Disputatio – X

O mais fanático dos escribas no Jamais, Carlos Botelho, atingiu o zénite na asfixia da inteligência com esta descida ao fundamentalismo:

[…]
De um lado, alguém que parece não pensar, que, na verdade, não conversa nem discute – não argumenta: limita-se a sacar de chavões, estribilhos, frases de outdoor, que fala como num comício e sempre com uma fluência de autómato. Parece ter um catálogo de expressões decoradas que vai disparando respectivamente para os temas A, B, C… Pior do que isso: tenta deturpar e descontextualizar o que os outros dizem (já resultou noutro debate, neste não).

Do outro lado, alguém que podemos ver a pensar à nossa frente. Não repete nem reproduz frases. Produ-las. Procura falar dos problemas sem recusar toda a sua superfície angulosa e áspera – assume-a no discurso e no argumento. Transporta para o seu discurso a própria dificuldade das coisas. Nesse sentido, as pessoas vêem ali um discurso verdadeiro.
[…]

Primeiro, diz que a competência discursiva de um orador, Sócrates no caso, resulta de não pensar. A seguir, diz que a incompetência discursiva de um orador, Ferreira Leite no caso, resulta de pensar. Para o Botelho, o pensamento é uma construção penosa, lenta, produzida a custo. Quão mais verdadeiro, mais um pensamento exibirá as marcas da sua elaboração no acto mesmo da sua expressão oral, afiança o iluminado apoiante do PSD. Esta matriz de produção permite vislumbrar as condições artesanais, o labor manual, que serão apanágio do pensamento da Manela, o tal pensamento que produz discursos verdadeiros. De cada vez que fala, pensa, e de cada vez que pensa, produz algo novo, uma verdade sempre nova, fresca, sem repetições, acabadinha de sair do confronto com a realidade e respectiva dificuldade das coisas. É por isso que lhe é permitido dizer tudo e o seu contrário, pois este sistema de produção de verdades leva a que não se repitam nem reproduzam frases, explica o genial Botelho. Para quê perder tempo com uma verdade passada se já vem outra a caminho, mais recente?

Esta distorção é notável, para mais vinda de uma figura que se socorreu de Goebbels para defender o PSD e atacar portugueses. Temos aqui consagrada a definição de verdade como aletheia, desvelamento, e o que fica à mostra é patético e sinistro. A Manela não mente, urram estes alucinados do fundo da toca onde se escondem da honestidade intelectual. É uma senhora séria, pura, cuja seriedade merece a recompensa suprema do País: ganhar as eleições. Para quê? Ora, para continuar a fazer o que fazem todas as pessoas que nos querem impor a sua seriedade: a produção sofrida de verdades convenientes.

20 thoughts on “Disputatio – X”

  1. O que mais vai ser preciso, para perceber que esta senhora não tem condições mínimas para exercer o cargo para que se candidata. Ainda haverá alguém que não percebeu as limitações desta senhora. Ela não se safou em nenhum debate. Muito mal vai um partido que não tem alternativa a semelhante criatura. A sua «ingenuidade» ainda nos traria consequências desastrosas de relacionamento internacional. As suas gaffes ainda podiam passar a nível interno, já percebemos que o que ela diz não é o que ela pensa, mas como seria isto possível a nível externo, iríamos ser constantemente ridicularizados.
    Tenham dó

  2. Aquilo na Madeira foi o elogio da loucura. Depois tem sido semre a pique. Como se dizia do Grandella – «sempre no bom caminho! e segue!»

  3. “Do outro lado, alguém que podemos ver a pensar à nossa frente.”

    Extraordinário. Devíamos estar gratos por poder ver a Dra. Ferreira Leite a ‘pensar’ ao vivo e a cores. Uma arte fora do alcance dos outros candidatos e não só. A produção das suas verdades é de tal forma complexa que normalmente necessita de alguém para traduzir o que pensou. O problema não é dela é nosso.

  4. mesmo deixando tudo de o resto de lado, será que os portugueses querem ser governados por uma geração de setenta anos? É o que aconteceria dando mais votos à ferrugenta do que ao Sócrates, cavaco&ferrugenta: BPN, buracos e sei lá que mais. Que país tão doente, oh deuses, livrai-nos deste espectro sombrio do inferno.

  5. Podem ser os efeitos da Gripe A:

    Jornal Nacional da TVI (7 de Setembro de 2009) – o embuste da Gripe A e os biliões ganhos pelas farmacêuticas com o medicamento Tamiflu

    Jornalista da TVI: Um dos homens que mais tem lidado com a Gripe A em Portugal é o Director do Serviço de Doenças Infecciosas do Hospital Curry Cabral. Fernando Maltês afirma que a Gripe A vai matar menos gente do que uma simples gripe sazonal (gripe comum), que é mais inofensiva e trata-se, na maioria dos casos, com antipiréticos. O Director Geral de Saúde Espanhol é da mesma opinião.

    Director Geral de Saúde Espanhol: Se morrem muitas pessoas em Espanha por contaminação atmosférica, ninguém presta atenção. Ou se morrem tantas pessoas por fumar, ninguém lhes presta atenção. Mas se, pelo contrário, morrem duas pessoas com gripe, presta-se muita atenção. É lógico, eu entendo, mas pouco a pouco a sociedade tem que amadurecer e dedicar o tempo que cada problema requer em função da sua gravidade.

    Dr. Fernando Maltês: O Tamiflu, desde o princípio desta pandemia, tem sido encarado pela população como uma espécie de fármaco milagroso, o que não é verdade. E no que diz respeito à eficácia, concretamente no vírus da gripe, é uma eficácia que está, digamos, mal documentada. Se houver um conjunto de factores que digam – vale a pena administrar o fármaco – o médico administra, caso contrário, balançando os efeitos benéficos com os potenciais riscos, é preferível não administrar.

    Jornalista da TVI: Já lá vão quatro meses desde que foi confirmado o primeiro caso de Gripe A em Portugal e, até agora, não há qualquer morto a registar. Em média, por ano, morrem em Portugal mais de mil e quinhentas pessoas de gripe, sem aberturas de telejornais e sem a Ministra da Saúde todos os dias nas televisões.

    A verdade é que o mundo está preocupado com a Gripe A e já há empresas a ganhar milhões à custa do H1N1 (vírus da Gripe A) . A farmacêutica Roche, por exemplo, cujas vendas do seu Tamiflu caíram quase 70% quando o mundo percebeu que já não havia perigo de uma Gripe Aviária, vê agora as vendas desse mesmo medicamento dispararem em mais de 200%.

    Ajuda importante também para a Glaxo Smith Kline, o laboratório britânico a quem Portugal já encomendou seis milhões de doses da vacina contra a Gripe A, a 8 euros cada uma (48 milhões de euros) , teve um ano difícil do ponto de vista financeiro. Eis senão quando, surge o tal vírus, H1N1, que deverá render, só ao laboratório britânico, cerca de dois mil milhões de euros, tendo em conta que as encomendas estão quase a atingir as trezentas milhões de doses.

    VÍDEO da notícia na TVI

  6. ontem percebi mesmo bem que as pessoas acreditam no que querem acreditar. 5 pessoas : uma ex pcp , bloquista por despeito ; outra à direita , sem partido definido ( a mais fixe , a única dada ao diálogo ) ; outra ex ps , psd por despeito ( irra , que o despeito de não darem lugares à maneira faz grandes estragos na visão que tenho das pessoas) ; outra do aparelho ps , que já confessou que política é projecto pessoal , não colectivo ; e eu , que fiquei virada de costas para a tv , e só ouvi umas coisas enquanto servia o jantar e mastigava o horror que o mundo é e porque tive de vir cá parar , a um sitio que me obrigam a ouvir necedades ( e queixa-se o reis de falta de debates…). pois todos acharam que o candidato da sua preferência ( preferência forçada , aquela coisa esquerda/direita , qualquer um que se diga de esquerda ou de direita , mesmo vampiro , obtem respeito e superioridade face aos bandidos ) ganhou. suponho que é o tal de empate do público : empataram os apoiantes , eles não sei. eu fiquei com a minha : como há pessoas que perdem tempo a ver filmes classe b sem ser do john campenter …

  7. a arrogância e agressividade que a senhora destilou durante todo o debate não são próprias de uma criatura com cultura democrática.
    falam de autoritarismo do 1º ministro e asfixia democrática? sois uns ingénuos…

    suspeita-se que uma lista telefónica tem mais sumo do que a biografia, o pensamento e todo o discurso político juntos, da principal líder da oposição. bora aí desafiar os espanhóis para um chinquilho!

  8. Manuela Ferreira Leite (MFL) foi Ministra de Estado e das Finanças entre 2002-2004 no Governo PSD que sucedera ao demissionário Executivo liderado pelo Engenheiro António Guterres.
    Em 18 de Junho de 2004, quando, alegadamente, Durão Barroso já havia decidido apresentar a demissão do XV Governo Constitucional e a menos de um mês da tomada de posse do novo Executivo liderado por Pedro Santana Lopes, o Ministério das Finanças, liderado por MFL, concedeu o regime de neutralidade fiscal à reestruturação do Grupo Totta, que na época integrava o Banco Totta & Açores, o Crédito Predial Português e… o Banco Santander Portugal*. Esta operação terá permitido ao Grupo Totta beneficiar de um benefício fiscal de aproximadamente um milhão de euros.
    Pouco mais de um ano e meio depois, em 9 de Fevereiro de 2006, Manuela Ferreira Leite integrou a administração do Banco Santander em Portugal, assumindo um cargo não executivo, mas nem por isso mal remunerado, dado que, durante o ano de 2007, MFL terá auferido perto de 83 mil euros em salários (vêem, é para isto que vão as taxas e as despesas de manutenção que pagam aos bancos). Não sei se o convite para o cargo terá sido uma compensação pela decisão do seu Ministério em favor desta instituição de crédito quando em 2004, sei que é um excelente negócio alguém conceder 83 mil euros por ano a outrém, quando o último acabou de ajudar o primeiro a poupar um milhão de euros.
    Esta situação não só é um bom negócio para as partes como anda muito próximo da violação de lei. O artigo 5.º do regime de incompatibilidades dos titulares de cargos políticos proibe o exercício de cargos em empresas privadas que prossigam actividades no sector por eles directamente tutelado durante três anos após a cessação das respectivas funções. No entanto, e de acordo com alguns fiscalistas conceituados, como Saldanha Sanches, o que libera MFL é a parte final do artigo que refere “desde que, no período do respectivo mandato, tenham beneficiado (…) de benefícios fiscais de natureza contratual”, o que não se aplica à líder do PSD.
    No entanto, moralmente, a conduta deve ser censurada e completamente repudiada deve ser a justificação de Vasco Valdez, Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, inferior hierárquico de MFL no XV Governo Constitucional, o qual terá defendido que MFL “não tinha conhecimento da situação”. Não consigo deixar de me revoltar esta mania da classe política portuguesa em querer atirar areia para os olhos dos portugueses, querendo fazê-los acreditar que um consumidor que não lê as letras milimétricas num contrato de compra e venda de um produto de 20 euros deve ser censurado porque temos que ler tudo minuciosamente, mas um político que gere milhões e milhões de euros pode assinar de cruz centenas de documentos que podem desgraçar o país porque “tem muito trabalho e não pode perder tempo”!
    Finalmente, em Julho de 2009, a menos de três meses das eleições legislativas, e numa altura em que MFL e José Sócrates se encontram muito próximos, o Santander decide voltar a fazer um jeitinho à “política de verdade” da líder social-democrata. Diz Nuno Amado, Presidente do Banco Santander Totta, que “é desejável que haja maioria absoluta nas próximas legislativas, porque as condições do país, em termos de modelo e endividamento, necessitam de uma estratégia que é mais fácil concretizar com maioria no Parlamento”. Ficamos a saber que os espanhóis do Banco Santander não satisfeitos por serem uma das maiores instituições de crédito a operar em Portugal, agora fazem também questão de tentar influenciar, de forma descarada, a política nacional. Pedem maiorias absolutas para o próximo Governo, sabendo que esse Executivo poderá ser o de MFL. Pela caracterização que é feita da actual situação, o modelo Sócrates parece desagradar ao Banco Santander, defendendo, tacitamente, um Governo PSD.
    Pergunto: terá MFL prometido mais privilégios ao Banco Santander em Portugal? Se tivermos um Governo PSD liderado por MFL teremos mais decisões em que os portugueses têm que apertar o cinto, mas os espanhóis do Banco Santander vão continuar a usufruir de elevados benefícios fiscais e os “ricos” continuarão a ser poupados? Que relações pretende MFL manter com as empresas espanholas? E com o Banco Santander? Terá o Santander e outros bancos e empresas espanholas ordem para limpar Portugal de tudo aquilo que é nacional? E a nossa posição na UE? Sabiam que foi com Durão Barroso à frente da Comissão Europeia que o famoso “Tratado de Lisboa” retirou dois eurodeputados a Portugal como condição para garantir as exigências dos espanhóis?
    Afinal, o que é a política de verdade? Estará Manuela Ferreira Leite preparada para defender os interesses nacionais?

    * – Os mais incautos não se devem deixar seduzir pelo nome “Banco Santander Portugal”, pois, como é do conhecimento público, o Santander é uma instituição de crédito espanhola (q.b.) e não portuguesa, embora a sua penetração e crescimento no mercado nacional – desde 1988 – tenham ocorrido muito discretamente através da aquisição de pequenas participações em vários bancos portugueses, seguidas da fusão, perda de identidade e eliminação definitiva dos mesmos, a começar pelo antigo Banco de Comércio e Indústria (BCI). Uns chamam-lhe “regras de mercado”, outros chamam-lhe abuso das regras de concorrência e até falta de competência das Autoridades para regular estas situações, favorecendo um mercado excessivamente liberal sem identidade nacional.
    Deverá ainda dizer-se que este banco defendeu durante bastante tempo a contratação de funcionários a empresas de trabalho temporário com contratos de trabalho que se renovavam semanalmente, acabando por ser um regime idêntico à prestação de serviços, na qual o prestador poderá ser dispensado sem aviso prévio. Alguns dos funcionários do Banco Santander abrangidos por este regime chegaram a desempenhar funções durante 8 anos, continuando o banco e a empresa de trabalho temporário a considerarem esta situação como “trabalho temporário”.
    O Banco Santander preferiu, e presumo que ainda prefira, pagar cerca de 2.000 euros/mês por trabalhador à empresa de trabalho temporário – ainda que apenas seja pago ao trabalhador pouco mais de 700 euros – do que pagar um salário na ordem dos 1200/1500 euros, permitindo uma poupança significativa por trabalhador (também é para isto que vão as taxas que pagam e as despesas de manutenção). Recorrendo às empresas de trabalho temporário, não só não existe vínculo contratual com a empresa beneficiária da prestação, neste caso o Santander, o que poderia dificultar os casos de despedimento, como é possível gerir os trabalhadores de forma arbitrária e déspota, dado que se estes quiserem garantir o seu posto de trabalho terão que se submeter às regras da casa, caso contrário correm o risco de serem dispensados. Isto, na verdade, é fraude à lei, simulação ou abuso de direito (escolham a melhor), porque não existe verdadeira intenção de querer contratar trabalhadores de carácter temporário, antes ultrapassar regimes menos favoráveis aos beneficiários e que serão mais vantajosos para os funcionários.

  9. Perdoem a falta de aspas, foi a minha ânsia em partilhar. A tirada anterior é do Ferreira e está na íntegra no blog “Bar Velho Oriente”.

  10. Desculpa CC, esqueci-me da tua Intermitência e do teu Re-Dixit.
    É gripe Ah. Felizmente só atinge os títulos.
    Costa-me um bucado a falta de imaginação.

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