A pedagogia de Passos Coelho

Confesso que a composição deste governo foi, para mim,  uma surpresa. Tantas caras inexperientes novas. Para quem estava à espera da imunda tralha cavaquista, não se pode dizer que os piores receios se tenham materializado. O que é uma reacção semelhante à ocorrida quando do debate Passos-Sócrates: as expectativas eram tão baixas que basta o desastre não ser total para se qualificar como uma vitória. O novo governo está a ser avaliado numa primeira fase pela mesma bitola e  merece, pelo menos, o benefício da dúvida só graças a isso. Durante, vá,  uns 3-4 minutos. Vamos a isso:

 

Agora que já despachámos esta necessária parte, dá-me a sensação de que vai ser testada uma coisa importante neste próximo governo: o mito das “pessoas competentes” em vez dos “políticos” como decisores. Ou seja, parece-me que ninguém põe em causa, ainda, a competência técnica e académica de Nuno Crato e Victor Gaspar, os dois mais flagrantes, mas estou muito curioso sobre a sua capacidade para implementar no terreno as decisões que tomem, e sobretudo para as inevitáveis negociações, cedências e correcções de rumo que vão ser necessárias. É que a minha ideia sobre um político não é necessariamente alguém que tenha uma noção exacta do melhor caminho, ou as melhores ideias, ou sequer saiba exactamente como chegar aos objectivos, mas sim alguém que sabe rodear-se das melhores pessoas, técnicos e académicos competentes, absorver-lhes os melhores diagnósticos, as melhores ideias e planos de acção, cabendo-lhe isso sim a tarefa de implementação e avanço dessas ideias, algo que é estritamente do foro politico. A vantagem aqui é que um bom político é necessariamente pragmático, alguém que sabe instintivamente que o óptimo é inimigo do bom, e sobretudo alguém que não tenha absolutamente problema nenhum em negociar, ceder, diluir, ou até acabar com algumas ideias, por melhores que sejam, quando reconhece que é politicamente impossível fazê-las passar (ver Obama, Barack). A maior parte das vezes, sobretudo em áreas problemáticas ou sensíveis, o melhor que se consegue é deixar um embrião, muito imperfeito, que possa ser desenvolvido e melhorado pelas próximas gerações. Isso é mais difícil de fazer quando as ideias são próprias, quando estamos cheios de certezas, quando as soluções parecem simples, estando a nossa reputação profissional e académica em jogo (já nem falo do orgulho pessoal, que espero que tenha ficado em casa), e sobretudo se fomos para o governo precisamente por causa delas, e não em resultado de uma carreira politica ou de decisor. Se as ideias de Crato ou Gaspar estiverem a dar para o torto, será que recuarão, nem que seja estrategicamente, farão uma avaliação fria, e corrigirão o caminho? Passar por essa humilhação profissional? Eu tenho a solução óbvia, há anos que digo isto, está aqui provado, preto no branco, porque é que não a aceitam e em vez disso a atacam e desvirtuam? E agora?

Veremos. Acho que a experiência poderá ser pedagógica, na medida em que talvez revele, precisamente através dos “independentes competentes”, a falta que faz um politico de casca grossa no lugar certo a fazer o que faz de melhor: usar a politica para que o conhecimento faça avançar o país. Pouco a pouco, e entre muita berraria, contestação e golpes baixos. Não é para os fracos de espírito. Espero que os “independentes” não o sejam, e talvez dêem bons políticos. Daqueles que fazem a diferença.

20 thoughts on “A pedagogia de Passos Coelho”

  1. “É que a minha ideia sobre um político não é necessariamente alguém que tenha uma noção exacta do melhor caminho, ou as melhores ideias, ou sequer saiba exactamente como chegar aos objectivos”

    Esta tua frase é todo um programa, e bem demonstrativo do que é que nos trouxe ao limiar da bancarrota (e pela terceira vez em menos de 40 anos).

    Desculpa lá haver gente que prefira decisores políticos que saibam fazer contas.

  2. Nem por isso, Marco. Não ter a noção do melhor caminho é muito diferente do que saber onde se quer chegar, ou pelo menos progredir até ao objectivo, mesmo que não o alcancemos.

  3. “…ou pelo menos progredir até ao objectivo, mesmo que não o alcancemos.”

    Como disse o grande filósofo Mestre Yoda, “No. Try not. Do… or do not. There is no try.”

    Prefiro um erro convicto e assumido, do que um acto positivo feito pela metade, em que a culpa, como tem sido habitual, morre solteira.

    Por exemplo, eu defendi (é público, está no meu site pessoal) o aumento do IVA no ano passado. Disse, na altura: «Basicamente, e para finalizar, o Governo está a pedir a uma família perfeitamente normal que poupe menos de 20€ por mês, durante um ano e meio – até ver – para ultrapassar a crise… Eu olho para a taxa de desemprego aqui dos nuestros hermanos (20%), para os cortes salariais e aumentos de impostos que eles implementaram, e pergunto ao meu Governo: o cheque é à ordem de quem?»

    O problema é que, mais uma vez, podia ter sido uma coisa boa, mas feita pela metade deu uma bela merda. De quem é a culpa? Pois…

  4. Aí discordamos, o Yoda e eu. É muito raro conseguir implementar uma ideia de A a Z na governação, a não ser que estejas a falar de ditaduras (e mesmo assim). É a própria essência da democracia e livre expressão que o impede – e bem, na minha opinião. As coisas devem andar devagar, para que se possa a todo o momento avaliar de o caminho escolhido está correcto, quais são as consequências imprevistas, sobretudo a longo prazo, e evitarmos insistir num determinado caminho só porque já está meio feito. Eu percebo quando dizes que preferes um erro convicto e assumido, mas não deixa de ser um erro.
    Um exemplo: a avaliação de professores. Concorde-se ou não com o modelo de avaliação, e creio que estará muito longe do que foi sonhado pela então ministra, o que é certo é que o novo responsável tem já as bases feitas: a avaliação de desempenho é hoje aceite, mesmo pelos professores, como uma necessidade. Ou seja, através de um caminho muito imperfeito e cheio de contestação, passaste de uma situação em que se discutia se deveria haver progressão automática na carreira para outra em que se discute qual o modelo de avaliação a ser implementado. Se calhar não concordas, mas eu chamo a isso progresso.

  5. O exemplo da avaliação é perfeito para o que estou a dizer: a meta foi bem definida e é louvável, o caminho foi um desastre – mas foi feito até ao fim. Para merecer a minha completa aprovação (apesar, lá está, do erro), só faltou mesmo alguém assumir a borrada.

    Se se tivesse assumido claramente o erro, talvez fosse muito mais fácil definir outro caminho para a mesma meta, entre todos os participantes.

  6. Marco, não havia outro caminho, quando o que estava na base do conflito era a rejeição da avaliação, ponto final (lembras-te dos cartazes das primeiras manifestações – “Não à avaliação”?). O discurso dos sindicatos e dos próprios professores mudou numa segunda fase: passaram a dizer que até concordavam com uma avaliação, apenas não concordavam com esta. Foi esta a saída que encontraram para terem em conta a opinião pública, que discordava fortemente do “opt-out” dos professores em matéria de avaliação e os acusava de terem medo de ser avaliados, dada a sua possível incompetência.

    Portanto o que referes como um desastre não o foi. Esse era o termo que mais convinha, e convém, utilizar pelos interessados na não avaliação e por isso foi e é o mais empregue. Sei de escolas que, não percebendo nada de nada do que deviam fazer, nem querendo perceber, faziam as perguntas mais inacreditáveis e básicas ao Ministério, levando a que este emitisse papelada atrás de papelada só para responder a coisas evidentes, sendo depois acusado de excesso de burocracia. Enfim.

    A ver vamos o que faz Nuno Crato. Estou curiosa. Quando começou a escrever nos jornais e lançou o livro sobre o “eduquês”, achava-lhe piada e lia-o com interesse. A partir de certa altura, enveredou pelo chamado “plano inclinado” e deixei de ligar ao que dizia. Por isso, estou em branco. Não sei o que pensa do cheque-ensino, nem do risco da educação confessional se o ensino for privatizado, nem sequer da avaliação dos professores. Lembro-me que punha grande ênfase nos programas.

  7. Malta da sacristia socrática: deixem-se de elucubrações e sofismas balofos – o vosso generaleco falhou estrondosamente. E não há volta a dar. Vocês – sim vocês, meus socratinhos de imitação – são todos responsáveis pela maior mistificação e INCOMPETÊNCIA de que há memória na nossa história recente. E a história vai fazer-vos justiça, não duvidem. A maioria dos portugueses já o percebeu claramente e manifestou-o nas urnas. Não nos tomem por parvos. Nós sabemos quem vocês são e de que doença sofrem:

    fanatismo esquizofrénico delirante mitómano – disso têm dados provas constantemente.

    E vegazinho: deixa-te desses ares de condescendência paternalista e teoria governativa de chinela adolescente (viu-se bem no que deu a merda que andaste a defender durante anos), porque aquilo que debitas em tons professorais sobre a inexperiência parece o discurso da era pós-socrática. Basta ler-te a ti para perceber que essa é uma matéria em que és entendido: inexperiência.

    Conselho gratuito: versa/posta sobre matéria onde tenhas adquirido mais do que o nível do secundário, porque arriscas-te a estas tristes figuras de balelas insípidas. Tá, moço?

  8. Esperar para vêr. É de dar um compasso de espera para vêr se este governo vai ou não destruir o polvo da corrupção e compadrios que cresceu desmeduradamente no anterior governo e que sugou e continua a sugar o dinheiro dos contribuintes . Estamos à espera para vêr se à semelhança da mensagem transmitida pelos eleitores nas ultimas eleições legislativas que depôs o responsável pelo estado caótico deste país os dirigentes das empresas estatais e concelhias que nada produzam e que só geram prejuizos sejam substituidos e se reduzam as mordomias escandalosas que recebem. Estou a ser para já dos mais penalizados,como reformado, das medidas de restrições e não me conformo em ser sugado todos os meses, sem ter qualquer alternativa de compensação.

    Portanto, Compatriotas, vejam os factos. Desde 1996 que temos o partido socialista no Governo com a excessao de 2 anos. Hoje temos uma divida que em 1996 nao se imaginava. Tivemos um primeiro ministro eleito democraticamente, varias vezes nomeado como parte integrante de processos judicais e que se demitiu voluntariamente. Hoje temos outro Governo, também eleito democraticamente, com um programa de governo claro e um compromisso internacional ainda maior. Hoje mais do que nunca temos de estar unidos e trabalhar para sair desta situaçao dificil e deixar de parte partidarismos, bons e maus, branco ou negro. Importante acreditiar e exigir profissionalismo a quem nos governa.

  9. Gostei dessa governação de se lhe tirar o chapéu, ó tu do nick estupidamente comprido. Já leste bem o que escreves e a alucinação do teu tom, mesmo depois de o homem dar de frosques? E chamas doentes aos outros, alucinado?
    Falas em doenças, lá está, porque estás por tua conta e ninguém cuida da medicação, não é?
    Procura apoio do Estado enquanto não acabarem com o SNS, ide depressa.
    E dispenso que reveles qual é o domínio onde acumulaste a experiência que te permite empoleirares-te para cima do Vega, consigo imaginar e não me ocorre nada de bom.

  10. Penélope, no caso em concreto, qualquer pessoa com um minimozinho de experiência em dinâmicas de grupo poderia dizer que a avaliação por pares – que é diferente da validação por pares, que tão bons resultados tem dado nas áreas científicas e tecnológicas – dá granel.

    O caminho estava errado logo a abrir, mas era a ideia lá da Ministra da Educação e vamos lá embora ver no que isto vai dar. Não deu. Pedimos desculpa, a programação segue já de seguida. Então como é que preferem?

    Só que, na insistência do “eu é que sei e assim é que vai ser”, as hipóteses de diálogo reduzem-se a zero.

    Resumindo: fazer o que é preciso, sim; falhar, também é normal. É conveniente é assumir – já nem digo que seja democrático: é simplesmente adulto.

  11. pois , mas só quem percebe dos assuntos é que sabe avaliar se está rodeado dos melhores técnicos e tal. e o facto de eles próprios serem técnicos não significa que dispensem equipas , não é? até acho que a probabilidade de constituirem boas equipas é bem elevada.
    ministros que não percebem peva do que lhes calhou na rifa ? normalmente estão rodeados de nomeados políticos de competências mais que duvidosas e , o mais importante , para saber mandar , coordenar e avaliar resultados há que saber fazer..

  12. O que para aqui vai de confusões, em quase todos os comentários, entre competência política e competência técnica…

    Mas o Artigo, esse, está bastante interessante, porque ataca o mito infantil da falta de “competência técnica”, em termos restritos, de alguns dos anteriores governantes e, em termos latos, dos “políticos” portugueses dos últimos tempos em geral, digamos assim que para aí desde a saída da doutora Ferreira Leite do Governo.

    É aliás mais um mito popularucho, ou “tvi”, ou “pimba”, aquele que divide os políticos entre os “bons” – os que têm “competência técnica” (Cavaco, ou Louçã, por exemplo…) – e os maus – os que não a possuem (com Sócrates e Passos Coelho à cabeça). Isto sim, é que é “todo um Programa”, seja lá o que essa estafada muleta retórica signifique…

    Um bom político não precisa de ter competências técnicas de espécie alguma, embora possa não lhes fazer mal possuí-las. Salazar e Duarte Pacheco, por exemplo, foram óptimos políticos e tinham elevadas competências técnicas. Já Soares não as teria em tão elevado grau, mas não deixou por isso de ser tão excelente político quanto estes (só para nos ficarmos pelos portugueses bons)…

    Passos Coelho, à partida, tal como aliás Sócrates, não carece de qualquer tipo de “saber fazer contas” para poder ser um bom político. Como igualmente a maioria dos maus políticos possívelmente até poderão ser bons técnicos – vejam-se o Carmona Rodrigues, o Vítor Constâncio e tantos, tantos outros.

    De uma vez por todas, encasquete-se nas pinhas que o melhor Cirurgião do Hospital não dá forçosamente o seu melhor Administrador, nem o melhor Administrador tem que ser um emérito Professor de Medicina…

  13. a caça só abre amanhã e o coelho já foi chumbado com dois tiros do psd, espero que amanhã chova para ficar bem empoçado.

  14. Li agora que o Morais Sarmento vai para secretário de Estado das Finanças, o que responde a algumas questões…

  15. O sr Gaspar que não mecha em nada, deixe estar tudo como está e desse modo, o défice previsto e acordado, será cumprido. OK?

  16. Penélope,
    Nao é o Mogais Sagmento que estás a pensar. Este é outro, o que nao melhora as coisas.

    “O ex-director da Direcção-Geral do Orçamento (DGO) Luís Morais Sarmento deverá assumir a secretaria de Estado do Orçamento do Ministério das Finanças, avança o Diário Económico.

    Morais Sarmento é actualmente quadro do Banco de Portugal e mantém uma relação de proximidade com o actual ministro das Finanças. Foi responsável pela DGO até final de Abril do ano passado, invocando «razões pessoais» para abandonar o cargo.”

  17. Sim, sim, podem investigar-se a si mesmos enquanto classe e expurgarem os farsolas como o Nobre sem precisarem de passar por enxovalhos públicos!

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