é bom. Depois de seis anos de governo duríssimo, e estando o futuro do país fora das nossas mãos, o PS está a precisar de uma cura de sono. E o barulho, realmente, incomoda.

A triste figura do cidadão Duarte

 

Já que temos um Rei a fingir, depois deste espectáculo lamentável, está se calhar na altura de uma abdicação a fingir. Se não ceder, proponho um regicídio com uma pistola de fulminantes, desde que concorde em fingir-se de morto. Sempre poupava a causa, e nós já agora,  a mais embaraços deste calibre.

Vir a publico defender um regime ditatorial e sanguinário que não hesita em torturar crianças para se manter no poder. Crianças! E para quê? Para que as empresas portuguesas aproveitem as “oportunidades” dadas pela “pessoa decente” responsável pela barbárie, oportunidades essas que existem graças ao boicote, mais que justificado, de outros países. Ignorem a repressão feroz, a morte, a tortura de homens, mulheres, velhos e crianças – vou repetir novamente, crianças – , a absoluta falta do mais básico sentido de humanidade, e há dinheirinho para vocês, perceberam? Foi isto que Assad o encarregou de transmitir, e que ele prontamente fez, deliciado com a importância que lhe davam.

Tinha de Duarte Pio uma imagem de alguém simpático, dado a causas humanitárias e inofensivo, como qualquer outra celebridade. Mas não é. É um tipo sem a mínima noção de decência. É este que quer ser Rei? Não obrigado, antes o Cavaco.

A realidade, já a viste?

Estás num buraco, Pedro. Já sabias que a governação ia ser difícil, tinhas plena consciência que a táctica que te obrigaram a seguir para chegares onde estás ia piorar, e muito, a situação. Era um mal necessário, pensaste. E seguiste-a, convencido que tinhas o que era preciso para uma governação dura e exigente. Todos to diziam, e tu acreditaste. E se calhar tinham razão, se calhar tinhas mesmo, até já deste indicações que sabes ser duro e implacável quando é preciso. Os teus ministros é que enfim. O que não te disseram, e não te apercebeste, era que a situação não ia ficar difícil e exigente. Ia ficar impossível. Porque a austeridade à bruta dá recessão à bruta, com austeridade a economia não cresce, sem crescimento não há maneira de pagar dívidas com juros enormes, e sem pagar as dívidas ninguém te financia os investimentos necessários para crescer, e tu não podes porque estás a pagar dívidas e juros de dívidas. Ou seja, estás tramado. Tu e nós. Que foi precisamente o que disse a agência de rating: quem emprestar dinheiro a estes tipos arrisca-se a ficar sem ele, porque estão tramados.

Portanto, chegado a este ponto, tens dois caminhos:

a) – manténs o plano da Troika, e o teu “mais além”, cortas à bruta e em grande na despesa, aumentas os impostos e os sacrifícios, sabendo que isso só agrava as condições económicas e que provocará uma recessão e um nível de desemprego brutais. E não cresces, logo a dívida não é paga, e o esforço não serve para nada. Fizeste aquilo a que te comprometeste, os resultados são o oposto do que dizias, e toda a gente te odeia.

b) – moderas os cortes, por opção ou incapacidade, para não afectar tanto a economia. A recessão e os sacrifícios são menores, mas não te permite baixar o défice como te exigem. Falhas os compromissos, a UE impôe-te mais austeridade, porque falhaste. A austeridade agrava a recessão, que provoca níveis de desemprego brutais. Não cresces, a dívida não é paga, e o esforço não serve para nada. Mudaste as tuas posições, as tais que te permitiram chegar onde estás, os resultados são o oposto do que prometeste, e toda a gente te despreza.

É que todos por essa Europa fora, os teus colegas que te apertam as mãos, sorriem e de dão pancadinhas nas costas nas cimeiras da União, sabem que estás tramado. O problema, Pedro, é que se te ajudarem a sair da situação em que te meteste ficam eles tramados com os seus eleitores, portanto esquece lá isso. Levas o mínimo essencial para não morreres, porque se morres lá se vão os bancos e a economia deles. Mas vais pagar esse suporte de vida com sangue, suor e lágrimas, porque é o que os cidadãos do resto da Europa exigem para não repetires a graça tão cedo. EU rescues are not for the faint-hearted, lembras-te?

O que não quer dizer que eventualmente não ajudem. Eles vão ajudar, que remédio têm eles se querem uma união e uma moeda. Mas só te ajudam depois de vários anos de purgatório e sofrimento, para que os nossos irmãos europeus vejam que isto não pode continuar assim e tenham pena. E passados esses anos de intenso sofrimento, todos reconhecem que o esforço foi inútil, e toda a gente te….bom, tu sabes.

Por isso, Pedro, a tua governação será essencialmente uma questão de optares entre ser odiado ou desprezado. Choose wisely. E esquece a presidência.

Pergunto eu

As pessoas que berram contra a Moody’s dizendo que não tem razões para o downgrade do rating de Portugal são as mesmas pessoas que dizem, de cara séria, que a culpa é da terrível situação deixada por Sócrates, dando por isso razão à Moody’s. Em que ficamos?

Perdidos – Temporada 1, episódio 2

Começa a confirmar-se que o PSD tinha um, e apenas um, objectivo: derrubar Sócrates. Com o objectivo único concluído, não fazem a mais pequena ideia do que fazer a seguir. Excepto aumentar impostos, observar com espanto a recessão ainda mais agravada que se segue, ir buscar dinheiro à segurança social – depois repõe-se com “o crescimento” –  tomar medidas simbólicas e avulso na despesa, cortar nos apoios aos mais frágeis – que essa malta tem é de ir trabalhar -, deixar passivamente as grandes empresas portuguesas serem tomadas de assalto por empresas estrangeiras – é o mercado, fazer o quê? – , inventar desculpas, tentar ter boa imprensa, culpar os socialistas, culpar os sindicatos, culpar os empresários, culpar as agências, culpar os mercados que não dão tréguas, spin, spin e mais spin, fingir indignação quando os governantes dos outros países nos acusarem de irresponsáveis. E as bandeirinhas, não esquecer. No fim, fogem. Vai uma aposta?

Optimismo, pois claro. Não olhes é para baixo…

Os europeus não conseguem convencer o resto do mundo que a matemática é uma questão de retórica. Os americanos brincam com fósforos no meio de um lago de gasolina. E as agências de rating, mais atentas depois de trocarem os óculos escuros por uns graduados, descobriram que a China tem tapetes com umas coisas lá debaixo.

Dito isto, continuo optimista. Os europeus vão acabar por fazer o que tem que ser feito de má vontade, como habitual – é dar tempo para conseguirem arranjar uma linguagem que dê a entender precisamente o contrário do que acordarem. Os americanos arranjam um compromisso às 23:59 do ultimo dia de negociações, também como habitualmente, e para o ano recomeçam. E os chineses censuram as agências de rating, ou arranjam um tapete maior.

Mas que isto está um barril de pólvora, lá isso está.

Chilrear

Há uma discussão por essa esquerda fora sobre que postura tem que ter o PS agora que está na oposição. Sobretudo, alguma irritação por este post do Miguel Abrantes. O PS não deve, escrevem, cair no mesmo “erro” do PSD e adoptar uma linguagem de ataque pessoal, todas as posições do partido devem ter em conta, antes de mais, o “interesse do país” e uma postura “ética”, “responsável” e de “grande dignidade”. Porque, como se sabe, cada vez que alguém na esquerda faz um ataque injusto ou violento, um passarinho deixa de cantar.

Está bem, eu percebo, fica bem dizer que se concorda, que sim senhor, assim é que deve ser a politica, com elevação e ética. É pena é ser mentira. Não é, nunca foi, nem deve ser. O que há, isso sim, é um compromisso sobre certas linhas que não devem ser ultrapassadas no combate politico, conforme a cultura e tradição do país. Nos EUA, família e religião pessoal fazem parte do discurso, e como tal são utilizados como munição, com uma naturalidade impensável por cá, para usar o exemplo mais conhecido. Nos países nórdicos, que não sigo nem de perto nem de longe mas de menção obrigatória, segundo a regra exemplun Sven, creio que não há grande tradição de campanhas pessoais difamatórias, nem elas são bem aceites pelo eleitorado, pelo que o incentivo para as utilizar é reduzido. Não há vantagem, e a vantagem é tudo em politica.

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A garantia de paz

Por muito graves que sejam os nosso problemas, por maiores que sejam os desentendimentos, mesmo que a União acabe por se desmoronar entre recriminações, ressentimentos mútuos, discursos inflamados e tensões politicas, não voltaremos nunca a uma situação de guerra geral na Europa, muito menos no mundo. As guerras mundiais acabaram em Hiroshima, curiosamente nos primórdios da globalização moderna, onde as frequentes guerras regionais que é feita a história se arriscavam a evoluir para uma escala planetária com uma eficácia nunca vista. As armas nucleares são por isso, a seguir ao cão, as melhores amigas do homem, exigindo sob ameaça de aniquilação que nos entendamos uns com os outros pacificamente. Toda a gente sabe quantas pessoas já mataram, ninguém consegue saber quantas é que já salvaram da morte pelo mero facto de existirem.

O século XX deu à humanidade o poder de se destruir, e com isso ganhámos a capacidade de o evitar. Irónico, não é?

Resgatar as armas

Os marxistas, ao lado do povo e do estado social desde o início:

In 1908, when Asquith became prime minister, there were almost no models of state welfare anywhere on earth. The exception was Bismarck’s Prussia, which to the dismay of German Social Democrats had instituted compulsory health insurance in 1883. That created a sudden panic on the left. Karl Marx had died weeks before, so the socialist leader August Bebel consulted his friend Friedrich Engels, who insisted that socialists should vote against it, as they did. The first welfare state on earth was created against socialist opposition.

(Via Sullivan)

Oposição essa que continua até hoje, sob um manto de mentiras socialmente aceites e nunca contestadas, sabe-se lá porquê. Daí a insistência em modelos insustentáveis a longo prazo e a recusa de negociações razoáveis, o ódio mal escondido à ascensão social e ao empreendedorismo, a maledicência quanto à melhoria das condições de vida da esmagadora maioria dos portugueses, o abanar de rabo demasiado óbvio quando referem a “fome” e “miséria” que atingirá a “classe trabalhadora”, o desprezo que transparece pelas instituições e rituais democráticos. A ideia não é, nem nunca foi, ajudar os cidadãos e melhorar a sociedade. A ideia é, e sempre foi, o colapso da ordem estabelecida de modo a instaurar uma nova, onde pudessem ter o poder sem oposição. Incluindo a luta contra o Estado Novo, onde derrubar uma ditadura fascista que lhes era hostil tinha como objectivo apenas a instauração de uma ditadura comunista.  Isto é anti-comunismo primário? É, sim senhor. Algumas coisas devem ser primárias, e começa a ser altura de deixar de ter vergonha de apontar o dedo a um rei tão obviamente nu. Não porque corramos algum risco, pobres coitados, as pessoas não são estúpidas e o triste destino dos estados comunistas está bem vivo na memória. Mas está na altura de perceber que no museu vivo do comunismo que se transformou o PCP, algumas armas em exposição, como os sindicatos que representam tanta classe média, tantos cidadãos, são demasiado valiosas para serem deixados nas mãos de lunáticos em fantasias totalitárias. Estamos numa daquelas alturas em que as placas tectónicas se mexem debaixo dos nossos pés, e onde o padrão de vida que os nossos bisavós, avós e pais conquistaram vai mudar. Vai mudar na Europa, e vai mudar por cá. Essa é a inevitabilidade da crise mundial. E até agora, a direita, as ideias de “livre-mercado” desregulamentado, do “cada-um-por-si”, do predomínio das instituições financeiras sobre o resto da economia, levam vantagem. Não os levo a mal por isso, são forças necessárias e é natural que defendam os seus interesses. Mas há que repor equilíbrios de poder entre os vários componentes da sociedade, e é vital que a classe média esteja representada em força, para controlar as inevitáveis tentações predatórias e os excessos. Eu não quero nacionalizar os bancos, a energia, os transportes, as grandes empresas, como a chamada “esquerda genuína”. Mas não os quero demasiado poderosos e arrogantes, gordos que nem uns porcos, “demasiado grandes para falhar”, impondo as suas condições sobre todos os outros. Quero-os saudáveis e ágeis, como parte essencial da economia de mercado que são, como parte de uma máquina cujo objectivo é a melhoria contínua das condições de vida de todos, sem excepção, e que permita a cada um realizar o seu pleno potencial. Isto é para mim o que significa esquerda, é o que significa estado social, aquele que é preciso melhorar e defender. E não são os comunistas que o vão fazer, esses não estão interessados. Somos nós.


Regresso ao futuro

Depois da aposta na ciência, universidades, investigação, eólicas e energias alternativas, educação, Magalhães, carros eléctricos, inovação tecnológica, simplificação do estado, e-government,   voltamos à era Portugal tem condições para ser (inserir ideia estúpida) da Europa.

Estamos bem entregues, sem dúvida.

Expresso da manhã

Há uma coisa que eu e o Cavaco temos em comum. Não compro jornais. Nem um. Nem de vez em quando. O máximo que chego hoje em dia a um jornal é quando tenho o vidro aberto no semáforo vermelho e fico com um desses gratuitos, porque tenho pena do tipo que é pago para tentar distribuir o máximo número de exemplares possíveis antes de ser atingido por um estafeta de mota, razão pela qual, caso não tenham reparado, mudam com frequência. Mas até isso acaba por me chatear, porque fico com o trabalho de ter de o deitar fora (pronto, reciclar) depois de confirmar pela enésima vez que não há nada lá que justificasse o derrube daquela árvore em particular. A maior parte das vezes já os recuso, para coleccionador de papeis inúteis já basta o Pacheco.

Vou ocasionalmente aos sites do Publico e do DN, mas muito pouco, uma vez que são bastante maus, de uma pobreza que chega a ser confrangedora. Estou mal habituado se calhar, já que o Guardian, o NYT e a Atlantic estão à distância de um clique. Quando algo se passa no mundo, é lá que vou. A profundidade das notícias e análises não tem rival, muito menos por cá. É provavelmente injusto, porque esses jornais têm recursos que aqui nem sonham, mas é o que é. Mais facilmente subscreveria um deles do que todos os nossos por um décimo do preço. Sou um consumidor ávido de informação, e há muito pouco no meu próprio país que me satisfaça, pelo que me vejo obrigado a recorrer a produto importado.

O que é pena, porque não vejo porque é que tem de ser assim. É certo que não deve haver muito dinheiro para mandar um repórter para o Paquistão, mas há certamente para cobrir as nossas guerras internas, e o resto é jornalismo e escrita. Saber contar uma história, fazer com que a notícia tenha interesse para quem a lê. Tão simples quanto isto, na minha opinião de leitor. E o que se vê é de uma pobreza franciscana. A maior parte limitam-se a ser reproduções, sem nenhum tipo de enquadramento ou contexto, de “este afirma isto” ou “aquele fez aquilo”. Estenografia, portanto. A esmagadora maioria das notícias esgotam-se no título, para dar um exemplo. Abre-se o link, e nada acrescentam de interesse, nada nos prende, nada demonstra que a pessoa que escreve aquilo sabe o que está a fazer, ou tem sequer interesse no que faz. Queres estar informado? Lê os títulos, e depois percorre os blogues para perceber qual o significado. Aí sim, há quem enquadre, quem desmonte, quem explique, quem sabe escrever. Dentro do jornal não vale a pena procurar, não existe lá nada. E o valor de “nada” é, por vezes, menos que zero, daí a recusa dos gratuitos, quanto mais os tradicionais, pagos. Isto é para mim muito difícil de entender, porque o conhecimento e a escrita são o essencial de um jornalista, não? Eles vivem os acontecimentos, é o trabalho deles estar informados, saber, para depois passar isso cá para fora. Ler um jornal devia ser um exercício diário de prazer, como são os estrangeiros, e os blogues, mas não é. É uma obrigação de quem sente que tem de se manter informado, e não tem escolha. É, resumindo, uma seca monumental. Não é se calhar por acaso que os artigos de jornal mais relevantes sejam as entrevistas: é o entrevistado que faz o conteúdo, não o jornalista. E mesmo assim, sobretudo nas entrevistas politicas, o que se vê é a utilização do jornal como um telefone – é para transmitir alguma coisa, para promover alguma coisa, o jornal e o jornalista são apenas meios de o fazer. Estenografia, mais uma vez. Não admira que os jornais portugueses recebam prémios gráficos: quando o conteúdo é medíocre, aposta-se na forma para tentar vender. Marketing a abrilhantar o vazio.

Estou a ser injusto? Estou, claro, mas menos do que devia. Há bons jornalistas? Há, certamente, mas parece-me que são cada vez mais uma reduzida minoria. E um jornal não vive de um ou outro que escreve melhor ou sabe mais. Vive do todo, da impressão geral que provoca, da confiança que dá ao leitor, do interesse que desperta. Vive de se tornar indispensável, de sentirmos que se não o comprarmos estamos a perder alguma coisa, a ficar mais ignorantes. Sejam sinceros: em quanto tempo despacham agora um calhamaço como o Expresso? No meu caso, quando me vem parar um exemplar às mãos, em menos de nada. Flip, flip, Miguel Sousa Tavares, flip, flip, nada que me prenda a atenção. Agora vão ao site do NYT e cliquem numa notícia. Uma qualquer, por exemplo esta, escolhida, juro, puramente ao acaso. Dentro de uma notícia simples sobre um orçamento local que não me interessa particularmente, dá vontade de ler até ao fim, porque está lá tudo explicado. O acontecimento, os factos, as reacções, o enquadramento, a história para trás, o que é que significa. É uma história ali contada com princípio, meio e fim de maneira a prender o interesse do leitor e a ensinar-lhe qualquer coisa. Jornalismo, não é? É pena haver tão pouco por cá.