Chilrear

Há uma discussão por essa esquerda fora sobre que postura tem que ter o PS agora que está na oposição. Sobretudo, alguma irritação por este post do Miguel Abrantes. O PS não deve, escrevem, cair no mesmo “erro” do PSD e adoptar uma linguagem de ataque pessoal, todas as posições do partido devem ter em conta, antes de mais, o “interesse do país” e uma postura “ética”, “responsável” e de “grande dignidade”. Porque, como se sabe, cada vez que alguém na esquerda faz um ataque injusto ou violento, um passarinho deixa de cantar.

Está bem, eu percebo, fica bem dizer que se concorda, que sim senhor, assim é que deve ser a politica, com elevação e ética. É pena é ser mentira. Não é, nunca foi, nem deve ser. O que há, isso sim, é um compromisso sobre certas linhas que não devem ser ultrapassadas no combate politico, conforme a cultura e tradição do país. Nos EUA, família e religião pessoal fazem parte do discurso, e como tal são utilizados como munição, com uma naturalidade impensável por cá, para usar o exemplo mais conhecido. Nos países nórdicos, que não sigo nem de perto nem de longe mas de menção obrigatória, segundo a regra exemplun Sven, creio que não há grande tradição de campanhas pessoais difamatórias, nem elas são bem aceites pelo eleitorado, pelo que o incentivo para as utilizar é reduzido. Não há vantagem, e a vantagem é tudo em politica.

Acontece que por cá, essa linha já foi movida com aclamação popular. Não está no mesmo sítio, por muito que lamentemos. Está na altura de o PS reflectir sobre o que se passou desde a Casa Pia, e sobretudo no governo Sócrates, e agir em conformidade. A ética no combate politico não é muito diferente das leis da guerra. Elas não existem por nenhum imperativo humanista em especial. Elas existem, isso sim, pela regra do não faças aos outros o que não queres que te façam a ti. Pelo medo. E só funciona se ambos os lados respeitarem, senão um deles ganha uma vantagem sobre o outro, e a regra deixa de existir. Que foi exactamente o que se viu nos últimos anos, e com o sucesso que se conhece. Gostava de poder dizer que a estratégia fez ricochete, que o eleitorado rejeitou os ataques pessoais, as mentiras, a desinformação, a manipulação. Mas não posso, porque tenho que reconhecer que as pulhices tiveram sucesso, a direita correu com o PS e está agora no poder, e Sócrates tem a sua imagem manchada por anos, fora o que ainda aí vem, que esta gente não brinca. O eleitorado validou a estratégia, a caixa de pandora está um pouco mais aberta, e as regras automaticamente mudaram. Para pior, mas mudaram. E só se volta a fechar se todos quiserem, e da parte da direita só vão querer se tiverem medo, e só vão ter medo se a vantagem que gozaram se virar contra eles.

Perante isto, tenho muitas dúvidas que uma postura bem comportadinha tenha bons resultados. O PS pode, claro, manter a sua impecável ética e responsabilidade e esperar que o governo caia de podre, ou que a cobra morda a sua própria cauda, para voltar então ao poder de vestes brancas imaculadas. Para ser então novamente atacado com a mesma ferocidade, ou pior, porque há sempre a tentação de levar a coisa um pouco mais longe, ver até onde se pode ir. Ou então, deixar-se de merdas e passar a uma demonstração prática, sem rodriguinhos, que a ética politica é antes de mais do interesse deles, e que quem pela espada mata pela espada tem de esperar morrer. Não digo que passem a utilizar os mesmos métodos de mentira, por tentador que seja (e é), para também não vender completamente a alma ao demónio. Há um equilíbrio precário a manter, mas estas coisas não são isentas de riscos. Mas pelo menos alguns: tentar tomar de assalto a comunicação social, que de isenta e imparcial só tem as auto-proclamadas intenções de qualquer maneira, martelar até à exaustão todas as mentiras, manipulações e hipocrisias utilizados contra Sócrates, demonizar quem defenda este governo, os assessores, as medidas, os interesses, fugas ao segredo de justiça, histeria sobre a “liberdade de expressão”, terra queimada onde seja estritamente necessário, mas terra queimada. Com a direita, felizmente, o que não falta é munição adequada, não é preciso inventar. Se não aprenderem, pelo menos ficam a saber que, como somos de esquerda e temos outra postura ética, viramos a outra face, sim. Enquanto damos uma joelhada nos tomates.

30 thoughts on “Chilrear”

  1. “Gostava de poder dizer que a estratégia fez ricochete, que o eleitorado rejeitou os ataques pessoais, as mentiras, a desinformação, a manipulação. Mas não posso, porque tenho que reconhecer que as pulhices tiveram sucesso, a direita correu com o PS e está agora no poder, e Sócrates tem a sua imagem manchada por anos, fora o que ainda aí vem, que esta gente não brinca.”

    Uau. Sério, uau!

    O eleitorado, esse povo estúpido das berças, da província, não correu com o PS e, sobretudo, com Sócrates, por serem notoriamente incompetentes. Não, esse povo estúpido e abastardado foi enganado pela direita, esses mauzões. Que chato, este povo, sempre a emprenhar pelos ouvidos, não é? Este povo não merece este PS – porra, o povo não merece Sócrates!

    Repito, uau!

    A culpa é sempre dos outros, não é? Razão tem o Dr. Soares: o PS, agora, nem com lixívia lá vai…

  2. Estás enganado, Marco, já afirmei várias vezes que a culpa é do PS, por não ter sabido combater essa estratégia de demonização (“notoriamente incompetentes”, não é? De onde é que vem a notoriedade?). É isso que quero que mude. E onde é que falei de “povo estúpido e das berças”, diz lá?

  3. ó pá, olha queu sô das berças, vê lá comé quescreves! sócrates nem com benzina lá vai. safado.mas o passos é outro cabron, ai ca gajo tão fuleiro pás, e a passas, meus, já olharam bem prá passas, pás? a passas e a cavaca, já pensaram bem, reflictam no apocalipse pás, as ditas é que mandam neles, pás, a luxe vai perder vendas, meus, ai vai, vai.

  4. Histeria sobre a liberdade de epxressão? Acha mesmo que ha pluralismo assegurado nas televisões, jornais e radios em Portugal? Devemos então ficar caladinhos e agradecidos? Ou esperar que o Coelho entregue a RTP ao Moniz e vire contra ele a Sic e a TVI!?
    Não sou adepto da politca de terra queimada, mas não posso pactuar com este “pluralismo” de sentido único nos media em Portugal.

  5. A questão, Vega9000, é que a estratégia de emporcamento e de assassinato de carácter funcionou com (contra) Sócrates porque a comunicação social tomou partido e ajudou decisivamente. Mas creio que não me enganarei ao prever que, caso o PS entre pelo caminho de tentar pagar com a mesma moeda (ou, mesmo, com meia moeda), o tratamento mediático será muito diferente, pelo menos enquanto Passos Coelho servir os impérios mediáticos. Onde antes os ataques pessoais a Sócrates se enquadravam na “política de verdade”, estou certo que os ataques a Passos e ao PSD serão tratados como “aventureirismo” e “falta de escrúpulos e de ética democrática”. Há, por isso que ter cuidado.
    Um possível exemplo?
    Manuela Moura Guedes (MMG), após ter sido corrida do Jornal da 9 da TVI, acabou por ter direito, com trompas e fanfarra, à presença e intervenção numa das mais abjectas comissões de inquérito parlamentar de que há memória, tudo em nome da luta contra a “asfixia democrática”. A mesmíssima MMG acaba de ser corrida da SIC, segundo a própria por veto do distinto apoiante de Passos, Balsemão himself, e não creio que o circo mediático vá perder um minuto que seja a meditar sobre as reais causas da coisa, sejam elas quais forem.

  6. A Manuela desbocada já não vai para a SIC. Foi vetada por Balsemão, alegadamente por ser casada com Moniz.

    Rica desculpa! Ela ainda não se viu bem ao espelho?

  7. Correcto, José Pires, mas a questão é porque é que a comunicação social tomou partido, e o que se pode fazer para contrariar isso. Daí a expressão “tomar de assalto a comunicação social”. Foi o que o PSD fez, e é o que o PS tem de fazer, em vez de andar para aí a chorar pelos cantos que “não são isentos”. Não são, nem vão ser, e pior, agora já viram que conseguem derrubar um governo com impunidade. Já que não conseguem ser imparciais, ao menos que desequilibrem para este lado.

  8. Parabéns, José Pires. Você tem toda a razão ao afirmar que os jornais, as rádios e as televisões estão na mão do poder económico, que não gosta nada do governos socialistas. Um partido como é o PS, fundador da democracia, deixou-se enredar nas privatizações, sem cuidar do pluralismo na comunicação social. Não temos um único jornal, uma rádio ou um canal de tv que esteja próximo do PS. O Emídio Rangel tinha um projecto para um semanário, mas os efeitos da crise económica acabaram por adiar a ideia. Jornais independentes, só temos um, o Avante, mas este só fala do passado soviético, e ainda sonha com a revolução, quando hoje em dia já nem se quer existe operariado. Enfim. Sócrates foi perseguido pela comunicação social, durante seis anos. Nenhum dos “media” existentes se colocou a seu lado, para defender a “verdade” dos factos. Os jornalistas, hoje em dia, obedecem às ordens do patrão, para não perderem o seu emprego.

  9. Vega9000, julgo que a comunicação tomou partido porque as propostas políticas e económicas da direita vão ao encontro dos interesses dos patrões da comunicação social e de quem por detrás deles se movimenta. Houve, e há, a meu ver, não uma tomada de assalto, mas, antes, uma enorme confluência de interesses e enquanto ela durar Passos pode dormir descansado. Daqui resulta, creio, que a única forma de o centro-esquerda ter voz na comunicação social (a extrema esquerda, já tem, ainda que agora menos, porque o seu papel de idiota útil deixou de ter a relevância que tinha) seria a criação um grupo semelhante ao que em tempos o grupo de “O Jornal” foi. Só que isso exige, naturalmente, meios financeiros que não sei se, à esquerda, existem.

  10. Estou convencido que qualquer jornal, ideoligicamente situado no centro-esquerda, terá um enorme sucesso, até no campo empresarial, devido a hoje em dia não existir qualquer outro meio de informação com essa orientação. Eu, em tempos, cheguei a comprar dois jornais diários e dois semanários. Actualmente não compro nenhum e, como eu, penso que haverá muitos milhares de portugueses. Televisão na minha casa raramente é aberta; sómente para alguns (poucos) programas específicos e para alguns canais de cabo internacionais. Também aqui existe um enorme vazio que, estou plenamente convencido, é comum a muitos e muitos milhares de portugueses.

  11. Sou contra este governo. Acaba de assumir funções e a ministra da justiça já declarou um ataque pessoal contra a minha pessoa. É um ultraje.

  12. A moeda te troca tem quem ser a mesma.
    Espero que o silencio termine e que alguém com tomates mostre ao povo votante que esta pandilha mentiu e que teve como apoiantes os dirigentes lacaios dos partidos que se dizem à esquerda do PS.

  13. Caro Vega, já discutimos sobre isto antes, mas desta vez estou muito de acordo com o teu texto. Não gostarei de ver o PS a usar a mesma sordidez que foi usada durante longos anos contra si, mas concordo que as fronteiras foram colocadas noutros locais, longe da ética que defendo, mas quem as mudou de lugar não fui eu, nem gente como eu, por isso aguentem-se à bronca.
    Ainda ontem tive a oportunidade de ouvir o sr. ministro dos negócios estrangeiros, que faz parte de um governo que diz que não se socorre do que anteriormente aconteceu para tirar dividendos fazer exatamente o contrário com o ar mais seráfico do mundo!
    Pelos vistos, ninguém deu por ela!
    Hoje, segundo o Expresso, o corte do subsídio de natal foi decidido mesmo antes de se saberem os números do INE que, de forma alguma, podem projetar um défice final que ultrapasse o decidido. Chama-se a isto aldrabice pura, e é mais uma maneira de obter fraudulentamente uma almofada financeira para os erros que se irão cometer a curto prazo.
    O PS que abra os olhos e faça o que lhe compete sem enveredar pelo emporcalhamente de ninguém com recurso à mentira pura e dura, nem aos golpes palacianos, mas que não se arme em tolo e honesto, pois se o quiser fazer que vá para a polícia ou se dedique a morrer pregado na cruz ou lapidado numa praça qualquer.
    Na quadratura do círculo o Jorge Coelho sem nada dizer e sem atacar ninguém fez bem mais do que muitos protestos do António Costa e declarações de intenções, talvez alguém o convide para dar aulas de formação aos jovens turcos do PS, seria uma brilhante ideia.

  14. Quer dizer, a ideia é dar-lhes joelhadas nos tomates mas avisar primeiro para não nos acusarem de traiçoeiros?
    Estou a brincar, claro, pois concordo em absoluto com a estratégia que defendes de forma inteligente.
    Mas repara: entre Assis e Seguro qual consideras mais “apto” a seguir uma estratégia como a que propões? É que eu, se Seguro for líder, jamais votarei PS. Mas não estou a ver o Assis, que até já levou na cara à grande, levantar o joelho com força suficiente para fazer doer…

  15. Num sei não, Vega9000. Mesmo sem demandas éticas diferenciadoras (sempre relevantes e de efeitos mais intemporais do que a espuma que se limpa a cada maré), tenho para mim que: Olho por olho, dente prudente!

    : )))

  16. Embora compreenda a inevitabilidade do sentimento de vingança, tanto devido às pulhices e conspirações lançadas contra Sócrates como a factores psíquicos universais que fazem com que se diabolizem os estranhos e os poderosos, não iria por aí. Porque é o caminho do vale tudo, não há limites.

    Se fosse eu a mandar no maior partido da oposição, a excelência ética (não confundir com passividade e fraqueza no combate político, bem ao contrário) seria uma das características principais da proposta ideológica.

  17. shark, o líder nem é o mais importante, não é ele que dá a pancada. São os estrategas e os assessores. Mas neste caso, Assis sem dúvida.
    ___
    Valupi, não é uma questão de vingança, embora eu diga que também não é isenta de riscos, e esse é o maior deles. É uma questão de sobrevivência e posicionamento. Repara, acho muito bem quando afirmas que, se mandasses, a excelência ética teria prioridade. A ética num partido politico manda respeitar a isenção e imparcialidade da comunicação social, por exemplo, coisa que o outro partido não faz, dando-lhe uma vantagem de propaganda. Como é que neste caso prático fazes o casamento da ética e da não-passividade? Protestas pelo tratamento injusto, esperando que alguém tenha pena, ou tentas fazer o mesmo para pelo menos repor o equilíbrio?
    E na justiça, ainda mais grave, como é que fazes?

  18. É muito simples (de dizer…) e foi feito por Sócrates e sua equipa: denunciam-se e desconstroem-se os ataques, por um lado, aguenta-se a pressão e as ameaças, pelo outro.

    Importa não confundir ética com moral, neste caso. E importa ainda mais entender que a ética de um partido político dirá sempre respeito a uma qualquer integridade representada pelas acções dos seus dirigentes. Assim, se um partido reclama respeitar a independência da comunicação social e depois quererá proibir essa mesma independência por não gostar do que se está a fazer com ela, esse partido estará a exibir uma contradição – ou seja, haverá uma patente falha ética. Que o PSD seja o exemplo acabado disto é o que menos deverá incomodar um partido que lhe queira fazer oposição. E se um partido protesta contra campanhas mediáticas negras e depois aceita alinhar numa qualquer forma desse tipo de assassinatos de carácter, esse partido está simultaneamente a anunciar que não cultiva a ética – isto é, que é um partido manipulador disposto a fazer qualquer coisa para derrubar o poder vigente ou o manter a todo o custo.

    No meu partido opositor imaginário, a aposta na inteligência dos cidadãos seria o método principal para a divulgação de ideias e para o anulamento das armadilhas e conspirações lançadas pelos animais.

  19. Foi feito por Sócrates com que resultados? A perda da maioria absoluta, em primeiro lugar, a perda de eleições em segundo, e a bancarrota como resultado final, o que se vai traduzir num imenso sofrimento para a população que se diz defender, sobretudo os mais frágeis. Estas são as consequências de uma postura de “não ser incomodado” com as tácticas do adversário, e de não lhe responder adequadamente. É feio e injusto, mas é o que é.
    E para divulgares as ideias e anulares as armadilhas, convém teres a comunicação social do teu lado, ou pelo menos não a ter completamente hostil e tomada pelo adversário. Como é que se faz, não sei, mas é preciso ser feito. E não foi.

  20. A perda da maioria absoluta correspondeu a uma segunda vitória. E isso, como Sócrates disse na noite eleitoral, foi algo extraordinário. Precisamente pelas circunstâncias tão adversas em que foi obtida. Mas a perda da maioria absoluta, muito provavelmente, também seria o desfecho inevitável de um Governo reformista, mesmo sem campanhas negras. A revolta das corporações nasceu de verem os seus privilégios ameaçados, e isso é pura política. Aliás, nunca antes de Sócrates o PS tinha tido maioria absoluta, e foi preciso a fuga de Barroso e a estultícia de Santana para tal acontecer pela primeira vez.

    A perda das eleições em Junho é uma outra história, a qual se explica melhor pelas opções estratégicas de cada partido, PSD e PS. Em especial, a campanha do PS passou a mensagem de ser necessário perder, embora por pouco. Acabou por ser mais do que o previsto, e o desejável, mas que em nada afectou o sentido histórico das eleições e vantagem em passar para a oposição.

    Discordo do que dizes acerca de não se ter respondido “adequadamente” ao adversário, mas carecia de exemplos teus do que fosse o “adequado” num qualquer caso passado para elaborar mais.

    A comunicação social não é só feita pelos órgãos oficiais da dita, caso contrário a Manuela Ferreira Leite já era primeira-ministra desde Setembro de 2009. O que se tem de ter do nosso lado é a inteligência dos cidadãos, e essa está espalhada por todo o lado. Literalmente.

  21. O que viste com Sócrates foi, sobretudo, alguém a perder completamente o controlo da narrativa, passando esta a ser dominada pelos adversários, numa espiral que quando se deu por ela, já era difícil parar. Isso não pode acontecer com partido nenhum, muito menos com a dimensão do PS. Essa foi para mim a grande falha de Sócrates.
    Quando falo de uma resposta adequada, posso dar o exemplo do Freeport, que devia ter passado imediatamente a arma de arremesso quando se descobriu que tinha tido origem num membro do governo de Santana em conluio com os inspectores da PJ. Como não foi feito, provavelmente para ver se morria ali, a direita apoderou-se da narrativa novamente, e explodiu da maneira que todos vimos, com um primeiro-ministro a ter, para todos os efeitos, que provar a sua inocência.
    Outro caso seria o da homossexualidade de Sócrates, surgida no famoso artigo de opinião brasileiro. Alguém foi atrás dele, alguém investigou, alguém pediu a outro colunista brasileiro que escrevesse que o primeiro tinha sido comprado, para obrigar o outro a reagir? Nada. A posição foi a de “não vamos alimentar isso”, logo a narrativa pegou também. Até hoje, lamento.
    E no caso das escutas, porque é que não se passou imediatamente ao ataque?
    Enfim, e fora de ironias, isto são provavelmente apenas opiniões de quem percebe pouco de politica, mas sabes, quando o tipo que me passa as camisas e que é uma jóia de pessoa – de grandes conversas à ombreira da porta sobre “o país” – está completamente convencido que Sócrates é um aldrabão e que alguma há-de ter feito, não o posso levar a mal. Havia de pensar o quê?

  22. Que eu saiba por experiência própria, a que se soma a indirecta a que tive acesso, há sempre alguém, algures, à ombreira de uma porta a dizer que os governantes são aldrabões. Não precisam de Freeports e boatos paneleiros.

    Dizes que Sócrates perdeu o controlo da narrativa. Isso é consensual. Mas qual era a narrativa? E qual a causa da sua perda? Do que entendo, a única narrativa que ele perdeu foi a do investimento público, a qual foi varrida do mapa pelas opções europeias depois da crise grega, começos de 2010. Mesmo governando em minoria, caso Sócrates pudesse continuar a investir iria ter uma larga fatia do eleitorado com ele. Basta dizer que, no final de um longuíssimo processo de erosão e frustrações, um milhão e meio de cidadãos votaram pela continuação de Sócrates à frente do Governo.

  23. Não estou acordado para a politica portuguesa assim há tanto tempo, sabes, mas tenho a ideia que por muito que fossem “aldrabões” – esse standard mundial – nunca se tinha chegado por cá ao nível de violência a que se chegou com Sócrates. Ultrapassaram-se limites que nem nos EUA se permitem. E a narrativa que ele perdeu, a mais importante, foi a de que estava a fazer tudo para salvar o país no meio da tempestade. E estava, e esteve a um passo de o conseguir contra tudo e todos, para grande mérito dele. E os eleitores acabaram por entregar o poder a quem realmente o afundou, mas que controlava a narrativa. O que lhes permitiu fazê-lo com impunidade. E a narrativa dizia que Sócrates era um mentiroso compulsivo, manipulador e provavelmente corrupto, que faria tudo para salvar a pele e o poder, mesmo que isso significasse afundar o país. Consegues dar-me um exemplo, na politica que acompanhas, entre um distanciamento tão grande entre a realidade e a narrativa?
    Como é que o PS permitiu que se chegasse a isto continua a ser, para mim, um mistério.

  24. Agora estás a falar de duas narrativas: a de Sócrates e a da oposição. Sócrates dizia que fazia o possível, dando o seu melhor, para resolver os problemas; a oposição dizia que ele era incompetente e mentiroso. Estas narrativas são inevitáveis em todos os países democráticos, porque espelham o dualismo entres governantes e concorrentes. De alguma forma, com mais ou menos intensidade e folclore, Governos e oposições estão sempre a dizer o mesmo.

    De resto, ao aceitar governar num Governo minoritário, já sabia que a legislatura teria alta probabilidade de não chegar ao fim. Toda a gente sabia que estava nas mãos do PSD decidir a data para a queda do Governo. O que aconteceu poderia ter acontecido um pouco antes ou um pouco depois, em qualquer dos casos não estava nas mãos do PS.

  25. Sim, claro que tens razão, mas a minha questão original não passa por isso, é um pouco mais prosaica: tens, em qualquer país, pelo menos duas narrativas degladiando-se entre si, no tal dualismo da democracia. O que nunca tinha visto é uma delas a impôr-se de maneira tão definitiva contra a realidade, e em tempos tão fora do comum (excepto, talvez, GW Bush na segunda campanha). Nota que em qualquer país do mundo, quem mandasse o país para as mãos do FMI deliberadamente, para ganho político, seria pelo menos imediatamente denunciado. Mas nem isso aconteceu. Essa denuncia passou por “queixume” de um “incompetente”. Isso, por agora, é facto aceite.
    Para além disso, as óbvias contradições de Passos, que em condições normais lhe custariam a eleição, passaram perfeitamente ao lado. Foram branqueadas pela narrativa, que dizia que “este ao menos é honesto”, e que agora, sem surpresa, muda para “este vai fazer o que for preciso, mesmo se significar não cumprir o que tinha prometido”. Ou seja, exactamente o mesmo que Sócrates, mas do lado certo da narrativa. Achas que o PS vai conseguir contrabalançar? Duvido. Aliás, lembras-te de uma coisa que aqui escrevi com o título de “chantagem grega”? Já reparaste que começou a acontecer? A Isabel que se prepare, que a constituição não escapa, sobretudo com Seguro.
    O que o PSD faz não está nas mãos do PS, é certo, mas também não é completamente independente. O comportamento e poder de narrativa de um influencia o comportamento do outro, daí o meu pedido para que o PS faça mais neste campo. Bem mais.

  26. Pois, a tua análise realça aspectos que fazem parte da grande composição. Mas também não estás a valorizar os efeitos de desgaste que qualquer exercício de poder acarreta. Esse desgaste atinge proporções incontroláveis em contexto de dupla crise internacional e da Zona Euro, ambas gigantescas e inauditas.

    Creio que Passos sobreviveu aos disparates todos que preencheram a sua campanha porque o eleitorado leu bem o desejo de Sócrates. O PS não queria continuar a governar, e vários dirigentes o disseram antes e depois das eleições.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.