A realidade, já a viste?

Estás num buraco, Pedro. Já sabias que a governação ia ser difícil, tinhas plena consciência que a táctica que te obrigaram a seguir para chegares onde estás ia piorar, e muito, a situação. Era um mal necessário, pensaste. E seguiste-a, convencido que tinhas o que era preciso para uma governação dura e exigente. Todos to diziam, e tu acreditaste. E se calhar tinham razão, se calhar tinhas mesmo, até já deste indicações que sabes ser duro e implacável quando é preciso. Os teus ministros é que enfim. O que não te disseram, e não te apercebeste, era que a situação não ia ficar difícil e exigente. Ia ficar impossível. Porque a austeridade à bruta dá recessão à bruta, com austeridade a economia não cresce, sem crescimento não há maneira de pagar dívidas com juros enormes, e sem pagar as dívidas ninguém te financia os investimentos necessários para crescer, e tu não podes porque estás a pagar dívidas e juros de dívidas. Ou seja, estás tramado. Tu e nós. Que foi precisamente o que disse a agência de rating: quem emprestar dinheiro a estes tipos arrisca-se a ficar sem ele, porque estão tramados.

Portanto, chegado a este ponto, tens dois caminhos:

a) – manténs o plano da Troika, e o teu “mais além”, cortas à bruta e em grande na despesa, aumentas os impostos e os sacrifícios, sabendo que isso só agrava as condições económicas e que provocará uma recessão e um nível de desemprego brutais. E não cresces, logo a dívida não é paga, e o esforço não serve para nada. Fizeste aquilo a que te comprometeste, os resultados são o oposto do que dizias, e toda a gente te odeia.

b) – moderas os cortes, por opção ou incapacidade, para não afectar tanto a economia. A recessão e os sacrifícios são menores, mas não te permite baixar o défice como te exigem. Falhas os compromissos, a UE impôe-te mais austeridade, porque falhaste. A austeridade agrava a recessão, que provoca níveis de desemprego brutais. Não cresces, a dívida não é paga, e o esforço não serve para nada. Mudaste as tuas posições, as tais que te permitiram chegar onde estás, os resultados são o oposto do que prometeste, e toda a gente te despreza.

É que todos por essa Europa fora, os teus colegas que te apertam as mãos, sorriem e de dão pancadinhas nas costas nas cimeiras da União, sabem que estás tramado. O problema, Pedro, é que se te ajudarem a sair da situação em que te meteste ficam eles tramados com os seus eleitores, portanto esquece lá isso. Levas o mínimo essencial para não morreres, porque se morres lá se vão os bancos e a economia deles. Mas vais pagar esse suporte de vida com sangue, suor e lágrimas, porque é o que os cidadãos do resto da Europa exigem para não repetires a graça tão cedo. EU rescues are not for the faint-hearted, lembras-te?

O que não quer dizer que eventualmente não ajudem. Eles vão ajudar, que remédio têm eles se querem uma união e uma moeda. Mas só te ajudam depois de vários anos de purgatório e sofrimento, para que os nossos irmãos europeus vejam que isto não pode continuar assim e tenham pena. E passados esses anos de intenso sofrimento, todos reconhecem que o esforço foi inútil, e toda a gente te….bom, tu sabes.

Por isso, Pedro, a tua governação será essencialmente uma questão de optares entre ser odiado ou desprezado. Choose wisely. E esquece a presidência.

31 thoughts on “A realidade, já a viste?”

  1. Do texto:
    ” (Pedro) já deste indicações que sabes ser duro e implacável quando é preciso”

    Onde e quando é que este banana, esta alforreca, deu indicações de ser duro e implacável quando é preciso?
    Nossa!!!!!

  2. “Pedro” ? Porquê “Pedro” ? O homem não se chama antes José ?

    Ah, é verdade, ja estamos em Junho. Que digo em Julho. Um homem nem da conta do tempo que passa.

    Sobretudo quando não larga o vinho !!!

    Boas

  3. Segundo o Engº Sócrates a solução era cumprir o plano estabelecido com a troika. Se ele disse é porque é verdade. E actualmente há uma vantagem o PPC quer mesmo cumprir as metas orçamentais!!!!!!

  4. está muito bem. mas visto que estamos todos no mesmo barco e interessa-me bem mais o quanto nos fodemos do que o que ele se pode foder, eu sugeria que começassem a utilizar essa energia toda – num blogue tão lido como este – para dar alento. parece-me que, a esta altura, já não faz grande sentido a competição pela razão e pelo tomaláquejácomes. faz sentido é o vamos tirar o barco do fundo: nem que seja com palavras. é que as palavras, por si só, podem e devem fazer sentir – quando, como é o caso, há impotência. :-)

  5. Vega,
    o teu texto deixou-me assim um gosto doce-amargo. Doce pela inteligência e lucidez. Amargo pela inteligência e lucidez.

  6. Vega,

    Quando os teus leitores aprenderem que os patrões que manipulam o Pedro são os mesmos que pagavam ao José, ficará logo decidido por unanimidade que este escrito nem merecerá a classificação de curiosidade opiniática num futuro museu do lixo político.

    E já sei quem é que vai tomar conta deste blogue quando o Valupi apanhar uma camada de chatos com complicações pulmonares. O sucessor chegou num asteróide com origem na constelação de Léria.

  7. O PEC 4?????? Nada dos seus pressupostos estava correcto, desde logo o déficit de 2011 que já foi revisto em alta pela troika e mesmo assim não está a ser cumprido…

  8. Há uma pergunta que gostava de ver respondida: as empresas de rating só atacaram desta forma depois do nosso pedido de resgate, que lhes serviu de indicação de que estavam em presença de uma nova Grécia? Se a resposta for positiva, então seremos levados a concluir que o primeiro responsável pela nossa tragédia actual é o senhor presidente Cavaco. Porém, se for verdade que as empresas de rating fariam de qualquer modo o que estão a fazer, porque se trata de um plano mais vasto de ataque ao euro ou qualquer outra conspiração, então bem podemos pensar que se lá estivesse o José, acabava tão crucificado como o Pedro. Se esta segunda for a hipótese verdadeira até se pode dizer que Cavaco fez uma grande favor a Socrates e ao PS.
    Não lhe parece, Vega?

  9. Grande texto, Vega9000. Excelente comentário, Mário.

    Se a Esquerda está mesmo proibida de governar em Portugal, pela rejeição maciça do tecido social que controla o Poder, então que este Cálice não seja poupado aos lábios da Direita. Merece-o inteiramente. E há-de ter de bebê-lo até ao fim, antes que dela ele seja afastado.

    Quando passar a tormenta (se passar algum dia…), veremos o perdemos por não termos sabido impor a nós próprios a receita justa, que combinasse a austeridade com reformismo político, avanço social e regeneração administrativa.

    Deixámo-nos encurralar pelas nossas fraquezas – egoísmo, irresponsabilidade, ganância, tacanhez – e agora só nos resta mesmo expiar as nossas culpas. Mais uma vez, vai ganhar o Velho do Restelo.

    Para a próxima, que não nos esqueçamos das lições desta década finda.

  10. Bom texto Vega, eu já lhe mandei dez ideias, não é que adiantem muito, mas pelo menos não se desperdiça tanto dinheiro, pois são baratinhas.
    Pode ser que alguém as entenda.

  11. O pEC 4 estava correctíssimo, de acordo com as várias instituições europeias envolvidas. O que eles não esperavam é que houvesse uns iluminados no parlamento português que decidissem mandar tudo às urtigas, criar uma nova crise em cima da outra, fazer disparar as taxas de juro da dívida e ter de se reavaliar, com a troika, o déficit e toda a bagunça criada. Mas não duvido que estamos muito melhor assim, claro.

  12. caro vega,
    li com atenção a prosa e o seu estilo escarrapachadamente valupiano ajudou-me a sentir no aspirina, que é como quem diz em casa, para começar. Depois temos o conteúdo propriamente dito (idem no escarrapachanço), uma boa tentativa de radiografia frente-e-costas aos primeiros passos do Coelho, por assim dizer. Só que o relatório é algo redutor, convenhamos, fica um pouco a impressão de que o diagonóstico já estava escrito antes da análise… ou seja, Vega, que a tua apreciação será essencialmente uma questão de optares entre odiar ou desprezar este primeiro ministro. Choose wisely. E esquece a coerência.

  13. Caro edie,

    Acredita mesmo no que está a dizer??? É que o deficit do primeiro trimestre foi de 8,7%, e o orçamentado para o final do ano era 4.6%… nesse aspecto já não estávamos a cumprir. Até o objectivo de 5.9% de deficit vai ser difícil de atingir mesmo com as medidas impostas entretendo. Sabe o que eu lhe digo depois de casa roubada trancas na porta. O que eu não duvido é que se tivéssemos feito o trabalho de casa não estaríamos como estamos.

  14. VEGA 9000
    Os exemplos estão muito bem escolhidos e demonstram que nem deu provas nem sequer indicações.
    BANANA E ALFORRECA, GALÃ DE MASSA MÁ.

  15. Um abraço caloroso, Rui. Os Blogs também são úteis para estes breves encontros. Quanto ao essencial do texto, nada a dizer – é mesmo assim. EStavam à espera de quê, de uma medalha?

  16. Como diria o Woody Allen estamos numa encruzilhada. Um caminho conduz à catástrofe e ao mais terrível desespero. O outro leva à extinção total. Vamos rezar para que o Pedro faça a escolha certa…

  17. joão viegas, agradeço a tua simpatia em argumentares, responderes e insultares a ti mesmo num só comentário. Poupas-me trabalho ;)
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    Osvaldo, não está em causa cumprirmos as metas orçamentais. Está em causa o que acontece quando as cumprirmos.
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    Sinhã, está muito bem, mas o primeiro passo para saíres do atoleiro é reconheceres que estás nele. E acho que ainda não estamos aí.
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    edie, como te compreendo.
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    Kalimatanos, tens toda a razão. Quem paga ao Pedro é quem pagava ao José. E o Valupi, que eu veja, lida com chatos todos os dias sem problemas em especial.
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    Mário, essa questão é complexa porque há um pouco de verdade em ambas as proposições, logo podemos adoptar a teoria que gostarmos mais que tem sempre um fundo de verdade. Se queres a minha opinião sim, há um ataque ao Euro, mas mais porque este revelou fragilidades do que por motivos especulativos. Que no entanto também existem, nota, mas são oportunistas, vêm a reboque, não são a razão principal. Por outro lado, as agências aumentaram a pressão depois da crise politica, como é óbvio, pelo que a direita tem muita culpa no precipitar da crise, e sabiam-no muito bem.
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    Anel de Soturno, a beleza da coisa é que se calhar, quando chegar a altura da recuperação, vai a esquerda para o poder.
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    Teófilo M., fazes muito bem, ele precisa de todas as que encontrar.
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    rvn, agradeço a atenção, desde que a tentativa seja boa já não é muito mau, e a coerência nunca foi o meu forte. Gosto de ir mudando de opinião à medida que os acontecimentos a moldam, e transmitir a minha visão das coisas neste momento em particular,com todos os seus defeitos e erros de julgamento, é uma das belezas de um blog, e se calhar a maior delas. Espero que daqui a uns meses os acontecimentos a mudem novamente. Mas não creio.
    Quanto ao resto, nice try, mas não me insultas assim tão facilmente. ;)
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  18. José do Carmo,
    nem mais, caríssimo amigo, estamos de acordo nessa que é a principal função da bloga, a meu ver: aproximar as pessoas pela via da comunicação, mesmo quando as opiniões são divergentes.
    e é assim por isso que quanto ao resto, na circunstância, até o essencial do texto é pormenor, nada a dizer, que seja mesmo assim, pronto, e nós cá estaremos todos para o confirmar… ou talvez não.

    ora toma lá abraço, calorosíssimo

    do

    rvn

  19. Vegupi, caríssimo Valega,
    estou certo que nunca essa ideia do insulto te terá passado pela cabeça, nada nas minhas palavras te conduz a essa leitura, (e nada de semelhante me passou pelo espírito) como bem sabes… por isso só posso interpretar esta tua resposta como o tlim-tlim de um morno cruzar de floretes, coisa só para aquecer, do tipo ‘anda lá e mostra mais, expõe-te só mais um niquinho para eu te bicar a sério’, o que não deixa de ter a sua graça, convenhamos..
    é o que eu dizia lá atrás: fazem-me sentir em casa, estas tuas palavras.
    vá lá a gente perceber porquê…:-))

    aceitas um abraço?

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