Arquivo da Categoria: Valupi

Dominguice

Ontem, em Mirandela, uma criança de dois anos morreu atropelada acidentalmente pelo tractor conduzido por um seu avô. Deus, que observava com divina atenção o movimento da máquina, resolveu não intervir. Podia ter forçado o pé do avô a afastar-se do acelerador, podia ter provocado uma avaria no motor ou mesmo ter dado um empurrão ao menino. Teria sido um bom gasto da sua omnipotência, assim evitando a destruição absurda da vida de tanta gente. O horror que tomou conta dos dias que restarem ao velho. A agonia desesperada de quem ao perder o filho se sabe a perder o pai. O espanto dilacerante, esmagador, infernal para todos os familiares, amigos, vizinhos. Mas não, preferiu deixar acontecer.

A ser verdade que Deus há só um, pode ser que tenha enlouquecido. De solidão.

Sócrates, a paixão da pulharia

O nosso amigo Eduardo Ricardo apelou a que se comentasse uma teoria da conspiração relativa a Sócrates lançada por Júdice. Como o Aspirina B é o mais prestigiado, e de longe o mais produtivo, centro de estudos socráticos na galáxia, não há como negar esse pedido. E eis o que ocorre dizer: a lógica do argumento, a existir alguma, é um nó cego na inteligência de quem perder o seu tempo a ouvir a patarata alucinação. Ainda assim, pode oferecer momentos de gasosa fruição ver Júdice a associar António Costa à Máfia e a Don Corleone.

Mais interessante me parece registar o modus operandi da Visão a juntar-se à claque da pulharia: “Comparar Sócrates e Lula é fazer um enorme favor a José Sócrates” . Este o título escolhido para o resumo de um espaço de opinião onde “estiveram em análise os resultados das eleições no Brasil e a possibilidade de fim do regime dos vistos Gold, entre outros temas“. Como é que das eleições no Brasil e dos vistos Gold se consegue sacar um destaque centrado em Sócrates? A explicação encontra-se na presença da Mafalda Anjos, directora da revista e autora da frase. Obviamente, adorou o seu repto para não se fazerem favores a Sócrates, especialmente daqueles tipo enormes, e nesse entusiasmo consigo própria apontou os holofotes para o seu bom gosto e aquilina perspicácia. Nascia o cabeçalho. Infelizmente, não teve tempo de explicitar a tese pois apenas dispunham de 50 minutos para estarem a dizer coisas.

Quem também não teve disponibilidade temporal para justificar as suas conclusões a respeito de Sócrates foi o jornalista Nuno Aguiar, o qual deixou esta amostra da sua compreensão das problemáticas judiciais, seja em Portugal ou no Brasil: “Quanto mais sabemos do processo de José Sócrates mais desconfiados ficamos do comportamento do ex-primeiro-ministro. Pelo contrário, quanto mais ficámos a saber das acusações contra Lula, melhor percebemos a sua fragilidade.” Ou seja, quando este exímio representante do Código Deontológico do Jornalista olha para o processo de Lula acha melhor favorecer a posição da defesa, quando olha para o processo de Sócrates acha melhor favorecer a posição da acusação. Acontece que Sócrates é, neste momento, um cidadão inocente, desconhecendo-se se alguma vez será condenado por alguma coisa. E mais acontece que o seu processo está marcado por abusos das autoridades, por crimes cometidos por magistrados e jornalistas, por violência política, e ainda pela intervenção de um juiz que desmontou a acusação – recorrendo à Lei – reduzindo-a a uma fantasia motivada.

Nada disto interfere com o bilionésimo auto-de-fé de Sócrates a que a imprensa da direita se entrega apaixonadamente sempre que pode. Nem que para isso tenha de passar pelo Brasil.

Para não dizer, como muitos têm dito

"Nós não somos daqueles que se juntam aos extremos políticos só para sobreviver e governar", atirou, numa referência à "geringonça" formada por PS, PCP e Bloco de Esquerda, e concluindo que, com o Executivo socialista, as contas públicas "estão certas porque a opção (...) foi empobrecer a vida das pessoas".

O líder social-democrata falou ainda da taxa sobre lucros excessivos, que António Costa anunciou, esta semana, que deverá também ser cobrada às empresas distribuidoras. Luís Montenegro considera que Costa devia começar por cortar os "lucros excessivos" do próprio Governo.

"A empresa que, em Portugal, teve mais lucros extraordinários foi o Partido Socialista, o seu Governo e a administração central", declarou o presidente do PSD. "Aquela entidade que teve lucros extraordinários, exorbitantes, excedentários - para não dizer, como muitos têm dito, obscenos - foi o Estado socialista, o Estado que quis ganhar dinheiro à custa do efeito da inflação na economia."

Fonte + Fonte

O sorridente autor de “A vida das pessoas não está melhor mas o país está muito melhor”, nos idos de 2014, desconhece que o seu partido se aliou nos Açores a proto-fascistas xenófobos e racistas só para poder governar. Aliás, ele nem está a par do que o actual líder do PSD anda a dizer em ordem a preparar o mesmo número caso tal seja possível nas próximas legislativas.

Como estava numa iniciativa organizada pela JSD, Montenegro quis provar que não há ninguém mais infantil do que ele no laranjal, e saiu-se com essa retórica neonatal do “Estado socialista” e dos lucros do PS, do Governo e da administração central. Na aparência, trata-se apenas de umas graçolas para a rapaziada mostrar as favolas e grunhir, ou então a consequência de o terem posto em palco logo depois do animado almoço. Mas, lá nos fundilhos, isto é código para os direitolas fanáticos e broncos (não necessariamente por esta ordem), prometendo-lhes que o seu ódio à social-democracia (e à democracia ela própria) pode contar com o actual PSD. Basta que tenham paciência, tal com se fez em 2011.

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Dominguice

A pergunta mais radical que se pode verbalizar é esta: porque há alguma coisa em vez do nada? Trata-se de uma questão sem resposta possível. Interrogação que funde a própria racionalidade e arrasta a consciência para um abismo horroroso. O Inferno do infinito.

Mas essa não é a pergunta mais importante que existe à disposição da nossa inteligência. A pergunta mais valiosa, e mais difícil, que podemos conceber é a seguinte: que devo fazer?

Putin, um pobre coitado amante da paz

«Ainda sobre aquilo a que designa de operação militar na Ucrânia, Putin diz que pensa constantemente nos soldados russos mortos no país vizinho, mas que Moscovo não tinha escolha a não ser invadir solo ucraniano. "Tivemos que decidir o que fazer com o Donbass porque as pessoas viveram oito anos debaixo de fogo. Tivemos de reconhecer a sua independência", atirou, afirmando que o "próximo passo lógico" seria a incorporação da região na Federação Russa.»

Fonte

Mentira, mentira e mais mentira.

Mentira porque podia não ter invadido, ninguém atacou a Rússia nem sequer a ameaçou. Mentira porque podia ter reconhecido a independência do que quisesse e lhe apetecesse sem ter invadido. Mentira porque poderia ter invadido limitando-se a colocar forças no Donbass de forma a garantir a segurança dos seus “russos” e montar “referendos”, como fez na Crimeia.

Em vez disso, invadiu com o plano de chegar a Kiev e meter um Governo fantoche no poder, assim conseguindo anexar toda a Ucrânia.

Mas talvez a maior mentira seja a de que pensa constantemente nos soldados russos mortos na flor da idade para satisfação do seu delírio imperial. Será mais ao contrário, pensa constantemente é em formas de matar mais soldados ucranianos, à mistura com os malditos civis que querem continuar livres, só para conseguir adormecer reconfortado e sorridente.

Touché

«Numa intervenção no primeiro dia do debate da proposta do Orçamento do Estado para 2023 (OE2023), no parlamento, Catarina Martins afirmou que este é um "mau Orçamento", levando a que "quem vive do seu trabalho" irá "empobrecer".

"A direita faria igual", disse a coordenadora do Bloco de Esquerda (BE), depois de minutos antes ter considerado que com a proposta orçamental o Governo "está a premiar quem ganha e está a deixar que quase todos empobreçam".

Em resposta a Catarina Martins, o primeiro-ministro salientou que desde o Orçamento do Estado de 2021 que o BE considera que os orçamentos apresentados pelo executivo são de direita.

"A cegueira do ódio ao PS é tão grande que a deputada até consegue estabelecer uma equivalência entre um aumento menor de pensões do que aquele que propõe com o corte de pensões que a direita fez enquanto governou", disse.»


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Uma fraude intelectual a denunciar outra fraude intelectual

«O político e historiador José Pacheco Pereira acusou, este domingo no programa da TSF e CNN "O Princípio da Incerteza", a Iniciativa Liberal de "fraude intelectual" depois de o partido ter feito uma publicação no Twitter em que compara José Sócrates a Liz Truss, afirmando que os dois governantes tiveram em comum uma política de "despesa pública descontrolada". "Este tipo de argumento é de uma enorme desonestidade porque a bancarrota de Sócrates não tem nada a ver com as razões que levaram a primeira-ministra inglesa a abandonar o governo numa situação de desgraça."»

Fonte

Nunca existiu “a bancarrota de Sócrates” por duas inegáveis constatações: primeiro, Portugal não entrou em bancarrota sob um Governo de Sócrates; depois, o pedido de resgate em 2011 é da responsabilidade de quem chumbou o PEC IV.

Mas repete-se “a bancarrota de Sócrates” por duas sórdidas motivações: primeiro, a direita portuguesa desde Cavaco é decadente e traidora do interesse nacional; depois, a força política de Sócrates explica o ódio que o persegue desde 2004, havendo um culto obsessivo do seu assassinato de carácter.

Pacheco Pereira não pode dar lições de honestidade intelectual a ninguém. Porque ele é, dada a sua preparação teórica e a soberba da pose, o mais importante caluniador na política-espectáculo.

Só se desilude quem se ilude

"A minha maior desilusão foi ver que havia uma excelente oportunidade para resolver algumas questões no plano imediato que se colocavam ao povo e ao país e essa oportunidade foi perdida, na medida em que se isso se tivesse concretizado Portugal hoje estaria melhor."

Jerónimo de Sousa

Este amigo tinha conseguido que o Governo aceitasse várias das exigências do PCP para o Orçamento de 2022, assim mantendo as políticas executivas no lado esquerdo do centro. Porém, lá na Soeiro Pereira Gomes acharam que o papel do Governo devia ser o de papar tudo o que eles tinham cozinhado. Como o Governo lhes disse que já estava cheio, muito obrigado e bute lá apertar as mãos para ir ao trabalho, os iluminados cientistas da História decidiram que a melhor defesa dos interesses do Povo seria juntarem-se ao Chega, CDS, PSD e BE para chumbar o Orçamento logo na generalidade, uma estreia em democracia e uma absoluta recusa na continuação das negociações. Logicamente, porque se tratava de um Governo minoritário, o resultado inevitável seria a abertura de uma crise política que obrigava a eleições no meio de uma pandemia. O bom Povo amante da “política patriótica e de esquerda” que resolvesse o imbróglio nas urnas. E ele resolveu.

Jerónimo não é estúpido, antes tendo sido uma das mais apreciadas e respeitadas figuras políticas nacionais até aos idos de Fevereiro do corrente. Mas Jerónimo fica estúpido quando a hipocrisia a que está obrigado esfrangalha o seu respeito pela nossa inteligência. O Povo que alega defender merecia muito melhor.

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Dominguice

Saímos da escolaridade obrigatória na posse de conhecimentos dispersos, superficiais, mal amanhados. Informações transmitidas e capacidades formadas através da lotaria dos talentos pedagógicos dos professores. A lógica dos programas até ao 12º ano está ao serviço da continuação da aprendizagem, seja na academia ou no ensino técnico. A lógica não está na cidadania, não está na aprendizagem da Constituição, não está na politização dos alunos infantes e adolescentes.

Ou seja, a escolaridade obrigatória não ensina ninguém a usar e a querer o poder. Isto perpetua as desigualdades e atrofia a liberdade, pois os berços das oligarquias são escolas de poder. Isso talvez seja o principal factor de empobrecimento do País.

O Presidente da República como chefe de facção

Como o nosso amigo F Soares aqui assinala, Marcelo excluiu da representação presidencial todos aqueles que abominam, detestam, não gramam ou meramente antipatizam com Passos Coelho: Foi assim:

«"Eu falei para dizer o seguinte, o país deve-lhe, porque deve mesmo, aquilo que fez durante a crise da troika e que é um ativo politico para o futuro. Tenho dito isto a muita gente, é a minha opinião como Presidente da República portuguesa, dizer em voz alta o que muitos portugueses pensam", afirmou hoje Marcelo Rebelo de Sousa, em Vila Nova de Gaia, Porto, à margem de um encontro de magistrados. "Em relação ao doutor Passos Coelho, como em relação a muitas outras pessoas da vida portuguesa, falei como Presidente da República, não falei como Marcelo Rebelo de Sousa", insistiu.»

O episódio não pode ser catalogado como uma marcelice típica, ou a continuação da diversão para escapar à vergonha da sua postura perante os abusos sexuais na Igreja Católica, ou como alguma jogada estratégica de longo alcance por causa de putativos candidatos presidenciais. Nada disso. Desta vez o homem voltou ao assunto porque Passos resolveu achincalhá-lo em público, coisa em que o Expresso alinhou. Vai daí, sentiu a necessidade de se defender, e para o fazer voltou a abusar do cargo que ocupa.

Desde quando é que um Presidente da República tem de “dizer em voz alta o que muitos portugueses pensam”? Que caralho de sofisma inane é este? Mas vamos admitir que sim. Então, como é que Marcelo fez o cálculo das opiniões dos portugueses acerca de Passos? Não fez, óbvio, mas se fizesse qual seria o resultado previsível? Diz o bom senso, ou o mero senso comum, que apenas uma mínima minoria subscreve o panegírico cuja primeira versão até deu para o delírio de convocar Merkel. E diz a História que, não fosse por exclusiva responsabilidade de Passos, a “crise da troika” teria sido evitada, que milhões de portugueses teriam sido poupados a esse período de destruição económica e de punição social com a aprovação no Parlamento do acordo feito em 2011 com a mesma Merkel agora usada para vender banha da cobra.

Este número inacreditável vai ser abafado por toda a gente. Porque o que revela, e estabelece, é a violação do juramento solene do Presidente da República Portuguesa.

Montenegro, abrindo o futuro com o seu dom profético

Presidente do PSD prevê que Costa vai “atrapalhar-se, tropeçar e passar um testemunho em piores condições”

A direita não precisa de ter boas ideias, daquele tipo que suscitam boas discussões por despertarem a esperança de alcançarem bons resultados. Nada disso. Do que a direita precisa, avaliando pelo gasto, é de más ideias, como as da Iniciativa Liberal, ou de péssimas ideias, como as de Ventura, ou então de ausência de ideias, como acontece ao Montenegro.

E consta que a este senhor, no PSD, vai seguir-se o fantástico Moedas. Isto, claro, para ir entretendo o pagode até à manhã (ou talvez noitinha) de nevoeiro cognitivo em que se anunciará o regresso apoteótico (quiçá apocalíptico) de Passos.