A Manela esteve irrepreensível. E as questões cumpriram o papel de provocar sem provocação. Foi particularmente feliz na última pergunta, pois teve a oportunidade de desmontar o episódio da sua declaração relativa à suspensão da democracia. Entretanto, o fanatismo e o ridículo disparam sempre que a Manela consegue passar meia-hora sem dizer uma asneira. É assustador.
Esta descontracção simpática, a generosidade de expor-se obedecendo a outros códigos retóricos, com que a Manela nos brindou é particularmente relevante para a compreensão do que faz quando não está a participar em programas de entretenimento, como disse o meu primo. Significa que é um ser moral, consciente das implicações políticas e éticas do que diz ou deixa por dizer. Ela reconhece diferenças, adapta-se às situações, representa. Tal como qualquer pessoa imputável, responsabilizável. Assim, quando aprovou a campanha de insídias contra Sócrates e o Governo, quando deturpa a opinião pública com o tema da asfixia democrática ou quando mente sem uma hesitação em relação à Madeira, a senhora sabe muito bem o que está a fazer, como lembrou o Francisco Clamote cá na casa. Acontece-lhe é preferir esse caminho, caindo numa armadilha, já muito investigada na psicologia, onde indivíduos que se consideram moralmente superiores permitem-se cometer imoralidades precisamente por se julgarem com direitos especiais.
Uma palavra final para os Gato Fedorento: contratem, urgentemente, alguém que saiba escrever comédia política. E se é para continuarem a ajudar a oposição, comparando o incomparável a propósito do caso TVI e assim reforçando o dano a Sócrates e ao PS, coloquem o símbolo do Bloco na esquerda baixa.