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Esmiúça os Sufrágios – Ferreira Leite

A Manela esteve irrepreensível. E as questões cumpriram o papel de provocar sem provocação. Foi particularmente feliz na última pergunta, pois teve a oportunidade de desmontar o episódio da sua declaração relativa à suspensão da democracia. Entretanto, o fanatismo e o ridículo disparam sempre que a Manela consegue passar meia-hora sem dizer uma asneira. É assustador.

Esta descontracção simpática, a generosidade de expor-se obedecendo a outros códigos retóricos, com que a Manela nos brindou é particularmente relevante para a compreensão do que faz quando não está a participar em programas de entretenimento, como disse o meu primo. Significa que é um ser moral, consciente das implicações políticas e éticas do que diz ou deixa por dizer. Ela reconhece diferenças, adapta-se às situações, representa. Tal como qualquer pessoa imputável, responsabilizável. Assim, quando aprovou a campanha de insídias contra Sócrates e o Governo, quando deturpa a opinião pública com o tema da asfixia democrática ou quando mente sem uma hesitação em relação à Madeira, a senhora sabe muito bem o que está a fazer, como lembrou o Francisco Clamote cá na casa. Acontece-lhe é preferir esse caminho, caindo numa armadilha, já muito investigada na psicologia, onde indivíduos que se consideram moralmente superiores permitem-se cometer imoralidades precisamente por se julgarem com direitos especiais.

Uma palavra final para os Gato Fedorento: contratem, urgentemente, alguém que saiba escrever comédia política. E se é para continuarem a ajudar a oposição, comparando o incomparável a propósito do caso TVI e assim reforçando o dano a Sócrates e ao PS, coloquem o símbolo do Bloco na esquerda baixa.

Não voto PS, mas

Não voto PS, mas espero que o PS ganhe, de preferência com maioria parlamentar. Seria a melhor situação para Portugal, na minha humilde e nada modesta opinião. Mas não voto PS porque o PS é um partido, não uma pessoa ou um Governo. Fundado em 1973, o PS é o mais importante partido da democracia portuguesa, tanto pelo papel de Mário Soares nos anos 70 e 80 como pela influência decisiva dos seus quadros na qualificação do regime até ao presente. Isso quer dizer que é aquele partido ao qual devemos pedir maior responsabilidade. E não há área mais carente de responsabilização do que a da Justiça. Embora o PS seja o partido onde melhor se concretiza o ideal de liberdade que associamos à democracia, até pela diversidade sociológica e política que congrega, mas também pelo fundo ético onde se enraíza a sua cultura, o seu Programa para estas eleições não satisfaz o ideal platónico (no seu duplo sentido) onde me cumpro cidadão.

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Freitas perguntou, Louçã calou

1) Qual é a ideologia do BE? É marxista ou não? Se é marxista, é-o apenas no sentido de adoptar a crítica de Marx ao capitalismo, ou é-o integralmente, e portanto preconiza a «revolução comunista» e a primeira fase necessária desta, a da «ditadura do proletariado»?

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Freitas do Amaral, na Visão de 21 de Maio de 2009, fez sete perguntas a Francisco Louçã. Se alguém souber onde se encontram as respostas, é favor avisar.

Crivos de prova e contra-prova

10. Para o PÚBLICO este não é um episódio encerrado e muito menos um sillygate, razão pela qual os nossos jornalistas continuam a trabalhar para reunirem a documentação e/ou os testemunhos que nos faltam para sustentar as outras informações que possuímos mas que ainda não estão em condições de serem reveladas pois não passaram por todos os crivos da prova e contra-prova.

Joaquim Vieira, finalmente, começou a pronunciar-se acerca da inventona que une a Presidência da República e o jornal de Belmiro de Azevedo. É uma leitura que fica como dever de cidadania, e a qual expõe a pulhice do Zé Manel e dos jornalistas que o servem. Espantosamente, como se pode ler supra, o director do Público, um jornal transformado em arma de vingança contra Sócrates por este ter ousado afrontar um empresário poderoso, diz que tem mais informações relativas às supostas escutas em Belém e espionagem do Governo sobre Cavaco e Casa Civil. Faltarão só uns certos crivos de prova e contra-prova. Se forem os mesmos usados para a notícia das escutas e do agente no Funchal, em Agosto, por certo nada impedirá que a mais acéfala conspiração do regime conheça novos capítulos nas próximas duas semanas, sem falta.

Sporting, a invenção do mau futebol

Pode ser uma razão para ir ao estádio. Ver uma equipa que treina para apresentar mau futebol. Uma equipa que não sabe como chegar à baliza adversária. Uma equipa que não consegue passar a bola a meio-campo de modo a criar oportunidade de remate, desmarcação ou sofrer falta. Que insiste em pôr a jogar o Miguel Veloso, medíocre futebolista e péssimo atleta. Que insiste em pôr a jogar o Moutinho, um jogador de banco. Que insiste em pôr a jogar o Djaló, que só devia fazer as segundas partes das segundas partes. Uma equipa que não aproveita o génio do Vukcevic, que o utiliza longe da baliza. Se é para ser assim, então assumam, digam aos adeptos que o objectivo é o mau futebol, a estupidez em calções. Se não conseguem ser reis da selva, ao menos que dêem espectáculos de circo. As crianças gostam e garante-se um Natal com a casa cheia.

Disputatio – X

O mais fanático dos escribas no Jamais, Carlos Botelho, atingiu o zénite na asfixia da inteligência com esta descida ao fundamentalismo:

[…]
De um lado, alguém que parece não pensar, que, na verdade, não conversa nem discute – não argumenta: limita-se a sacar de chavões, estribilhos, frases de outdoor, que fala como num comício e sempre com uma fluência de autómato. Parece ter um catálogo de expressões decoradas que vai disparando respectivamente para os temas A, B, C… Pior do que isso: tenta deturpar e descontextualizar o que os outros dizem (já resultou noutro debate, neste não).

Do outro lado, alguém que podemos ver a pensar à nossa frente. Não repete nem reproduz frases. Produ-las. Procura falar dos problemas sem recusar toda a sua superfície angulosa e áspera – assume-a no discurso e no argumento. Transporta para o seu discurso a própria dificuldade das coisas. Nesse sentido, as pessoas vêem ali um discurso verdadeiro.
[…]

Primeiro, diz que a competência discursiva de um orador, Sócrates no caso, resulta de não pensar. A seguir, diz que a incompetência discursiva de um orador, Ferreira Leite no caso, resulta de pensar. Para o Botelho, o pensamento é uma construção penosa, lenta, produzida a custo. Quão mais verdadeiro, mais um pensamento exibirá as marcas da sua elaboração no acto mesmo da sua expressão oral, afiança o iluminado apoiante do PSD. Esta matriz de produção permite vislumbrar as condições artesanais, o labor manual, que serão apanágio do pensamento da Manela, o tal pensamento que produz discursos verdadeiros. De cada vez que fala, pensa, e de cada vez que pensa, produz algo novo, uma verdade sempre nova, fresca, sem repetições, acabadinha de sair do confronto com a realidade e respectiva dificuldade das coisas. É por isso que lhe é permitido dizer tudo e o seu contrário, pois este sistema de produção de verdades leva a que não se repitam nem reproduzam frases, explica o genial Botelho. Para quê perder tempo com uma verdade passada se já vem outra a caminho, mais recente?

Esta distorção é notável, para mais vinda de uma figura que se socorreu de Goebbels para defender o PSD e atacar portugueses. Temos aqui consagrada a definição de verdade como aletheia, desvelamento, e o que fica à mostra é patético e sinistro. A Manela não mente, urram estes alucinados do fundo da toca onde se escondem da honestidade intelectual. É uma senhora séria, pura, cuja seriedade merece a recompensa suprema do País: ganhar as eleições. Para quê? Ora, para continuar a fazer o que fazem todas as pessoas que nos querem impor a sua seriedade: a produção sofrida de verdades convenientes.

Disputatio – IX

Preguiçoso, e perigoso, o lugar-comum que atribui a Portas e Louçã dotes superlativos no campo da discursividade, oratória, retórica. Confunde-se maneirismo, Portas, e melodrama, Louçã, com a arte de persuadir, da comunicação por excelência. Acontece que Portas e Louçã são os políticos mais artificiais actualmente no activo. São obscenamente falsos. Estão reféns das respectivas imagens de marca, não conseguem desviar-se dos códigos de nicho. Contudo, Portas é lúdico, não leva a sério o que se passa porque só precisa do que já tem: um bom emprego, cheio de confortos e consolos. Já Louçã é fanático, não tem outra vida para além da que ambiciona ter: chegar lá, ao trono, e contemplar o povo a seus pés.

Estas duas figuras castiças da cultura portuguesa iam-se pegando ao estalo por causa de umas contas de contar. Um chamou burro ao outro, fazendo uma aldrabice. O outro perguntou se lhe estavam a chamar aldrabão, feito burro. Antes disso, foram exibidos cartões com figuras coloridas, citou-se Salazar, deu-se Berlusconi como prova da vaga xenófoba na Europa, falaram dum puto que escreve umas larachas no website do CDS e leram-se passagens da Fátima Missionária. Depois disso, atacaram furiosamente um problema ridículo que metia telemóveis. Os dois melhores tribunos da República ficaram agitadíssimos, desvairados, com a possibilidade de acabarem o debate deixando a percepção de que tinham consentido uma vantagem ao adversário nessa magna questão. E ainda a esta hora lá estariam, a chamarem nomes um ao outro, não se tivesse dado a fortuna de ocorrer a Judite de Sousa que estava em risco de ser multada por ultrapassar o tempo estabelecido para o debate. Foi o balde de água fria para cima da canzoada.

Na retórica, há uma noção central que está completamente fora de moda, o termo quase desaparecido do vocabulário corrente: decoro (decorum). Diz respeito à conformidade do conteúdo com a embalagem, so to speak como dizem os franceses. Essa conexão, ou falta dela, entre logos e lexis, res e verba, o cu e as calças, amiúde encontra em Portas e Louçã momentos esplendorosamente indecorosos.

Disputatio – VIII

Bute aí dizer verdades: Ferreira Leite foi escolhida como solução estrambólica para um PSD em pânico com o destrambelhamento de Menezes e sem confiança em Passos Coelho para aguentar o barco, mas a senhora é absolutamente incompetente para a função e não tem condições intelectuais para exercer o cargo de primeira-ministra. Tragédia: não pode desistir, tem de ir a votos. E depois acontece aquilo a que o PSD já assiste sem conseguir esboçar uma qualquer defesa, a cruel exibição da postura disfuncional da sua Presidente. Como na Madeira, o evento que assinala o fim do que restava da ilusão. E neste debate com Portas, onde só não vê quem não quiser ver o berbicacho onde o PSD se enfiou.

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