«A etiqueta "putinista", que é norma usar-se no Ocidente para insultar uma alma qualquer que fale em procurar soluções para a paz, não cola, portanto, neste personagem.
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Uma hipotética rutura da solidariedade capitalista ocidental mudaria rapidamente governos, políticas governamentais e narrativas mediáticas - e a atual ideia prevalecente de que esta guerra define o destino do ocidente pode bem não ser suficiente para o impedir, caso tudo se prolongue no tempo e as contradições dentro do sistema se acentuarem.
Mas, para já, como sempre, serão mais debatidas as sondagens de Musk no Twitter do que as sondagens dos jornais - como uma do Expresso, que dizia que 32% da população portuguesa, aflita para pagar as contas do mês, quer mesmo "cedências a Putin" (sic) e resolver a guerra... são todos putinistas, não é?»
Elon Musk é putinista?
Pedro Tadeu é uma figura irrelevante quando comparada com o PCP, e o PCP não tem nenhuma responsabilidade, sequer a mínima influência, nas decisões de Putin. Porquê dar atenção a este comentarista a propósito da invasão da Ucrânia pela Rússia, então? Porque ele nos ajuda a pensar.
Por exemplo, é óbvio que o Tadeu domina com segurança dois conceitos a que atribui extrema importância. Um deles é o “Ocidente“, o outro é o “ocidente“. A separá-los, a caixa alta; e talvez mais qualquer coisa. Assim, atesta, no “Ocidente” insulta-se quem “fale em procurar soluções para a paz“. Entretanto, no “ocidente” chafurda-se numa “solidariedade capitalista” colada com cuspo e condenada a implodir assim que “as contradições dentro do sistema se acentuarem“, como Marx vem repetindo desde 1867.
Ora, como é que o nosso Tadeu ficou na posse de conhecimentos tão tremendos e inquestionáveis? Isso ele não explica nem carece que se mace a explicar. A verdade é a de que quem não odeia o PCP, o comunismo, Putin, e tudo o seja russo, tem de admitir que há uma feroz perseguição a qualquer um que fale em paz para a Ucrânia. Nós, ocidentais retintos, o que queremos é guerra, guerra, guerra e mais guerra. Quem nos dera que ela nunca acabasse e que fosse sempre maior, mais destruidora, mais cruel. Somos assim, não há nada a fazer. Daí hostilizarmos esses pacifistas como o Tadeu, o Jerónimo e o Putin. Os quais, coitados, sonham com a paz, apelam à paz, comovem-se sinceramente ao imaginar a paz linda e pura, não falam noutra coisa — e um deles até está farto de gastar munições, juventude russa e material bélico defeituoso para isso mesmo, conseguir a derradeira paz e poder ir à sua vida descansado.
É uma situação tramada para os pacifistas que não se identificam nem com o Ocidente nem com o ocidente. Porém, como o Tadeu brilhantemente anota e remata na conclusão, 32% da população portuguesa está disposta a oferecer a Ucrânia ao Sr. Putin se isso levar à melhoria dos seus (dela, não dele) pagamentos mensais em despesas várias. Este é um pensamento da maior importância que, como igualmente alerta o comentarista, os ocidentais tentam abafar.
Tenho de concordar com o Tadeu. Isto de se declarar uma vítima tanto do Ocidente como do ocidente, e de caminho apelar a que se deixem os tanques russos estacionar em Kiev, não pode ser considerado “putinismo” nem esses bravos amantes da paz merecem o epíteto de “putinistas”, vocábulos contaminados de ocidentalismo. Fica muito mais claro, fazendo jus ao seu exemplar pacifismo, se os reconhecermos pelo que realmente são: grandes filhos do Putin.