A chantagem grega

Se tudo correr como previsto – e lamento dizer que parece que sim, embora seja tudo muito nebuloso – teremos em breve (2 a 6 meses) a oportunidade de, pela primeira vez nesta geração, assistir ao vivo e em directo ao colapso financeiro de uma das modernas nações europeias. Não vai ser bonito, e embora as consequências para a zona Euro sejam imprevisíveis, sabemos à partida que nos põe imediatamente em cheque, e temeremos bastante pelo nosso futuro, muito mais do que agora.

Isto vai abrir uma janela de oportunidade única para Passos Coelho. Podemos contar com um tsunami mediático dedicado ao assunto na imprensa controlada ou influenciada pela direita (ou seja, toda), alarmista até às ultimas consequências. O funcionários sem salários, as falências em massa, os novos bairros de lata, as bichas do combustível, os rumores de golpe de estado. Uma coisa é ver, e até apoiar, a contestação à austeridade “imposta de fora”, como agora. Outra coisa, completamente diferente, é observar as consequências dessa contestação. O tema será: ou apoiamos o governo incondicionalmente, todas as medidas, ou somos a seguir. Reformar “com coragem” ou morrer, será dito. Constituição? Olhem a Grécia, socialistas! Querem que nos aconteça a nós? Privatizações? Olha a Grécia! SNS? Grécia! Segurança social? Grécia, porra! É preciso repetir? Greves e contestação? Vocês são estúpidos ou quê? Querem acabar como os gregos?

E por aí adiante. Apesar de não ser assim tão evidente que o que vai acontecer ao gregos se repita inevitavelmente aqui – a estratégia da UE deverá passar pela tentativa de  containment, na minha opinião, o que poderá jogar a nosso favor – do susto ninguém nos livra, e será uma estratégia de medo a ser utilizada cinicamente para moldar o país à imagem liberal. Sem a forte oposição e contestação com que todos contavam para moderar o novo governo, Portugal daqui a dois anos poderá ser um sítio muito diferente. E o azar de Sócrates será, afinal, a sorte de Passos.

9 thoughts on “A chantagem grega”

  1. Hipótese algo optimista. Se os números do desemprego subirem ainda mais com este Governo e os balanços trimestrais das contas públicas e das exportações não melhorarem até à execução do próximo Orçamento de Estado, não será o medo da Grécia que livrará os novos governantes de uma crítica feroz e contundente. As Corporações não temem o que não conhecem e o povaréu está-se nas tintas para alibis da estranja. Se as coisas correrem mal a Passos e Portas, de cima e por baixo deles o “tsunami” ainda há-de ser pior do que o previsível vendaval da Esquerda.

    É que as bancarrotas de hoje já não serão exactamente como as dos anos trinta. E ninguém está a dar a devida importância à mudança de Século. Mas ela existiu, habituem-se.

  2. Sócrates foi a uma escola conversar com as criancinhas, acompanhado de uma comitiva.
    Depois de apresentar todas as maravilhosas realizações de seu governo, disse às criancinhas que iria responder perguntas.

    Uma das crianças levantou a mão e Sócrates perguntou:
    – Qual é o seu nome, meu filho?
    – PAULINHO.
    – E qual é a sua pergunta?
    – Eu tenho três perguntas:

    1ª)Onde estão os 150.000 empregos prometidos na sua campanha eleitoral?

    2ª)Quem meteu ao bolso o dinheiro do Freeport?

    3ª)O senhor sabia dos escândalos do Face Oculta?

    Sócrates fica desnorteado, mas neste momento a campainha para o recreio toca, ele aproveita e diz que responderá depois do recreio.

    Após o recreio, Sócrates diz:
    – Porreiro pá, onde estávamos? Acho que eu ia responder a perguntas.
    Quem tem perguntas?
    Um outro garotinho levanta a mão e Sócrates aponta para ele.
    – Pode perguntar, meu filho. Como é o seu nome?
    – Joãozinho, e tenho cinco perguntas:

    1ª)Onde estão os 150.000 empregos prometidos na sua campanha eleitoral?

    2ª)Quem meteu ao bolso o dinheiro do Freeport?

    3ª)O senhor sabia dos escândalos do Face Oculta?

    4ª)Por que é que a campaínha do recreio tocou meia hora mais cedo?

    5ª)Onde está o PAULINHO??

  3. Vega 9000,

    “E o azar de Sócrates será, afinal, a sorte de Passos”.

    Por acaso não está a insinuar que ele fez de Portugal um casino?

    Errado, ele era o dono do casino.

    Quanto ao desenvolvimento do restante escrito é bem possível ver coisas nunca

    imaginadas por muito boa gente. Como será avida dos portugueses sem telenovelas e

    telemóveis? Vai ser bonito. Uma praga de miúdos a vender as coisas lá de casa em

    dimensões muito superiores à da compra dos charros.

  4. Caro Vega9000, tenho a irritante tendência de ver sempre o copo meio vazio, o que me leva a concordar com a tua teoria, no entanto, creio que os carneiros sacrificiais (Irlanda e Portugal) não irão ao altar pela simples razão de estarem na base do castelo de cartas.
    deixar ir a Grécia na enxurrada, inevitavelmente fará tremer a Alemanha, oscilar fortemente a França, entornar a inglaterra, afundar a Espanha e a Bélgica, destruir a Itália, e fazer chegar a água aos nórdicos, e por lá a água é bem gelada.
    Por outro lado não vejo os EUA a sairem incólumes desta miscelânea toda e a Ásia não está tãp forte como parece.
    Ou estes economistas de pacotilha cedem o lugar aos políticos e fazem os arranjos necessários, ou essa profissão desenvolvida nos meados do século passado acaba corrida ao chuto e ao pontapé.
    Neste momento, para ministro das finanças, mais valia escolher um bom astrólogo, pois é no futuro que este jogo se vai jogar, e como sabemos poe experiência sofrida, os economistas geralmente só acertam nos resultados no fim do jogo.

  5. Enquanto todos os outros perdem de facto eles parecem sair sempre incólumes e até ganhadores por lhes serem confiadas as reparações dos estragos que os seus desmandos ou falta de visão provocam.
    Se estivéssemos a falar em termos de baldes de cimento, seria como entregar a reconstrução do edifício desabado por má qualidade de construção ao construtor original.
    Mas claro que isto é uma generalização grosseira, assim a modos que um piropo de trolha ou um desabafo televisivo de economista ministeriável.

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