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Direitopatia

É uma doença do foro neuro-ético. Os neuréticos sofrem de alucinações políticas selectivas. Acreditam que Sócrates andou aos envelopes por causa do Freeport. Ia para hotéis, esplanadas e tascos sacar o caroço aos bifes. Picavam uns petiscos, bebiam umas bejecas, palitavam as favolas, coçavam os colhões, arrotavam, peidavam-se, riam alarvemente e passavam pequenos envelopes castanhos debaixo da mesa para que não ficassem salpicados pelo molho dos caracóis. Foi assim que Sócrates conseguiu comprar o tal apartamento aos mafiosos, embora com desconto mafioso, como a TVI, o Sol e o Zé Manel nos andaram a explicar ao longo de 9 meses. Ao mesmo tempo, os neuréticos não encontram nada de errado nos sucessivos negócios ruinosos onde o BPN se meteu, negócios que envolvem a fina-flor do PSD e subsistemas de poder onde o partido tem a sua base sociológica de apoio. Dizer que se está perante uma colossal máquina de lavagem de dinheiro, e que algum desse dinheiro pode estar relacionado com negócios de armas a uma escala internacional, e que esse banco era protegido por aqueles que sempre se insurgiram contra os limites impostos pelo Estado à sua actividade ou que a tudo assistiam caladinhos sabendo da tripa-forra, eis algo que não faz qualquer sentido adentro do quadro clínico da direitopatia.

Prognóstico muito reservado.

Omertà

Marcelo Rebelo de Sousa é a figura mais prestigiada, e mais popular, do PSD. Agora que Cavaco exibe uma mediocridade política aviltante no último lugar onde o deveria fazer, confirmando a lógica que enformou tudo o que de pior teve o cavaquismo, é em Marcelo que reside a réstia de elevação, e sentido do bem comum, à direita. Por isso é popular, por transmitir a percepção de conservar valores mais altos do que os meramente relativos à luta partidária e ambições de poder. E por isso é presidenciável, promete ser capaz de unir os portugueses, ser imparcial por imperativo pátrio. O que diz, portanto, é de extrema importância para a compreensão da actualidade política.

Acontece que a sua tribuna semanal, As Escolhas de Marcelo, é um invariável tempo de antena dos interesses do PSD e de quem ele achar por bem favorecer. Nada de errado, são essas as regras do jogo, mas esquecer que Marcelo é cabrão prejudica a pleno entendimento das suas mensagens. Nesta última edição, abateu-se sobre os 17 minutos de paleio o esmagador silêncio quanto ao caso BPN e entrada na festa de mais um ministro de Cavaco, Arlindo de Carvalho. Como é óbvio, não interessa para nada, sem outras informações, a questão policial e legal, donde o Arlindo pode até sair imaculado. Mas, como óbvio é, há interesse político no facto, posto que se relaciona com o impacto que tal notícia pode ter na opinião pública em período eleitoral. Se o Freeeport tivesse este tipo de passarões arrolados, e não a arraia-miúda que tem aparecido, Marcelo não perderia a oportunidade para envenenar a audiência com o savoir faire (leia-se, com a chico-espertice projectada em Sócrates) que o mantém na ribalta da política-espectáculo desde finais dos anos 70. Ter imposto que o assunto não fosse sequer mencionado, dá conta de uma autocensura desabridamente sugestiva quanto aos melindres que a matéria causa em Belém e na Lapa.

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Portugueses muito pequeninos

Na sexta-feira, Miguel Abrantes assinalou a ausência de qualquer notícia, na edição digital do Público desse dia, relativa à apresentação do Laboratório Ibérico de Nanotecnologia. No entanto, existem lá 4 matérias acerca do acontecimento, com as seguintes horas registadas: 08h52, 12h02, 12h06 e 23h58. Ora, também não me lembro de ver alguma delas destacadas na coluna central, a qual esteve entregue à polémica sanguinolenta, às ameaças da FENPROF e, principalmente, a uma notícia da concorrência, Sol, onde se antecipava que era desta que Sócrates e quadrilha iriam ser apanhados a roubar à beira-rio. Vamos excluir a última notícia, lançada à meia-noite, e ficam 3 que foram enfiadas no armazém ao longo do dia, não mereceram estar na montra. Também nenhuma chamada se fez na barra superior para o P&R, nem se elaborou um Dossier. Tendo em conta que nesse dia se reuniram, e no território nacional, o Presidente da República Portuguesa, o Rei de Espanha e os chefes dos Governos peninsulares, talvez algo importante se estivesse a passar. Mas não para o nova política editorial inventada pelo Zé Manel: o jornalismo de auto-referência.

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Verdadinha – Número ínfimo

MLF – […] Não há medidas pás pequenas e médias empresas!

AL – As linhas de crédito, que foram sendo avançadas, considera que não são positivas?…

MFL – Não, não acho. Não acho que sejam positivas, não acho que sejam positivas. Por uma simples razão, de que, linhas de crédito, normalmente, como foram apresentadas, em primeiro lugar, conduz a que as empresas se endividem mais do cóque já estão. E quando passasse a crise, elas estariam mais endividadas do que estavam anteriormente. Em segundo lugar, porque se nós falarmos com as empresas, nós vemos que há um número ínfimo de empresas que têm acesso a essas linhas de crédito. Porque uma coisa é o anúncio que se faz da abertura das linhas de crédito. Outra coisa é, na prática, quais são as empresas que têm acesso a essas linhas de crédito. E a grande maioria delas, as condições que é necessário reunir para ter acesso a essas linhas de crédito, a maioria das empresas não as reúne. E portanto, não têm acesso a elas. Portanto, estou em desacordo, total, contra isso. […]

A Manela fala com empresas com os poderes sobrenaturais com que outros falam com cães, anjos, árvores ou fogareiros. E o efeito é igual, ela ouve vozes que lhe respondem. Essas vozes dizem-lhe que o crédito está a dar cabo da economia, a criar uma legião de endividados. Acabe-se com o crédito, acabam-se logo os vícios. Essas vozes também lhe dizem que, 4 mil milhões de euros para 30 mil PME’s depois, ainda não passámos de um número ínfimo. Dúvidas ou duvidas? Basta pensar em quantas pequenas e médias empresas há no Mundo que não reúnem as condições para serem apoiadas pelo Estado português e suas diabólicas linhas de crédito. As falências que Sócrates está já a causar nos outros países, por causa destas políticas que temos de rasgar e romper quanto antes, são uma catástrofe global.

A Manela não mente. Verdade verdadinha.

Couraças

Quando Vital Moreira pediu ao PSD uma qualquer declaração acerca do caso BPN, realçando que as figuras mais importantes no escândalo estavam intimamente ligadas ao sistema de poder social-democrata, foi de uma ousadia histórica. Tanto que dividiu logo o PS. Uns porque acharam mal por princípio, outros porque recearam que acabasse mal nas urnas ou na imprensa. E alguns socialistas, na dificuldade de lidar com o grito iconoclasta, até vestiram a camisola do adversário: passaram a repetir a mentira de que Vital tinha associado o PSD à roubalheira. Ora, foi ao contrário: o que Vital exprimiu foi a sua indignação pela demora na associação do PSD ao caso através de uma qualquer — qualquer! — tomada de posição política. Porque apenas repetir que é um caso de polícia, e que se tem de esperar que a Justiça actue, é o grau zero da responsabilização obrigatória. Façamos um teste básico: alguém imagina Sá Carneiro fechado num silêncio cobarde perante situação igual?

O BPN e a SLN foram úteis para o PSD e para Cavaco Silva, tanto em doações para campanhas como para as mais variadas operações financeiras privadas de inúmeros dirigentes e militantes do partido. Pergunta: se fosse um traficante de droga a fazer doações para a eleição de políticos ou a dar-lhes dinheiro a ganhar, mesmo que em negócios legítimos, não se pediriam as mais exaustivas explicações aos envolvidos? Não haveria ocasião para algum tipo de arrependimento, quiçá reparação? Pois o que se fez no BPN é bem pior do que um traficante poderia ter feito. Dos marginais esperam-se ilegalidades, e por isso há maior protecção contra os seus actos. Mas das figuras gradas do PSD espera-se uma actividade impoluta e exemplar. Representam a Cidade, tal como eles são os primeiros a lembrar quando exigem respeitinho e reclamam inocência. O mais provável é que a investigação policial não entre nesta dimensão da questão, mas tanto os actuais dirigentes do partido, como o actual Presidente da República, estão enterrados num verdadeiro pântano onde o seu silêncio, que abrange um longo passado, significa que qualquer resquício de ética privada e dignidade pública — quanto a esta tão, simultaneamente, complexa e clara vergonha — aí se afundou e não volta mais. Vital, para orgulho de qualquer cidadão digno desse estatuto, assumiu o dever de não ser cúmplice da hipocrisia esquizóide de tradição bem portuguesa. E as feras saltaram-lhe em cima, trôpegas de medo e raiva.

Entretanto, o mais rigoroso diagnóstico da profundidade e implicações do caso BPN, até à data, só chegou há poucos dias.

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Coisas muita boas das coisas muita más

Aumento do custo do petróleo leva a soluções energéticas alternativas

Crise económica leva ao aumento da poupança

Menos dinheiro a circular leva a reduzir gastos supérfluos

Mais desemprego leva a mais aprendizagem

Pandemia de gripe leva a aumento da higiene

Desvarios de Cavaco levam a derrota nas próximas eleições presidenciais

Demagogia e populismo do Bloco levam ao fim da ilusão gerada no PSR

Anacronismo do PCP leva a futuro risonho na organização de festas e manifestações com transporte garantido

Vacuidade do CDS leva a exibições cómicas dos seus representantes

Existência do PSD leva à transmissão pública de frases e expressões de Manuela Ferreira Leite

Verdadinha – Gente normal

MFL – […] Eu acredito, efectivamente, como toda a gente normal acredita, é que aquilo que é preciso é de mudar de políticas. Porque, evidentemente, se a política se mantém a ser a mesma, os resultados só podem ser os mesmos. […]

A Manela está do lado da gente normal. A gente normal é gente como ela, que pensa como ela. A senhora representa a normalidade das gentes normais. E lembra-nos disso sempre que opina acerca dos assuntos, tanto os normais como, especialmente, os anormais. Por exemplo, é muito provável que ela pense que o Eng. Sócrates não faz parte da gente normal. Por causa das suas políticas anormais. As quais ela vai mudar, em nome da normalidade. O candidato que escolheu para a Câmara de Lisboa também dizia haver algo de anormal em Sócrates, lá nos idos de 2005. Talvez por isso tenha sido escolhido pela Manela para dirigir Lisboa em direcção à normalidade abalada pelo actual presidente, amigo do outro anormal. Estas coisas são normais, está bem de ver. É a normal afinidade entre normais.

A Manela não mente. Verdade verdadinha.

Miscelânea

Fathers Spend More Time With Children Who Resemble Them, Study Suggests

Media Tend To Doomsay When Addressing Environmental Issues

Beautiful People Are More Intelligent I *

Men sexually harass women because they are not sexist I *

Popularity is In Your Genes

Doctor’s Compassion May Help Cure Colds Faster

Pride: Deadly Sin or Social Lubricant?

Swearing Reduces Pain **

House Cats Know What They Want And How To Get It From You **

Why Do Dogs Sniff Each Other?

Cross-Cultural Differences in Creativity

Can Gaming Slow Mental Decline in the Elderly?

Why Handsome Men Make Bad Husbands I ***

Why handsome men make bad husbands II ***

__

* Óbvio
** Muito óbvio
*** Demasiado óbvio

O navio de George Clooney

Louçã — que quando for primeiro-ministro irá nacionalizar a GALP e EDP (para começo de conversa), arrastar os banqueiros por uma trela, proibir os despedimentos e, portanto, acabar com o desemprego em Portugal, e ainda substituir o capitalismo global por uma outra coisa que leu num livro que tem guardado lá em casa — é um piadista. Um piadista que se imagina chefe da oposição, e que se deita e acorda a pensar em Sócrates. A soberba apela à facécia:

Os assessores de comunicação, que lhe sugeriram este título de um filme de George Clooney, esqueceram de lhe dizer que n’A Tempestade Perfeita o navio de George Clooney naufraga, e não há nenhum sobrevivente.

Sócrates tinha usado a expressão tempestade perfeita como metáfora do conjunto de crescentes crises que marcaram a legislatura, começando com a crise orçamental e culminando na crise económica internacional que se abateu como um cataclismo. Louçã goza o prato. Ele olha para o Governo e vê inimigos, não concidadãos. Nada do que essas pessoas tenham feito, decidido, viabilizado, promovido, apoiado pode ser bom porque… veio deles, dos gajos do poder. A natureza do poder é radicalmente simples nas ideologias extremistas: se é dos outros, é diabólico; se é nosso, é santo. Por isso a cena do naufrágio aparece especialmente deleitosa para os bloquistas, precisamente porque ninguém se salva. A violência mal contida com que Louçã invariavelmente discursa, que o faz ser um exímio representante da moral presbiteriana, adoçou o tom apenas para projectar um desejo de morte. Daí a explosão de risota na sala. O prazer de imaginar Sócrates, ministros, secretários, assessores, dirigentes partidários e militantes a afundarem-se sem possibilidade de salvação, desaparecendo no abismo oceânico, encheu de entusiasmo os apoiantes de um Portugal onde os Reis de Espanha, ou o Presidente de Angola, não têm dignidade para serem recebidos no Parlamento. São estas as águas para onde nos querem levar, cantando e rindo.

Entretanto, e não sendo obrigatória a utilização de um assessor, haja alguém que diga ao Louçã que ele nunca será um Clooney. Demasiado canastrão.

Cineterapia

Annex - Fonda, Henry (Grapes of Wrath, The)_10
The Grapes of Wrath_John Ford

Alguns dos melhores seres humanos que viremos a conhecer nesta vida estão nos filmes de John Ford. Sabemos que são os melhores por este único e infalível critério: fazem-nos chorar. Chorar com ou sem lágrimas, com ou sem choro, que em cada um as águas da alma têm carreiros só delas. Mas chorar, derreter os gelos da indiferença, soltar o cântico de fontes e riachos, regar a terra onde sementes de esperança foram lançadas muito antes do começo do tempo. Chorar na partida e na chegada. Na travessia, no caminhar, no devir. Chorar de tristeza, chorar de alegria.

Este filme abre com uma estrada. Um homem aproxima-se de um cruzamento. Vem da prisão, vai para casa. Estás prestes a descobrir que já não tem casa, que o mundo se tornou numa prisão para si e para a sua família. Ele nunca mais sairá da prisão, da encruzilhada. A sua mãe, sim.

Suspeitar que o realizador mais importante na elaboração da mitologia militar e nacionalista norte-americana, aquele que se descreveu profissionalmente dizendo que só fazia coboiadas, o criador de John Wayne como ícone da direita ultra-conservadora, fosse simpatizante comunista apenas lembraria aos imbecis do maccartismo. E lembrou, por causa deste filme ser uma lição de economia. Explica como catástrofes naturais levam a catástrofes económicas. Indigna-se com a tirania e violência inumana do sistema bancário. Desmonta a manipulação laboral do patronato. Defende o direito à greve como meio de alcançar remunerações justas. Denuncia os preconceitos da classe média. Ilustra a pobreza extrema, pobreza de fome, que se viveu nos EUA durante a década de 30, quando à Depressão se juntou um fenómeno ecológico devastador para a agricultura de alguns Estados. É um filme que está mais actual hoje do que toda a produção cinematográfica já estreada este ano ou a estrear. É mais do que um filme, é um meta-documentário.

Jane Darwell chegou ao cinema com 40 anos. É a quem Ford entrega o coração da obra-prima, do fresco humanista intemporal. Todos os momentos anteriores, todos os actos de vilania e generosidade, de abjecção e heroísmo, vão dar ao seu discurso final. Onde uma mulher revela a um homem o que é o povo. E o filme acaba como começa, numa estrada.

És um ponto, Pacheco

Sócrates é muito mais importante para a nossa vida de hoje do que Dias Loureiro e o “negócio” que ele tentou ocultar para aparecer como facto consumado é muito mais perigoso do que as aventuras dos offshores de Porto Rico.

Vale a pena ler este texto todo, de que cito apenas a frase obscena. Faz parte da contínua, espectacular, campanha de destruição do carácter de Sócrates, na qual o Pacheco é um dos mais activos e virulentos agentes. Foi a esta miséria que se reduziu a estratégia da oposição à direita desde o fracasso de Marques Mendes; o qual tem agora, face ao que aconteceu ao seu partido depois de ter saído, o distinto mérito de ter ensaiado uma qualquer alternativa. Até o PCP e BE se aliam ao PSD e CDS para denegrir a pessoa em vez de respeitar a função, como acontece no caso BPN. O que se tem dito contra Constâncio não passa de um flanqueamento a Sócrates. A intenção é a de que um alvo de suspeitas que põem em causa a sua honorabilidade apareça à opinião pública como protector de alguém considerado culpado, assim reforçando as suspeitas que lhe têm sido lançadas. Pretende-se deixar a imagem de que o Governador do Banco de Portugal foi, de alguma forma, co-responsável pelos actos danosos dos responsáveis da SLN e do BPN. E que na origem dessa passiva, ou activa, cumplicidade estaria uma incompetência técnica ou falha ética. Caso se atinja o objectivo de colocar na supervisão o mal maior, estará feito um decisivo branqueamento das causas que levaram à nacionalização do BPN. A diminuição moral de Constâncio, ou o descrédito do Banco de Portugal, tem directos beneficiários: os prevaricadores que lucraram e deram a lucrar.

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Verdadinha – Não por aquilo que nós dizemos

AL – Na resposta que o Governo deu à crise, que aspectos é que poderiam ter sido tomados por si também, se estivesse no Governo?…

MFL – Não! Teria tido exactamente a oposição oposta daquela que o… Tenho dito isso imensas vezes, tenho feito propostas à Assembleia da República, tenho dito isso em intervenções, no sentido de que, o combate que foi feito à crise, por parte deste Governo, é um combate que, do meu ponto de vista, está a ir no sentido errado. Está a piorar e não a melhorar. E isso é visível nos resultados. Porque com tanta medida tomada, com tantas acções tomadas, com tanto dinheiro que é anunciado, alguns efeitos devia ter. E nós vimos que, por exemplo, o desemprego não tem parado de aumentar. Então, é porque a política está errada. Porque as políticas avaliam-se não por aquilo que nós dizemos sobre as políticas, porque normalmente quem defende as políticas gosta sempre delas, e está convicto de que elas são correctas. Agora, a verdade é que se estivessem correctas dariam efeitos benéficos: estão a dar efeitos que não são benéficos. E se não estão a dar efeitos… Se estão a dar efeitos que são benéficos, há que mudar de política. […]

A Manela sabe que a política são resultados, não paleio. É por isso que não perde tempo a falar de propostas, ideias, soluções, até porque não as tem. Mas mesmo que tivesse, admitamos recorrendo a supercomputadores, não valia a pena falar nelas porque ainda não existiriam resultados, toma e embrulha. São os resultados que contam, esqueçam a trabalheira das operações, dos cálculos, do pensamento. Vide o desemprego: se aumenta, a política está errada. Haverá coisa mais simples de entender pelos simples do que este simples raciocínio? Seguindo a implacável lógica, se o desemprego começa a subir em todo o Mundo, sem excepção, por causa de uma tal de crise como há 80 anos não se sofria, isso apenas quer dizer que as políticas de todos os países estão erradas. E que, muito provavelmente, a culpa do que acontece em cada um desses países é também do Eng. Sócrates. Dela é que não é, com certeza, pois tem dito imensas vezes que com isto da crise as coisas estão piores, não melhores. Espera… o quê, há uma epidemia de gripe? O número de atingidos não pára de aumentar? Nesse caso, as coisas na saúde estão a piorar, não a melhorar. E terá de ser o PSD a mudar a política da gripe, porque os socialistas nem um reles vírus, que é um bicharoco tão pequenitotes, conseguem obrigar a não infectar a gente. Espera… o quê, vai chover e ventar? Bom, estes socialistas, realmente…

A Manela não mente. Verdade verdadinha.

Por alguém, não é?

[…] O Cristiano, no fundo, não é?, quem o conhece bem, sabemos que é um bom rapaz, não é? […] Vai ser muito importante para ele os primeiros meses, não é? Os primeiros dois, três meses, vai ser muito importante. […] É o dia, acho que é o dia e a noite, não é? Em Manchester, na Inglaterra, os restaurantes fecham, ah, os restaurantes, uh, às 8 da noite, 9, tão… já está tudo na cama, não é? Em Madrid às 8, 9 da noite ainda os restaurantes estão fechados, não é? […] Tem boa pinta, é solteiro, e de certeza absoluta que vão-lhe começar a sair duas ou três namoradas, não é? […] E vão tentar saber como é que é o quarto, como é que é a casa dele, para poderem falar depois, não é? […] A melhor coisa que lhe podia acontecer a ele, agora, era apaixonar-se lá… por alguém, não é?

Futre preocupado com Ronaldo

*

Cristiano Ronaldo, famoso também pela vida regrada que levou em Manchester, onde às 9 da noite já estava na cama com duas ou três atletas (algumas delas ainda não profissionalizadas, participando nos encontros com estatuto amador), derivado da problemática dos horários da restauração em Inglaterra, vai enfrentar as casas de pasto madrilenas na certeza de ir perder. Perder tempo, precioso tempo de sono, porque antes das nove ninguém janta naquela terra, nem Rei nem estrelas galácticas. E agora é fazer as contas: mesmo que Ronaldo saia do Santiago Bernabéu às 7 e vá logo para a porta do restaurante para ser o primeiro a entrar, antes das 11, com sobremesa e cafés, mais um dedo de conversa e dois autógrafos, não está despachado. Depois terá de apanhar transportes, chegar a casa, lavar a roupa do treino e ver um bocadinho dos noticiários desportivos. São duas da matina quando consegue enfiar os cornos na palha. Com treinos logo ao começo da manhã todo o santo dia, Futre tem boas razões para estar preocupado.

Mas Futre vai muito mais longe, e serve aos ouvintes uma tese antropológica. É a resposta à vexante questão freudiana: que querem as mulheres? Olha, querem falar de arquitectura e decoração de interiores, revela um ilustre filho do Montijo que estudou o fenómeno. O mulherio presta-se a qualquer ignomínia, até a fingir interesse nas balelas de futebolistas ouvidas em bares manhosos, só para poder invadir as suas casas e espiolhar os quartos, salas, casas de banho e arrecadações. Assim que registam os pormenores naquelas belas e pérfidas cabecinhas, as fêmeas desaparecem misteriosamente a meio da noite. E desatam a telefonar umas às outras a contar o que descobriram. E a rir, rir, rir. Este perigo é real, é de Madrid e pode dar cabo da carreira ao nosso menino. Porque se chega ao balneário alguma informação relativa aos naperons em ponto cruz que o Cristiano tem no quarto, ou se o pessoal começa a falar dos reposteiros com sanefa que ornamentam a sua sala, perderá de imediato o respeito dos colegas. E alguns até deixarão de lhe passar a bola em condições.

Pelo que a profilaxia está na paixão. O amor protege, acaba com o falatório. Quem ama não anda a expor o gosto do amado em cadeiras e cadeirões, toalhas e toalhetes. Acima de tudo, aqui revelando uma ousadia moral só ao alcance de um grande driblador de preconceitos, Futre deixa em aberto o género, quiçá a natureza, do alvo dessa paixão. Basta que seja alguém. Mulher, homem, anjo, demónio, semideus, titã, gnomo. Ou ele próprio, não é?

Elisa Ferreira, anda cá

Anda cá que o nosso amigo Acácio Lima pediu-nos para te entregar esta carta.

Sugiro que seja lida até ao fim, pois tem um ps que falará ao coração (ou às tripas) do PS.

E ainda acrescento que, caso Alegre esteja com este número, sobre o qual versa a epístola, a cobrar a eventual reentrada na lista de deputados, isso ficará como uma grande borrada do Rato. Espero estar a passar por imbecil com a mera suposição do cenário.