A Itália de Maquiavel era uma manta de retalhos devastada pelas incessantes disputas de poder entre as grandes famílias e também pelos conflitos causados pela Igreja Católica. Na ausência de forças militares próprias para vencerem os opositores, um dos recursos mais frequentes era o da contratação de exércitos mercenários, tropa estrangeira que, breve e invariavelmente, se transformava em tropa-fandanga ávida por espoliar as populações e territórios em nome de quem tinham combatido. Maquiavel explicou os males do tempo, embrulhados em desesperança e fatalismo, denunciando a cobardia da elite italiana. Em vez de serem patriotas e se rodearem daqueles que queriam defender as suas comunidades, os senhores entregavam-se nas mãos armadas dos bárbaros só pela ganância de irem ao pote.
Desde meados de 2010 que uma parte da elite portuguesa fez campanha pela entrada em território nacional de uma força estrangeira. Diziam que ela trazia a solução para os nossos males e que só ela estaria em condições de governar um povo ingovernável. Era o FMI e seu receituário de empobrecimento forçado e desprezo impávido pelo sofrimento causado na classe média e na parte da sociedade mais financeira e socialmente carente. Este seria em tudo como o exército romano, essa implacável e letal máquina de engenheiros e engenharias. Há dezenas, há centenas de declarações públicas onde personalidades políticas e económicas destacadas fazem esse apelo abertamente, onde se assumia que a única forma para o derrube do poder eleito num país que insistia em votar Sócrates contra os interesses da oligarquia era fazer com que se suspendesse a democracia e se entregasse a cidade aos tecnocratas alienígenas que iriam aterrar na Portela para fazer contas de subtrair.
Concluído o processo de reeleição de Cavaco, sabendo que Sócrates, contra tudo e contra todos, ia conseguindo resistir aos mercados e conseguindo a aliança de Merkel no fio da navalha, que as contas se começavam a ajustar no sensato equilíbrio da austeridade com a sobrevivência da economia, e sabendo que estávamos na iminência de um passo decisivo com o chamado PEC IV, a elite portuguesa decidiu que não haveria melhor momento do que os idos de Março para abrir as portas aos guerreiros mercenários. Se não fosse nessa altura, teriam de esperar pela discussão do Orçamento para 2012 e corriam o risco de verem Portugal cada vez mais capaz de se financiar e a não se afundar na tempestade internacional.
Uma vez instalado o corpo expedicionário Troika por obra e graça da santa aliança, temos sem surpresa parte desses senhores a fazerem-nos constantes ameaças: ou nos portamos bem ou os estrangeiros fazem-nos mal, ainda mais mal, pois eles é que têm as armas. É uma conversa de trastes e de chantagistas. Para além de nos quererem oprimir, têm o topete de nos dizer que é para nossa salvação, que foi por nossa causa que tiveram de chamar os mauzões dos estrangeiros. Aliás, que nem sequer foram eles que trouxeram esta gente pérfida, foram os outros, os outros que não os queriam cá é que os foram buscar, é que são os culpados. Tudo o que de negativo a Troika provoque é da responsabilidade dos outros, tudo o que de positivo a Troika alcance é mérito deles, escarram-nos em cima minuto a minuto. Agora, é comer e calar para que isto não fique cada vez pior, trágico, catastrófico.
E quanto ao que o Governo faz ou não faz, pensa fazer ou desfazer, tal como o Primeiro-Ministro candidamente revelou na entrevista desta noite, isso é algo que ele vai discutindo com os advisers. É também essa a razão que explica o assustador facto de darmos por nós a olhar para um governante que literalmente não sabe do que fala nem se esforça por o esconder – pois se os advisers é que mandam, não faz parte da natureza transparente do Pedro estar a fingir aquilo que ele não é nem pode ser.