Arquivo da Categoria: Valupi

Aviso à navegação

A política de comentários do Aspirina B segue esta regra de ouro: cada um que faça e diga o que lhe der na gana. Não há moderação outra que não seja a consciência de cada um. Parte-se do princípio de que estamos entre pessoas responsáveis, tanto pelo que escrevem como pelo que lêem.

Claro, o mesmo se aplica a mim. Isso leva a que possa censurar comentários, dado ter esse poder. É raro, mas acontece. Mensagens que apelem a crimes, violem a privacidade ou sejam atentados contra os direitos humanos, não estando inseridas num contexto que as justifique, serão apagadas. E comportamentos persecutórios ou psicóticos, depois de esgotados os apelos ao bom senso, também.

Este aceno vai ao encontro do que se tem passado com alguns comentadores que se comportam como rufias, hostilizando outros comentadores de forma infantilóide e bovina. Tais fenómenos são inevitáveis e cíclicos. Cada um que aprenda a viver com isso, mas tenha em conta que não passa de html. E o que é o html? Será o que tu quiseres. Para mim, é uma festa. Poder comunicar com amigos, a maior parte deles que só conheço através da escrita, é uma forma lúdica e cívica de celebrar o mistério de todos. Não vão ser uns foliões na desbunda que me vão incomodar, pelo que aconselho a mesma noção das prioridades a quem se tiver sentido agastado com alguma parvoeira por cá despejada – inclusive, por mim.

Boato Comercial Português

Estava nos Açores, na sexta-feira, quando me fizeram a pergunta – Tens dinheiro no BCP? Aquilo vai rebentar neste fim-de-semana. Perante a minha incredulidade, a garantia – Quem mo disse é uma pessoa da maior confiança. E era.

Este pânico colectivo conseguiu o feito de ser uma síntese de dois dos maiores clássicos da boataria nacional: aliou a iminência da onda gigante que vinha devastar o Algarve com o escabroso do dano causado pelo Reinaldo, sendo cada cliente do BCP a Laura Diogo da história.

Existe uma predisposição para a irracionalidade que é explorada por charlatães há milénios. Tempos de insegurança, nacional e internacional, aumentam essa apetência desvairadamente. Se juntarmos o desejo de vingança e o deserto moral dos cavalheiros de indústria, não custa perceber o que tem acontecido ao BCP desde 2008.

Alternativa

As Jornadas Parlamentares do PSD reuniram seres tétricos, num ambiente soturno, sob o lema Alternativa. Como se pode ver pela imagem, a alternativa que procuram é a si próprios. São demasiados anos, demasiada inutilidade, demasiado ressabiamento, demasiada decadência.

Eduardo Pitta lança-lhes um desafio: desempatem.

Integridade e comunhão

O nosso amigo José Albergaria dá Miguel Veiga como exemplo de integridade. A este nome, com o qual concordo sem reservas, quero juntar o de Freitas do Amaral. E, a respeito dos dois, manifestar a mesma perplexidade: como é que eles foram capazes de apoiar desgraças ambulantes como Paulo Rangel e Cavaco Silva?

No caso do Miguel, esse apoio foi dado no contexto das eleições do PSD. Porém, e honra lhe seja feita, foi retirado assim que Rangel mostrou a sua raça ao ultrapassar Aguiar-Branco pela direita. Ficou claro que valia tudo até contra os colegas do partido. No caso de Freitas, o seu apoio à reeleição de Cavaco é triste. Implica a sua cumplicidade com a pior Presidência desde o 25 de Abril. Acima de tudo, e escandalosamente, significa que a inventona de Belém recebe a sua caução. Eis uma surpresa vexante.

Mas o problema é meu, pois não duvido da integridade destes dois homens. O meu erro consiste em presumir que temos os mesmo valores, e não temos. A integridade não obriga à unanimidade, embora seja condição sine qua non para a comunhão.

Desbloquear – IV

Sofia Loureiro dos Santos desenvolveu o tema da responsabilidade do PS, enquanto partido, pela actual situação política. O texto está cheio de considerações que suscitam boas, e rijas, discussões. Contudo, a Sofia parece queixar-se de figuras e intervenções que são absolutamente legítimas. José Lello, António Vitorino e Vitalino Canas, por exemplo, são opinadores e políticos profissionais. O que fazem é parte das responsabilidades partidárias: criam opinião pública. Isso não obriga a concordar com eles, escusado seria dizer, mas é bizarro considerar a sua actividade perniciosa em si mesma. O mesmo para a defesa de Sócrates por parte de alguns Ministros e deputados, a qual não é mais, nem menos, do que a defesa do Governo e do partido. Os ataques de carácter a Sócrates, que começaram em 2004 quando elementos do PSD, CDS e Judiciária puseram em marcha o processo Freeport, atingiram proporções bíblicas com a entrada em cena dos magistrados de Aveiro – seria suicídio do PS deixar Sócrates ainda mais isolado do que tem estado, por um lado, e fazer declarações a refutar declarações da oposição é prática quotidiana em qualquer democracia do Mundo, pelo outro.

Neste particular da defesa de protagonistas de casos mediáticos, e ao arrepio da opinião de muitos socialistas, reafirmo que esteve muito bem Francisco Assis ao ter segurado Ricardo Rodrigues. Esse episódio é cristalino: não existe nenhuma vantagem possível, seja de que ordem for, para justificar o arresto dos gravadores; pelo que só uma perturbação emocional grave pode explicar tamanho erro político. O Ricardo sai da história com a pena às costas, e o Francisco deu uma lição de ética.

Mas a passagem que me parece mais fértil é a que questiona as forças vivas do PS:

Onde estão os criativos, os pensadores, os ideólogos, os que têm ambição, os que podem apoiar Sócrates e o governo? Ou que podem substituí-lo dentro do PS? Onde estão as alternativas?

Ora, o que não tem faltado são alternativas dentro do PS. De Alegre, que viu a sua irresponsabilidade e arrogância premiadas pelo mesmo Sócrates que atacou à má-fila, passando por António Costa, Vitorino e Francisco Assis, qualquer deles com um capital de credibilidade e experiência que lhes garante inevitável sucesso eleitoral, a Seguro, que está em campanha e é o estratega de Alegre. E podemos juntar Pedroso, Ana Gomes e João Soares, entre outros mais parlamentares, só para compor o retrato de um partido que está pejado de recursos humanos em qualidade e quantidade, como não há outro. Um partido onde não se viu qualquer delito de opinião na era Sócrates, bem pelo contrário.

Em suma, quando se realçam falhas deste e daquele, inevitáveis em quem exerce e se expõe politicamente – mas que devem ser apontadas pelos interessados, obviamente – a sua contabilidade só adquire sentido se somarmos a actividade dos restantes, muitos mais, que cumprem com as suas responsabilidades e dão o seu melhor.

Ninguém pára a Ibéria!

Como se viu pelo jogo da final, Portugal poderia tranquilamente ter vencido a Espanha nos oitavos. Bastaria ter marcado mais um golo do que os espanhóis. Chegava um.

Entretanto, os nuestros hermanos vão entrar numa euforia económica que nos vai levar de arrasto para o pleno emprego e o superavit. Não? É perguntar ao polvo.

Para acabar de vez com o jornalismo

O Sol publica conversas privadas em segredo de Justiça e faz negócio com essa pulhice. Mas não divulga conversas entre os seus jornalistas e as vítimas da pulhice do próprio jornal.

Este pasquim merecia que nunca mais ninguém respondesse directamente aos seus jornalistas. Eles enviariam as perguntas aos Carlos Queiroz que estivessem na linha de tiro e estes publicariam as respostas no seu website, blogue, Facebook, Twitter ou num lençol nas traseiras da casa onde morem. Os jornalistas do Sol dariam o seu melhor para copiar o que lessem e lá fariam os títulos e destaques à sua maneira. Uma maneira onde vale tudo menos respeitar o jornalismo.

Maluqueira

Sócrates tem sido acusado de optimismo. Outros ministros, idem. Parece que esta rapaziada já acabou com as crises todas, e várias vezes, mas elas teimam em voltar cada vez mais fortes. A crítica aos discursos que realçam os aspectos positivos pressupõe uma de duas alternativas: que o Primeiro-Ministro fosse pessimista ou que ele dissesse o que outros gostariam de ouvir.

Um governante é como um médico. Se disser ao doente que não acredita na sua recuperação, que duvida da eficácia dos tratamentos, esse médico está a agravar o estado do doente. Dizer a verdade ao paciente implica reconhecer que a verdade é sempre uma construção subjectiva. O médico sabe que também se engana, por falhas próprias e alheias, apesar do aparato científico da sua actividade. E sabe que parte decisiva na recuperação da saúde depende da crença, da disciplina, da calma, da motivação, dos factores psicossomáticos. Se é assim na medicina, por maioria de razão o é na política.

Claro, se Sócrates aparecesse pesaroso, sombrio, anunciando a sua descrença na recuperação económica e profetizando convulsões sociais, os mesmos que o perseguem pelo optimismo saltariam febris clamando que um governante não pode abdicar das palavras de confiança e estímulo. Exigiriam que abandonasse e desse o lugar a um crente no sucesso do Governo. Ou seja, seria perseguido por causa do pessimismo.

É assim a estupidez, uma maluca.

Desbloquear – III

Vou continuar a aproveitar as palavras da nossa amiga Sofia Loureiro dos Santos, por trazerem aspectos que pedem discussão:

Valupi, é verdade que este governo tem liderado um governo de crise. Mas o problema é a falta de liderança política e a sensação de que não dirige, mas antes é dirigido. Pelas circunstâncias internacionais, já todos percebemos que todos somos dirigidos, Portugal e os outros países. Mas pelos outros partidos, pelo Presidente da República e por algumas figuras do PS, que têm tido intervenções na vida política que descredibilizam o Parlamento e o PS, não.

O cenário de um Governo dirigido pelos outros partidos, e até pelo Presidente, não é correcto. Sem maioria, há que negociar ou abandonar. Como o PS insiste em assumir as suas responsabilidades, e como também espera pelas eleições presidenciais para se poder lançar num novo ciclo, temos a actual situação de fragilidade geral. Todos os actores políticos, sem excepção, estão a passar por um terreno que não conhecem, onde as areias movediças são bem mais perigosas do que os pântanos. E ainda poderíamos juntar a este ramalhete de desgraças a desgraça da Justiça, a qual tem tido influência na actividade política. Quanto às figuras do PS que descredibilizam o Parlamento e o partido, e sem saber ao certo a quem alude a Sofia, esse é o menor de todos os problemas. Polémicas e casos imprevistos são inevitáveis, pois estamos vivos e cada um pensa pela sua cabeça. O PS, contudo, é muito maior do que os melindres desses episódios, alguns meramente do foro psicológico.

Estamos sem estabilidade governativa porque os eleitores acreditaram que os males do País resultavam da maioria do PS. Como agora se vê, perante a demissão da oposição face às suas responsabilidades, o pior que pode acontecer numa democracia é o ataque e boicote ao Governo pelo simples facto de tentar governar. Há algo de profundamente errado no modo como se entende o papel da oposição.

Alice#2

A edição de Julho-Agosto está pronta para o desfrute. Da Joana Vasconcelos ao João Reis, passando por outros ilustres criadores e criativos, eis uma singular revista digital que nos encanta e conforta.

De lembrar que vão sendo feitas actualizações semanais, com a inclusão de novos conteúdos.

Desbloquear – II

Sofia Loureiro dos Santos comentou as declarações de Paulo Pedroso relativas ao desbloqueio da esquerda democrática, e acrescentou outro aspecto da questão que pede debate:

E, já agora, também não está a falar deste PS. O vai-vem de medidas, o dizer e o desdizer, a defesa de atitudes lamentáveis, a paragem do movimento reformista do anterior governo, tudo isto tem alguma coisa de esquerda?

Creio que este protesto será partilhado por muitos militantes e simpatizantes do PS. O Governo tem estado ocupado a gerir um gabinete de crise, permanentemente, tendo passado por situações nunca antes vividas por um Executivo português. Começa pela minoria parlamentar, a qual deixa periclitante e desvirtuado qualquer Programa, como se viu nos meses que antecederam a aprovação do Orçamento, continua com a crise económica internacional, a qual obrigou a um desvio dos já parcos recursos, e acaba na crise da Zona Euro e capacidade de financiamento, situação que rebentou com toda a racionalidade das propostas votadas pelo eleitorado em Setembro. Assim, que está o Governo a fazer que não devia ou a não fazer como devia?

A resposta a esta pergunta leva-nos para a realidade política, onde ninguém concebe o que pudesse ser um Governo BE-PCP neste momento. Que fariam? Onde iriam buscar o dinheiro? Que investidores apostariam em Portugal se o código do trabalho impedisse os despedimentos e acabasse com os modelos de reconhecimento do mérito e de estímulo à produtividade em favor de uma igualdade sovietizada? Qual seria a resposta dos bancos? Iriam colectivizar a economia, desatando a nacionalizar as grandes empresas outra vez? E como lidariam com a inevitável convulsão social num país que cultural e sociologicamente não quer ser comunista? Pela força?

Do CDS e do PSD, como se constata sucessivamente, não vem nenhum ideário reformista que galvanize os sectores mais produtivos, democráticos e dinâmicos da comunidade. Já no PS há uma diversidade de recursos humanos e caminhos ideológicos que daria para fundar vários partidos. Ou substituir as lideranças, tão-só. Por exemplo, Seguro podia ir para o BE e Pedroso para o PCP. Então, sim, a esquerda seria toda democrática e estaria em condições de completar o projecto reformista que um PS com maioria absoluta apenas conseguiu começar.