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Neuropolítica e política da neura

A visita de Relvas ao ISCTE, para além de ter servido como catarse social na forma de humilhação a um pobre diabo do Governo, também se transformou numa gigantesca experiência colectiva de negação. Mas, antes de a documentarmos, temos de confirmar se o Relvas que foi censurado e corrido da cerimónia de encerramento da “Conferência 20 Anos da TVI” é o mesmo que aparece neste hilariante e inenarrável vídeo:

Calhando ser, então isso resolve de imediato um dos principais equívocos na questão: não era o sujeito identitário, psicológico e biográfico, o ser ontológico e moral, a entidade existencial e histórica que estavam em causa na análise e avaliação da ocorrência. Não era o Relvas hipócrita, mentiroso e deturpador que protagonizou uma campanha eleitoral onde se enganou um país inteiro como jamais se tinha visto antes nem se julgava possível ver alguma vez. Não era o Relvas que ofendeu os filhos e familiares de Sócrates nunca tendo pedido desculpas públicas nem sofrendo qualquer dano político pelo seu ódio desvairado, bem pelo contrário. Apenas e só o seu papel institucional interessava aos que não alinharam no linchamento simbólico – o Relvas governante, o Relvas Ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares. E não era mais do que este aspecto transitório associado à sua pessoa porque a respeito das restantes dimensões que não tenham relação regimental com o seu papel o que importa dizer é outra coisa: como é possível que Passos Coelho sobreviva politicamente com Relvas ao seu lado, e logo como braço direito, depois de tudo o que se passou com ele desde Janeiro de 2012? É um enigma de arrebimbomalho. Podemos pelas mesmas razões esticar a interrogação até Portas, que é igualmente cúmplice do escândalo como segundo líder da coligação.

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Inspirações para o 2 de Março

Um dos efeitos da crise global, que acabou por condicionar todo este ano de 2010, foi a séria crise de confiança que se abateu nos mercados financeiros sobre as dívidas soberanas dos países do Euro. Esta situação, sem precedentes na União Europeia, levou à subida injustificada dos juros, e afectou todas as economias europeias. Basta, aliás, ver o que passa lá fora para se compreender a dimensão europeia desta crise que a todos afecta embora a alguns países de forma mais intensa.

A verdade é que todos os governos europeus tiveram este ano de fazer ajustamentos nas suas estratégias e tiveram de adoptar medidas difíceis e exigentes, de modo a antecipar a redução dos seus défices como forma de contribuir para a recuperação da confiança nos mercados financeiros.

O Governo português tomou as medidas necessárias para enfrentar esta situação. Com confiança, com sentido de responsabilidade e com determinação. Definiu metas ambiciosas para 2010 e 2011 que vamos cumprir. O que está em causa é da maior importância. O que está em causa é o financiamento da nossa economia, a protecção do emprego, a credibilidade do Estado português e o próprio modelo social em que queremos viver.

Sócrates, Natal de 2010

Gente séria é outra coisa

20 meses de passadismo depois:

Eduardo Catroga defende que se deve fazer a dispensa de funcionários públicos e a revisão das regras para a idade da reforma. O economista não vê outro caminho para produzir uma poupança permanente de muitos milhões de euros, assunto que estará na agenda da sétima avaliação da “troika”. O economista que negociou o memorando de entendimento em nome do PSD sustenta ainda que o país está obrigado a adequar as despesas às receitas correntes. Não há mais espaço para soluções extraordinárias e por isso é incontornável reduzir os gastos com pessoal.

30 dias antes de meterem a bocarra no pote:

«As medidas que agora aparecem são melhores para os portugueses» do que as do PEC4, afirmou, recordando contudo que «é um programa de austeridade, que é preciso por causa de seis anos de Governo socialista, que levou o país à beira da bancarrota».

Eduardo Catroga critica a atitude do Governo que se «apresenta como vítima e como vencedor de uma negociação que foi sobretudo negociada pelo maior partido da oposição». «O PSD deu um grande contributo para este processo. Portugal vai ter uma grande oportunidade para fazer as medidas que se impõem, para dar esperança», disse ainda.

«Tivemos uma reunião altamente frutuosa com a troika, que percebeu a nossa atitude diferenciadora, de defesa do Estado social. O PEC 4 ataca pensões, não falava em reduzir o gordo estado paralelo…»

Eduardo Catroga disse ainda que «houve uma adesão a este princípio de que o PSD, se for Governo, fica com autonomia para propor um novo mix de políticas, se por acaso aparecerem amanhã [quarta-feira] surpresas de medidas penalizadoras para os portugueses».

Perguntas simples

Quando é que Manuel dos Santos, o dirigente socialista que para defender Seguro disse que o PS é responsável “pela actual situação do País” e “por a direita estar a governar Portugal”, vai denunciar as mentiras de Carlos Carvalhas a respeito de Sócrates e do PEC IV?

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Um enigma desvendado

Já toda a minha gente o viu e reviu mas convém trazê-lo de volta para explicar o desaparecimento do Presidente da República durante a maior crise económica e social após o 25 de Abril. O Aníbal tem andado ocupado a espremer o “Spread it” com outras variedades para além da Nuttela e da compota, eis a verdade. Ainda há dias juntou “laranjal” com “vale tudo”. E espremeu.

A Joana explica como se faz:

Na coutada do universitário português

Sabemos que estamos perante um episódio que expõe constrangimentos sociais e culturais graves à cidadania quando até os magníficos Pedro Adão e Silva e Pedro Marques Lopes, já com quatro noites de repousado sono a favorecer a sua actividade racional, repetem que Relvas não devia ter sequer ousado aparecer numa universidade para participar num qualquer evento aberto ao público estudantil.

Essa será uma opinião nascida do senso comum, seguramente, até do bom senso, quiçá. Por isso tantos a expressaram por estes dias. Será uma opinião que fica em perfeita sintonia com o ambiente de um táxi e de um café, viveiros populistas. Será um ponto de vista sociológico, psicossociológico e psicológico, mesmo antropológico, que um jornalista poderá assumir num dado contexto. Será uma opinião que um comentador político de referência poderá veicular já correndo alguns riscos de perder credibilidade intelectual, pois o mesmo pressuposto valida a tese da suposta responsabilidade e coragem perante igual invocada adversidade e o páreo entre as duas linhas de argumentação dá inevitável empate. Mas é uma opinião absolutamente inaceitável num político. Porque um político que abdique da defesa heróica do Estado de direito democrático é um tirano ou cúmplice de tiranos.

Aparentemente, dizer-se que Relvas não tinha condições para discursar publicamente numa instituição de ensino superior, fosse lá qual fosse a matéria da prelecção, é tão-somente uma descrição dos seus tremendos defeitos como governante. E é, óbvio. Só que o preço a pagar é este: aceitar que o corpo discente das universidades portuguesas é constituído por meninos de quem se espera que façam birra e se comportem como alunos do Ensino Secundário num jogo da bola entre escolas, broncos incapazes de pensar, de investigar, de reflectir, de discursar, de argumentar, de usar a palavra e de deixarem os outros fazerem uso da sua palavra, especialmente se forem legítimos representantes do Povo. Aparentemente, também, este corolário já não incomoda quem se incomoda com a repulsa daqueles que ficaram tristes com a violência que se abateu sobre um ministro do XIX Governo Constitucional de Portugal.

Tudo isto lembra a doutrina da “coutada do macho ibérico”, cujo texto é pródigo em exaltações do bom senso:

III – Contribui para a realização de um crime de violação a ofendida, rapariga nova mas mulher feita que: a) Sendo estrangeira, não hesita em vir para a estrada pedir boleia a quem passa; b) Sendo impossível que não tenha previsto o risco em que incorre; c) Se mete num carro, com outra e com dois rapazes, ambas conscientes do perigo que corriam, por estarem numa zona de turismo de fama internacional, onde abundam as turistas estrangeiras com comportamento sexual muito mais liberal do que o da maioria das nativas;

Fonte

É a democracia, estúpido

Foi contigo que me mandou o velho cavaleiro Peleu
naquele dia em que da Ftia te mandou a Agamémnon,
criança que nada sabias da guerra maligna
nem das assembleias, onde os homens se engrandecem.
Por isso ele me mandou, para que eu te ensinasse tudo,
como ser orador de discursos e fazedor de façanhas.

Fala de Fénix a Aquiles, Ilíada, Canto IX, 438-43, Cotovia

*

Marx ainda gastou umas pestanas com o vanguardista Demócrito, o que mui bom proveito lhe fez, mas os seus trinetos não querem nada com a cultura clássica. Cheira-lhes a imperialismo, e imperialismo é obra de americano. Maneiras que se auto-excluem do convívio com os criadores das primeiras formas de democracia que este planeta viu nascer. Quão melhores as disputas bizantinas acerca da teologia marxista, isto para maiores de 60 anos, ou a calhauzada à montra burguesa e as provocações à bófia fascista, isto para menores de 30 anos. Entre os 30 e os 60, há muito restaurante para descobrir, muito vinho para beber, a revolução pode esperar.

Talvez esteja nessa actual aversão à paideia a explicação para um dos maiores enigmas eleitorais em Portugal e não só: porque não conseguem os partidos que prometem o céu na terra para os trabalhadores e miseráveis obter maiorias parlamentares? Que estará a falhar? Será apenas uma questão de tempo, estando nós cada vez mais perto de ter um primeiro-ministro do PCP ou do BE? Será que a mensagem ainda não chegou a todos os votantes? Será que anda alguém a boicotar a correcta recepção e entendimento das propostas nos neurónios dos cidadãos? Que se passa, afinal, que está a atrasar o fim da exploração do homem pelo homem, e da mulher pela mulher, ou qualquer outra das variantes exploratórias possíveis?

O episódio de Relvas no ISCTE permite a elaboração de uma nova hipótese. Para lá chegarmos, vamos começar por ouvir o João Semedo, pois nestas declarações se condensa o essencial do argumentário que tem sido repetido por tanta gente inteligente e bem-intencionada: uma voz da esquerda pura e verdadeira a educar o povo. E agora ponhamos em letra o seu remate:

A democracia é uma dinâmica que tem várias expressões. Tem a expressão eleitoral através do voto. Tem a expressão através das opiniões e da construção da opinião. Mas tem também uma componente de protesto, de revolta, de insubmissão. É isso que ontem vimos no ISCTE e eu julgo que isso faz parte da pluralidade das formas como a democracia se constrói e desenvolve.

Segundo a metade que mija de pé na liderança do Bloco, a democracia constrói-se e desenvolve-se sempre que a turbamulta consegue impedir com o seu berreiro que um dado alvo da sua antipatia não consiga usar da palavra. Estando assim estabelecido o princípio, Semedo está a convidar a malta do PNR, ou uma delegação do Aurora Dourada em trânsito para umas fériazitas no Algarve, a aplicar a receita em iniciativas do BE. É que razões não faltarão a essa rapaziada atlética para se entregarem ao protesto, à revolta e à insubmissão em nome da construção e desenvolvimento da sua peculiar concepção de democracia. Boa sorte, Semedo, e não te esqueças de levar o Betadine.

Mas o que me intriga é este recente monopólio do hooliganismo de plateia no que toca ao formato do protesto, tal como Semedo estipula e consagra. Seria de esperar – ingenuamente, sei bem – que os estudantes do ensino superior até começassem por agradecer a Relvas a extraordinária oportunidade que ele lhes estava a oferecer. Eis uma figura especialmente detestável de um detestável Governo que se presta a deslocar-se a uma instituição académica, a qual ainda por cima sempre foi conotada com ideais ou perfume de esquerda, para se expor ao interrogatório e comentário de uma audiência livre. Foda-se, senhores ouvintes. Para mais, essa figura vinha de um evento no dia anterior onde se tinha afundado num poço sem fundo de ridicularia e achincalho pela sua própria iniciativa. Seria de pensar – ingenuamente, sei bem – que algum estudante de Economia, Ciência Política, Sociologia, Gestão, Finanças e Contabilidade, Gestão de Marketing, História Moderna e Contemporânea, Gestão de Recursos Humanos, Informática e Gestão de Empresas, Arquitectura, Gestão e Engenharia Industrial, Engenharia de Telecomunicações e Informática, Psicologia ou Antropologia pegasse no seu telemóvel e marcasse uma reunião no bar para elaborarem à volta de umas minis um brilharete que desse boa fama ao ISCTE e a cada um deles. Que poderia ser? Deixa cá ver… hum… mostrar o rabo?… bom, dependeria do rabo em causa, claro, mas já foi feito… hum… cantar a Grândola?… divertido mas já cliché… hum… pedir a demissão e vaiar o senhor?… justíssimo, embora pobre face ao potencial da situação… Ah, heureca! Que tal ter um, dois ou três estudantes a pedir a palavra e a demonstrar perante Relvas e o País que eles são muito melhores do que o seu Governo? Ó Semedo, não seria este um protesto, uma revolta e uma insubmissão muito mais proveitosos para a construção e desenvolvimento da democracia? Espera, não te irrites. Perguntar não ofende. Se achares que não é, prontos, não é. Tu é que sabes, tu é que tens os livros lá em casa.

Relvas escapou de boa. Podia ter ido meter-se na cova dos leões e sair de lá debaixo de uma monumental gargalhada. Em vez disso, deu por si no curral dos burros. Muito zurraram e escoicearam esses asnos. E lá conseguiram o que queriam: fugir do confronto democrático. No final, sentiram-se vitoriosos. A sua inferioridade intelectual, política e moral perante Relvas tinha ficado escondida. Estavam prontos para outra. Quem será o próximo adversário que vão silenciar? É só escolher, alvos não faltam.

Estamos finalmente em condições de apresentar a hipótese explicativa dos sucessivos desaires eleitorais do PCP, BE e restantes corajosos revolucionários: ainda há um número demasiado grande de portugueses que prefere o ruído dos crápulas ao silêncio dos tiranetes – quando nos conseguirem calar a todos, só aí ganharão.

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Oferta do nosso amigo David Crisóstomo:

Não, não me peçam para aplaudir

Terceiros excluídos

Gaspar anunciou hoje que o (seu) mundo mudou e que vai alterar a estratégia orçamental e económica. Perante isto, das duas uma: ou reconhece que a estratégia anterior falhou ou diz que só persistiu no erro porque considerou que tal era necessário para reforçar a posição negocial do país e, portanto, instrumentalizou o sofrimento de milhares de portugueses. Ou os portugueses foram vitimas de uma incompetência do ministro ou foram moedas de troca numa estratégia de negociação.

João Galamba