Disputatio – V

O debate entre Jerónimo e Portas assinala a viragem para a segunda volta deste mini campeonato. Os próximos embates serão cada vez mais decisivos, acabando em crescendo. Diga-se que a ordenação dos mesmos parece especialmente feliz, sendo só de lamentar a sua curta duração. Por que não uma hora? Ou duas?

Ver os líderes a discutir entre si sem as disfunções emocionais típicas dos debates parlamentares está a ser um inestimável serviço à democracia. A retórica agressiva e boçal com que a oposição ataca o Governo na Assembleia e no comentário publicado é nefanda para a racionalização dos actos políticos — e fica como uma das causas do afastamento e demissão cívica da comunidade. Quando o exemplo dos chefes degrada o debate, a comunidade desagrega-se e reprime-se. Quando o exemplo dos chefes eleva o debate, a comunidade une-se e participa. Neste ciclo ainda não se registou nenhum debate ou momento de elevação memorável, mas a nossa carência é tanta que a mera decorrência dos mesmos sem hostilidades narcísicas e tribais é uma experiência rara e terapêutica.


A necessidade de discutir necessariamente um conjunto fixo de temas, sendo a mais convencional das práticas, não é a melhor solução para o esclarecimento do que importa. Portas e Jerónimo são disso um excelente exemplo. Pelo facto de terem falado em vários temas há material de análise e comentário para jornalistas. Contudo, o eleitor médio não fica bem servido, pois a sua decisão não é afectada pela diversidade dos temas discutidos, antes pela sua profundidade. Assim, um debate poderia (deveria?) ser dedicado a um único tema, e, precisamente por causa dessa exclusividade, ser o evento mais importante da campanha para a redução da abstenção e do voto em branco. Caso Jerónimo e Portas tivessem dedicado todo o tempo a discutir a concepção de liberdade que cada um perfilha, por exemplo, poderia daí ter nascido um documento memorável de ciência política, filosofia, biografia e um sem-número de dimensões da natureza humana, tomada individualmente ou em grupo. De certeza que faria muito mais para a revitalização e amadurecimento da cidadania do que a repetição superficial de medidas avulso, ditas a correr na espantosa crença de que há alguém à escuta e a tomar notas.

Finalmente, este debate reuniu dois homens que contrastam radicalmente no plano da ética. Jerónimo só consegue dizer verdades, as suas. Podemos não concordar, e ter as nossas, mas não podemos duvidar da telúrica honestidade daquele ser. Uma aura de ancestral dignidade emana de Jerónimo, é um consolo. Já Portas é um mentiroso frenético e compulsivo. De Portas não há nada que se aproveite, incluindo as ocasionais verdades que ele também transmite inevitavelmente. Tudo nele é simulacro e manha. Como é que foi possível o partido de Freitas do Amaral, Adriano Moreira e Lucas Pires ter sido tomado pelos decadentes Monteiro e Portas? Grave perda para Portugal.

10 thoughts on “Disputatio – V”

  1. eles haviam de ficar nus perante as camaras e o público. e depois, no fim, lançava-se um leãosinhõ. :-)

    (e eu aposto que matavam e comiam o leão). :-D

  2. As últimas linhas deste texto são brilhantes! Pena é o Valupi ter-se enganado nos nomes e partido em causa. È um sintoma do «estado de negação» em que vive. Mas eu vou ajudá-lo e vou corrijir os seus lapsos: «Já Pinto de Sousa é um mentiroso frenético e compulsivo. De Pinto de Sousa não há nada que se aproveite, incluindo as ocasionais verdades que ele também transmite inevitavelmente. Tudo nele é simulacro e manha. Como é que foi possível o partido de Mário Soares, Sampaio e Guterres ter sido tomado pelos decadentes Vara e Pinto de Sousa? Grave perda para Portugal».

  3. é de facto esclarecedor ver como gajos que se dizem de esquerda só atacam o PS, nem uma palavrinha sobre o espectro do salazarismo que a ferrugenta e o feirante abrigam e aplicavam se fossem poder, sem qualquer dúvida ou não fosse a suspensão da democracia por 6 meses, renovável, uma tirada dita. Nada. De esquerda?

  4. Eu também acho esclarecedor a mentalidade «clubistíca» e «futebolistica» de gajos que se dizem de esquerda, mas pouco se importam que o seu «clube» pouco ou nada tenha de esquerda. Mas eu percebo: se a selecção portuguesa qualquer dia é constituída só por brasileiros e se já foi treinada por um brasileiro, por que raio é que o «clube» PS não pode ser constituido e liderado por tipos de direita e «treinado», orientado, segundo princípios de direita e por tipos como o Júdice ou o Proença de Carvalho? E o cachecol, Z, já está na janela e pronto para a festa?

  5. eu não faço festa nenhuma pá, nem tenho cachecol. Ao contrário de ti, presumo, eu ainda hoje sou objecto de um despedimento ilegal e inconstitucional por parte de uma instituição do Estado, depois de 20 anos de serviço, sem ter sido acusado de incumprimento, por ter ousado afrontar interesses poderosos sem rede nem costas protegidas – já está quase a caminho de 5 anos e nada, a Justiça caladinha a ver se morro.

    Eu vou partir para longe, e sim, a selecção nacional é e vai continuar a ser uma merda porque foderam o meu amor por Portugal. Mas não ao ponto de deixar os meus compatriotas entregues a uma proto-ditadura, dentro das minhas forças e enquanto cá andar. Depois é com vocês.

  6. Brilhante Z, manda esses gajos todos, levar no dito, pois de resto nada mais provam saber fazer, senão serem os infiltrados da direita mais primária e obscurantista do planeta (onde quer que haja direita), na dita esquerda que só neste país não sofreu mudanças por não terem vergonha na cara de assumirem as posições de ditaduras do “proletariado” que já caíram de per si, pois de bom só os títulos exibiam !!! Que merda de gente!!!

  7. Infiltrados da direita! ehehhehehhehe. Estes gajos (que para mim não são merda em sentido estrito, mas sim diarreia, como já disse noutra altura) são incapazes de se reconhecerem: devem pensar que por serem líquidos (ou pouco sólidos) não são merda na mesma! Como eu disse, têm «brasileiros» a orientá-los, mas depois os outros é que jogam com ou como «estrangeiros»! ehehhehehheh

  8. 5 anos… Deixa lá ver: 2009 – 5 = 2004. Portanto, o Z afrontou interesses poderosos no tempo da «velha ferrugenta», e uma qualquer «Margarida Moreira» laranja não gostou e pô-lo na ordem. Tudo «bem»… Mas onde é que isto contraria a mentalidade «clubistica»?

  9. Portas e Jerónimo, para além da retórica gasta e da demagogia barata, não têm rigorosamente NADA a propor aos portugueses e só já anseiam por derrubar José Sócrates. Se o conseguirem, pois deveriam ser obrigados a coligar-se para governar o País durante os próximos quatro anos (HORROR!).

    Contudo, eu acho que ainda haverá portugueses lúcidos em número suficiente para dar a devida resposta a estes dois “kefrôs” a 27 de Setembro…

  10. mentalidade clubística? Na altura eu era do Bloco mas também aí não era querido, até lhes soube muito bem ver-me corrido. Os clubes são totémicos e o tabu universal (para lá do do incesto) é não caçar o bicho que totemiza a tribo. Quanto ao sacrifício desde Girard que se sabe que visa domesticar a violência endémica numa forma ritualizada, logo contida.

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