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E não podemos asfixiá-los?

Comentadores políticos que estão a pedir uma asfixia nada democrática:

Inês Serra Lopes – A sua presença nas televisões a debitar sentenças é um enigma à prova do tempo. Talvez represente a escola Freeport dos mexericos de Justiça.

Joaquim Aguiar – É um catastrofista. Daqueles que está fartinho de saber que o mundo já acabou, os outros é que ainda não foram avisados. Todas as manhãs, enquanto enfia a chinela, pergunta à empregada ― Já acabou, Susete? Ela responde da cozinha ― Ainda não, senhor doutor! Temos mais um dia pela frente! Depois vai sentar-se colado ao televisor a roer as torradas. O seu único desejo é que ao ligar o aparelho surjam imagens de portugueses aos tiros a portugueses, montras partidas, lojas pilhadas, carros a arder, a Moura Guedes de volta ao JN6. Nessa altura, abriria um enorme sorriso, recostava-se e berrava ― Eu não disse? Eu não disse?!… Com o Sócrates a governar-se e a desgovernar-nos, só podia dar nisto… Ó Susete, faça-me aí mais umas 4 torradas que estou com uma fome de catraio!…

Luís Delgado – Por ser o Luís Delgado, não carece de outra explicação.

Ricardo Costa – Este amigo, numa rivalidade com o mano, convenceu-se de que é o maior. Ele é que sabe. Em especial, sabe que Sócrates não pesca nada disto. Sócrates só faz merda, e da grossa, concede o Ricardo em explicar à audiência. Adler conheceu muitos comentadores desta estatura.

Assustador

Depois do debate Sócrates-Louçã, alguns acólitos e simpatizantes tentaram recuperar a validade ideológica da política fiscal que o BE apresenta no seu Programa. Foi uma alarmada reacção ao rombo que a credibilidade intelectual de Louçã sofreu nos tais 48 minutos históricos. Apesar de ferida e tardia, eis uma análise evidentemente meritória, inclusive por trazer à colação posições de Sócrates e Vital Moreira de outros contextos e tempos. E mais individualidades socialistas que fossem buscar, pois não faltam opiniões, seriam sempre um ganho qualitativo. Falta-nos a promoção dessa discussão em matéria tão complexa, tão prenhe de consequências financeiras para todos os cidadãos, e a qual tem ainda a supina vantagem de obrigar à racionalização. Contudo, se obriga à racionalização, o BE não está em condições de assumir a despesa. O BE transformou a política numa batalha emocional e populista, em exacta sintonia com o PSD, ambos os partidos apostados em assassinar o carácter de Sócrates, ambos os partidos caluniando sem vergonha nem amanhã. E por isso mesmo Louçã chegou ao confronto com Sócrates incônscio da existência de um asteróide a vir na direcção da sua jurássica demagogia.

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Disputatio – VII

Perguntou-se a Jerónimo se considerava haver medo na sociedade portuguesa. Jerónimo nasceu em 1947, tinha 27 anos em 74. São 27 anos de ditadura. Hoje tem 61 anos. E então, Jerónimo, tu que eras um homem mais do que feito no 25 de Abril, que chefias um partido que construiu a sua mitologia na luta contra o salazarismo e na prisão política, um partido com militantes que morreram em nome da liberdade, achas que há medo na sociedade portuguesa? Diz que não, mas que existiram sinais preocupantes. Sinais de asfixia democrática, repete Jerónimo fazendo coro com a estratégia demente e suja da direita. O exercício de liberdade sindical, de manifestação e de reunião foi alvo de intolerância por parte do Governo, afiança Jerónimo sem apontar onde e quando e como e porquê e para quê. Faltava só chegar à Madeira, tal o embalo. E chegou, para dizer que no bastião inamovível da boa governação PSD um comunista pode manifestar-se à-vontadex, lá não existe asfixia democrática, garante o Jerónimo que rememora passeios prazenteiros no Funchal. Os sinais preocupantes ficam no continente, têm medo de voar. Constança estava satisfeita, tinha espremido a bisnaga até ao fim.

Manela mostrou saber ouvir: usou de imediato o testemunho do Jerónimo para ilustrar a elevada qualidade da democracia na Madeira, terra de amplas liberdades desde que João Jardim se começou a sacrificar pelo povo. Seguiu-se uma listagem de provas inequívocas relativas ao medo que oprime a sociedade portuguesa, mais uma vez com o alto patrocínio do Procurador-Geral da República. E tenho de realçar uma delas, por me parecer de especial e gravosa importância:

Cuidado, não vás ali porque, se te vêem, podes perder o emprego.

Cá está, sente-se o medo estampado nas palavras. O problema não consiste em se querer ir ali ou mesmo ter chegado ali. Não, nada disso. Ir ali, pode-se ir, tudo bem. E acolá, talvez também dê para ir, fica a promessa. O problema é outro, é haver quem veja, quem esteja à espreita. E aí, sim, o emprego pode ir para o galheiro. Ora, como é que isto se resolve? Creio que a solução passa por ir ali fora do horário laboral. Esperar pela hora da saída e depois, devagar ou a correr, ir ali. E já não assustará que alguém veja. Será um sufoco, uma asfixia, ter de aguentar o trabalho, ter de cumprir o horário, suportar os colegas, obedecer ao patrão. É óbvio. Mas depois, há um ali lá. Lá onde o ali é um outro aqui. Mas sem medo, sem cuscos a olhar.

Da Galiza

Estou a seguir um bocadinho a campanha para as eleçoes portuguesas, vi algun debates, e conhezendo os candidatos e ajudado pelos vosos relatorios e opinioes na aspirina, procurando informação ao respeito. Uma coisa que eu destaco, comparando com Espanha e que em Portugal há mais debates, moitos mais, e variados, e que dentro da cultura democrática do pais o debater é normalidade. Em Espanha não é assim, a direita não gosta moito do debate, mas bem pouco, e só quando as coisas vão mal, arrisca no debate. Tambem os líderes portugueses semelham moito mais sereos e educados que os espanhois, realmente deijando as ideias aparte gosto de vê-los, e aproveito para dizer que o que mais me gosta debatindo e o Sócrates, acho que é um político moi presentavel. Será tambem porque é o que me fai mais facil a escoita do Porugués, notase que é do norte do país.

Na Galiza o dos debates para as eleçoes últimas ja foi vergonha, ja que o lider da direita negouse a debater contra os outros dous que se apresentabam, e ganhou. Não há moita costume , e antes de facê-lo, danlhe umas quantas voltinhas nos jornais, mas parece que foram a guerra que a falar.

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Disputatio – VI

Para descrever o que aconteceu nestes 45 minutos históricos não basta dizer que Sócrates ganhou, até que esmagou um atónito e apavorado Louçã. Isso seria estar a brincar aos debates. Não havendo comparação possível, vamos pela comparação impossível: para quem não assistiu ao mítico confronto entre Soares e Cunhal, em 1975, há agora uma réplica adaptada aos tempos que correm. Tal como nos últimos dias do PREC, a 8 de Setembro de 2009 a esquerda tirânica apareceu ao lado da esquerda democrática, e os telespectadores puderam comparar as diferenças com extrema nitidez. Louçã entrou como rival de Sócrates e saiu como caricatura de si próprio. Sócrates foi para o debate antecipado como o mais difícil e teve a sua melhor prestação televisiva de sempre, sendo brilhante do princípio ao fim; continuando, nas declarações após a refrega, a exibir uma afabilidade e bonomia letais para a cultura de ódio que o cerca. Tem pouco interesse calcular quantos votos terá ganhado ou deixado de perder, o que fica é um registo vídeo relativo à arte de discutir política com um assanhado e perigoso demagogo. Lição magistral. Com Sócrates, a democracia está protegida contra a asfixia da inteligência.

Não é o Amorim, stupid

Libertem o Freeport

Hoje noticia-se uma informação a que os procuradores do Ministério Público Paes Faria e Vítor Magalhães terão tido acesso quando há mais de quatro meses foram a Londres. Pergunta: corromper um acto eleitoral com fugas ao segredo de Justiça destinadas a atacar o PS faz parte da missão do Ministério Público? Ou, de facto, já chegámos à Madeira, o bastião inamovível da Política de Verdade?

Seja o que for que resulte da campanha negra, seja qual for a organização do poder, o pós 27 de Setembro vai deixar muitas pessoas associadas a um período de profunda decadência moral e cívica em Portugal. Mas a vida vai continuar, haverá memória e coragem.

Ensino

Os professores vão manifestar-se no dia 19 deste mês. Eles querem condicionar as eleições e impedir a vitória do PS. O próximo passo será a constituição de um partido e a entrada no Governo. Prometem notas altas na carteira para todos os portugueses e o fim dos exames de condução.

Dos menos de 30 valentes que foram para a TVI fazer uma vigília de solidariedade a Manuela Moura Guedes, mais de 100 eram professores. Um deles, Cristina Riba, aproveitou para falar da sua aversão aos baixotes. Outro deles, Luís Mário, explicou o que se estava mesmo a passar.

Estes dois factos, ilusoriamente separados, comprovam que estamos sempre a aprender.

Disputatio – V

O debate entre Jerónimo e Portas assinala a viragem para a segunda volta deste mini campeonato. Os próximos embates serão cada vez mais decisivos, acabando em crescendo. Diga-se que a ordenação dos mesmos parece especialmente feliz, sendo só de lamentar a sua curta duração. Por que não uma hora? Ou duas?

Ver os líderes a discutir entre si sem as disfunções emocionais típicas dos debates parlamentares está a ser um inestimável serviço à democracia. A retórica agressiva e boçal com que a oposição ataca o Governo na Assembleia e no comentário publicado é nefanda para a racionalização dos actos políticos — e fica como uma das causas do afastamento e demissão cívica da comunidade. Quando o exemplo dos chefes degrada o debate, a comunidade desagrega-se e reprime-se. Quando o exemplo dos chefes eleva o debate, a comunidade une-se e participa. Neste ciclo ainda não se registou nenhum debate ou momento de elevação memorável, mas a nossa carência é tanta que a mera decorrência dos mesmos sem hostilidades narcísicas e tribais é uma experiência rara e terapêutica.

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Disputatio – IV

As regras do debate estão a estabilizar numa desregulação tácita sensata, favorecendo a riqueza do momento e não o estéril cumprimento do abstracto. Este debate, entre um Louçã surpreendentemente perdulário e uma Ferreira Leite surpreendentemente ágil, lembrou-nos do mal que fazem profissionais da insídia como Pacheco Pereira e Paulo Rangel, os quais envenenam a discussão para a manter num permanente impasse. Com a dupla desta noite, e por influência involuntária de Ferreira Leite, a racionalidade democrática pôde respirar, aparecendo como bondosa e proveitosa a existência de diferenças políticas. Portugal precisa dessa educação, o aprender a respeitar o adversário e a querer-lhe bem por causa da sua diferença, não apesar dela.

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O reino da estupidez

Não se imagina esta campanha imoral e antidemocrática onde o PSD se barricou a ser feita pelo PS. Será impossível, pelo menos enquanto o partido mantiver a actual demografia feita de resistentes à Ditadura e paladinos da democracia. Nem as bases nem os dirigentes históricos o permitiriam, jamais deixariam cair o partido nas mãos de reaccionários e decadentes, ranhosos para quem vale tudo. É, por isso, sumamente burlesco que o partido do cavaquistão e da sociedade dos lusos negócios, o partido da vergonha democrática e humilhação presidencial na Madeira, o partido que ainda recentemente calou Marcelo na TVI só porque não aceitava a sua crítica política e ainda quis impedir o trabalho de Fernanda Câncio na RTP com um argumento abaixo de cão, o partido que forjou documentos para perverter as eleições de 2005, agite agora o espantalho da censura para atacar o partido responsável pela defesa das liberdades e garantias ameaçadas após o 25 de Abril pela tirania comunista. O PS é tão plural, com uma cultura democrática tão sólida, que manteve Manuel Alegre como líder de facção interna em permanente oposição, chegando-se à sistemática tentativa de boicote legislativo quando Alegre e os seus votaram contra o PS em momentos especialmente críticos. E, apesar da postura soberba e bacoca de Alegre, continuou a ser protegido e acarinhado por Sócrates, que tudo tentou para o manter como deputado na próxima legislatura e participante nesta campanha. ‘Nough said.

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Disputatio – III

Este debate mostrou à saciedade as limitações e ineficiências do modelo, com Sócrates cedo a intervir fora da sua vez, e depois a permitir-se interromper Jerónimo com crescente à-vontade. Acontece que essas fugas ao regulamento não prejudicaram os telespectadores, antes introduziram maior interesse no debate. A certo ponto, creio que já ninguém sabia em que segmento específico estava a discursar, e desconfio que as réplicas de 1 minuto chegaram a ser repetidas no mesmo tema. O diálogo espontâneo foi sempre benéfico, mas introduz um elemento disruptor que se torna ambivalente, como se viu com Portas. Enfim, as ocorrências consolidam a evidência: as regras deveriam ser trocadas pela autoridade do jornalista em cada debate, o qual faria a gestão das intervenções segundo os seus critérios. Para um perfeito equilíbrio, cada interveniente teria um pacote de tempo fixo para o total das suas intervenções.

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A maldição de Queiroz

É óbvio que apenas a existência duma maldição pode explicar a sucessão de episódios caricatos ou infelizes que preenchem a carreira de Queiroz depois de ter sido campeão do Mundo Sub-20. Como agora neste jogo, com golos falhados como só se vê nas praias da Costa da Caparica. E tudo começou numa segunda parte em Alvalade. Chovia que se fartava.