Resgatar as armas

Os marxistas, ao lado do povo e do estado social desde o início:

In 1908, when Asquith became prime minister, there were almost no models of state welfare anywhere on earth. The exception was Bismarck’s Prussia, which to the dismay of German Social Democrats had instituted compulsory health insurance in 1883. That created a sudden panic on the left. Karl Marx had died weeks before, so the socialist leader August Bebel consulted his friend Friedrich Engels, who insisted that socialists should vote against it, as they did. The first welfare state on earth was created against socialist opposition.

(Via Sullivan)

Oposição essa que continua até hoje, sob um manto de mentiras socialmente aceites e nunca contestadas, sabe-se lá porquê. Daí a insistência em modelos insustentáveis a longo prazo e a recusa de negociações razoáveis, o ódio mal escondido à ascensão social e ao empreendedorismo, a maledicência quanto à melhoria das condições de vida da esmagadora maioria dos portugueses, o abanar de rabo demasiado óbvio quando referem a “fome” e “miséria” que atingirá a “classe trabalhadora”, o desprezo que transparece pelas instituições e rituais democráticos. A ideia não é, nem nunca foi, ajudar os cidadãos e melhorar a sociedade. A ideia é, e sempre foi, o colapso da ordem estabelecida de modo a instaurar uma nova, onde pudessem ter o poder sem oposição. Incluindo a luta contra o Estado Novo, onde derrubar uma ditadura fascista que lhes era hostil tinha como objectivo apenas a instauração de uma ditadura comunista.  Isto é anti-comunismo primário? É, sim senhor. Algumas coisas devem ser primárias, e começa a ser altura de deixar de ter vergonha de apontar o dedo a um rei tão obviamente nu. Não porque corramos algum risco, pobres coitados, as pessoas não são estúpidas e o triste destino dos estados comunistas está bem vivo na memória. Mas está na altura de perceber que no museu vivo do comunismo que se transformou o PCP, algumas armas em exposição, como os sindicatos que representam tanta classe média, tantos cidadãos, são demasiado valiosas para serem deixados nas mãos de lunáticos em fantasias totalitárias. Estamos numa daquelas alturas em que as placas tectónicas se mexem debaixo dos nossos pés, e onde o padrão de vida que os nossos bisavós, avós e pais conquistaram vai mudar. Vai mudar na Europa, e vai mudar por cá. Essa é a inevitabilidade da crise mundial. E até agora, a direita, as ideias de “livre-mercado” desregulamentado, do “cada-um-por-si”, do predomínio das instituições financeiras sobre o resto da economia, levam vantagem. Não os levo a mal por isso, são forças necessárias e é natural que defendam os seus interesses. Mas há que repor equilíbrios de poder entre os vários componentes da sociedade, e é vital que a classe média esteja representada em força, para controlar as inevitáveis tentações predatórias e os excessos. Eu não quero nacionalizar os bancos, a energia, os transportes, as grandes empresas, como a chamada “esquerda genuína”. Mas não os quero demasiado poderosos e arrogantes, gordos que nem uns porcos, “demasiado grandes para falhar”, impondo as suas condições sobre todos os outros. Quero-os saudáveis e ágeis, como parte essencial da economia de mercado que são, como parte de uma máquina cujo objectivo é a melhoria contínua das condições de vida de todos, sem excepção, e que permita a cada um realizar o seu pleno potencial. Isto é para mim o que significa esquerda, é o que significa estado social, aquele que é preciso melhorar e defender. E não são os comunistas que o vão fazer, esses não estão interessados. Somos nós.


13 thoughts on “Resgatar as armas”

  1. Ora cá temos mais um defensor do “capitalismo ético”. E também vai “fazer” energia nuclear sem radiações e lagosta sem colesterol?

  2. Muito bem. Tocou-lhes na ferida e nos tiques, topa-os à distância. Se as sociedades comunistas vingassem já não teríamos nem lagostas nem energia nuclear. Só fome, miséria e morte. O melhor caminho ainda não o conhecemos mas sabemos de alguns que não vamos percorrer de novo.

  3. Grande análise! É isso mesmo! O caminho do reformismo da esquerda democrática não interessa a quem quer estar sempre no “poleiro da oposição a tudo”, pois é do “não” que se alimentam.

  4. E eu que conheço os comunas como as minhas mãos. Vi-os nascer, tinha e tenho por pouca sorte alguns na família, vi-os crescer, vi-os antes e depois do 25 de Abril, estudei com alguns, trabalhei perto deles, muitas vezes em contato direto, estive com eles à mesa que é aliás o lugar onde eles são os melhores, especialmente se a comezaina for a pagar por exemplo, por uma Câmara Municipal. O vinho será o melhor da casa, o narisco será abundante, ninguém pergunta quanto custa. Para quê, quem paga é o contribuinte. Portanto é gente da boa, recomendável e o post está realmente a acertar em cheio na muge. O retrato é perfeito.

  5. Basta de contos do Vegário. Este coca-bichinhos acabou mesmo agora de descobrir que o comunismo é uma coisa muito má. Calhando, daqui a uma ou duas semanas está a passar graxa seguida de lustro aos gajos que inventaram o dito cujo muito malvado, pouco lhe importando que um ou outro que o lê considere isso produto duma mentalidade que anda a precisar de meias-solas nas botas da independência. Parece eu que estou a ouvir um gajo a assobiar na plateia que me garante ter uma lista dos fundadores do PS e que a maior parte dos que constam nela tiraram a recruta no PCP. A tropa é a mesma, os regimentos é que são diferentes.

  6. ahahah, “contos do Vegário”. estiveste bem Kalimatanos. :’D

    Devias é ter parado aí. E essa histórica ligação ao PCP, assim como o mito da “luta anti-fascista” é o que lhe permite ainda ser tratado com a condescendência que se vê. But guess what? Essa geração está a mudar, para outra que não vê razão nenhuma para terem um estatuto de excepção.

  7. Muito bem.

    Mas ali o KALIMATANOS vem por aí abaixo e desfaz-nos a todos: é um verdadeiro anti-socialista primário! Coitadito…

    Há contudo que realçar uma coisa importante nisto do anti-comunismo, porque eu sou como o Manteigas, não só os conheço bem, como os consigo compreender. Ser anti-comunista, mais primário ou mais elaborado, NÃO é ser anti-Comunistas. Isto, sobretudo para quem ainda sofreu inenarráveis injustiças e arbitrariedades, faz muita diferença ser dito, ou ficar por dizer.

    Porque quem lutava e dava a vida pelo ideal comunista nos anos 30 e 40 não o fazia cínicamente, para “impor uma Ditadura” em Portugal. Há que ser frontal e directo, mas há igualmente que saber contextualizar as acções individuais e colectivas na História.

    Eu hoje, declarando-me anti-comunista e partilhando das convicções essenciais deste texto, tenho a serena convicção de que, em defesa dos meus ideais de hoje, no Portugal dos anos 30, ou na França dos anos da Ocupação, muito provávelmente seria um convicto Comunista, sobretudo se tivesse vinte anos e fosse pouco versado e instruído, como eram a esmagadora maioria do Jovens desses tempos, que tantas vezes nem eram alfabetizados, quanto mais conhecerem os meandros das votações do Reichstag nos tempos do II Império Alemão (sim, em 1883 já existia a Alemanha e Bismarck não era apenas o Chanceler da Prússia).

    E se tivesse sobrevivido às perseguições, à guerra e à tortura, talvez tivesse deixado de ser comunista após a insurreição húngara, o mais tardar com a Primavera de Praga. Mas isto já é tudo outra conversa…

  8. Esse é um bom ângulo, Anel de Soturno, e não tenho dúvidas que muitos dos que arriscaram a vida o fizeram porque acreditavam sinceramente no ideal de liberdade e que a sociedade comunista representaria isso mesmo. Mas é preciso separar o heroísmo de muitos militantes de base com os objectivos últimos da cúpula do PCP e da URSS para o nosso país. E passado esse tempo dos idealismos, com tudo o que sabemos hoje, é preciso um tipo muito especial de estupidez para ainda ligar “comunismo” com “liberdade”. Não é possível dizer que se ignora. Portanto, nos dias de hoje, ser anti-comunista (a ideologia que falhou) ou anti-comunistas (os tipos que insistem nessa ideologia) é essencialmente o mesmo.

  9. O padrão de vida a mudar — nem mais. E que construir a seguir. O que apresentar como alternativa à financeirização das sociedades. Como evitar — ou no mínimo resistir — o galope do acentuar das diferenças, a caminho de um novo suseranato de rosto empresarial. Isto é o que importa. Boa reflexão esta.

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