Por alguém, não é?

[…] O Cristiano, no fundo, não é?, quem o conhece bem, sabemos que é um bom rapaz, não é? […] Vai ser muito importante para ele os primeiros meses, não é? Os primeiros dois, três meses, vai ser muito importante. […] É o dia, acho que é o dia e a noite, não é? Em Manchester, na Inglaterra, os restaurantes fecham, ah, os restaurantes, uh, às 8 da noite, 9, tão… já está tudo na cama, não é? Em Madrid às 8, 9 da noite ainda os restaurantes estão fechados, não é? […] Tem boa pinta, é solteiro, e de certeza absoluta que vão-lhe começar a sair duas ou três namoradas, não é? […] E vão tentar saber como é que é o quarto, como é que é a casa dele, para poderem falar depois, não é? […] A melhor coisa que lhe podia acontecer a ele, agora, era apaixonar-se lá… por alguém, não é?

Futre preocupado com Ronaldo

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Cristiano Ronaldo, famoso também pela vida regrada que levou em Manchester, onde às 9 da noite já estava na cama com duas ou três atletas (algumas delas ainda não profissionalizadas, participando nos encontros com estatuto amador), derivado da problemática dos horários da restauração em Inglaterra, vai enfrentar as casas de pasto madrilenas na certeza de ir perder. Perder tempo, precioso tempo de sono, porque antes das nove ninguém janta naquela terra, nem Rei nem estrelas galácticas. E agora é fazer as contas: mesmo que Ronaldo saia do Santiago Bernabéu às 7 e vá logo para a porta do restaurante para ser o primeiro a entrar, antes das 11, com sobremesa e cafés, mais um dedo de conversa e dois autógrafos, não está despachado. Depois terá de apanhar transportes, chegar a casa, lavar a roupa do treino e ver um bocadinho dos noticiários desportivos. São duas da matina quando consegue enfiar os cornos na palha. Com treinos logo ao começo da manhã todo o santo dia, Futre tem boas razões para estar preocupado.

Mas Futre vai muito mais longe, e serve aos ouvintes uma tese antropológica. É a resposta à vexante questão freudiana: que querem as mulheres? Olha, querem falar de arquitectura e decoração de interiores, revela um ilustre filho do Montijo que estudou o fenómeno. O mulherio presta-se a qualquer ignomínia, até a fingir interesse nas balelas de futebolistas ouvidas em bares manhosos, só para poder invadir as suas casas e espiolhar os quartos, salas, casas de banho e arrecadações. Assim que registam os pormenores naquelas belas e pérfidas cabecinhas, as fêmeas desaparecem misteriosamente a meio da noite. E desatam a telefonar umas às outras a contar o que descobriram. E a rir, rir, rir. Este perigo é real, é de Madrid e pode dar cabo da carreira ao nosso menino. Porque se chega ao balneário alguma informação relativa aos naperons em ponto cruz que o Cristiano tem no quarto, ou se o pessoal começa a falar dos reposteiros com sanefa que ornamentam a sua sala, perderá de imediato o respeito dos colegas. E alguns até deixarão de lhe passar a bola em condições.

Pelo que a profilaxia está na paixão. O amor protege, acaba com o falatório. Quem ama não anda a expor o gosto do amado em cadeiras e cadeirões, toalhas e toalhetes. Acima de tudo, aqui revelando uma ousadia moral só ao alcance de um grande driblador de preconceitos, Futre deixa em aberto o género, quiçá a natureza, do alvo dessa paixão. Basta que seja alguém. Mulher, homem, anjo, demónio, semideus, titã, gnomo. Ou ele próprio, não é?

11 thoughts on “Por alguém, não é?”

  1. Uma das coisas que mais me espanta (ainda me espanto, eu) é o moço dizer que desde menino sonhou em jogar no Real Madrid. Ora ele quando veio da Madeira tinha 11 anos e eu falei com ele muitas vezes. Um moço que nem sabia quem era o José Travassos e aquilo que ele representava no Sporting, em Portugal e na Europa, vem agora falar no Real Madrid. Entrevistei-o muitas vezes para o Jornal «Sporting» e ele nunca disse isso. Sabia lá quem era o Real Madrid…

  2. jcfrancisco, “desde menino” é desde há cerca de cinco meses, mais ou menos. E, realmente, seria muito estranho que um miúdo que não soubesse quem era o José Travassos, ou o Visconde de Alvalade, ter ouvido falar no Real Madrid… Ou, talvez, o facto de ele não lhe ter falado no Real Madrid para o jornal do Sportin, tenha tido a ver com o facto de ele já andar em conversações com o Florentino Perez nessa altura e não querer levantar a lebre. Os putos da Madeira são matreiros.

  3. Já agora Pedro (em especial) esta questão é curiosa sobretudo num miúdo cujo horizonte gastronómico era a banana dentro do pão e cujo treinador (madeirense) Leonel Pontes durante a sférias o tratava como se fosse um irmão mais novo, pedindo à mãe (sua, dele) mais um bom bife na mesa. Como diz o outro «Tásjavér» ???

  4. jcfrancisco, estava a brincar; é óbvio que você o conheceu melhor do que eu. Mas o que ele está a fazer é seduzir os adeptos; pelo que lhe pagam, até devia ir para a cama com cada um deles, mesmo com o chato do manolo do tambor.
    Há coisas que eu admiro no puto, mais do que tudo, mesmo mais do que o seu talento: a sua coragem, vontade férrea e auto-confiança, coisas raras em qualquer homem, quanto mais num fedelho como ele. Podem os do Barça fazer-lhe chover em cima petardos, vaiá-lo até se ouvir na Madeira, que o puto se vai limitar a sorrir e piscar o olho. Deve ser do potássio das bananas.

  5. Já agora e para dar uma ideia mais aproximada: cheguei a dizer-lhe «Cristiano tu és um infantil pouco infantil!» ao que ele respondia «O que é que isso quer dizer?» e uma vez em Coimbra ele fez um entorse no pelado do União de Coimbra; sentado ao seu lado procurei motivá-lo para nas breves entrevistas exigir campos de relva mas a resposta era madeirense 100 por cento: «Temos que jogar onde nos mandarem!»

  6. É um puto giro. Mas ó jcfrancisco, você, digo eu, devia era fazer um post sobre hoquei em patins, agora que está aí o mundial. Quéqué feito do hóquei? qualquer dia, até o atiramento de dados é desporto olimpico e o hóquei, viste-lo, já ninguém liga nada. Há-de ficar-me para sempre na memória aquele mundial de Barcelos, era eu um puto, que foi dos acontecimentos desportivos mais elecrizantes de que há memória neste país. O Ramalhete, Victor Hugo (?), o Cristiano, o Virgilio, o Leste, Chana, e por Espanha o Trullols, Torner, etc, o Martinazzo da Argentina… o Pavilhão de Barcelos a ferver, todo o país pregado na televisão… que é que é feito disto tudo?

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