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Grandes derrotas

Nobre não vai para presidente do parlamento, poupando o PSD a uma avalanche de embaraços nos próximos meses. Passos confirma o mito em construção do “homem de palavra” perante os portugueses, alguém que não tem medo de “perder” pelas suas “convicções” (duas votações duas. Ele tentou a sério, não foi?). Ah, valente. Portas mostra que não anda a mando de ninguém, muito menos de Passos. E no final, o nome proposto é o de uma mulher, Assunção Esteves, gerando um capital de simpatia imenso e dando a imagem de um primeiro-ministro “inovador” e que não cede perante “os barões”.

Vitória em toda a linha de Passos Coelho. Foi uma jogada cínica e hipócrita, mas foi uma grande jogada.

A pedagogia de Passos Coelho

Confesso que a composição deste governo foi, para mim,  uma surpresa. Tantas caras inexperientes novas. Para quem estava à espera da imunda tralha cavaquista, não se pode dizer que os piores receios se tenham materializado. O que é uma reacção semelhante à ocorrida quando do debate Passos-Sócrates: as expectativas eram tão baixas que basta o desastre não ser total para se qualificar como uma vitória. O novo governo está a ser avaliado numa primeira fase pela mesma bitola e  merece, pelo menos, o benefício da dúvida só graças a isso. Durante, vá,  uns 3-4 minutos. Vamos a isso:

 

Agora que já despachámos esta necessária parte, dá-me a sensação de que vai ser testada uma coisa importante neste próximo governo: o mito das “pessoas competentes” em vez dos “políticos” como decisores. Ou seja, parece-me que ninguém põe em causa, ainda, a competência técnica e académica de Nuno Crato e Victor Gaspar, os dois mais flagrantes, mas estou muito curioso sobre a sua capacidade para implementar no terreno as decisões que tomem, e sobretudo para as inevitáveis negociações, cedências e correcções de rumo que vão ser necessárias. É que a minha ideia sobre um político não é necessariamente alguém que tenha uma noção exacta do melhor caminho, ou as melhores ideias, ou sequer saiba exactamente como chegar aos objectivos, mas sim alguém que sabe rodear-se das melhores pessoas, técnicos e académicos competentes, absorver-lhes os melhores diagnósticos, as melhores ideias e planos de acção, cabendo-lhe isso sim a tarefa de implementação e avanço dessas ideias, algo que é estritamente do foro politico. A vantagem aqui é que um bom político é necessariamente pragmático, alguém que sabe instintivamente que o óptimo é inimigo do bom, e sobretudo alguém que não tenha absolutamente problema nenhum em negociar, ceder, diluir, ou até acabar com algumas ideias, por melhores que sejam, quando reconhece que é politicamente impossível fazê-las passar (ver Obama, Barack). A maior parte das vezes, sobretudo em áreas problemáticas ou sensíveis, o melhor que se consegue é deixar um embrião, muito imperfeito, que possa ser desenvolvido e melhorado pelas próximas gerações. Isso é mais difícil de fazer quando as ideias são próprias, quando estamos cheios de certezas, quando as soluções parecem simples, estando a nossa reputação profissional e académica em jogo (já nem falo do orgulho pessoal, que espero que tenha ficado em casa), e sobretudo se fomos para o governo precisamente por causa delas, e não em resultado de uma carreira politica ou de decisor. Se as ideias de Crato ou Gaspar estiverem a dar para o torto, será que recuarão, nem que seja estrategicamente, farão uma avaliação fria, e corrigirão o caminho? Passar por essa humilhação profissional? Eu tenho a solução óbvia, há anos que digo isto, está aqui provado, preto no branco, porque é que não a aceitam e em vez disso a atacam e desvirtuam? E agora?

Veremos. Acho que a experiência poderá ser pedagógica, na medida em que talvez revele, precisamente através dos “independentes competentes”, a falta que faz um politico de casca grossa no lugar certo a fazer o que faz de melhor: usar a politica para que o conhecimento faça avançar o país. Pouco a pouco, e entre muita berraria, contestação e golpes baixos. Não é para os fracos de espírito. Espero que os “independentes” não o sejam, e talvez dêem bons políticos. Daqueles que fazem a diferença.

A chantagem grega

Se tudo correr como previsto – e lamento dizer que parece que sim, embora seja tudo muito nebuloso – teremos em breve (2 a 6 meses) a oportunidade de, pela primeira vez nesta geração, assistir ao vivo e em directo ao colapso financeiro de uma das modernas nações europeias. Não vai ser bonito, e embora as consequências para a zona Euro sejam imprevisíveis, sabemos à partida que nos põe imediatamente em cheque, e temeremos bastante pelo nosso futuro, muito mais do que agora.

Isto vai abrir uma janela de oportunidade única para Passos Coelho. Podemos contar com um tsunami mediático dedicado ao assunto na imprensa controlada ou influenciada pela direita (ou seja, toda), alarmista até às ultimas consequências. O funcionários sem salários, as falências em massa, os novos bairros de lata, as bichas do combustível, os rumores de golpe de estado. Uma coisa é ver, e até apoiar, a contestação à austeridade “imposta de fora”, como agora. Outra coisa, completamente diferente, é observar as consequências dessa contestação. O tema será: ou apoiamos o governo incondicionalmente, todas as medidas, ou somos a seguir. Reformar “com coragem” ou morrer, será dito. Constituição? Olhem a Grécia, socialistas! Querem que nos aconteça a nós? Privatizações? Olha a Grécia! SNS? Grécia! Segurança social? Grécia, porra! É preciso repetir? Greves e contestação? Vocês são estúpidos ou quê? Querem acabar como os gregos?

E por aí adiante. Apesar de não ser assim tão evidente que o que vai acontecer ao gregos se repita inevitavelmente aqui – a estratégia da UE deverá passar pela tentativa de  containment, na minha opinião, o que poderá jogar a nosso favor – do susto ninguém nos livra, e será uma estratégia de medo a ser utilizada cinicamente para moldar o país à imagem liberal. Sem a forte oposição e contestação com que todos contavam para moderar o novo governo, Portugal daqui a dois anos poderá ser um sítio muito diferente. E o azar de Sócrates será, afinal, a sorte de Passos.

Pausa publicitária

Caro blogger, comentador, jornalista, colunista. Famoso, bicos-de-pé ou anónimo. Chegou a hora de te olhares ao espelho. Não é bonito, eu sei. As olheiras, o cabelo desgrenhado, o pingo permanente no nariz que te provoca esse fungar compulsivo. As mãos que te começam, ao de leve ainda, a tremer no sacana do teclado. Caro amigo, sei que não é o sol que provoca esses suores frios, nem é a gripe que te faz tossir. A estranha irritabilidade que sentes crescer não tem nada a ver com o trânsito, por muito que culpes aquele anormal do BMW, melhor que o teu, que hoje de manhã te cortou a faixa. As sombras que julgas ver pelo canto do olho não estão lá realmente, tu sabes, mas já te arrepiam. Esse sentimento de ansiedade é crescente, embora ainda te enganes a ti mesmo ao dizer “isto já passa”. Mas é mais grave do que isso, sentes que sim. É por isso que não dormes. Não como antes.

E o problema é ele. O que já não está, que perdeu e se demitiu. Vai-se embora, o filho da mãe, sem querer saber de ti. Assim, a frio. O objecto do teu ódio, aquele que foi a razão de viveres nestes últimos anos, de escreveres, de respirares, de te relacionares com os amigos, de tantas e tantas noites de conversas à volta de jantares e copos, está agora ausente. E não volta tão cedo. E tu, caro amigo, estás a entrar em ressaca. Da forte. Tentas combater esse sentimento, agarrar as ultimas migalhas, eu sei, mas chamar xuxas ao Seguro e ao Assis não é a mesma coisa, estou certo? Não tem o mesmo efeito, nem sequer são governo. São SG ultra light, quando estavas habituado à cigarrilha sem filtro. O Passos e o Portas, tão novinhos, com o sorriso da esperança, ainda são como a tua família, não é?  Nem queres pensar numa coisa dessas, mas sabes que quando a necessidade apertar, quando os instintos vierem ao de cima, também vão marchar como gente grande. E quando vires os seus olhos marejados de lágrimas, sem acreditar na traição, verás no que te tornaste. Uma máquina de ódio, de escárnio, de maldizer, uma boca de onde apenas sai bílis, para gáudio dos que observam sem ser atingidos. Desdenhas secretamente o Vasco Pulido Valente e o Graça Moura, mas estarás em breve exactamente como eles, menos o talento. Uma besta deformada, uma atracção de freak-show, um Medina Carreira babando-se na televisão. Até o Carrilho já admiravas, vê lá a que ponto desceste. É isso que queres? É esse o legado que deixarás aos teus filhos?

Está na altura de reconheceres o problema. De dares esse primeiro passo para uma existência livre e sem vícios. E de te inscreveres na clínica de reabilitação “Vida sem Sócrates”.

O modelo de tratamento proporcionado é o comprovado modelo Minnesota, baseado na vertente humanista em que o doente é tratado de uma forma individualizada e no seu todo, quer física, quer psicológica e emocionalmente, por reconhecidos profissionais que te mostrarão, de maneira progressiva e com o mínimo de dor, o lado bom do ex-primeiro-ministro, as suas obras, visão e legado, permitindo-te, pouco a pouco, livrares-te dessa dependência através do verdadeiro conhecimento. No final, levas um diploma e uma visita à central de informação socialista, com áudio-guia gravado pelo Pacheco Pereira e onde conhecerás, finalmente, a mainframe IBM a que chamamos “Miguel Abrantes”. Não negues à partida uma politica que desconheces, e acaba com esse sofrimento. Antes que ele acabe contigo.

O tratamento personalizado tem a duração de um ano, sendo 12 a 14 semanas de internamento e os 9 meses seguintes em cuidados continuados no conforto do teu blog, coluna ou jornal. Não hesites, inscreve-te já na caixa de comentários, é livre e sem censura. Pagamento antecipado e sem direito a devolução caso o tratamento falhe. Financiamento em 24H disponível, sujeito a aprovação. Não recomendado a pessoas com QI abaixo de 70, excepto militantes do BE. Comunistas, anarquistas, revolucionários e restante maralha acresce 50% para tratamento prévio de história (via rectal) antes da admissão. Temos livro de reclamações, mas está fechado no armário e o patrão saiu.

Nostalgia da luz

 

Astrónomos com os seus telescópios poderosos em busca das origens do universo, mulheres com as suas mãos em busca dos familiares assassinados por Pinochet. Todos em busca do passado no vasto deserto de Atacama, Chile, onde a humidade é zero e tudo é cristalino. Documentário de Patricio Guzmán. Não sei se passará em Portugal. Mas devia.

Teia de dívidas

Um artigo interessante, embora um pouco técnico (mas somos todos economistas agora, não é?) sobre quem perde o quê se a Grécia entrar em default. Resumindo, os bancos europeus que têm dívida grega seguraram parte dessas dívidas junto das instituições americanas, que estão assim  também bastante expostas em caso de reestruturação. O que torna a coisa interessante, e explica, ou complica para ser mais correcto,  um pouco o que se está a passar a nível da Europa, é que a “reestruturação suave voluntária” proposta pelos políticos alemães provavelmente não seria suficiente para accionar essas garantias, pelo que os bancos europeus assumiriam as perdas sozinhos, e os americanos, que pelos vistos apostaram que não haveria reestruturação, ou que aconteceria mais tarde, não perdem nada. Por outro lado, se os gregos forem forçados ao incumprimento, os bancos europeus têm menos perdas, os americanos têm bastante mais, e os contribuintes europeus terão que suportar as perdas do BCE, que não estão seguras, sendo por isso da responsabilidades aos políticos franceses e alemães. Ou seja, como se aponta neste outro artigo,  os vários interesses políticos e financeiros estão já a negociar quem perde o quê. Daí não haver ainda acordo.

Vai ser um verão engraçado. Lindo sarilho que estamos metidos.

Regresso à normalidade

Uma das imensas vantagens de passar uns dias fora, sem acesso a notícias e a internet, é que no regresso, enquanto nos pomos ao corrente do que se passou entretanto, temos por algumas horas a sensação de que acabámos de chegar de Marte e tudo é, por esse breve período, novidade. E o que se respira nas capas de jornais e online é uma estranha sensação de regresso à normalidade. Mas não a normalidade de estar tudo novamente bem. Não é essa que falo. É aquela normalidade que acontece quando algo de excepcional chega ao fim, e regressamos todos à nossa mediocridade. As mesmas caras de sempre com as mesmas ideias imbecis e sem futuro, as mesmas auto-importâncias vazias revelando a insignificância de quem saloiamente as exibe, as intenções gulosas de tal maneira mal disfarçadas que dá a ideia que já nem se incomodam porque isto agora é tudo nosso e vão fazer o quê. Sabemos que vão falhar, sabemos que entretanto nos vão arrastar com eles, sabemos que no entanto tudo será temporário. Dois passos para a frente, um para trás. Por muito que custe, é assim que funciona e é assim que deve ser.

Não sou grande fã de analogias de futebol, mas há uma que me parece tão óbvia que não resisto a usá-la: isto soa tudo ao periodo pós-Scolari, em que depois de alguns anos em que nada era impossível, em que o título mundial estava realisticamente ao alcance, voltámos a Queiroz e à tristeza das qualificações a custo, para gáudio de quem acusava o brasileiro de nunca ter ganho nada. Tinha-se acabado o periodo excepcional em que mostrámos aquilo que éramos capazes, para voltar à mediocridade e ao desperdício de capacidades.

Mas esse regresso não é definitivo, felizmente, porque há sempre algo que fica quando passa o turbilhão. Fica, para uns, a memória indelével desse tempo em que éramos apontados no NYT como exemplo pela inovação, e para outros, os medíocres que agora se regozijam, fica o fantasma que os vai perseguir quando não o conseguirem. Rasteiraram o campeão, mas a barra continua lá. Bastante mais alta, para todos verem. Agora saltem.

Domingo de votos

 

 

Por um dia, não interessa quem és, quanto vales, o que fazes, onde chegaste, que poder tens. Por um dia, a opinião que depositas na urna é tão válida como a de um poderoso, a de um simples, a de um mestre, a de um rico , a de um remediado, a de um intelectual, a de um analfabeto. Por um dia, não és mais que os outros, e também não és menos. Por um dia, a sociedade relembra-te o que és e frequentemente esqueces: igual.

Bom voto.

Previsões meteorológicas

Se tudo correr como previsto, no dia 6, um dos candidatos mais inexperientes de sempre iniciará negociações com uma das raposas mais manhosas da politica com vista a formar um governo que tentará lançar o país no PLEC (Processo de liberalização em curso) durante a crise mais grave das ultimas décadas, sob o olhar atento de uma UE cada vez mais impaciente, irascível  e em desagregação, e com a orientação de um presidente e respectiva corte aborrecidos com a vida palaciana e com vontade de meter a mão na massa, como nos velhos tempos. Terá os conselhos de uma multidão de assessores, barões, comentadores e jornalistas que se dedicaram em exclusivo a atacar um homem que entretanto já não estará lá, e que esperam preencher esse vazio vendo o seu esforço reconhecido pelo “Pedro”, que todos conhecem e cuja carreira todos acompanharam, e que não tardarão, a partir de dia 7, a degladiar-se entre si. A extrema-esquerda e os sindicatos, vendo os seus sonhos finalmente realizados com um governo de direita, tentarão lançar o caos através de greves e manifestações sem fim, de modo a sabotar a qualquer tentativa de recuperação e reformas na esperança que o “povo”, atirado para o sofrimento, finalmente “acorde” e lhes dê o poder nas ruas. É agora ou nunca.  Terão a ajuda de um sistema bancário a tentar evitar a implosão através de uma pressão imensa sobre os clientes dos créditos à habitação – de uma classe média a ver o seu estilo de vida a esfumar-se – com o beneplácito do Banco de Portugal, provocando uma onda inédita de falências pessoais e uma chuva de casas no mercado que rebenta finalmente com o mercado imobiliário, mesmo a tempo de serem compradas a baixo preço por empresários dedicados ao arrendamento. Mais nas sombras, mas não demasiado, estarão os interesses empresariais salivando pelas partes mais suculentas das privatizações (HPP, mmmm….) em boas condições, “porque o mercado está como está”, e sem muitas perguntas sobre investidores estrangeiros, sendo que o governo apenas tem de durar o suficiente para concretizar esses negócios. Depois, já cá cantam. Logo a  seguir, os jornais descobrirão que boas notícias não vendem, e que há que recuperar a “credibilidade” que os leitores esperam.

Vai estar sol e calor, com o aguaceiro ocasional, e o Crespo continua sem ir para Washington. O que é que pode correr mal?

Notícias algo importantes

European leaders are negotiating a deal that would lead to unprecedented outside intervention in the Greek economy, including international involvement in tax collection and privatisation of state assets, in exchange for new bail-out loans for Athens.

No FT, via CNN

 

Soube-se, entretanto, que só na quinta e sexta-feiras da semana passada, os gregos levantaram €1,5 mil milhões dos bancos. O montante levantado em maio já totaliza €4 mil milhões. Em abril haviam saído dos bancos €2 mil milhões.

(…)

As forças à esquerda do governo, o KKE (partido comunista) e o SYRIZA (coligação esquerdista), bem como os sindicatos apostam no agravamento da situação estando previstas uma concentração popular a 4 de junho na praça central de Atenas e uma nova greve geral a 21 de junho.

(…)

Há, também, discordâncias sobre o plano de privatizações que, segundo Juergen Stark, membro da direcção do Banco Central Europeu, poderá valer €300 mil milhões, 6 vezes mais do que o planeado oficialmente. A primeira vaga deste plano abrange as participações do estado nos portos estratégicos gregos, aeroportos, caminhos de ferro, companhias de águas de Tessalónica e Atenas, hipódromos, empresas de telecomunicações e o banco postal. Um dos pontos difíceis de concretizar é a privatização das ilhas.

 

A Grécia pretende criar um fundo soberano com todos estes activos, mas em Bruxelas fala-se da criação de uma agência independente similar à que na Alemanha tratou da privatização dos ativos da parte leste do país depois da unificação. O comissário Olli Rehn confirmou hoje ao jornal alemão Der Spiegel essa sugestão de implementar o modelo alemão, colocada na semana passada pelo presidente do Eurogrupo, Jean-Claude Juncker. Além disso, Bruxelas pretende um envolvimento efetivo neste plano.

No Expresso

 

Não olhem agora, mas enquanto discutimos alegremente a frota de automóveis do PS e as enxadas de Passos, esta Europa está a desfazer-se perante os nossos olhos. Não sei o que é que passa nas cabeças dos líderes europeus, e não sou grande defensor dos gregos, mas isto soa-me demasiado a uma invasão de um pais soberano através de chantagem económica. A acreditar nas notícias, os gregos enfrentam uma escolha entre o colapso económico já a acontecer ou a perda de soberania forçada para os países credores. Até ao fim-de-semana, há muitas hipóteses de o governo grego se vir obrigado a congelar as contas bancárias para estancar a hemorragia. Tudo isto tresanda a desespero e desorientação, e está a tomar um rumo muito perigoso. Os exércitos de países soberanos costumam ter algumas objecções a este tipo de coisas. Impossível na Europa do Sec. XXI? Espero sinceramente que sim, vamos tentar ser optimistas, mas só o facto de se falar abertamente nessa hipótese já é preocupante.

O intragável

Pegando neste extraordinário texto da Isabel Moreira, onde num breve parágrafo explica de forma sucinta a obra feita pelo PS nestes últimos 6 anos, não posso deixar de notar uma coisa com espanto: José Sócrates é um péssimo candidato. Não sabe inspirar. Não sabe sorrir nem tem sentido de humor. O seu uso da ironia é sofrível. É muito mau nos soundbites, nas respostas ao minuto, é mau a lidar com os media e os jornalistas, que o detestam, não aproveita de maneira imediata e eficaz as imbecilidades dos outros candidatos. E são tantas. Não sabe relacionar-se com os eleitores, não lhes fala ao coração, nem por um momento sabe passar a imagem que é um de nós. Não consegue esconder a arrogância e a impaciência, já temi pelo pescoço de vários entrevistadores depois de perguntas imbecis. Ah, se o deixassem…

Resumindo, não se sabe vender. Ganhou a primeira maioria por clara falta de comparência do adversário, mas contra o Santana Lopes depois daquela desastrada governação se calhar até o Jaime Gama, esse poço de entusiasmo, ganhava. No fim de 4 anos das maiores e mais corajosas reformas que este país já viu, enfrentando as corporações que todos os eleitores dizem que devem ser enfrentadas, tendo posto o défice abaixo dos 3% pela primeira vez, investindo em industrias de futuro, pondo o nosso pais como exemplo em jornais internacionais, depois de tudo isso, esteve a um passo de perder as eleições contra uma contabilista rancorosa de um lado e um pastor da IURD de outro, sendo salvo pela desastrosa inventona do génio de Belém no último minuto e pela absoluta falta de jeito da protegida de Pacheco Pereira, ainda pior do que ele como candidata. Mas perdeu a maioria, expondo-se a um desgaste que é ainda capaz de lhe ser fatal. A ele e a nós.

O que Sócrates tem felizmente a seu favor é sobretudo uma coisa: é um excelente governante. O melhor que esta democracia já viu, incluindo (mas não restrito a) todos os outros. A lidar com politicas e números concretos, com resultados palpáveis, com visão de futuro e respectiva concretização, ninguém o bate. Mas ninguém. É se calhar por por isso que já nem sequer tentam, dando origem às estratégias de calúnias, insinuações e mentiras que, da direita à esquerda, os seus adversários se vêm obrigados a recorrer. Pela politica, pela governação, pelos números, pelos resultados não vão lá. Sócrates trucida-os, como se consegue ver nos debates parlamentares que, num gesto de crueldade gratuita, tornou quinzenais. Chega a ser penosa a demonstração de menoridade intelectual e politica que faz de quem o defronta nessa arena. Não admira que a Manuela não o queira lá sequer na oposição. Havia de ser bonito.

Mas nas campanhas, no meio do povo, lidando com os casos, falando para o país? Um desastre, penso eu. Combativo sim, ninguém lhe tira isso. Mas pergunto-me se essa combatividade não é fruto dessa dificuldade em comunicar. Porque com o currículo feito, com a obra realizada, com as reformas postas em marcha, caramba, não devia ser necessário tanto esforço. Paulo Portas, se chegasse a metade do que Sócrates fez, tinha já avenidas com o seu nome. Até no Barreiro.

O que não deixa de ter um lado positivo, pensando bem: ninguém vota no homem pelo seu magnetismo pessoal ou pelo charme, pelo que duas vitórias depois e à beira de uma terceira – ou pelo menos a vender cara a pele – no meio de uma crise gigantesca, muitos eleitores sabem apreciar antes de mais os resultados da governação e a competência. Quando todos nos querem, e mea culpa aqui, vender a ideia que a politica moderna é feita de soudbites e imagem, não deixa de ser reconfortante. Mas José, porra, se te gabasses um bocadinho mais da tua obra em vez de te entreter a demolir as propostas dos outros, morrias?

Elogio do disparate

Se pensam que a linguagem das campanhas é dura e imprópria em Portugal, é porque não conhecem o que se passa nos EUA. O nível de agressividade, falta de respeito, difamações e mentiras atinge, no país mais democrático do mundo, níveis épicos que poriam por aqui os comentadores a prever o fim da democracia para amanhã à tarde, antes do lanche. John Kerry, herói condecorado na guerra do Vietname, foi acusado na corrida presidencial de 2004 de ser um cobarde desertor responsável pela morte de homens. Dukakis foi acusado de proteger violadores. O casal Clinton de ter mandado assassinar um colaborador. Al Gore de ser um mentiroso compulsivo que se gabou de ter inventado a internet sozinho (mito que perdura até hoje). John McCain, outro herói de guerra, nas primárias contra Bush em 2000, de ter capacidades mentais diminuídas pela tortura e da sua filha adoptada ser na realidade fruto de uma relação extra-conjugal. Tudo isto nos media respeitáveis, não por campanhas de e-mails ou outros meios. E Obama, enfim. Todos sabem que foi acusado de praticamente tudo, inclusivamente de ser o anti-Cristo. E tem sido assim desde sempre, desde que há eleições livres e os homens andavam de cartola. E já nem falo das eleições locais, onde é definitivamente o vale tudo.

As sociedades funcionam assim,  têm locais e períodos  próprios para os cidadãos poderem suspender as regras da boa convivência civilizada sem que ninguém ache estranho. Quando um amigo sportinguista com lugar cativo me convida a ir ao futebol, acho bastante mais fascinante observar famílias inteiras – pai, mãe, avós e filhos – e gente de reputação – gestores, professores, distintos magistrados – a gritarem os maiores impropérios, enquanto olham cúmplices uns para os outros, do que a equipa da casa a perder. Aliás, acontece sobretudo se estiverem a perder, o que para meu deleite é frequente.  Até o meu filho já percebeu que naquele lugar, como no recreio, as regras de bom comportamento dos adultos estão temporariamente suspensas. Estamos livres dos constrangimentos normais e todos à volta compreendem até um limite muito superior ao considerado normal ou civilizado. O mesmo se passa nas campanhas eleitorais, onde respeitáveis professores, juristas, politólogos, comentadores e demais elites perdem completamente a cabeça e nos brindam com autênticos festivais de disparates que não estariam fora de sítio na tasca da aldeia dos avós, entre dois copos de tinto. Há no entanto uma vantagem crucial no meio da berraria: quando atinge níveis de disparate total, o que se torna inevitável, as pessoas tendem a identificar com mais facilidade quem consegue ser um pouco mais sensato que os outros, quem não perde completamente a cabeça. No fundo, uma campanha acaba por ser um pouco como uma governação condensada em 15 dias. Todas as pressões, toda a contestação, todos os ataques vão ser feitos em fogo rápido e intenso, em campo aberto, testando as capacidades dos candidatos até quase ao limite. A própria dinâmica de campanha revela-nos quem são os políticos que resistem a este tipo de pressões, quais os que perdem a calma, quais os que cedem aos impulsos primários, quais os que não aguentam o stress. É muito raro e difícil ganhar umas eleições apenas com campanhas de ódio, como este PSD demonstra ao estar empatado com o PS no meio da situação mais grave das ultimas décadas, porque o ódio extremado apenas beneficia o outro que não chegou tão longe, desde que saiba manter a calma e responder acertadamente denunciando que os outros cederam. A berraria, os insultos, as difamações e o disparate geral existem por um motivo, e esse motivo tem, neste período restrito, mais valor do que aqueles que destrói, como a conversa civilizada e as trocas de argumentos ponderados. Isso é para depois, quando saímos da arena de regresso à cidade, e criticamos os que se comportam como se estivessem ainda lá dentro. E criticamos com razão.

Pergunto eu

 

 

A descolagem abortada do PSD nas sondagens também foi culpa do vulcão islandês, ou deve-se a um fraco piloto? É que os numerosos passageiros com destino ao resort de São Bento estão na cabine cheios de fome, e qualquer dia dedicam-se ao canibalismo.

Não levem a mal, mas…

Uma das consequências desta crise foi a ascensão ao estrelato mediático de muitos reputados economistas, no mundo inteiro. Tornaram-se estrelas porque, num tempo de convulsões económicas, sabem transmitir as realidades complexas das finanças e mercados internacionais em linguagem acessível a praticamente todos. Hoje em dia, o cidadão leigo mas informado sabe, graças a eles,  o que são spreads, bond-markets, credit default swaps, dívida soberana, debt-to-GDP ratios, leilões de dívida, mercados secundários e primários, yelds, defaults, bondholders, haircuts, reestruturação da dívida, capitalização bancária, o Hayek, o Kaynes e o Friedman. Da minha parte, obrigado por partilharem toda esta informação, gosto de vos conhecer a todos, são pessoas de uma inteligência extraordinária, alguns verdadeiros génios. Vou ficar muito, mas muito feliz quando puderem voltar aos vossos gabinetes obscuros nas vossas instituições e bancos. Onde pertencem, e de onde nunca deviam ter saído.

Vitória em Ásculo

Estava a observar os naturais festejos da direita com a estrondosa vitória do PP em Espanha ao mesmo tempo que os juros deles e de Itália sobem, indiferentes às politicas locais, numa corrida para ver quem chega primeiro à próxima  bancarrota. Se, como há grandes hipóteses de ocorrer, o PSD vencer as eleições e formar governo com o CDS, assistiremos durante os próximos doze meses a um previsível festim de culpabilização e diabolização do PS pelo “estado em que encontrámos isto”, o que justificará o abandono ou a “impossibilidade de implementação” de muitas medidas do “extraordinário” programa eleitoral do PSD, que entusiasma tanta gente,  e a tomada de outras que lá não estão e vão passar a estar.

Cinismos políticos à parte, a questão que me ocorre, no entanto, é a seguinte: nada no programa eleitoral do PSD e CDS permite perceber onde é que vão desencantar o crescimento económico que necessitamos para sair desta situação. Pior, é bastante provável que os investimentos em ciência, tecnologia, parque escolar, renováveis, rede de carros eléctricos, qualificação via novas oportunidades, etc etc, sejam riscados do mapa das prioridades simplesmente porque são símbolos da governação de Sócrates que importará abater, para além da fixação miópica nos baixos custos de produção que a direita lê no FT ser a “nossa única hipótese”. Este, receio bem, é o nosso trágico destino. O que significa que daqui a dois anos, quando a desculpa PS estiver gasta, teremos mais uma governação falhada, uma economia provavelmente em crise profunda, uma fortíssima contestação social e, o que é mais importante,  os três partidos do arco da governação queimados pela crise. E depois, o que é que fazemos?