Assustador

Depois do debate Sócrates-Louçã, alguns acólitos e simpatizantes tentaram recuperar a validade ideológica da política fiscal que o BE apresenta no seu Programa. Foi uma alarmada reacção ao rombo que a credibilidade intelectual de Louçã sofreu nos tais 48 minutos históricos. Apesar de ferida e tardia, eis uma análise evidentemente meritória, inclusive por trazer à colação posições de Sócrates e Vital Moreira de outros contextos e tempos. E mais individualidades socialistas que fossem buscar, pois não faltam opiniões, seriam sempre um ganho qualitativo. Falta-nos a promoção dessa discussão em matéria tão complexa, tão prenhe de consequências financeiras para todos os cidadãos, e a qual tem ainda a supina vantagem de obrigar à racionalização. Contudo, se obriga à racionalização, o BE não está em condições de assumir a despesa. O BE transformou a política numa batalha emocional e populista, em exacta sintonia com o PSD, ambos os partidos apostados em assassinar o carácter de Sócrates, ambos os partidos caluniando sem vergonha nem amanhã. E por isso mesmo Louçã chegou ao confronto com Sócrates incônscio da existência de um asteróide a vir na direcção da sua jurássica demagogia.


O debate com Sócrates foi perdido antes de ter começado e continuou a ser perdido depois de ter acabado. Não estamos perante uma jogatana onde os competidores se igualam, onde haverá alternância de vitórias ao longo do tempo, estamos noutro campeonato; no campeonato onde se descobre que alguém não pertence ao mesmo campeonato. O sucedido é do domínio do acontecimento, das lutas de vida e de morte. Por isso, o espanto foi geral. Da esquerda à direita, incluindo no PS, ninguém esperava que os pilares do edifício retórico do Bloco fossem atingidos com cargas de precisão. Mas foram, e um frenético evangelista implodiu em directo. Só que não é justo tornar a matéria fiscal monopolizadora da eficácia de Sócrates, pois outras facetas de Louçã foram também implacavelmente anuladas. Uma delas, extremamente poderosa, é a distorção antipolítica, difamante e odiosa da fulanização. Louçã diz que Sócrates dá património do Estado a indivíduos, a Jorge Coelho, ao Amorim, ao Eduardo dos Santos, a quem ele quiser. É isto que Louçã diz, exactamente assim, porque o efeito pretendido é tóxico e violento. Já não se está a discutir política quando se opta por esta táctica terrorista, a qual torna moralmente ilegítimo o adversário. E que se deve fazer com um adversário que perdeu a legitimidade para exercer o poder? Escorraçá-lo da Cidade, pois ele não é digno da comunidade, é a inevitável resposta. Louçã não pode chegar a acordo com quem não merece, e é ele próprio a vilipendiar os adversários antes que alguma esperança de acordo possa surgir. Pois bem, Sócrates marcou todos os momentos em que Louçã o acusou de ser um reles bandido, e confrontou-o exigindo-lhe respeito. Louçã, que não passa dum merdas, tremeu e calou. Depois do debate acabar, apareceu num antro onde deu este tétrico espectáculo:

É tudo assustador, de facto, das caras fechadas na audiência até à iluminação expressionista, passando por aquele zoom final para apanhar o remate. E o que temos no palco é um actor velho. Velho porque agastado, cansado de martelar as suas palavras de ordem, os seus clichés lancinantes, na crença de que acabarão por entrar à força na cabeça dos eleitores. Louçã quer mesmo vencer pela força, a que imagina sua. Entrou na casa dos espelhos e já não sabe onde fica a saída, para onde quer que se vire vê um reflexo seu. O BE é ele. O PS é ele. O socialismo é ele. A esquerda é ele. A democracia é ele. A revolução é dele. O poder é para ele.

A alucinação demagógica de Louçã é assustadora, disso já não se duvida. Contudo, mais assustadora é a posição de Daniel Oliveira, de quem se espera espírito crítico. Se o Daniel não é capaz de ser coerente consigo próprio, denunciando a perversão que Louçã alimenta, então os seus considerandos acerca do SIMplex são apenas a continuação da estratégia demagógica. O seu repto para um acrescento de sanidade na campanha não passa de uma forma ainda mais sofisticada de repetir que os adversários são uns bandidos, inimigos que se tem de assustar e o resto.

Já agora, comparar o Jamais com o SIMplex é exactamente o mesmo que comparar Ferreira Leite com Sócrates. Se não vês diferenças, Daniel, afasta-te um bocadinho do Louçã e volta a olhar.

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Ver ainda:

A perversidade intrínseca de Louçã

Demagogia e Auto-Censura na Velha Esquerda Revolucionária do BE

10 thoughts on “Assustador”

  1. a política do medo é que está a dar. cuidado que eles, os papões, andem aí!

    mas os portugueses, sortudos, têm sempre louçãs, oliveiras, jerónimos e fleites e afins sempre dispostos a dar o seu melhor para os salvar.
    os autores e encenadores é que não são grande coisa. caso contrário este país já seria um luxo há muito tempo.
    ou então os portugueses seriam mesmo falhos de inteligência, mas deve ser matemáticamente impossível tal densidade de estupidez.

  2. Manuel Pacheco,

    A vitória e derrota ver-se-á no dia 27.

    Se tomarmos por base o resultado, das ultimas legislativas e:

    – se sócrates tiver mais votos que em número absoluto quer relativo, terá ganho, caso contrário depende da interpretação, mas poderemos dizer que houve portugueses que perderam a confiança nele.

    – se o Louçã tiver mais votos quer em valor absoluto, quer relativo, pode dizer-se que ganhou, caso contrário, quer dizer que há menos portugueses a acreditar nele.

    O resto é para entreter uns outros.

  3. “cum” caraças devia ser “Se tomarmos por base o resultado das ultimas legislativas e:” e não “Se tomarmos por base o resultado, das ultimas legislativas e:”

  4. Há um coisa gira no debate entre o o Louça e o primeiro ministro, a necessidade de ele impor o cumprimento das regras, curioso não?

  5. Val, estiveste bem. Mesmo muito bem. O forever young envelheceu umas décadas naquele debate e tu dissecaste-lhe os joanetes com uma precisão cirúrgica.
    É uma pena, como a sinto, pois a esquerda merecia melhor e a Democracia ainda mais.
    Acho que nada ficará como dantes no BE e nem quero pensar no rescaldo de uma eventual derrota eleitoral que possa soltar algumas feras…

  6. Deixe-se o Louçã em paz com a sua revolução. No Louçã só vota quem tem da vida um uma visão sovietizada. Pois que façam bom proveito e queiram todos os santinhos que um dia não vos caia no colo essa realidade. A história está aí e é eloquente.

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