Disputatio – VII

Perguntou-se a Jerónimo se considerava haver medo na sociedade portuguesa. Jerónimo nasceu em 1947, tinha 27 anos em 74. São 27 anos de ditadura. Hoje tem 61 anos. E então, Jerónimo, tu que eras um homem mais do que feito no 25 de Abril, que chefias um partido que construiu a sua mitologia na luta contra o salazarismo e na prisão política, um partido com militantes que morreram em nome da liberdade, achas que há medo na sociedade portuguesa? Diz que não, mas que existiram sinais preocupantes. Sinais de asfixia democrática, repete Jerónimo fazendo coro com a estratégia demente e suja da direita. O exercício de liberdade sindical, de manifestação e de reunião foi alvo de intolerância por parte do Governo, afiança Jerónimo sem apontar onde e quando e como e porquê e para quê. Faltava só chegar à Madeira, tal o embalo. E chegou, para dizer que no bastião inamovível da boa governação PSD um comunista pode manifestar-se à-vontadex, lá não existe asfixia democrática, garante o Jerónimo que rememora passeios prazenteiros no Funchal. Os sinais preocupantes ficam no continente, têm medo de voar. Constança estava satisfeita, tinha espremido a bisnaga até ao fim.

Manela mostrou saber ouvir: usou de imediato o testemunho do Jerónimo para ilustrar a elevada qualidade da democracia na Madeira, terra de amplas liberdades desde que João Jardim se começou a sacrificar pelo povo. Seguiu-se uma listagem de provas inequívocas relativas ao medo que oprime a sociedade portuguesa, mais uma vez com o alto patrocínio do Procurador-Geral da República. E tenho de realçar uma delas, por me parecer de especial e gravosa importância:

Cuidado, não vás ali porque, se te vêem, podes perder o emprego.

Cá está, sente-se o medo estampado nas palavras. O problema não consiste em se querer ir ali ou mesmo ter chegado ali. Não, nada disso. Ir ali, pode-se ir, tudo bem. E acolá, talvez também dê para ir, fica a promessa. O problema é outro, é haver quem veja, quem esteja à espreita. E aí, sim, o emprego pode ir para o galheiro. Ora, como é que isto se resolve? Creio que a solução passa por ir ali fora do horário laboral. Esperar pela hora da saída e depois, devagar ou a correr, ir ali. E já não assustará que alguém veja. Será um sufoco, uma asfixia, ter de aguentar o trabalho, ter de cumprir o horário, suportar os colegas, obedecer ao patrão. É óbvio. Mas depois, há um ali lá. Lá onde o ali é um outro aqui. Mas sem medo, sem cuscos a olhar.

18 thoughts on “Disputatio – VII”

  1. 1. Estes frente a frentes

    tem sido extremamente elucidativos da verdadeira união nacional entre partidos de direita e de certa esquerda

    todos unidos no quanto pior, melhor…

    que,

    se Socrates for esperto, usará, agora,

    no próximo debate com MFL

    depois do arrasar de Louçã com seu próprio programa…

    2. afinal deduz-se,

    a dita senhora tem perigosas inclinações extremistas

    que ja nem esconde

    manifestando amiude, o seu” concordo consigo”

    quer com Louçã

    e ontem, com Jeronimo martins

    3. noutros templos,

    das “liberdades antes de 74”

    seja, quando não havia asfixias nenhumas

    MFL estaria “fucked”, como diz Jardim

    com tais indiciações de valores politicos perigosos…

    4. Penso que os PPD’s não se sentirão confortáveis

    por ver tanta proximidade do eixo ACS-MFL

    a esses perigosos agitadores sociais

    destruidores da “familia”

    e de quejandos valores (i)mprais, (i)memoriais…

    abraço

  2. Convide-se o camarada Jerónimo para se deslocar ao espaço da mais profundas e amplas liberdades democráticas do Hiperventilador, onde irá assistir a festa de Chão de Lagoa.
    Cuidados a ter: Não usar como meio de transporte o dirigível.

    P.S.: Espero que me estejam reservados mais momentos destes para alegrar os dias cinzentões que se aproximam

  3. E a prestação do fanático Ribeiro Ferreira na análise que se seguiu ao debate ? Consegue ser mais leitista que a própria Sra. Fez uma resenha exaltada da politica portuguesa desde 2001 resumindo-a aos maus, Guterres, Sócrates (sobretudo) e o Ps, e os bons (já se está a ver quem). Qual é a isenção que se espera de se pôr um “jornalista” destes a comentar um debate político ?

  4. quando o santana foi coroado 1o-ministro, fiquei mais uns meses para poder contribuir para a maior derrota possi’vel do psd, e a seguir vim-me embora. hoje o meu interesse por portugal e’ que as praias estejam limpas e os empregados de mesa sejam minimamente educados, quando ai’ vou no vera~o, pelo que na~o vejo televisa~o do recta^ngulo.

    por isso agradecia que me esclarecessem: o jero’nimo disse mesmo que na madeira um comunista podia passear ‘a vontade??? como em “no continente um comunista na~o pode andar na rua ‘a vontade”>

  5. Escreve aí, escarrapacha aí, Valupi, que 99, 9 % do patronato é militante do PS e, portanto, quem chatear Sócrates vai para o olho da rua. Escreve aí que os funcionários públicos têm um vínculo de trabalho precário, o que significa o emprego preso por arames! Logo, se chatearem Socrates, no dia seguinte não se lhe renova o contarto de trabalho!
    O professor Charrua está na mais gritante miséria, só por ter chamado filho da puta ao «patrão» Sócrates. Onde se viu uma barbaridade destas?
    Sinto-me, realmente, sem ar. Muito mais que os Jerónimos todos de uma esquerda que nunca foi tão imbecil, à misrura com os Jaimes Gamas, deslumbrados, que viram no Alberto João o «exemplo supremo» (sic-assim mesmo) da democracia.
    «Fuck them»!!!

  6. Excelente comentário Val
    O país deve sentir-se ofendido por ter candidatos a 1ºs. Ministro cagadinhos de medo. Não há muito tempo que se fez o 25 de Abril e aí sim, houve gente, a grande maioria veio para a rua e demonstrou não ter medo de enfrentar as várias formas do caciquismo. Eram tempos de medo. Agora que se tem as amplas liberdades, quase todos dizem mal uns dos outros, vem os paladinos da coragem dizerem que tem receios. No 24 de Abril onde estavam? Na União Nacional. Dizem que fazem as maiores manifestações de sempre, mas estas são feitas, sobre o manto do medo. Correm as ruas de Lisboa não são molestados por ninguém, dizem que sentem medo. O País tem o maior número de jornais diários, blogues, nunca se viu tal afronto ao governo, dizem que tem medo. Nunca se viu tantos jornalistas a dizerem mal do governo e do 1º. Ministro, dizem que tem medo. Os canais de televisão não fazem outra coisa que não seja questionar a vida privada do1º. Ministro, dizem que tem medo. A Presidência da República manda para a comunicação social sobre o anonimato, umas atordoadas, porque sente medo. Os sindicatos, as várias corporações também dizem que sentem medo. Só haverá um homem no País que não tem medo? Não. Eu também não tenho medo porque sinto o País livre como uma andorinha. Se me disserem que há muitos lacaios que não tem préstimo nenhum e valem-se destas coisas para sobreviverem, aí concordo. O que tenho a certeza é que estamos num País de cagões. A estes lembro a história do amigo que tinha um avião e o convidou a dar um passeio, quando entrou para o mesmo, mijou-se todo, quando levantou voo, cagou-se todo, fez uma pirueta, a merda e o mijo caiu-lhe em cima. Espero que na primeira pirueta que façam lhes aconteça o mesmo. Aconselhava-os a chamar a polícia. Ouço dizer que também tem medo.

  7. Para se compreender as amplas liberdades da Madeira, assente-se nisto.
    Quem estiver com os olhos abertos e não vendados como uma maioria fala da Madeira, não sabendo o que lá se passa, basta reparar o que era a cidade de Machico, no tempo que o presidente da Câmara era PS, e ver como agora se encontra.
    Palavras para quê.

  8. Jeronimo, esse Ribeiro Ferreira foi só rir. O homem é um taliban.
    __

    pfig, não disse assim, mas, atendendo à sua responsabilidade, foi como se dissesse. Tens o debate na TVI, podes rever e avaliar por ti.
    __

    Tens toda a razão, Mario.

  9. o jerónimo e a ferreira leite concordam porque têm o mesmo conceito de democracia.

    que saudades que ambos têm das manifestações corridas à bastonada e balas de borracha. aí sim, transpirava-se liberdade. e depois ainda vinham aqueles abençoados canhões de água refrescar o pessoal. serviço público!
    dantes ainda havia uma geração rasca que ia para os ministérios mostrar o cú aos ministros e rirem-se para as filmagens das secretas. agora… uma cambada de mansos que se limitam a atirar ovos sob anonimato. não há dúvidas, o sócrates está a amansar o pessoal.
    ponham os olhos na madeira! querem propaganda da oposição? tomem lá balázios da democracia. não? ah…, pensavam que era um tubarão assassino que ia mordiscar o pessoal para o chão da lagoa. tipo animal mitológico? fizeram muito bem à mesma.
    e onde é que aqui se pode chamar bandido a um primeiro ministro? quando muito, suspeito de bandido. mas também não exagerem porque não há 100% de liberdade democrática lá no condomínio. afinal o estado ainda só controla 70% da economia do arquipélago.

    e viva o troglodismo!

  10. E ontem com o fingido trejeiteiro Crespo, a conversa entre o Ruben, o festivaleiro e o Silva, a mão de AJJ no cont’nente, a conversa ainda foi mais delicodoce que entre os seus chefes. Concordavam e orriam à galhofeira em uníssono, numa perfeita comunhão de ideais anti-governo. O silva até demonstrou que não houve caso de uso do carro de estado e o Rubem anuiui. Silva foi ao desplante de transformar o protesto do candidato do PS à Junta de Freguesia impedido de entrar para a reunião porque chegou 3’atrazado, numa manobra de propaganda e asfixia democrática, porque, explicava:- como explicar que televisão estivesse lá para divulgar o caso? só podia ter sido tudo combinado e claro era prova de controlo do governo e fazia parte de sua mão comprida de asfixia democrática. Ruben Carvalho sorria condescendente, abanava as orelhas e as lunetas afirmativamente e acabaram o frente a frente nesta amena e ternurenta união de facto contra-natura. Claro desta união só pode nascer uma disformidade a necessitar de cirurgia urgente.

  11. Cito de memória elefantina declarações estrondosas do mesmo Jaime Gama de hoje, suponho, sobre o mesmo Alberto João Jardim de sempre: “(…) é comparável ao Imperador Bokassa (cruel ditador do então Império Centro-africano)!”.

    Aqui ficam de borla estas declarações, são factos incontroversos, à disposição da campanha eleitoral da candidata Manuela Ferreira Leite e para atirar à cara dos socialistas e de outros perversos fascistas, sempre que se falar desse democrata insigne, ímpar e exemplar que é Alberto João Jardim.

    Só me fica uma terrível dúvida: será que o Jaime Gama que disse o que disse recentemente é mesmo o que comparou em tempos Alberto João Jardim ao criminoso (e suposto antropófago!) Bokassa? Parece-me absolutamente impossível, mas talvez algum proficiente “politólogo” me possa esclarecer, não?…

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