Expresso da manhã

Há uma coisa que eu e o Cavaco temos em comum. Não compro jornais. Nem um. Nem de vez em quando. O máximo que chego hoje em dia a um jornal é quando tenho o vidro aberto no semáforo vermelho e fico com um desses gratuitos, porque tenho pena do tipo que é pago para tentar distribuir o máximo número de exemplares possíveis antes de ser atingido por um estafeta de mota, razão pela qual, caso não tenham reparado, mudam com frequência. Mas até isso acaba por me chatear, porque fico com o trabalho de ter de o deitar fora (pronto, reciclar) depois de confirmar pela enésima vez que não há nada lá que justificasse o derrube daquela árvore em particular. A maior parte das vezes já os recuso, para coleccionador de papeis inúteis já basta o Pacheco.

Vou ocasionalmente aos sites do Publico e do DN, mas muito pouco, uma vez que são bastante maus, de uma pobreza que chega a ser confrangedora. Estou mal habituado se calhar, já que o Guardian, o NYT e a Atlantic estão à distância de um clique. Quando algo se passa no mundo, é lá que vou. A profundidade das notícias e análises não tem rival, muito menos por cá. É provavelmente injusto, porque esses jornais têm recursos que aqui nem sonham, mas é o que é. Mais facilmente subscreveria um deles do que todos os nossos por um décimo do preço. Sou um consumidor ávido de informação, e há muito pouco no meu próprio país que me satisfaça, pelo que me vejo obrigado a recorrer a produto importado.

O que é pena, porque não vejo porque é que tem de ser assim. É certo que não deve haver muito dinheiro para mandar um repórter para o Paquistão, mas há certamente para cobrir as nossas guerras internas, e o resto é jornalismo e escrita. Saber contar uma história, fazer com que a notícia tenha interesse para quem a lê. Tão simples quanto isto, na minha opinião de leitor. E o que se vê é de uma pobreza franciscana. A maior parte limitam-se a ser reproduções, sem nenhum tipo de enquadramento ou contexto, de “este afirma isto” ou “aquele fez aquilo”. Estenografia, portanto. A esmagadora maioria das notícias esgotam-se no título, para dar um exemplo. Abre-se o link, e nada acrescentam de interesse, nada nos prende, nada demonstra que a pessoa que escreve aquilo sabe o que está a fazer, ou tem sequer interesse no que faz. Queres estar informado? Lê os títulos, e depois percorre os blogues para perceber qual o significado. Aí sim, há quem enquadre, quem desmonte, quem explique, quem sabe escrever. Dentro do jornal não vale a pena procurar, não existe lá nada. E o valor de “nada” é, por vezes, menos que zero, daí a recusa dos gratuitos, quanto mais os tradicionais, pagos. Isto é para mim muito difícil de entender, porque o conhecimento e a escrita são o essencial de um jornalista, não? Eles vivem os acontecimentos, é o trabalho deles estar informados, saber, para depois passar isso cá para fora. Ler um jornal devia ser um exercício diário de prazer, como são os estrangeiros, e os blogues, mas não é. É uma obrigação de quem sente que tem de se manter informado, e não tem escolha. É, resumindo, uma seca monumental. Não é se calhar por acaso que os artigos de jornal mais relevantes sejam as entrevistas: é o entrevistado que faz o conteúdo, não o jornalista. E mesmo assim, sobretudo nas entrevistas politicas, o que se vê é a utilização do jornal como um telefone – é para transmitir alguma coisa, para promover alguma coisa, o jornal e o jornalista são apenas meios de o fazer. Estenografia, mais uma vez. Não admira que os jornais portugueses recebam prémios gráficos: quando o conteúdo é medíocre, aposta-se na forma para tentar vender. Marketing a abrilhantar o vazio.

Estou a ser injusto? Estou, claro, mas menos do que devia. Há bons jornalistas? Há, certamente, mas parece-me que são cada vez mais uma reduzida minoria. E um jornal não vive de um ou outro que escreve melhor ou sabe mais. Vive do todo, da impressão geral que provoca, da confiança que dá ao leitor, do interesse que desperta. Vive de se tornar indispensável, de sentirmos que se não o comprarmos estamos a perder alguma coisa, a ficar mais ignorantes. Sejam sinceros: em quanto tempo despacham agora um calhamaço como o Expresso? No meu caso, quando me vem parar um exemplar às mãos, em menos de nada. Flip, flip, Miguel Sousa Tavares, flip, flip, nada que me prenda a atenção. Agora vão ao site do NYT e cliquem numa notícia. Uma qualquer, por exemplo esta, escolhida, juro, puramente ao acaso. Dentro de uma notícia simples sobre um orçamento local que não me interessa particularmente, dá vontade de ler até ao fim, porque está lá tudo explicado. O acontecimento, os factos, as reacções, o enquadramento, a história para trás, o que é que significa. É uma história ali contada com princípio, meio e fim de maneira a prender o interesse do leitor e a ensinar-lhe qualquer coisa. Jornalismo, não é? É pena haver tão pouco por cá.

16 thoughts on “Expresso da manhã”

  1. É por tudo isto que acima está brilhantemente descrito que não gasto um cêntimo num jornal , semanário , revista , cá do rectângulo, há muitos , muitos meses. Prefiro os Blogs, como este ,onde retiro informação directamente ou sou direccionada para outra. Muito grata aos que aqui escrevem pelo que me proporcionam diáriamente.

  2. Não sei que tipo de vida tens (isto é, se te permite fazer isto), mas deixo-te aqui o meu testemunho: cafezada de manhã, JN ou o Record, consoante o que estiver disponível no Alfredo’s. A seguir ao almoço, o inverso, consoante o que estiver disponível no Black & White. Durante o jantar, saltitar entre os telejornais. A seguir ao jantar, jornal local (mais uma vez, se estiver disponível).

    Durante a manhã, ou tarde, enquanto as tralhas compilam, ou os uploads se fazem, ler “as gordas” dos blogs e das edições online do Publico e do Expresso. À noite, ler com mais atenção os blogs, dando os devidos descontos à esquerda e à direita, ao socialismo e ao liberalismo, aos professores e aos pais, aos patrões e aos sindicalistas, conforme o blog.

    Formular uma opinião própria.

    Recomeçar no dia seguinte.

    (às vezes, mas muito raramente, compro a Visão – tudo o resto, nomeadamente ligado à minha vida profissional, felizmente, chega-me por via electrónica)

  3. Eu uso o JN para fazer as palavras cruzadas e o sudoku mas de borla no café. Não tenho pachorra para os ler. Antes havia o contraditório. O dizer mal do governo ou da oposição. Desde o 5 de Junho é sempre a mesma coisa. Só elogios para Passos Coelho e seus ministros.
    Este fim-de-semana foi de mais. Não é que agora todos querem ajudar Portugal principalmente a União Europeia e os jornalistas não têm vergonha de fazerem relevo.
    Quando Ângela Merkel e a dita União Europeia criticaram a oposição portuguesa por terem chumbado o PECIV não foi a comunicação social que dizia de nada valia essa ajuda. E agora já vale?
    Enquanto não se passar uns seis meses de governo a comunicação social teme em o criticar. O que o Estado paga aos jornais pela publicidade a isso os obriga e enquanto não souberem o valor da fatia há que ficar caladinhos.

  4. Muito bom. Muito bom, mesmo. Actualmente, os jornais são um deserto de ideias…e de JORNALISTAS. Sim, essa espécie em vias de extinção e não me digam que estou a ser radical.
    Que saudades do Diário de Notícias, do Lisboa, do Popular. Porque até este último dizia bem ao que vinha, não travestia em Times da Merdaleja.

  5. Uma notícia simples não é nada do que relata do fim do texto, Vega. Isso chama-se reportagem.

    Numa notícia o jornalista simplesmente relata um acontecimento, não conta uma história com principio meio e fim.

    Aliás, no nosso jornalismo cada vez se contam mais histórias e menos notícias. Mas parece que é isso que o “povo” quer, tudo bem contadinho…

  6. Já fui um leitor compulsivo de Jornais; Diários, comprava o DN e o DLisboa; ,semanários, cheguei a comprar, todas as semanas, o Expresso, o Jornal, o Independente, o Tal e Qual e, nalgumas semanas, até o Diabo e o Tempo. Hoje, não compro um único e, felizmente, não é por problemas financeiros. Não compro porque: uns acabaram; os outros tornaram-se todos monocórdicos, com a mesma matriz, a mesma parcialidade e a mesma falta de nível, isenção e qualidade. Felizmente apareceram os blogs, como este, por exemplo, que me permitem ir-me mantendo informado. Ah, compro o Le Monde Diplomatique (versão em portruguês).

  7. Numa notícia o jornalista simplesmente relata um acontecimento, não conta uma história com principio meio e fim.

    Um acontecimento não tem princípio, meio e fim? Nem contexto? Nem história?

  8. “Há bons jornalistas? Há, certamente, mas parece-me que são cada vez mais uma reduzida minoria.”

    Meu caro Vega,

    Eu diria antes que são uma “enorme” minoria.

    Parabéns pelo post, da autoria de uma excelente “contratação” do Aspirina B (quer dizer, do Rato, segundo a maledicência).

  9. Mas a crise da imprensa é geral, é internacional. A Internet torna a informação um bem menos valioso por estar tão acessível. Por outro lado, o meio digital permite um movimento de sincretismo disciplinar, e assim vemos estações de televisão a servirem notícias escritas, estações de rádio a passarem vídeos que produzem, jornais a tentarem imitar as redes sociais e os seus espaços de debate. E ainda ninguém sabe como parar a sangria e voltar a fazer dinheiro. Ora, sem dinheiro não há palhaço.

  10. Verdade, sem dúvida, há questões muito complexas sobre o futuro da imprensa escrita. A minha questão é que acho que este – o da falta de qualidade – está na base de qualquer saída que venham a tomar. Não sei qual é a solução, embora tenha a sensação que passará por abandonar um modelo de negócio rígido (imprimimos jornal, vendemos jornal) e passar a ser multifacetado – jornal impresso, edição online, ipad, telemóvel, facebook, twitter, tudo num conjunto coerente onde o produto seja acessível da maneira que me apetecer hoje. Muitas fontes de receita, nenhuma predominante. Por exemplo, admira-me que ainda ninguém se tenha lembrado de um sistema pré-pago. Compro 10€ de Público, vou gastando conforme me apetece, sem a chatice da “subscrição”.
    Mas para que qualquer destas soluções funcione, tem que despertar um desejo no consumidor de informação, e isso só se consegue com qualidade, muito acima do que existe agora. E o que me dá a sensação é que a reacção tem sido exactamente o oposto – -como a informação vale menos, toca a poupar nos custos, com a consequente perda de qualidade, que só faz com que valha ainda vez menos. Não me parece que seja o caminho, até porque se me vir restringido no acesso a algo que quero, e só quero porque é superior, posso considerar pagar por isso, como é hoje o caso do NYT. Já pensei subscrever, coisa que não me passa pela cabeça com nenhum dos nossos. Por falta de interesse. Esse é que é o problema principal, a meu ver, e o primeiro que têm de resolver se querem alguma hipótese de sobrevivência autónoma, sem depender de injecções de capital de grupos económicos que apenas os vêm como meios para atingir fins.

  11. Pois, a qualidade será sempre um parâmetro central, decisivo. Porém, esse conceito também é desvairadamente ambíguo, ou versátil, posto que se relativiza consoante os diferentes critérios das diferentes audiências. Há alta qualidade no Correio da Manhã, por exemplo, adequada ao tipo de leitores que tem.

    O problema que vejo como insanável, por agora, diz respeito à tecnologia e suas consequências. Antigamente comprávamos jornais não por lhes reconhecermos especial qualidade de escrita ou investigação, mais importante até seria a orientação política, antes por ser um hábito barato, cómodo e muito recompensador: satisfazíamos a nossa curiosidade diária de acordo com os nossos rituais (ler ao pequeno-almoço, ou ler nos transportes públicos, ou ler no trabalho, ou ao fim-de-semana, etc.). Era também um mundo favorável ao papel por só haver dois canais de televisão até aos anos 90. Depois, em 2001, com o crescimento do cabo e o aparecimento dos canais portugueses especialistas em notícias, o papel começou logo a perder importância, pois não podia acompanhar a intensidade e rapidez dessa oferta. A Internet só veio sentenciar o condenado.

  12. Eu aí ponho a ênfase na internet. Nos EUA, onde têm vários canais há décadas e cabo (i.e.CNN) há muito mais anos que nós, foi com o surgimento da internet que começou o declínio dos jornais, algo que me parece dar agora os primeiros sinais de inversão. E tens casos curiosos: o Economist, que nunca foi muito afectado, a Atlantic, que deu a volta apostando no online (deu lucros o ano passado), e é uma revista de pequena circulação, comparável, creio, à dimensão dos nossos, pelo que há esperança. O Correio da Manhã parece-me um caso à parte no sentido em que é dirigido a um público para quem a internet ainda não bateu com força, o que pode mudar nos próximos anos. Não é pela qualidade de certeza, como tablóide parece-me mesmo assim mau, mas ainda vive na era da não-escolha, tem o mercado para si. O 24 Horas, do que me apercebi, atingia uma camada de grunhos leitores bastante mais jovem, o que se calhar explica o desaparecimento.
    No restante, na imprensa “de referência” parece-me que a maneira de combater a “intensidade e rapidez” será a profundidade e a escrita. Ainda me lembro da época em que para mim, jornais e TV conviviam pacificamente – um servia para estar a par, rapidamente, do mundo, o outro para perceber os acontecimentos de outra maneira, mesmo nos jornais diários. Hoje em dia, abrindo o DN por exemplo, o que vejo é a mesma superficialidade que tenho na SIC-N, e não tenho necessidade disso. Não me acrescenta nada.

  13. Na mouche, caro Vega. Que o jornalismo português, geralmente, não conta histórias, cola panfletos. Foi a sensação que tive quando vim de França em 1974. Depois andei pelos jornais e televisões e explicaram-me que era assim, estendia-se o microfone e todos ficavam contentes. fartei-me de “levar porrada” dos críticos televisivos, dos sindicatos, da “reforma agrária”, dos manifestantes, dos colegas, por pretender fazer diferente, interpretar, entender e… contar. Hoje em dia, eu tb só muito excepcionalmente é que compro jornais ou vejo as nossas televisões. Pelos mesmos motivos.

  14. Disse Joel Costa na «Antena 2»: “nada melhor, para andar bem informado, do que ler jornais antigos”…

    A TSF, claro, é o único “jornal” que compro diáriamente. O resto, em Portugal, é tudo lixo em estado puro.

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