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Wittgenstein teve namoradas?

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Toca na máquina para ler o que ela tem escrito na tua ausência

Maria João Freitas anda, desde Março, a garantir que sim. E já reuniu, à hora em que escrevo, trezentas provas da ocorrência. O namoro vive um estado de ebulição criativa. Palavras e imagens trocam os mais apaixonados amplexos, as mais obscenas carícias. Pois é, isto de namorar com Wittgenstein não tem nada de platónico.

Os nossos talentosos amigos, e ex-colegas de escrita nesta casa, Fernando Venâncio e José Mário Silva, dois exímios cultores das micro-histórias, terão copiosas paisagens onde repousar o olhar. Mas há outros géneros, e muitos gatos, à disposição do leitor neste país das pequenas maravilhas.

Menu degustación:

Efémero/ Kookai #1 (publicado na Pública)

Efémero / Game over #3 (publicado na Egoísta)

Micro-histórias #9

Alice #18/ As irmãs

Greguerías #45/ O girassol

Dicionário não-etimológico: “monge”

Micro-histórias #91

Alice # 24/ A coroa

Victor

A constância de Constâncio venceu. Anda a repetir o mesmo vai para um ano, o que implica que vai para um ano que ninguém o consegue desmentir. Já difamar, sim. Muito. Ao melhor estilo dos canalhas.

E percebe-se, sem gastar uma caloria, porquê. PSD e CDS ficaram com um peculiar e inusitado problema pendurado nos bigodes por causa da roubalheira no BCP, BPN e BPP: não podiam falar nos responsáveis, nem podiam falar nas irresponsabilidades. Quem cometeu as manigâncias e falcatruas são pessoas da sua família política, poderosas eminências pardas do poder partidário da direita e das respectivas classes sociais altas por ele representadas. Não se morde na mão donde se obtêm financiamentos, cunhas e lugares; pelo contrário, beija-se essa tão antiga e patriarcal mão. Problema agravado com a etiologia da maleita: os famosos e aristocráticos banqueiros tinham metido a tal mão na tal massa porque essa era a lógica mesma do subsistema que dominavam e protegiam — a celerada engorda dos recos.

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O Acordo Ortográfico já começou a fazer das suas

Francisco José Viegas honrou-me com uma citação na sua coluna no Correio da Manhã. Mas eis a novidade: a frase que me atribui não existe no original. Existem outras, parecidas, até mesmo muito parecidas, mas não aquela. De modo que estamos perante um híbrido entre o plágio e o palimpsesto, onde o Viegas apresenta uma frase sua como sendo de outrem; a qual, por sua vez, não é exactamente dele por ter versão anterior; mas a qual, finalmente, não pode ser propriedade do putativo autor por não se encontrar nos seus escritos. O fenómeno terá tido origem num ataque de heteronímia aguda, patologia comum a quem passou muito tempo na Casa Pessoa.

Seja como for, o resultado é famoso e recomenda-se, sim senhor. A frase publicada tem um recorte apotegmático que lhe garantirá longevidade, o seu destino é ser epígrafe de biografias e ensaios, talvez ainda de novelas fantásticas. E isto de ter um escritor condecorado a recrear-se a partir do nosso material abrutalhado, guarda-se como distinção que poucos podem ostentar. Fiquei foi com ainda mais razões para desconfiar do Acordo Ortográfico.

Bute aí fazer o programa do PS

Não há posição mais confortável do que a minha para defender Sócrates: não votei PS, nem é provável que vote, mas reconheço a qualidade e intento reformista da governação, as pulhices e inanidades dos adversários e as circunstâncias internacionais que levaram à quebra das exportações, ao drástico e repentino aumento do desemprego, à diminuição de receitas fiscais e aos gastos extraordinários no apoio social. Sem as crises (primeiro a do preço do petróleo, depois a financeira, finalmente a económica), a riqueza teria continuado a aumentar, é lógico e simples de calcular. Mesmo assim, tal não faria de Sócrates, ou do PS, uma escolha óbvia para o voto em 2009 — iria depender das alternativas. Ora, a 3 meses da coisa, não há alternativa; é também lógico e simples de constatar. Não é que o PSD e o CDS não possam governar e chegarem ao fim da sua legislatura sem que tenhamos entrado em bancarrota ou guerra civil. Ou mesmo que um agora impensável Governo PCP-BE não pudesse colher apoio popular durante algum tempo, tamanha a demagogia e populismo das suas promessas. Não. O que se passa é que a oposição não merece governar. Tudo o que tem feito, nestes 4 anos, tem sido contra o interesse nacional, contra o bem comum, contra a mera sensatez de se viver em comunidade. São concidadãos em quem não se consegue descortinar elevação de carácter em matérias políticas. Agem como rufias de terceira categoria. Que se fodam.

Entretanto, não poderei votar PS sem o inequívoco compromisso de se atacar o mal maior pela raiz, continuar-se a reformar o sistema e ser-se ousado na ambição económica. Assim, se quiserem o meu voto, aqui vai alho:

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Ler é poder

Por causa do maradona (que já deu cabo da coisa), voltei a um poiso donde estive ausente desde os saudosos tempos em que Henrique Galvão assaltou o Santa Maria. Sim, exactamente, estou a falar do Arts & Letters Daily. O que lá se disponibiliza para ler — em quantidade, qualidade e extensão — obriga a tirar um ano sabático para fazer justiça à coluna de textos à esquerda; as outras duas colunas só podendo ser avaliadas na sua completude por quem se reformar aos 40 e viver até aos 120, fica o aviso.

Eis três exemplos do que estamos a perder, e do que vamos alegremente continuar a perder porque há um ponto a partir do qual o aumento da inteligência começa a ser causa de desavenças familiares e quebras de amizade:

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A roubalheira nas sondagens

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Quadro gamado do Margens de Erro

*

A única sondagem, de todas quantas foram feitas para as Europeias, que acertou na vitória do PSD tem uma particularidade curiosa: recolheu os dados entre os dias 27 e 30 de Maio. Quer dizer que é, das últimas a serem publicadas, a mais distante da votação, e, ainda mais interessante, aquela que não teve tempo de reflectir a mudança drástica ocorrida na campanha na noite de 28 de Maio. Foi aí que Vital tirou a roubalheira da cartola, levando o que restava do PSD a ir-se abaixo das canetas. De imediato surgiram a nu as manifestações da guerra civil em que vive aquele partido tão partido, com Passos Coelho a apostar a carreira numa roleta russa que o deixou num coma de prognóstico reservado. Rangel, que já tinha delineado uma campanha à defesa, apenas de reuniões com grupos reduzidos de militantes em ambientes cagões, continuou a ter de se pronunciar sobre declarações e acções equívocas de dirigentes sociais-democratas que corriam por fora. O sentimento era de descalabro aquando da entrada em cena de Cavaco com uma embrulhada explicação sobre o seu envolvimento no BPN, a qual deixou mais perguntas do que respostas. E de tal forma estava interiorizada a derrota que o cartaz escolhido para o day after diz Nunca baixamos os braços!

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Sócrates Fan Club

Seja à esquerda ou à direita, Sócrates é temido e desejado. Temido porque desejado, e desejado porque temido. À esquerda, na esquerda imbecil, não se perdoa a Sócrates conseguir criar riqueza económica e continuar a ser de esquerda — com abundantes transformações sociais, que esperavam há anos na agenda do PCP e do BE, a terem sido concretizadas numa única legislatura. À direita, na direita ranhosa, não se perdoa a Sócrates conseguir criar riqueza económica e não ser de direita — tantas as suas qualidades de liderança e inovação que fariam o delírio dos amanuenses do PSD e CDS caso ele os chefiasse.

Helena Matos é uma das mais excitadas animadoras do clube de fãs. Neste texto apresenta-se tão transparente que chega a causar aquele dilacerante fenómeno de nos sentirmos envergonhados pelas figuras que vemos outros fazerem. Repare-se:

O PS nunca apoiou Sócrates por aquilo que ele pensava ou defendia, mas sim porque ele lhes garantiu o poder.
Como diz Cravinho, Sócrates é um efeito. Um efeito que, valha a verdade, deu uma maioria absoluta ao PS.
Mas, sem poder, Sócrates não tem qualquer préstimo para os socialistas – não tem o mundo internacional de Soares e dificilmente lhes pode trazer o prestígio da colocação numa agência internacional como aconteceu com Sampaio e Guterres.
O PS está disposto a fechar os olhos a todos os equívocos de Sócrates enquanto existir poder.
Assim que o poder se acabar, os socialistas serão os mais violentos nas críticas a tudo aquilo que até agora fizeram de conta que não viram.
Sem poder, Sócrates é um embaraço. Por isso, ao primeiro sinal de que o efeito Sócrates se estava a extinguir, as cadeiras do Altis ficaram vazias.
Mais do que falar do país, dos seus problemas e discutir seriamente as soluções que propõe, José Sócrates passa de sessões de anúncio para sessões de anúncio, invariavelmente abrilhantadas com figurantes, e fala obsessivamente de notícias, jornalistas, directores de jornais… como se o seu mundo não fosse mais do que isso: ser um efeito.

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Exemplos há muitos, seu palerma

Discurso de António Barreto no 10 de Junho é dos melhores que ouvi nos últimos anos. Afixem-no em toda a parte: escolas, repartições, tribunais, empresas.

Zé Manel a tuitar como se estivesse na varanda dos Paços do Concelho

Que se comece por fazer justiça ao ditirambo: o discurso de António Barreto deixa-se ler. Trata-se de uma imparável colecção de lugares-comuns, pois sim, mas estão dispostos com simpática elegância e meritório ritmo. É uma peça cujo público-alvo natural seria a população escolar, e não os altos dignitários da Nação no dia da mesma. Infelizmente, em Portugal não se cultiva nem a retórica nem a oratória, o que muito nos atrofia intelectualmente, mas este discurso tem o timbre de exaltação contida, e a vacuidade ilustrada, ideais para entusiasmar inconsequentemente algumas turmas do Secundário, talvez certos estudantes universitários, no final de um ano lectivo ou ciclo de formação. E é só.

Não vale a pena perder tempo na hermenêutica. Basta um exemplo:

A cidadania europeia é uma noção vaga e incerta. É um conceito inventado por políticos e juristas, não é uma realidade vivida e percebida pelos povos. É um pretexto de Estado, não um sentimento dos povos. A pertença à Europa é, para os cidadãos, uma metafísica sem tradição cultural, espiritual ou política.

É óbvio que o Barreto, um dos mais reputados e barulhentos senadores do regime, desconhece a existência de uma realidade europeia que une países e cidadãos há décadas, e de uma forma tão íntima que até leva ao vigoroso e espontâneo contacto físico entre estranhos: o futebol. Se o vetusto e hierático Barreto, sociólogo, não inclui na sua reflexão a existência deste sistema de criação de trânsitos, afinidades e identidade, de que raio poderá ele falar que justifique a nossa atenção? E ainda pior, se ele ignora este sistema económico e cultural tão importante para centenas de milhões de cidadãos europeus, como é que vamos conseguir explicar ao Barreto que nunca como agora se interiorizou a consciência política de vivermos num espaço farol da Humanidade no que diz respeito à democracia, aos direitos humanos e à qualidade de vida? Haja alguém que explique ao homem qual a nova importância do turismo, das migrações e dos intercâmbios académicos, científicos, institucionais e empresariais para o surgimento e reforço de algo nunca antes visto na História: a união dos europeus.

Barreto, o teu exemplo de opinador tem feito mais mal do que bem à sociedade portuguesa. És paternalista, sectário e virulento. Por isso te escapam tantos exemplos que desmentem o teu ponto de vista. Olha, há mais exemplos desses do que chapéus na cabeça dos europeus.

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PS - E, já agora, haja alguém que convença o Jaime Gama a disponibilizar o seu discurso proferido na Assembleia da República neste 25 de Abril; seguramente, esse sim, o melhor discurso dos últimos muitos anos, tanto no conteúdo como na forma. Fui aluno da sua esposa, a professora Alda, no meu 8º ano de escolaridade, a Português. E até sei onde eles moram, e até nos cruzámos neste domingo eleitoral, mas não tenho tempo para lá ir tocar à porta e pedir aquilo a que temos direito. Por isso, se conheces a figura, ou se conheces aquele que conhece aquele que conhece aquele que o conhece, eis a tua missão: despacha este assunto, passa o recado, e avisa a malta.
PS2 – Estive lá à procura e não dei com ele, talvez por estar tão à vista. Muito obrigado, Mónica.

Numerologia – III

21. No principio, a oposição garantiu que o PS não iria escapar à denúncia dos problemas nacionais. Pelo meio, a oposição protestou por se estar a dar importância às questões nacionais. No final, a oposição declarou que foram umas eleições estritamente nacionais. Se o PS tivesse ganhado, a oposição diria que não se podiam tirar ilações nacionais a partir do resultado das Europeias, obviamente, acrescentando que uma abstenção tão alta reforçava a impossibilidade de extrapolar para fora do contexto. Aliás, tivesse o PS ganhado fosse por que margem fosse, a oposição apareceria a dizer, sem se rir, que a abstenção era o seu não-voto de protesto.

22. O PSD andou a segunda semana de campanha a queixar-se de Vital, gritando que ele tinha sido um porcalhão por se atrever a pedir uma qualquer declaração acerca do BPN, um caso que em nada de nada de nadinha de nada se relaciona com a história do PSD desde o cavaquismo, como é do domínio público. Chegaram a domingo a acreditar nas sondagens, convencidos de que iam perder, já só esperando que fosse por poucos. Se fosse por poucos seria uma enorme vitória, anunciariam logo que estavam a crescer, que o ciclo tinha começado a mudar; ou seja, não baixavam os braços, e lá iam para o segundo round sem terem ido ao tapete. Como lhes saiu o Euroabstenções, Rangel e Manela dispararam sobre o Governo com a única ideia que aquelas cabeças produziram até à data: paralisação geral da governação. Há uma salazarista metáfora por detrás desta insane provocação anticonstitucional — a do dinheirinho debaixo do colchão. É assim que este PSD representa Portugal na sua retórica, como uma casinha de gente humilde e trabalhadora cujas parcas poupanças da sofrida vida correm o risco de ser desbaratadas de hoje para amanhã a mando de uns estroinas, arrastando a família para irrecuperável pobreza e acabando os desgraçadinhos no meio da rua só com um colchão, dois tachos e a roupa do corpo. Entretanto, pelo menos 1.127.128 portugueses, ao dia 7 de Junho de 2009, acreditam neste partido. Quem será que toma conta deles quando não estão a votar?

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Miscelânea

Young Children’s Exposure To Audible Television Has Implications For Language Acquisition And Brain Development

Robots forming human-like societies – electronic evolution?

Pressure To Look Attractive Linked To Fear Of Rejection In Men And Women

People With Parents Who Fight Are More Likely To Have Mental Health Problems In Later Life

12 Most Annoying Bad Habits of Therapists

7 Good Reasons To Cry Your Eyes Out*

Surprising Green Energy Investment Trends Found Worldwide

Self Honesty – Knowing Is Better Than Not Knowing**

Money Worries Make Women Spend More

Nostalgia: Sweet Remembrance

Why Group Norms Kill Creativity

Success: Got Grit?***

Easily Grossed Out? You Might Be A Conservative!

The Bad Mom Club: Who’s In?
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* Ainda mais alívio.
** Grande verdade.
*** Só verdades, e para todas as idades, para sempre.

Numerologia – II

11. Rangel é um animal de rixa de bancada, da boquinha sacana e da filha-de-putice do ganho de curto prazo como estratégia de longa duração. Foi o que fez na celebração do 25 de Abril na Assembleia da República, marimbando-se para a solenidade e simbolismo da ocasião, onde assinou por baixo um discurso comicieiro e arruaceiro. O miserabilismo político do PSD é tal que a sua falta de qualidades como estadista se transformou, por propaganda da claque, em embalagem de inteligência. Pode mudar, claro, mas neste momento a sua fama diz mais de quem o rodeia do que de si, ça va sans dire.

12. Todos os treinadores são bestiais quando ganham, bestas quando perdem. Um treinador pode, a 5 minutos do fim, meter um coxo no jogo e ainda vir a ser louvado pela sua ciência do pontapé na bola só porque o coxo, sem saber como, marcou o golo da vitória no último minuto. A tentação é a de atribuir ao treinador um qualquer poder que esteve na origem do acontecimento decisivo, mas a verdade está noutro lado: no ranço do coxo, no galo do guarda-redes. Assim na política. Muito provavelmente, o PSD teria o mesmo resultado, ou até melhor, com Marques Mendes. E o PS poderia ter o mesmo resultado, e até pior, sem Vital. Porquê? Porque, como toda a oposição o disse à partida e à chegada, nestas eleições só interessava atacar o Governo, o PS e Sócrates, para que imediatamente se pudessem usar os resultados para alimentar o fogaréu das Legislativas. Era inútil perder tempo a pensar em quem se estava a candidatar para a função, ou sequer no que ia para lá fazer.

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Numerologia

1. A vitória do PSD foi espectacular. Até ganharam nos Açores, e só isso é prova bastante do fenómeno peculiar que está na origem da boa nova. A boa nova, entenda-se, é esta de se continuar com a Ferreira Leite em palco, continuando a lembrar-nos de quem são aquelas pessoas que representa, e agora acompanhada por uma figura que se imagina especial de corrida e que não passa de um anafado bluff. Aliás, também a JSD está cheia de barrigudos, aquilo é malta que não anda a pé nem para atravessar a rua.

2. O BE não é um partido, é uma marca. A marca do contrapoder, do protesto chic, corporativo, emocional, ignorante, porque sim. Que quer o Bloco? Acabar com a civilização Ocidental, ou coisa parecida. Isto é, não querem nada de especial, apenas um pedaço do mercado.

3. Jerónimo discursou como um patriarca bíblico anunciando aos fiéis que eles continuam a ser o povo eleito. Provas? Dois deputados a caminho das estrelas.

4. Paulo Portas disse que ia apresentar uma moção de censura. Portas ainda não entrou no século XXI.

5. A abstenção subiu e o número de votantes também. Os números enganam. E que o digam as empresas de sondagens, invariavelmente acusadas de distorção intencional por quem não fica bem no retrato, mas cujo negócio depende do acerto das previsões. Aliás, aparecer mal cotado numa sondagem pode ser bom, e vice-versa. A vontade da turbamulta ainda consegue ser mais complexa do que as amostras e modelos matemáticos que a pretendem antecipar.

6. Marinho Pinto obteve 6,6% dos votos. Elegeu um deputado sozinho, sem máquina partidária, mas não vai para Bruxelas.

7. Vital revelou nesta campanha, e na hora de assumir a derrota, uma constante frontalidade e sinceridade. O resultado não o penaliza, porque é óbvio que ele deu o seu melhor. Foi um exemplo de generosidade.

8. Caso o PS tivesse ganhado as eleições, a oposição diria que o Governo tinha manipulado a consciência dos portugueses com mentiras, propaganda e ataques caluniosos ao PSD e Presidente da República por causa do BPN. Como o PS perdeu, os portugueses são maravilhosos e deram uma lição de democracia. Safaram-se de boa, os portugueses.

9. Pacheco tem denunciado com furor e genialidade a maquiavélica operação do Governo para obter vitória atrás de vitória nas eleições: o controlo do Jornal da Tarde da RTP. Ele tem números, ao segundo, que revelam a dimensão da perfídia. E sabe bem da importância estratégica deste alvo mediático: garantir o voto dos velhinhos. Pois bem, Pacheco, talvez possas, a partir de agora, descansar um bocadinho, largar o cronómetro e almoçar com mais calma.

10. Algures entre as 8 e as 9 da noite, Ana Drago desabafou, com um erotismo amazónico, que o que mais desejava era ver o discurso de Sócrates. Rangel, Manela, Louçã e Portas, todos disseram que esta tinha sido uma enorme derrota de Sócrates. Milhares de professores devem ter tido pré-orgasmos com a tremenda derrota do Engenheiro. Sócrates sempre no centro, sempre acima, sempre secretamente admirado pelos adversários. E quando falou, fez o melhor discurso da noite. Porque se limitou a dizer o óbvio: se não me querem, dentro de poucos meses vão deixar de me aturar. É só isto, é uma conta tão fácil de fazer.

Projecções e projécteis

As projecções dão vitória ao PSD e mostram o BE tão ou mais forte do que o PCP. Se assim se confirmar, e mesmo que a vitória do PS ainda seja possível por margem residual, é um excelente resultado para a revitalização da política nacional. Porque nos alerta e desperta.

Olhemos para quem está a disparar — para onde apontam?

Uma campanha comovente

Quem se queixou da baixa qualidade desta campanha para as Europeias, desgostado com a falta de debate ou com a chinfrineira das acusações entre adversários, tem de começar a tirar o plástico aos calhamaços do Circulo de Leitores que preenchem as prateleiras lá de casa. Nalgum deles, garanto, está escrito que a política não é serena, não é cordata, não é panhonha. E nunca o foi, antes pelo contrário, bem pelo contrário. A invenção da democracia é muito recente na História, mesmo que a remetamos para os Gregos. Se a situarmos a partir da Revolução Francesa, é recentíssima. E se pensarmos só em Portugal, chegou ontem. Ou seja, ainda não existe uma adaptação genética à evolução cultural, os cérebros ainda se baralham com este complexo paradigma onde o poder é do povo e do Estado, da multidão e de cada um.

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