Na sua abstracção, o ideal das democracias modernas possibilita a livre escolha dos governantes. Porém, como logo os gregos do século VI a.C. descobriram e denunciaram, essa liberdade começa a ficar limitada se as difamações e calúnias influenciarem a avaliação dos candidatos ao exercício do poder. Dizer de alguém que não é de confiança, ou que terá cometido ilegalidades, cria uma automática suspeita naqueles a quem chegar esse ataque, incluindo nos apoiantes do alvo. E, mesmo se inocente, os danos na sua credibilidade poderão ser irreversíveis e impedirem a sua eleição.
A eficácia dos assassinatos de carácter nasce de uma absoluta necessidade antropológica: segurança. Precisamos de conhecer os nossos aliados e os nossos inimigos. Em especial, precisamos de descobrir os traidores, muito piores do que os inimigos. Saber se alguém nos está a enganar, ou já enganou terceiros, torna-se no principal critério de legitimação política numa democracia. Antes das restantes considerações programáticas no processo de escolher o destino do nosso voto, queremos depositar o poder em mãos impolutas ou delas o retirar se o deixarem de ser. Ainda no plano antropológico, os ataques ao carácter podem tão-só expressar o medo perante aquele que não partilha da nossa identidade grupal. Desconfiamos do estranho por instinto, efabulamos esse medo para nos protegermos da potencial ameaça. Se o pudermos destruir, retirando-lhe o acesso ao nosso grupo ou a capacidade de atracção, teremos afastado o perigo.
Saltando para o plano psicológico, os ataques ao carácter aparecem por acção consciente. Podem ser originados por deficiente ou errada informação, criando uma ilusão. E podem ser uma opção lógica inscrita numa dada estratégia. Se a estratégia for a de fazer Justiça, como num tribunal onde vigore o Estado de direito, o ataque ao carácter corresponde ipsis verbis à sentença que determina uma culpa. Fora destas mediações onde se garante juridicamente a integridade do bom-nome do réu ou arguido até à conclusão do processo, os ataques de carácter são sempre manobras perversas que intentam um ganho através do dano causado. Implicam, pois, uma qualquer relação conflitual. Ocorrem na política, mas também ocorrem nos negócios, nas relações amorosas e de vizinhança. E não exigem qualquer tipo de especial capacidade intelectual ou cognitiva, bem pelo contrário. Qualquer imbecil é capaz de imitar um ranhoso e vice-versa.
Nas duas legislaturas passadas, e excluindo o racismo ideológico da extrema-esquerda que calunia sistematicamente tudo o que lhe cheire a democracia, o grande símbolo desta decadência moral e disfunção política foi o Pacheco Pereira. A criatura repetiu com afã maníaco, durante 3 ou 4 anos, as piores insinuações que lhe passaram pelo bestunto a respeito do Governo, apostando tudo numa criminalização de Sócrates e seus próximos. Quando regressou da saleta na Assembleia da República, onde passou horas a devassar a privacidade de um concidadão escutado ilicitamente, disse que tinha encontrado elementos avassaladores. E que fez a seguir? Que fez até hoje a respeito do avassalamento que interceptou como deputado-espião? A ponta de um caralho.
Este comportamento bicéfalo, onde se emporcalha o adversário e se perverte o Estado de direito, merece tolerância zero por parte de todos aqueles que quiserem viver em democracia.