Disputatio – VIII

Bute aí dizer verdades: Ferreira Leite foi escolhida como solução estrambólica para um PSD em pânico com o destrambelhamento de Menezes e sem confiança em Passos Coelho para aguentar o barco, mas a senhora é absolutamente incompetente para a função e não tem condições intelectuais para exercer o cargo de primeira-ministra. Tragédia: não pode desistir, tem de ir a votos. E depois acontece aquilo a que o PSD já assiste sem conseguir esboçar uma qualquer defesa, a cruel exibição da postura disfuncional da sua Presidente. Como na Madeira, o evento que assinala o fim do que restava da ilusão. E neste debate com Portas, onde só não vê quem não quiser ver o berbicacho onde o PSD se enfiou.


Borges, Rio ou Pacheco, qualquer um deles seria a escolha do PSD para enfrentar Sócrates nestas eleições se a lógica imperasse. Por razões que desconheço, ficaram nas covas. Teve de avançar uma mulher que está a dar um magnífico exemplo de coragem e, imagino, de sacrifício. A Manela é uma oligarca à antiga, no bom e no mau sentido. Nasceu, cresceu e viveu entre cultos e poderosos, mas não lhe peçam que comece agora a aprender línguas. Como segunda linha, perfeita. Dá ordens no gabinete, o seu feitio não causa danos ao grupo. Como líder partidária do maior partido da oposição disputando as eleições contra Sócrates, estamos perante uma catástrofe. Precisamente porque estamos a ver a pessoa na sua nudez, ela é o que está a mostrar. Serôdia, chegou tarde a uma posição que exige competências que já não tem, como sejam as de lidar com a complexidade, as de aguentar a pressão e as de compreender a alteridade. Por isso, não pode fugir de um território mínimo, o de um Programa que se limita a prometer boas decisões. Quais? Não faz a menor ideia, e fica logo irritada (ou seja, assustada) se lhe pedem para antecipar, prever o dia seguinte.

O episódio da Madeira é da responsabilidade dos estrategas que escolheram uma via canalha, a da Política de Verdade. Só pessoas profundamente incultas poderiam ter ousado tal caminho. E só pulhas poderiam ter-lhe dado uma frente de combate no tema da asfixia democrática. Acontece que a Manela aceitou e assumiu todos os objectivos decididos pela sua equipa, e está a dar o melhor de si para os cumprir. É um exercício de lealdade para com o PSD, para com os seus, tão fielmente seguido que arrastou a sua lucidez para o abismo da mentira em nome da Verdade. Viu-se a crise emocional que o tema da Madeira causou neste debate, levando à repetição do raciocínio, já demente, que se barrica na legitimidade do voto em Jardim para acabar com a conversa. Sob vários tipos de análise, de diferentes áreas das Ciências Humanas, esta reacção é demasiado grave. Estamos perante uma extraordinária dissonância cognitiva, razão suficiente para se preparar de imediato a sua urgente saída de cena. Mas nisto a Manela é tão-só a vítima daqueles que escolheram um caminho indigno, aqueles que apostaram tudo na campanha negra ― e que também estão em Belém.

O debate Ferreira Leite-Portas confirmou que Sócrates vai ter, de facto, o seu mais difícil confronto neste sábado. Mas por razões que remetem para o melindre do caso, para o inusitado de estar perante um adversário que precisa de ajuda no plano pessoal, que não joga com o baralho todo. Portas começou por ficar surpreso com a agressividade da Manela, a qual explodia em rajadas paternalistas, passando responsos ao menino traquinas. Depois, foi até comovente ver como o Paulinho se deu conta da sua impossibilidade para explorar a fragilidade da senhora, passando ele a verter maternalismo numa estima genuína, numa protecção misericordiosa. E o ataque final, a propósito da Madeira, não teria acontecido se ele não tivesse ficado assustado com o fundamentalismo da sua interlocutora, a qual era consistente e primária na tentativa de o diminuir.

Sócrates vai dialogar com a Política de Verdade, esse solipsismo que exclui e diaboliza, e a sua missão será deixar falar a verdade da política, essa comunidade onde nos reconhecemos e unimos. Onde cultivamos a diferença e a esperança.

17 thoughts on “Disputatio – VIII”

  1. Val, o teu post é de uma racionalidade lapidar. Também eu sou daqueles que julga ser o debate com Ferreira Leite o mais difícil para Sócrates. Sócrates tem que demonstrar que para Ferreira Leite e o PSD a escolha do mote “política de verdade” é apenas uma estratégia para com que o eleitorado não esqueça o rol de calúnias lançadas com o PM. Foi e é uma estratégia de pulhice, de gente baixa. É uma estratégia que conta com interesses diversos nos mídia e, isso, parece hoje claro como água que bebemos. Confiemos pois na habilidade do nosso PM e na imensa sabedoria do povo.

  2. Infelizmente os resultados da sondagem de hoje mostram a efectiva “mossa” que as campanhas da TVI e do freeport têm feito ao PS e sobretudo ao Governo e 1º Ministro.
    E após assistirmos às intervenções da representante do PSD nos vários debates televisivos, será realmente catastrófico para o país a sua passagem a chefe de governo. Mas será possível que haja assim tantos portugueses que não vejam para além do DISCURSO DE FALSIDADES, destilado por toda a oposição e que tão diligentemente é propagandeado por toda a comunicação social…!?! E que a esquerda seja tão estúpida e primária que PREFERE DAR O PODER À DIREITA DO QUE AO SEU IRMÃO DE ESQUERDA!?!

  3. Em primeiro lugar, os meus agradecimentos por este tão brilhante quanto lúcido texto. É simplesmente excepcional!

    Em segundo lugar, as sondagens valem o que valem, e há que manter a esperança e acreditar, até ao último momento, na imensa sabedoria do Povo (apesar da sua aparente ignorância), como diz o Paulo Gorjão.

    Em terceiro lugar, um verdadeiro democrata tem de permanecer firme e fiel às suas convicções, mesmo quando as obscuras e tenebrosas forças da manipulação e do condicionamento da genuína vontade popular – que já existem desde que há Democracia – quase o fazem descrer nas virtudes do sistema um Homem-um voto, o que pode ser o caso em Portugal, se o exagerado “jogo sujo” que empesta actualmente a nossa vida política der origem a uma situação pós-eleitoral tão complexa que venha a causar graves danos não só à nossa estabilidade económica como política, podendo pôr em risco o próprio regime democrático e a coesão nacional.

    Depois, senhores maquiavéis de algibeira, dementes e irresponsáveis, não venham para cá pedir-nos clemência!

  4. A sondagem da Católica foi feita logo na altura da suspensão do jornal 6ª da TVI, quando os líderes da oposição e a comunicação social entraram em histeria colectiva.

    Por outro lado, tem sido generalizada a opinião de que atá à data Manela só se enterra, de debate para debate, de entrevista em entrevista.

    Ainda a procissão vai no adro.

  5. Ah, e queria acrescentar que este texto de Val foi um óasis de lucidez no meio de tanta aberração estúpida que se tem lido nos últimos dias.

  6. Sobre a asfixia na Madeira;
    Manuela Ferreira Leite diz que na Madeira, Alberto João Jardim é sempre eleito com maiorias absolutas, por isso não se pode dizer que há asfixia democrática. Salazar ganhava com maioria absoluta era ar puro, Hugo Chavez ganha com maioria absoluta o ar está conspurcado.
    Critica-se no Continente as auto-estradas, na Madeira está tudo bem com as vias rápidas, não dizem que olhando ao custo benefício, não são necessárias tantas é mais por vaidade. Conheço várias que não têm razão de existir. No Continente luta-se com a concorrência da Europa, na distribuição dos produtos e matérias-primas, por isso temos que ter vias de comunicação com qualidade para fazer frente, está tudo mal, são gastos supérfluos. Na Madeira há tempo para tudo a única saída é de barco ou avião, para estes locais existem boas vias de comunicação – Santa Cruz e Caniçal – está tudo bem nem uma critica. No Continente são os utilizadores que as suportam, na Madeira é o erário público, não existem portagens. Cá critica-se haver tantos estádios de futebol, na Madeira não se diz nada, é verificar os clubes que estão na primeira e segunda liga e comparar os estádios existentes naquela Ilha.
    É fazer uma estimativa entre funcionários do Estado e das Câmaras Municipais e comparar com o Continente, por número de habitantes e verifica-se onde há mais. São estes que depois não podem falar porque o seu emprego está em jogo. Na Câmara do Funchal só funcionários para regar os jardins – não o Alberto – é às centenas, é o que rega, o fiscal do regador e o fiscal dos fiscais. Um dia no meu serviço (E. P. Funchal) em conversa com o Director sobre a rega dos jardins, pus a hipótese de se colocar um sistema de rega automática e obtive como resposta, onde se colocava depois os reclusos que ali trabalhavam. Concordei com esta observação e daí reflecti que liberdades tinham estes funcionários camarários perante tal emprego precário. Só votando nos seus patrões é que vão suportando este tipo de situação, é como se diz enquanto o pau vai e vem…

  7. Num mundo em que cada vez mais a venda dos produtos é mais condicionada pela beleza da embalagem é caricato que o PSD tenha escolhido uma bruxa velha para o representar… ainda por cima uma mulher que provou, para quem quis ver, que não estava interessada em ser secretária-geral e muito menos primeira-ministra. Que só lá vai porque os outros históricos do PSD possíveis estavam enterrados até ao pescoço, no caso BPN.
    Mesmo em plena campanha eleitoral a bruxa deixa transparecer que está a fazer um grande frete, e só lá está para servir certas “pequenas e médias empresas” que já não usufruem das benesses do BPN e estão nervosas por não saber como vão substituir os Mercedes e Ferraris das “administrações”, que já têm mais de 4 anos (é uma vergonha ter de levar um Ferrari à inspecção!).

  8. Ferreira Leite foi escolhida como solução estrambólica […] mas a senhora é absolutamente incompetente para a função e não tem condições intelectuais para exercer o cargo de primeira-ministra.

    É o que vos vale. Da forma como o PS governou, tivesse oposição minimamente competente e não conseguiria a reeleição.
    A propósito, a GECI e a EMBRAER há um ano iam fazer aparecer um cluster aeronáutico perto de Évora com um investimento total de 600 milhões de euros e criação de 4000 empregos. Como ficou essa estória?

  9. Absolutamente brilhante, sem dúvida. Todavia, discordo num ponto: MFL não é o cordeiro inocente no altar do sacrifício, pois, embora empurrada, foi ela que escolheu o caminho. E ainda não é completamente inimputável, acho eu. Saudações.

  10. eu disse. eu bem disse que o paulinho da viola é a melhor cura para as dissonâncias cognitivas

    (isso e as chiclas de mentol com caramelo porque as pirata laranja eram duras e azedas). :-D

  11. Valupi,

    Não sei se na agência de comunicação onde trabalha acham bem que passe a vida a chamar pulhas e malucos a toda a gente. Digamos que enquanto argumento politico é, no mínimo, pobre. De espírito, claro. Para não dizer pulha.

    Talvez seja por isso que você não diz quem é, não?

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