Disputatio – IX

Preguiçoso, e perigoso, o lugar-comum que atribui a Portas e Louçã dotes superlativos no campo da discursividade, oratória, retórica. Confunde-se maneirismo, Portas, e melodrama, Louçã, com a arte de persuadir, da comunicação por excelência. Acontece que Portas e Louçã são os políticos mais artificiais actualmente no activo. São obscenamente falsos. Estão reféns das respectivas imagens de marca, não conseguem desviar-se dos códigos de nicho. Contudo, Portas é lúdico, não leva a sério o que se passa porque só precisa do que já tem: um bom emprego, cheio de confortos e consolos. Já Louçã é fanático, não tem outra vida para além da que ambiciona ter: chegar lá, ao trono, e contemplar o povo a seus pés.

Estas duas figuras castiças da cultura portuguesa iam-se pegando ao estalo por causa de umas contas de contar. Um chamou burro ao outro, fazendo uma aldrabice. O outro perguntou se lhe estavam a chamar aldrabão, feito burro. Antes disso, foram exibidos cartões com figuras coloridas, citou-se Salazar, deu-se Berlusconi como prova da vaga xenófoba na Europa, falaram dum puto que escreve umas larachas no website do CDS e leram-se passagens da Fátima Missionária. Depois disso, atacaram furiosamente um problema ridículo que metia telemóveis. Os dois melhores tribunos da República ficaram agitadíssimos, desvairados, com a possibilidade de acabarem o debate deixando a percepção de que tinham consentido uma vantagem ao adversário nessa magna questão. E ainda a esta hora lá estariam, a chamarem nomes um ao outro, não se tivesse dado a fortuna de ocorrer a Judite de Sousa que estava em risco de ser multada por ultrapassar o tempo estabelecido para o debate. Foi o balde de água fria para cima da canzoada.

Na retórica, há uma noção central que está completamente fora de moda, o termo quase desaparecido do vocabulário corrente: decoro (decorum). Diz respeito à conformidade do conteúdo com a embalagem, so to speak como dizem os franceses. Essa conexão, ou falta dela, entre logos e lexis, res e verba, o cu e as calças, amiúde encontra em Portas e Louçã momentos esplendorosamente indecorosos.

7 thoughts on “Disputatio – IX”

  1. gostei! e achei deliciosa a frase “Foi o balde de água fria para cima da canzoada.”
    quanto aos artistas, o portas deixou de ser virgem na última governação mas continua a falar como se ainda estivesse novinho, esquecendo a incompetência pura que foi a governação psd/cds. o louçã, mais pedante que nunca, promete o paraíso (tentando esconder a sua ideologia o mais que pode) com uma retórica demagógia e, surpreendentemente, levou ontem nas trombas (já tinha levado um enxerto do sócrates).

  2. gostei mais uma vez desta diputatio de Valupi depois de ver o debate, tal que li e volvi a vê-lo, mais uma bez brilhante.

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