Arquivo da Categoria: Valupi

Perguntas complicadas

Esta apetência das figuras gradas do PSD para reduzirem a política à calunia ao mesmo tempo que dão muito trabalho às polícias e aos tribunais é uma mera coincidência ou será o efeito de alguma coisa que andam a pôr na água canalizada da São Caetano?

Louçã, por favor

Francisco, Chico pá, venho rogar-te pelas almas de Marx e Trotsky que acabes com a infernal barulheira que não me deixa dormir. Todas as noites, e a noite toda, o fragor do debate interno no teu glorioso partido atravessa as paredes do meu quarto e expulsa o sono dali para fora. Já perdi a conta às vezes em que fiquei horas a escutar brilhantes, apaixonadas, heróicas análises de dirigentes e militantes bloquistas acerca das estupendas decisões que tomaste depois das eleições de 2009. A vossa democracia é mesmo exemplar e o Sol do Mundo porque eles falam livre e entusiasticamente a respeito dos mais melindrosos assuntos. Como a tua extraordinária estratégia para entregar o poder à direita, a tua magnífica visão a respeito do melhor candidato para derrotar um Cavaco enterrado em BPN e escutas, a tua genial macaquice da moção de censura só para dar uma lição aos outros comunas, a tua sagrada missão como chefe insubstituível, por seres o único com três olhinhos num grupo de surdos, mesmo que o partido tenha de continuar a definhar até voltar a ter só dois deputados. Tu e o Fazenda, claro. Quem mais conhece o sentido da História ou estaria em condições de liderar a esquerda grande que mereces e sonhas? Maneiras que venho dizer-te que já chega. Isto é, já chegaram àquele ponto em que se fez luz. Já disseram o que tinham para dizer uns aos outros. Já percebemos. E já são horas de ir dormir, acaba lá com a algazarra.

O regresso do Café dos Blogues

Os felizardos que morem em Lisboa, passem por Lisboa ou consigam vir a Lisboa e que estejam de férias, não encontrem trabalho, sejam reformados, andem a brincar aos estudantes universitários ou tenham um atestado médico a diagnosticar que são professores, poderão desfrutar de um final de tarde começo de noite junto deste quarteto fantástico:

Quando ouvimos falar em “Jugular” no mundo da blogosfera, já não pensamos nas veias com o mesmo nome, localizadas no pescoço e que, usualmente, são cortadas para degolar alguém. “Jugular” é sim o nome de um dos blogues mais assertivos, ácidos e desconcertantes da blogosfera portuguesa e que, por tal facto, ganhou uma notoriedade reconhecida pelos seus pares.

O blogue “Jugular” é também convidado para a primeira sessão do “Café dos Blogues”, o novo espaço comunicacional da Livraria Almedina Atrium Saldanha. A tertúlia realiza-se no dia 29 de Setembro, pelas 19h, e conta com a presença de Ana Matos Pires, Fernanda Câncio e João Pinto e Castro, alguns dos autores do “Jugular”. Com entrada livre, a moderação está a cargo da cronista do semanário “Sol”, Carla Quevedo.

O crime compensa

A história de George Wright dá um super-filme de Hollywood. Morgan Freeman, neste momento, é uma escolha óbvia para o protagonista na fase em que se estabelece por cá e é apanhado.

O Governo de Portugal juntamente com as câmaras de Lisboa, Sintra, Cascais, Estoril e demais institutos e empresas interessadas, deviam começar já a fazer lobby para obter a aprovação do próprio e se encontrar argumentista e realizador de topo. Minha preferência: David Fincher.

Seria uma promoção turística de valor incalculável – ou seja, de milhares de milhões de euros em retorno.

Que colossal garganeiro nos saíste, Marcelino

Cem dias depois, as almas estão convencidas: a crise é grave. Começa nos nossos pecados, é certo, mas alimenta-se da especulação financeira e da crise das dívidas soberanas, acabando na incapacidade política da chamada União Europeia. Hoje, nenhum português, mesmo com cartão de partido, tem dúvidas disto. É sempre um bom princípio que o doente tenha a consciência da doença.

João Marcelino

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Marcelino, alguém que trabalhou com denodo para a vitória do PSD nas legislativas, diz que só agora estamos em condições de reconhecer a origem internacional da crise que afecta Portugal, a Europa e o Mundo desde 2008. Esta conversa num Carlos Moedas fica como o retrato da mais abjecta e pacóvia falta de vergonha, esse apanágio da nossa direita partidária. Mas esta conversa vinda de um jornalista supostamente sério, que acumula com o papel de director de um suposto jornal de referência, dá vontade de o mandar para o caralho mais velho.

A anterior legislatura foi interrompida a meio porque todos os partidos da oposição viram nisso algo benéfico para os interesses que representam, sejam lá eles quais forem. Se agora o Marcelino informa a populaça de que o diagnóstico feito em Março estava errado, então dita o respeito intelectual próprio que tire mais algumas conclusões. Por exemplo, que PSD, CDS, BE e PCP não são grande espingarda a fazerem análises políticas e estimativas económicas. Por exemplo, que em resultado da falta de inteligência dos partidos que chumbaram o PEC IV estamos agora com as contas públicas em muito pior estado, os cidadãos mais pobres estão cada vez mais desprotegidos e a classe média está perto de ficar depauperada. Por exemplo, que quem nos levou a esta situação não nos pode tirar dela.

As reformas e os reformados

No auge da fúria dos ranhosos contra Sócrates, Crespo dizia à boca cheia que a saída de Marcelo da RTP – no contexto da saída de António Vitorino por sua iniciativa, o que desfazia o equilíbrio ideológico ou partidário no comentário político de referência na televisão pública – era o resultado de mais uma manobra do Governo para calar os seus críticos. A afirmação não era apenas estúpida, e muito estúpida, nem era apenas lunática, e muito lunática, era também enternecedora, provocando simpatia. É que Marcelo é uma super-vedeta da política-espectáculo, não existindo nenhum país com representação na ONU que o consiga calar.

Tal como não existe nenhuma figura da esquerda que sequer rivalize com ele. Vitorino seria um par intelectual, e dez vezes mais sério, mas sem qualquer ponto de comparação quanto à vertente de mexeriqueiro e bufão de Cascais que ficará como a mais arreigada pulsão de Marcelo e a fonte mesma da sua popularidade. Os seus extraordinários dotes de comunicador encontraram na televisão o meio perfeito para se exibirem e florescerem, outorgando-lhe um poder de influência que não tem parado de crescer, por incrível que possa parecer ao cidadão distraído. Um poder que ele utiliza para seu gozo pessoal, claro, mas igualmente para ser um agente político interessado na defesa dos seus e no ataque aos restantes. Contudo, debaixo do verniz o que se encontra é uma retinta vulgaridade, até chungaria.

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Na veia

Obrigada Teresa Rosmaninho – Ana Matos Pires assinala uma partida e o seu legado: violência doméstica – manual para os media

O flagelo da violência doméstica, transversal a todas as classes sociais e gerações, depende de variados silêncios para persistir. Silêncios das vítimas, mas também dos familiares, amigos, vizinhos ou colegas do casal – nalguns casos, silêncios das autoridades, embora tal tenha vindo a mudar nos últimos anos. A Internet pode ser um precioso auxiliar para uma intervenção decisiva. Começar por obter informação, no sigilo da utilização de um computador ou telemóvel, é o primeiro e mais importante passo a dar por qualquer pessoa que pretenda ajudar ou ajudar-se.

Espiões na Costa do Sol portuguesa durante a II Guerra Mundial – Irene Pimentel dá-nos a provar um pouco das fascinantes histórias de um tempo e um espaço fascinantes. Aperitivos para o fascinante livro que está a preparar.

That which is unsustainable shall not be sustained – João Galamba desenvolve mais uma análise ao cerne do problema onde a Europa está metida: a Zona Euro e sua arquitectura. O episódio do seu diálogo com Rasmus Ruffer, representante do BCE, é uma pitoresca ilustração do berbicacho.

Poder – A arte da inimitável Fátima Rolo Duarte.

¿Qué coño se pasa com nuestros hermanos?

Esta cena de acabar com touradas em Espanha é que põe em causa o futuro da Europa, não é cá a trapalhada das dívidas soberanas. Uma Espanha sem toureiros será algo tão desconchavado como uma Inglaterra sem monarquia, uma França sem chauvinistas ou um Portugal sem passarões que se encheram no BPN e continuam a rir-se à gargalhada. Espero que a Catalunha peça rapidamente asilo político ao Norte da Europa e nos desampare a Península porque já chega ver o nosso Mourinho e o nosso Cristiano a amocharem aos pés do Barcelona, não precisamos destes exemplos desvitalizadores e mariconços que ameaçam tirar-nos a supina arte do toureio a cavalo e a não menos artística valentia dos forcados.

Felizmente, Victor Cunha Rego já disse tudo o que havia de fundamental para ser dito acerca deste ritual de amor pelos touros, que é o amor pelo mistério de existir, deixando de caminho uma das melhores crónicas alguma vez escritas em língua de Camões, Vieira e Pessoa. Segue uma versão incompleta, a única que encontrei.

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1º Grande Prémio da Leviandade no valor de 68,7 milhões de euros

“Este processo decorreu de forma muito leviana do ponto de vista político”, afirmou Miguel Macedo, denunciando que “não foram acauteladas questões básicas, como saber quanto envolve em termos de necessidades orçamentais e garantir que o novo sistema fosse aplicado a todos”.

O governante lembrou que a aplicação do novo sistema teria um impacto financeiro adicional global de 68,7 milhões de euros em 2010 e 2011, o que “é muito dinheiro nas actuais circunstâncias do país”.

O novo sistema remuneratório das polícias entrou em vigor em 1 de Janeiro de 2010, mas, como sublinhou Miguel Macedo, foi suspenso através da lei do Orçamento do Estado que vigora em 2011.

Fonte

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Miguel Macedo declara que ter-se decidido aumentar os polícias em 2009 é leviano à luz da ruína financeira a que o PSD conduziu o País em 2011. Isto porque o acréscimo salarial, ponderado a dois anos, é o equivalente ao que Porto, Benfica e Sporting gastaram em contratações só em 2011.

Talvez tenha razão. Enquanto não tivermos a certeza, anuncio um prémio de 68,7 milhões de euros para quem, jornalista profissional ou mero curioso, consiga descobrir uma qualquer opinião de Miguel Macedo a respeito dos casos BPN e Madeira do ponto de vista da leviandade.

Impressionar no emprego, brilhar nos jantares, seduzir em festas

Advice To Divorcees: Go Easy On Yourself
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Public Sector Workers More Pro-Socially Motivated Than Their Private Sector Counterparts, Multi-Country Study Finds
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Intuitive Thinking May Influence Belief in God
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Gender equality boosts development: World Bank
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Political Preferences Play Different Role in Dating, Mating
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Do Women’s Voices Really Allow Men to Detect Ovulation? No, Says New Study

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Sporting da impaciência

Não sei quantas vezes mais vamos ver este Sporting que consegue sincronizar o passe certo, o avanço em direcção à baliza contrária e a gana de rematar. Sei apenas que o campeonato português precisa muito da impaciência de um leão que não suporta estar sem atacar.

Santos Silva has left the building

Augusto Santos Silva deixa o Parlamento e regressa à academia. Agora sim, o ciclo iniciado em 2005 está terminado. E não há na política portuguesa outra figura tão poderosamente acutilante como este malhador. Por isso, e de uma forma ainda mais profunda e desesperada do que com Sócrates, foi tão odiado pelo Cavaquismo.

Vindo do hipócrita que no discurso da tomada de posse nem sequer escreveu a palavra Europa

Ainda a propósito da autonomia regional e quando interrogado se entende que a situação económica e financeira do país a pode atingir, Cavaco Silva reiterou que “nenhuma parte do país irá ficar imune de uma crise que é internacional, que tem uma dimensão localizada muito forte, na Grécia, mas com uma grande incidência noutros países em resultado da interdependência dos sistemas financeiros e das economias”.

Fonte

Patos com laranja

Para além de ser um dos maiores produtores de inteligência e sensibilidade na blogosfera portuguesa, João Lopes defende uma causa à qual me quero associar: acabar com a vexante bolinha vermelha nas televisões.

De facto, vivemos num espaço televisivo todos os dias marcado pelo moralismo medíocre das telenovelas, pela demagogia cultural de muitos concursos, enfim, por uma vaga de publicidade que pinta quase toda a gente (a começar pelos mais jovens) como tarados sexuais… E, no entanto, tudo isso passa como coisa “natural”. Que defendo, então? Mais bolinhas vermelhas a enxamear os nossos ecrãs? Nada disso. Apenas um pouco mais de crença na inteligência dos espectadores. E, sobretudo, um pouco menos de hipocrisia.

Televisão com bolinha vermelha

1 – Entre outras agressões e obscenidades, a publicidade de rua da nova edição da Casa dos Segredos (TVI) está a utilizar um cartaz em que alguém, supostamente um concorrente, faz saber que teve “um caso com um ministro”. Dito de outro modo: em nome do divertimento, continua a promover-se a grosseria e o vazio mental, formatando-se as sensibilidades da população com uma pornografia de palavras e imagens que reduz o factor humano a coisa ridícula, irrelevante, sempre descartável.

2 – É aqui que estão as grandes questões culturais, mais do que na passagem de obras-primas do cinema (e não só) com bolinha vermelha no canto do ecrã… Aos moralistas que se chocam cada vez que a televisão difunde algo de genuinamente adulto, vale a pena colocar uma questão muito cândida: como encaram o facto de uma criança (qualquer uma) deparar com cartazes e máximas deste teor a poluir o seu quotidiano visual?

As grandes questões culturais

Declarado o meu apoio, reconheço a utilidade da bolinha vermelha para a vida hormonal púbere e adolescente de milhões de concidadãos, particularmente num tempo ainda sem Internet e sua oferta gratuita de todo o tipo de erotismo e pornografia. Realmente, a bolinha vermelha tinha a grande vantagem de avisar a malta para a iminência de um par de mamas a chegar ao ecrã. Isso foi um inestimável serviço nunca devidamente reconhecido e agraciado. Está ao nível da estratégia de marketing da TV Cabo, que durante anos serviu pornografia às boas e cristãs famílias das classes média e alta violando tranquilamente a lei e sem cobrar um tusto, no celebérrimo canal 18. São os operadores de TV a contribuírem para uma sociedade com mais orgasmos, missão com os seus méritos.

Porém, contudo, todavia, há uma nada sexy consequência quando se reduz a moralidade às partes pudendas e suas funcionalidades, ou à linguagem vernacular, ou até às imagens de violência física e morte. Ao se assinalar um qualquer problema temático, verbal ou imagético, está-se a perverter a obra e a perverter o espectador. A obra fica subjugada por um elemento censório absolutamente arbitrário, invariavelmente absurdo, definitivamente inútil. O espectador é tratado como um ser acrítico que deve confiar numa bolinha vermelha para afastar terceiros, ou afastar-se a si, de uma qualquer experiência intelectual. Caso continue a assistir ao programa, decorre da lógica do aviso que o espectador deverá preparar-se para alguma coisa que não pode saber o que é, e que tanto pode ser fonte de prazer ou de dor, mas que será sempre algo excessivo, incorrecto ou perigoso.

O que este código pressupõe é a autoridade da comunicação social para decidir por nós o que nos convém sentir e pensar. Obscenidade maior não existe.

Arte da guerra

Não sou militante nem simpatizante de nenhum partido, não frequento os mentideros de jornalistas e sou muito distraído e desmemoriado. Estes os ingredientes óptimos para manter uma saudável e fértil ingenuidade que me protege contra o cinismo. Foi por isso uma revelação ter tropeçado nesta passagem de Paulo Pedroso:

O PS tem uma linha estratégica definida. Caberá à nova direcção dar os sinais adequados e escolher os protagonistas certos. Recordo que deve evitar-se o erro das exclusões cirúrgicas. Disse-o no momento próprio e não agora, a exclusão de António José Seguro de uma pasta ministerial é um exemplo de má gestão dos recursos políticos do partido. Um erro que espero que Seguro não repita agora.

Os desafios actuais do PS. O que eu quis dizer na Comissão Nacional.

De repente, tudo fazia sentido. Seguro teria ficado com o orgulho ferido porque não chegou a ministro de Sócrates. A partir daí, jurou vingança e começou a minar o terreno (minar, no sentido de esburacar mas também no de pôr minas). Por isso não tinha nada para dizer – e ainda hoje não tem nada para dizer – posto que não podia revelar a dor de corno que o assolava. Mas podia destruir, e deixar que destruíssem. Foi o que fez com pleno êxito.

A ser verdadeira esta interpretação, e há 357% de probabilidade de ser, estamos perante algo normal. Será até um monumento à normalidade. Os partidos são grupos que se organizam hierarquicamente, assim causando conflitos inevitáveis que decorrem das diferenças de estatuto entre os seus membros. Acresce que as lideranças partidárias são inerentemente voláteis nos partidos que disputam a governação, pois há diversos factores de desgaste fora do controlo dos chefes. Sendo a razão humana uma faculdade encapsulada no corpo de instintos e paixões onde radica a nossa identidade, nada mais natural que a motivação de Seguro para derrubar Sócrates fosse do foro estritamente afectivo.

Colhe também reflectir sobre o conselho do Paulo para que não se cometa o mesmo erro. Mas, porquê considerar a exclusão cirúrgica como algo a evitar? É que os factos defendem a tese oposta: o que Seguro fez a posteriori confirma o critério do seu afastamento a priori. Talvez o que se tenha passado, então, seja do domínio da capacidade de escolher aqueles com quem se quer estar lado a lado no combate. Esse talento que se perde na noite dos tempos. Esse fruto de uma sapiência. Essa arte da guerra.