Arquivo da Categoria: Valupi

Esta pergunta, e não outra (II)

O Fernando fintou a sovinice (e pouca visão comercial, mas esse é outro assunto) do PÚBLICO e deu a ler, a quem ainda não o tivesse feito, a última crónica de Rui Tavares. Ainda bem para nós, e ainda bem para mim que vou aproveitar a oportunidade. O texto em causa termina com um repto:

O que não se pode é invalidar a pergunta, degradando a sua lógica. Trata-se de uma pergunta directa. Como tal, pede apenas uma resposta honesta.

De facto, o homem tem razão. Entretanto, aqui já desenvolvi os pressupostos do meu voto. Agora, especificarei adentro dos significados da pergunta. Ei-la:

Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras dez semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?

Rui Tavares explicou-nos que a pergunta é directa, razão para se ser honesto na resposta. Claro que não convém ir incomodar o esforçado articulista com a nossas dúvidas quanto à sua noção de honestidade. Não que ele esteja privado da mesma, que é carência que nem me permito pensar existir, apenas acontece estar aqui em causa uma concepção de honestidade que poderá ser divergente da minha, da nossa, da de cada um. Como não ficou definida, não se sabe. Mas, adiante, ultrapassemos a dilacerante interrogação e usemos a prata da casa, a minha humilde noção do que seja a honestidade.

E, para dar uns ares de Rui Tavares, vou também tentar explicar o óbvio: ser honesto, cá comigo, é não mentir. Não mentir, que fique claro, é ser honesto. Diria ainda mais: há uma impossibilidade ética na simultaneidade do estado honesto com o acto mentiroso. Espero estar a ser fiel ao estilo ruitavariano, um estilo que me lembra muito o maior legado do Poder Local ao País, logo a seguir à corrupção: as rotundas.

Ora, posto que eu não quero mentir, por que razão haveria de concordar com a interrupção voluntária da gravidez, fosse lá por opção de quem fosse, fosse lá quando fosse e fosse lá onde fosse? É de resposta directa: não devo concordar com aquilo que não me está a ser apresentado, explicitado, justificado. Se eu concordasse às cegas, de cruz, estaria a ser cúmplice de todas as interrupções de gravidez feitas nas tais circunstâncias — mas onde se poderiam incluir algumas que me tirassem o sono, ou a dignidade, ao concordar com elas; que poderiam ser barbaridades, até crimes contra a humanidade. Assim, sendo coerente com o propósito de não invalidar a pergunta degradando a sua lógica, como ensina Rui Tavares, o melhor para a minha honestidade é não concordar.

Outro exemplo. A pergunta remete para a opção da mulher, conferindo-lhe o exclusivo da decisão. Que diabo… Então, e eu? Quero eu que a mulher grávida do meu filho, filha ou filhos, possa abortar por sua solipsista iniciativa? Claro que não! Eu não quero alienar a minha paternidade. Guiando-me pelo avisado conselho de Rui Tavares, que frisou estar apenas em causa a capacidade para dar uma resposta honesta, é evidente que tenho de discordar.

Último ponto. Na pergunta estipula-se o limite das 10 semanas. Mas todos concordam que este limite é um arbítrio, seja lá qual for o ponto de vista sobre ele — científico, médico ou jurídico. Nem para os defensores do SIM este limite parece ser bom, pois conduz a absurdos trágicos ou a práticas ilegais: i) 10 semanas e 1 dia já será crime; ou; ii) 10 semanas e algum tempo mais, não limitado e segundo o critério de cada médico, não será crime. Pois não vou ser eu a esclarecer a trapalhada. Se os doutores dos calhamaços não se entendem entre si, como poderei alinhar com uma condição temporal que não sei donde vem nem porquê? Lamento, mas está em causa a minha honestidade, como lembra tão a propósito Rui Tavares, e como tal eu seria um mentiroso se concordasse com a pergunta.

Rui Tavares, obrigado pela tua clarividência.

Talvez

Estava nas mesas de voto em 98. Comecei a ser chamado em meados dos anos 80 e deixei de receber a carta assim que as convocações passaram a ser pagas. Mas nesse Verão ainda não se recompensavam míseras ganâncias, ainda era o tempo dos que ofereciam o seu tempo, dedicação e responsabilidade à democracia. Por isso, foram poucos os que apareceram. Tão poucos que foi necessário juntar diferentes mesas de voto em salas comuns, por falta de gente até para cumprir os serviços mínimos. E tão poucos os que foram votar que o Colégio S. João de Brito parecia assombrado, os longos e escuros corredores silenciosos. No bar atendiam-nos ao chegar. Nunca lá houve domingo de votos mais desolador.

Continuar a lerTalvez

Revelação literária de 2007 & Grande Português

Duas semanas com o computador avariado contribuíram para variadas experiências alternativas ao gasto habitual, uma delas a leitura de livro que me deu a conhecer aquele que é já o meu Prémio Revelação Literária para o corrente ano, venha quem vier a seguir. Ao mesmo tempo, a figura entra directamente para a tabela dos meus portugueses favoritos. Estou vencido da vida, a dele, mas não estou só. Para Ramalho Ortigão, este autor foi o português mais brilhantemente completo do seu tempo.

O meu português favorito é o Fernando Pessoa. E é também o Camões. E o Agostinho da Silva. E o padre António Vieira. E o Alexandre O’Neill. E o Ary dos Santos. Casos estes em que Portugal foi essência, não acidente. Agora acrescento Francisco Manuel de Melo Breyner, Conde de Ficalho. O que li foram dois contos, inclusos no livro CONTOS DE OITOCENTOS, Fronteira do Caos Editores, 2006. Trata-se de uma antologia que reúne peças de Pinheiro Chagas, Ramalho Ortigão, Maria Amália Vaz de Carvalho, entre outros. O elenco lê-se mais por curiosidade histórica e sociológica do que por proveito literário, contribuindo para o choque da descoberta que me estava reservada a partir da página 161.

O primeiro conto, Mais Uma: Cenas de Província, é o levantamento meticuloso do processo através do qual uma rapariga se decide prostituir por influência da mãe e da miséria. O segundo conto, A Caçada do Malhadeiro, é uma apologia da vingança de morte quando a honra está em causa. Em ambos, a mesma visão naturalista; seja pelo rigor das descrições fenoménicas, seja pela composição cénica, seja pela credibilidade dialógica, seja pelo preciosismo psicológico, seja pela ausência de Deus e dos deuses (ou seja, a ausência da moral e do castigo).

O domínio da técnica narrativa parece-me exemplar. O léxico está ao serviço de um impressionismo contido, mas tão intensamente gravado que se torna tangível, fotográfico, exacto. Somos levados para dentro de cenas em movimento. Somos levados para dentro das pessoas e dos seus movimentos. De tudo se gosta, tudo é natural, está aí. O rico que tenta comprar um corpo jovem está apenas a cumprir o seu papel, a ser coerente com o seu poder; e até oferece contrapartidas benéficas, legitimadas pela comunidade. E o pai que massacra 8 soldados franceses, com a ajuda do filho adolescente, é bom e amoroso, terno; santo. É que um homem deve morrer como um porco, se o for.

Nunca me tinha acontecido: ao acabar a leitura do segundo conto, voltei de imediato a ler o primeiro. E ainda não parei de recomeçar. É assim como ir passear ao Jardim Botânico e ter muita pena de sair.

Fiama, essa ilustre desconhecida (1938-2007)

INFÂNCIA

Todas as árvores apaziguam
o espírito. Debaixo do pinheiro bravo
a sombra torna metafísica
a silhueta de tronco e copa.
Em volta da ameixoeira temporã
vespas ensinam aos meus ouvidos
louvores. As oliveiras não se movem
mas as formas da essência desenham-se
cada dia com o vento.

Na sombra os frémitos
acalentam o pensamento
até ao não pensar. Depois
até sentir a vacuidade
no halo de flores que o envolve.
Sob as oliveiras, por fim,
que não se movem contorcendo-se,
concebe o não conceber.

Três Rostos

Habemus Conan!

Picture1198.jpg

A SIC Radical atendeu às preces de todos os fiéis da SIC Comédia actualmente espoliados pela TV Cabo: foi reposto o consumo diário desse anti-depressivo chamado Conan O’Brien. Agora, resta-nos continuar a rezar para que a farmacopeia se complete com o Jay Leno, o que faria da SIC Radical o canal mais desopilante do universo mediático: Conan, Jay e Jon Stewart, uma diabólica trindade da comédia e da cultura americana, à americana.

Entretanto, alguém tem de ter uma conversa com o Rui Unas. Vem de um fracasso rotundo, O Novo Programa do Unas, e meteu-se numa rotunda destinada ao fracasso, O Show do Unas. A unir os dois programas, o mesmo equívoco: o Unas. Neste novo projecto há uma tentativa de renovar a stand-up através de acrescentos e manipulações. O resultado é um híbrido que depende do texto, pois os limites histriónicos do Rui são já usados no limite da capacidade; e, naturalmente, não chegam. Então, acontece a infelicidade: o texto é fraco, e muito fraco. Em harmonia com essa lacuna, assistimos à maior e mais usual pecha nas tentativas de comédia: a condescendência, a displicência. Os autores e actores, quando nesse registo, apresentam-se ofuscados por si próprios, ignorando a técnica e o conteúdo, permitindo-se a constante auto-referência. É o que se vê em todos os episódios, o ponto donde se parte, o objectivo redundante a que se chega. Para salvar uma ideia que pode ainda funcionar, é preciso encontrar um ponto de vista, um território, uma mensagem que estabeleça ligações com o público. Enquanto o Rui nada tiver para dizer, o Unas não justifica um show.

Em contraste absoluto, podemos finalmente desfrutar do único programa verdadeiramente radical da SIC Radical: Vai Tudo Abaixo. Nuno Duarte/Jel revela-se exímio na performance de rua, na temática caricatural, na panóplia de figuras, nos detalhes da caracterização, no timing da comédia, na equipa de secundários protagonistas e na eficácia da realização. É tudo do bom e do melhor, como ainda não se tinha visto em Portugal, de facto. Só para dar um exemplo, é provável que a personagem Ruce faça mais pela prevenção do consumo de drogas do que todas as campanhas oficiais juntas até agora. E fica também o marco histórico de, pela primeira vez, se fazer humor com o folclore esquerdista. Estamos a ficar crescidinhos.

Wikiporrada

ruiAraujo.jpg

Estou muito preocupado com este senhor. Há uma tragédia em preparação. É um daqueles casos em que toda a gente está a ver e ninguém descruza os braços para ajudar, ninguém lança um aviso. Deve estar por dias, ou horas, o desenlace fatal.

E o que vai acontecer é isto: as jornalistas do PÚBLICO vão imprimir todos os seus artigos sacados à má fila da Wikipedia, vão enrolá-los com cuidado em forma de bastão até sentirem a consistência do mogno, e irão fazer uma espera ao Rui Araújo nas traseiras das instalações. Já foi tudo tratado com um paquete do jornal, o qual vai entrar no gabinete do Rui e dizer com o máximo de convicção (e até simulando uma certa mágoa, um choro na voz): “Senhor Araújo, elas estão outra vez a copiar!”, apontando para o local combinado. O Provedor saltará fogoso da cadeira, dirigindo-se quase correndo para as traseiras. Depois, será aquilo que uma das jornalistas antecipou enquanto imprimia um artigo tirado da Wikipedia sobre o José Manuel Fernandes: “Está na altura de lhe fazermos a folha…”.

Episteme

curiosity.jpg

Passaram quase 4 meses desde que o nosso amigo PY tentou arrastar-me para discussão que era descarada armadilha fáustica. Exemplo de prudência, fingi que não era comigo e saí à francesa. O bravo que sabe fugir vive para lutar outra vez, escreveu com utilidade um cobardola. Reconheça-se que discutir epistemologia e metamatemática em campo aberto, num blogue, tem algo de heróico — ou de vexante, sendo Portugal um território de endémico, e epidémico, anti-intelectualismo. Mas aos cobardes é sempre munida redenção (usualmente sob a forma de suicídio, tal como se ensina em Hollywood).

Lanço peito contra o fogo inimigo postulando que a ciência é a suprema realização da cultura, superior à arte, à política e à religião. Só perde para a filosofia, por razões com que encerrarei a nano-diatribe. Este assomo de valentia vem da (ainda) recente notícia que Paul Davies protagoniza. Tendo sido um dos primeiros, pós-Einstein, a defender a existência da “energia negra”, este ecléctico físico procura agora alumiar questões que se devem tomar, em exacta deferência etimológica, como metafísicas: porquê estar na matemática a essência da natureza?; porquê serem as leis cósmicas tão propícias ao aparecimento, evolução e crescente complexidade da vida?; porquê a existência de seres humanos, possuindo consciência, corpo material e livre-arbítrio?

Continuar a lerEpisteme

Prazeres da língua – 3 (com a devida vénia ao canal, o Odisseia)

Hoje será às 17, repetindo às 22 horas. No sábado, às 11. No santo domingo, já não se toca nele. E depois voltará a ficar escondido. Falamos de um documentário científico acerca do clítoris. Ou do clitóris, como se grafa no livro A História Íntima do Orgasmo, de Jonathan Margolis, em tradução de Fernando Dias Antunes. Constata-se haver aqui uma questão de vulva, perdão, de vulto: onde fazer a acentuação?; onde e como pressionar? Há milénios que as mulheres se queixam do mesmo problema aos homens, sugerindo até uma falta de tónica na sílaba. Felizmente, sempre aparecem uns linguistas mais corajosos ou atrevidos, mais generosos ou requintados, no fundo, mais aplicados, os quais puxam pela língua natural e a levam a percorrer os meandros desses terrenos tão feericamente estruturados.

A história do clítoris é uma fonte inesgotável de prazer (creio que esta asserção é absolutamente incontestável; e se por mais nenhum feito na minha insignificante vida, gostaria de passar a ser conhecido como aquele que elaborou, no campo das ciências humanas, um raciocínio que rivaliza em perfeição com os cálculos matemáticos; mas adiante). Ninguém ignora que Colombo descobriu a América e inventou os índios. E que tal se vos dissesse que Colombo descobriu o clítoris? Diriam que estava a gozar?

O clítoris concorre para o título de entidade mais enigmática no universo conhecido. Biologicamente, aparenta não servir para nada de útil. Então, após 3500 milhões de anos de evolução, que raio está cá a fazer? Também não faço ideia, mas não me queixo. De uma coisinha, assim pequenina na aparência e muito sensível, tenho eu a certeza: quão melhor se conheça o clítoris, melhor se penetra no mistério de tudo.

Professores, explicadores e curiosos, mãos à obra.

Num cinema, perto de mim

fleuve.jpg

7 de Janeiro de 2007. Domingo. Na Gulbenkian o povo quer Amadeo, aparecem bichas sinuosas. O povo também quer cinema, cinema belo.

Chávenas e copos e pratos ao longo do balcão e na bancada interior do bar. Duas empregadas aturdidas com os incessantes pedidos. Atropelos selvagens dos consumidores de alta cultura na conquista de um cafezinho, aquela fatia de bolo de maça. São seis e meia da tarde, vai começar Au Hasard Balthazar. Bresson.

Shubert interrompido por um zurro. Estamos ainda no genérico. No final, um burro deixa-nos calados. Com os olhos muito abertos. Nós. Muito.

As três e meia da tarde antecipam-se às seis e meia dessa mesma tarde, e isto dura desde o tempo em que há registos do tempo. Neste domingo, na Gulbenkian, não houve excepção à regra do jogo. Quem foi descobrir-se no The River, de Jean Renoir, teve de atravessar os cordões souza-cardosianos. Teve de entrar numa sala que ficou cheia de velhos com espírito jovem e de jovens com gosto de velhos. Teve de rir por ter nascido uma menina. No final do filme, teve de ouvir aplausos.

Quantas vezes se ouvem aplausos num cinema? Não sei. Sei que foi belo. É.

Socorro!

Em má hora me atrevi a desafiar a ira do Norte e agora estou a ser gramaticalmente sovado pelo meu primo JPC, sem apelo e com agravo. E é de corpinho macerado que me vejo obrigado a conceder que só deve obedecer à gramática quem já não consegue aguentar o que sente.

Um bom e infeliz Natal

22 de Dezembro, Lisboa, 18 horas e tal, agência de comunicação, pessoas sofisticadas, entre os vinte e os quarenta anos. Quem vai saindo despede-se com um “Bom Natal!”. A emoção é forçada, resulta em falsete, nalguns casos raia a jeremiada. Outros, os extrovertidos, vencem rendendo-se: soltam a voz, soltam o canastrão, soltam a franga: cantam. [horror!] E todos desejam o mesmo. A todos. Um bom Natal.

26 e 27 de Dezembro, perto do Tejo, 10 horas e tal, 11 horas e tal, meio-dia coiso e tal, agência sofisticada, pessoas que trabalham em comunicação, alguns nos quarenta, muitos nos trinta, vários nos vinte. Quem chega, e quem cruza, cumprimenta com a pergunta “Então o Natal, foi bom?”. A emoção é um fardo, um esgar. As palavras queimam os lábios, saem de jacto e trespassam o ouvinte. Ninguém presta atenção à resposta. As respostas talvez nem tenham som, mesmo aquelas que foram vocalizadas. Responder o quê? É mais fácil dissertar sobre o sentido antepenúltimo da existência.

Apenas por causa desta farsa natalícia, faço uma concessão à felicidade. Porque o problema nasce de se ter trocado uma fórmula testada durante séculos — o “Feliz Natal” — por um exotismo recente que está a ser origem de tragédia sociológica. Naquele tempo, de feliz memória, não lembraria a ninguém perguntar se o Natal tinha sido feliz. A felicidade tem essa tão aliviante qualidade: arrasta um pudor, ou um fastio, que anula a curiosidade, impõe sacro respeito. E desejar “Feliz Natal” gera fenómenos miméticos, psicossomatismos saudáveis por movimento associativo. O pessoal, nesses segundos elocutórios, ofusca-se numa hiperbólica e disforme encenação da felicidade — que é consolo, júbilo. Mas quando se dá como bitola o adjectivo “bom”, tudo fica reduzido a uma escala, obriga à mensuração. Porque o “bom” é maralha, anda metido com o “melhor”, o “mediano”, o “sofrível”, o “excelente”, o “fantástico”, o “medíocre” e até o bera do “mau”. Fica difícil, não nos façam escolher.

Louvada seja a felicidade, uma só vez ao ano. Para o resto do calendário, estão a valer as palavras de Flaubert, carta a Louise Colet em 1846, que permanecem definitivas:

Etre bête, égoïste, et avoir une bonne santé, voilà les trois conditions voulues pour être heureux ; mais si la première nous manque, tout est perdu.

Gigas

freitas1.jpg

A presença de Freitas do Amaral na RTP comoveu-me. Falo de presença, e não de entrevista, porque seria indiferente ter tido outro jornalista ou outro elenco de questões. Freitas é igual a si próprio, o que o levou para o percurso heterodoxo que incomoda tanta gente. E que o incomoda a ele. E que me comoveu.

Da direita à esquerda, da autarquia ao Governo, o tipo de político mais frequente é um misto de manha, pesporrência e más companhias. O “sistema” está disponível para observação e estudo atento nas juventudes partidárias, as quais servem para fazer a triagem dos eticamente “adaptáveis” ou “versáteis”: permitem ensaiar futuros papéis sem risco de causar prejuízo eleitoral e levam os neófitos a iniciarem-se nos benefícios da carreira política; havendo abundância de opções laborais, confortavelmente remuneradas, para entreter os rapazes-boys. Mas ainda mais embriagante do que a materializada segurança financeira e social é, ui!, a inefável sensação de impunidade. O Estado e seus recursos, a Lei e a Ordem, aparecem sarapintados a duas ou três cores (não mais, não mais…) nas pupilas dos políticos de profissão, permitindo localizar com rigor as zonas de protecção e influência. E os almoços e jantares, as festas e eventos, os aniversários e casamentos, vão selando outras negociações com as cores concorrentes. Todos ganham, desde que sejam discretos, porque todos procuram exactamente o mesmo: um sistema alternativo — e muito mais eficaz e eficiente, porque muito mais controlado e restrito — de redistribuição da riqueza.

Ora, Freitas, num passo do seu testemunho, disse que é do a-b-c da política começar os preparativos para a reeleição logo a partir do momento em que se é eleito. E disse-o com a impaciência alegre de quem explica a uma criança como usar os talheres à mesa. Este nada no meio do discurso, que nada suscitou na jornalista, é na sua cândida formulação um curso inteiro de ciência política. Se o político deve, em boa prática disciplinar ou artística, tentar garantir a reeleição, dai decorre que essa avidez é inevitavelmente o seu maior objectivo político e o primeiro do seu programa. Porém, como o político reconhece a desvantagem de assumir publicamente esta regra tácita da sua actividade, não a vai comunicar ao eleitorado, nem a admite em caso algum se calhar ser interrogado. Tem, então, de mentir; isto é, mente ainda mais alucinadamente.

Eis que vi Freitas do Amaral como nunca o tinha visto antes. Um homem a carregar peso dilacerante às costas, as quais se mostravam fracas para tal fardo, tanto física como moralmente. Porque nele coexistiam, em paridade, a estátua idealista e o cimento realista, o projecto de serviço e o plano de poder, a ilusão criativa e a desilusão pragmática, a identidade e a tentação. Como tal, foi supinamente educativo colher a ambivalência com que falou de Cavaco Silva. E o mais extraordinário, dentro desse extraordinário registo, consistiu nisso da genuína gratidão se saber, em concomitância, maquiavelicamente traída. Falta um coevo Shakespeare para esta tragédia.

Comove-me a transparência deste homem, que é coragem. Comove-me a sua grandeza, que é verdade. Comovo-me pelo falhanço da sua ambição, com o acerto da sua vida.

Que futuro para o pretérito perfeito?

Agora que todos, incluindo bravos ateus e petrificados marxistas, estão submergidos pelo melífluo tsunami consumista do Natal, e ainda menor é a disposição para blogues e seu cortejo de irrelevâncias, parece-me o tempo próprio para partilhar uma raiva cada vez mais quotidiana; e talvez bizarra para a catatónica maioria dos meus patrícios. Trata-se do take over hostil que o presente do indicativo vem fazendo ao pretérito perfeito do mesmo. Posso estar douradamente enganado, sugerindo que o foco da epidemia se situa algures na região do Porto e é corrupção amplificada pelos dirigentes futebolísticos invictos, mas em muito a praga ultrapassa essa fauna e já invade outrora imaculados santuários. A gota de fel foi ter constatado, ontem, que o vírus chegou à TSF, tendo o locutor (jornalista?…) largado um falamos quando o sentido temporal da acção obrigava a um falámos. Uma vez que está em causa a TSF do Fernando Alves, implacável capataz do rigor gramatical da sua equipa (ou assim era, em época não tão distante), é caso para ficarmos apavorados. Fenómenos há assim na oralidade, em que o desvio, de tão frequente, perverte a própria capacidade de discernir a norma. Língua viva, óptimo, mas excesso de vida é letal — ou será que andamos a querer destruir o que andámos oito séculos a criar?

Tragédia na SIC Comédia

logo.gif

Constou ir acabar. Chegaram a passar a notícia em rodapé. E se calhar vai mesmo. Ou já não. Mas se acabar vou perder o Leno e o Conan. Dois exuberantes exemplos da vitalidade da democracia norte-americana. Dois cómicos que fazem crítica política subversiva, porque aparentam estar só a servir inócua diversão a mando do grande capital e demais imperialismos nefandos. Mas neles a fiscalização da incompetência dos políticos e vacuidade das figuras públicas não é escabrosa, imbecilizante ou medricas. E a estes dois ainda se deve juntar, por maioria de razão, Jon Stewart (SIC Radical), o qual se atira ao gasganete do Poder.

Portugal não tem ninguém que faça humor com tal inteligência, coragem e propósito cívico. Portugal não sabe rir, nem consegue chorar.

Bento&Bento

Um foi ao terreno do mais odioso adversário e ganhou. O outro recebeu o mais dilecto rival e perdeu. De um disse-se que, afinal, até sabia o que fazia. Do outro disse-se que, afinal, não sabe o que faz. Ambos treinam as suas equipas desde 2005. Ambos são a volúvel sombra dos resultados.

Blogues que marcam

O recente post do Luis faz-me antecipar uma reflexão que, no meu ritmo de tartaruga dos Galápagos, tinha previsto introduzir lá para 2016. Refiro-me à ambiguidade intrínseca, e irresolúvel, dos blogues enquanto objectos mediáticos entalados entre o angelismo de se sonharem órgãos de imprensa e a bestialidade de se saberem voluntarismo e aleatoriedade.

Uma parte do que o Luis escreve é expressão da sua pessoa e respectiva weltanschauung; logo, é matéria que apenas diz respeito a quem se identifica com os parâmetros ideológicos assinalados. Mas o restante, aquilo que manifesta uma concepção do que deve ser um blogue, suscita-me a crítica. De facto, e servindo-me do exemplo, ninguém no Aspirina tinha assinalado o 1º (e último?…) aniversário. Há boas razões para tal, a começar pelo facto de todos os seus membros fundadores, de uma forma ou de outra, terem debandado. Uns saíram, outros ausentaram-se, outros afastaram-se. Contudo, haveria ainda uma melhor razão, boicotada bondosa e involuntariamente pelo Luis: não haver nada para celebrar. E não me refiro particularmente ao Aspirina, que não precisa dos meus encómios. Não há nada para celebrar na quase totalidade dos blogues, eis a realidade. Que eu conheça, só o Abrupto mereceria aniversários e foguetes, tão distinto e profícuo é o produto que oferece à populaça. Mas o resto?!… Não há mérito nenhum em emitir opiniões ou em fazer uns malabarismos literários — ainda por cima usualmente banais, quando não pífios. O mundo não carece de mais opiniões ordinárias, desconfio.

Continuar a lerBlogues que marcam

Interpolar

O EQUADOR continua a influenciar o clima blogosférico, contribuindo para estes dias de S. Martinho estival em que muita castanha está a ser distribuída. O nosso amigo Jagudi aproveitou a distracção para injectar um composto de alta inteligência numa caixa de comentários, o qual recolheu célere o selo de garantia do Fernando. Generosidade tamanha não é para desperdiçar.

Qualquer um reconhecerá em MST o cronista exemplar das fealdades paisagísticas a que uma corja de patos-bravos, e os portugueses em geral, vêm sujeitando o país todos os dias. Ou o que nos ajuda a distinguir a América da liberdade original e dos direitos fundadores, da perigosa América actual, conduzida por fanáticos medíocres. Ou o autor de reportagens e relatos de viagem como os que nos deixou em SUL. MST tem a ousadia, a lucidez e o desassombro que ao jornalista competem. O que ele não tem é o sentido estético do ficcionista. E não manifesta saber, em EQUADOR, que o trajecto da ficção narrativa é multifacetado, mas segue um caminho tão estreito como o fio duma navalha. Onde o artista se estatela ao mais ligeiro escorregar do pé.
Tendo presente quanto há de pessoal e subjectivo na apreciação duma obra, dir-se-á que EQUADOR não passa do sofrível. Tem uma história a contar e muito para dizer, já isso não é pouco, se anda este mundo pejado de figuritas imberbes a dar-se por escritores. Mas é um trabalho desequilibrado e prolixo, a espraiar-se em secundárias peripécias longuíssimas, que apenas lhe roubam vigor e o empobrecem. O todo ganharia com outra economia.
Há nele situações mal cosidas, em que o pesponto se vê. Mas o grande senão é o modo de contar, que nada de novo nos propõe. Não se conta hoje uma história com as técnicas narrativas, o tipo de linguagem, os mesmos exercícios e recursos dos finais do séc. XIX. Ainda por cima sem a artilharia requintada que nesse tempo alguns sabiam usar. A técnica primaríssima e descuidada de que MST faz uso, se é apropriada e eficaz num trabalho jornalístico, resulta de todo inadequada, e gasta, e anacrónica em literatura. Por isso o seu efeito estético é nulo, já que também o jogo sonoro da frase, a harmonia e o ritmo do discurso utilizado são ausências. Ora nada disto a literatura pode dispensar, por infindável que seja a discussão sobre o que ela é.
Lá onde MST brilha é quando se conserva no seu campo. É quando analisa, quando aponta, quando denuncia, quando levanta o véu da nudez dum império a fingir. O seu EQUADOR vendeu muito, com mais proveitos para o editor que para a literatura. E os leitores.

Jagudi

Belas, inteligentes e anónimas

Boa lembrança a do Gibel. A SOCA tem um ano preenchido com blogoliteratura de gineceu. Nesse efémero feminino, encontramos a mesma dinâmica que em qualquer outro blogue, singular ou colectivo, com começos apaixonados e curvas descendentes de participação. O que se produziu neste ano de vida, porém, é material de inquestionável interesse antropológico, sociológico e psicológico — porque servido por um nível médio de qualidade de escrita que consegue notável compromisso entre o conteúdo e a forma. Não sendo um blogue com qualquer pretensão estilística, nem ideológica, habita num reino lúdico onde há cupidos e bestas furiosas em feminil harmonia. Encantador, pois.

Chamo a atenção para algo que transcende o projecto, e que é filão para editores que ambicionem vender o que publiquem (aspecto que deveria ser óbvio, mas que num País sem cultura capitalista se torna esconso). Trata-se da colaboradora Fox Trotter, recentemente desvelada como sofrendo de múltipla personalidade. Ela relata as suas experiências sexuais de um ponto de vista que os homens desconhecem por fatal limitação cognitiva, assim contribuindo para se continuar a desacreditar Freud e outros amantes de charutos. Com mais material reunido, era best-seller garantido. Cá vai um exemplo, com erro ortográfico charmoso e tudo a que temos direito:

Amorzinho, vai-te foder

Acordaste a minha líbido, que tanto demorei a silenciar. Eu, que nos dias em que fodia, fodia todos os dias. Não queria o grelo aos saltos e as mamas duras, a língua a tocar na aresta dos dentes em antecipação. Nem o torpor insensato nas depressões internas das coxas, enquanto sentia escorrer a vontade pelo eixo de simetria. Consegui deixar de me foder com os dedos porque estava farta de me vir sozinha.
Chegas, fascinas-me com palavras. A minha tesão com a tua voz. O teu cheiro, pele, as duas mãos. Rendes-me nua, viras-me de costas, do avesso, prendes-me o corpo à distância do teu. Prendes-me o corpo, presas as mãos (para que não te possa tocar). Dás-me finalmente a língua e penso que te vou ter. E então vais-te, levas-me o sono e deixas, em troca, uma cona a arder.