Neuropolítica e política da neura

A visita de Relvas ao ISCTE, para além de ter servido como catarse social na forma de humilhação a um pobre diabo do Governo, também se transformou numa gigantesca experiência colectiva de negação. Mas, antes de a documentarmos, temos de confirmar se o Relvas que foi censurado e corrido da cerimónia de encerramento da “Conferência 20 Anos da TVI” é o mesmo que aparece neste hilariante e inenarrável vídeo:

Calhando ser, então isso resolve de imediato um dos principais equívocos na questão: não era o sujeito identitário, psicológico e biográfico, o ser ontológico e moral, a entidade existencial e histórica que estavam em causa na análise e avaliação da ocorrência. Não era o Relvas hipócrita, mentiroso e deturpador que protagonizou uma campanha eleitoral onde se enganou um país inteiro como jamais se tinha visto antes nem se julgava possível ver alguma vez. Não era o Relvas que ofendeu os filhos e familiares de Sócrates nunca tendo pedido desculpas públicas nem sofrendo qualquer dano político pelo seu ódio desvairado, bem pelo contrário. Apenas e só o seu papel institucional interessava aos que não alinharam no linchamento simbólico – o Relvas governante, o Relvas Ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares. E não era mais do que este aspecto transitório associado à sua pessoa porque a respeito das restantes dimensões que não tenham relação regimental com o seu papel o que importa dizer é outra coisa: como é possível que Passos Coelho sobreviva politicamente com Relvas ao seu lado, e logo como braço direito, depois de tudo o que se passou com ele desde Janeiro de 2012? É um enigma de arrebimbomalho. Podemos pelas mesmas razões esticar a interrogação até Portas, que é igualmente cúmplice do escândalo como segundo líder da coligação.

Vamos aos factos. O relato de Ana Catarina Santos e este vídeo registam que Relvas esteve no palco à espera que a sala acalmasse, tendo José Alberto Carvalho ido ter com ele para pedir silêncio à assistência dado o prolongamento da algazarra. Como essa tentativa falhou, Relvas foi aconselhado a sair porque a organização considerava não ser possível controlar o ambiente. A repórter da TSF dá conta que Relvas não queria fugir pelos fundos, antes manter a réstia de dignidade possível saindo por onde tinha entrado. E as imagens mostram um ser humano com o ânimo em farrapos a ser levado por corredores onde era perseguido com berros nos ouvidos para se ir embora. Factos.

Facto: Relvas, na qualidade de ministro, foi convidado para participar numa cerimónia de um órgão de comunicação social mas não teve condições, contra o sentido da sua presença no evento, para realizar o seu direito de participação num encontro cívica e politicamente público – portanto, o direito outorgado pela Constituição e o poder nele investido pelo Parlamento foram anulados por um grupo de indivíduos numas dadas circunstâncias. Esta, e só esta num certo e essencial sentido, foi a violência que chocou uma mão-cheia de cidadãos até então insuspeitos de terem qualquer simpatia por Relvas; para espanto, e logo depois ressabiamento, dos cínicos e dos sectários, à mistura com muito boa gente. Repita-se até que o Inferno gele: as circunstâncias que levaram ao boicote da participação cívica e política de um governante com legitimidade democrática numa dada acção – portanto, também o impedimento da sua liberdade de expressão inerente a essa mesma participação – são a violência que há a repudiar de forma absoluta. Comparada com essa situação, os insultos, as eventuais ofensas, a agressividade e o achincalho não merecem sequer reparo.

Caldo entornado e casa roubada, o que importava imediatamente a seguir era tomar uma posição. Uma qualquer. Mas que só podiam ser duas: a favor ou contra. Tentativas de conciliação entre os opostos resvalariam inevitavelmente para o favorecimento. E favorecer implicava apelar à repetição, fosse com o mesmo alvo tomado no singular, Relvas, ou no colectivo, restantes membros do Governo. Nessa lógica, as vozes que apoiaram a violência dividiram-se entre aquelas que argumentaram a montante, focando-se na legitimidade do protesto e na ilegitimidade do governante, e as que argumentaram a jusante, focando-se na superioridade do poder do governante. E saltaram das suas bocas e dedos estas falácias antidemocráticas:

– Relvas não falou porque não quis.
– Não houve violência porque Relvas não foi agredido fisicamente.
– Os que protestaram estavam no seu direito e esse direito sobrepunha-se ao de Relvas conseguir realizar a sua intenção discursiva.
– Relvas não devia sequer ter aparecido, e logo numa universidade, porque é uma figura já sem direito de exposição pública dados os seus defeitos/erros/malfeitorias.
– Relvas não foi limitado na sua liberdade de expressão porque pode continuar a dizer o que bem entender quando bem entender, nada se tendo perdido por não ter falado nessa ocasião.
– Os estudantes/protestantes eram a parte fraca e Relvas a parte forte, logo tudo o que a parte fraca faça à parte forte é justo.
– As pessoas estão a sofrer muito por causa deste Governo, logo têm direito a privar da palavra um outro cidadão caso ele seja governante.

Quem assim raciocinou não estava necessariamente falho de literacia, educação e conhecimentos mais do que suficientes para se dar conta das antinomias. Precisamente o inverso se passou no campo da opinião mediatizada onde se passeia parte da elite política e intelectual portuguesa. Pura e simplesmente, as emoções e os afectos falavam mais alto, anulando os nexos jurídicos, morais e políticos. E nesse estado de alma continuaram vedetas e arraia-miúda, até com maior ferocidade, quando se sentiram impelidos a atacar quem tinha tomado posição contrária à sua. Esses poucos, registe-se, se excluirmos o aparelho laranja e seus fanáticos. Essa minúscula minoria onde sobressaíam três ou quatro notáveis socialistas ligados a Sócrates na anterior governação. Foi quanto bastou para a embriaguez socrática voltar a surgir com os seus automáticos efeitos de cegueira e estupidez contumaz. E despejaram-se estas aberrações:

– Estar contra o silenciamento de Relvas é estar contra os protestos.
– Estar contra o silenciamento de Relvas é estar contra o uso da Grândola para protestar.
– Estar contra o silenciamento de Relvas é estar a favor do Governo.
– Estar contra o silenciamento de Relvas é estar a favor de Relvas.
– Estar contra o silenciamento de Relvas é estar a alimentar a vitimização de Relvas.
– Estar contra o silenciamento de Relvas é estar contra a liberdade.

Ora, como nesse grupo de terríveis socráticos estava o terrível Augusto Santos Silva, só a segunda figura mais odiada de Belém à Lapa, alguém que até tinha sido alvo da putrefacta baixa política de Relvas em ocasião similar, estar a estabelecer qualquer afinidade pessoal ou política entre o ex-ministro de Sócrates e o ministro de Passos não é só um monumento à imbecilidade, é também um sintoma de desarranjo psíquico que devia obrigar à consulta em junta médica. Porém, entende-se o mecanismo: a mera possibilidade de que Santos Silva possa pensar pela sua própria cabeça de homem livre e a eventualidade de ter uma axiologia distinta da que preenche a serradura mental dos cínicos e dos sectários não são realidades concebíveis para aqueles que estão condenados a viver numa sala de espelhos.

Naquela tarde de Fevereiro, numa universidade de prestígio, ninguém defendeu a liberdade. Pior: ninguém, incluindo a organização do evento e o próprio Relvas, lutou contra a tirania. Horas e dias mais tarde, gozava-se alarvemente com o desamparo de um decadente e nefando passarão. Chafurdava-se na sua fraqueza, era tratado como cobarde pelas estrelas da política-espectáculo. E para aqueles que se condoeram com a degradação da República ainda havia munição para gastar no tiro à livre opinião. Não admira, pois, que Portugal tenha um sistema político onde a direita vive da calúnia e das conspirações e esquerda do PS vive do racismo ideológico e da paranóia. Mas para a neura ser completa, até o actual PS alinha com os valentes que conseguiram dar a Relvas o primeiro momento da sua vida política onde suscitou compaixão.

27 thoughts on “Neuropolítica e política da neura”

  1. Val

    O Dr Relvas, como ja tive oportunidade de te dizer, tem futuro garantido em qualquer estação televisiva, como ficou aqui demonstrado. Este amigalhaço é o ” Zé Maria” da política portuguesa.
    Pensei que ja tivesse visto tudo na televisao, com a conferencia do Futre, mas pelos vistos, a televisao tem, sempre, novas surpresas para nos manter colados a ela.

    ” Quem não tem vergonha todo o Mundo é seu”

    abraço

  2. bravo, bravo, Valrido, vamos cantar!

    Grândola, vila morena
    Terra da mediocridade
    O povo é quem mais se ordenha
    Dentro de ti, ó cidade
    Dentro de ti, ó cidade
    O povo é quem mais se ordenha
    Terra da mediocridade
    Grândola, vila morena
    Em cada esquina, um inimigo
    Em cada rosto, desigualdade
    Grândola, vila morena
    Terra da mediocridade
    Terra da mediocridade
    Grândola, vila morena
    Em cada rosto, desigualdade
    O povo é quem mais se ordenha
    À sombra duma videira
    Que já não sabia a vinagre
    Jurei pôr-te na mira
    Grândola, a tua ira
    Grândola a tua ira
    Jurei pôr-te na mira
    À sombra duma videira

  3. “… o Relvas que foi censurado e corrido da cerimónia de encerramento da “Conferência 20 Anos da TVI”…”

    o relvas não botou faladura porque não quis e saiu pelos seus próprios pés, ninguém lhe tapou a boca e muito menos lhe indicaram o caminho da saída. isto está documentado em carradas de notícias, é visível em paletes de vídeos e admitir o contrário é má fé para provar o improvável, o derradeiro argumento para não teres que engolir as tretas que escreveste e ainda irás escrever sobre o assumpto.

  4. Fantastico! Uma pessoa pode ser tudo o que quiser, pode fazer tudo ao contrário daquilo para que foi eleito, pode, in extremis, ser um Hitler. Se estiver no exercício formal e oficial das suas funções, como governante, tudo isso tem de ser varrido da memória, do sentimento, da inteligencia e da razão. Os cidadãos respeitáveis e respeitadores da lei deverão ouvir o Revas a arengar sobre democracia na comunicação! A democracia que ele nega nos actos oficiais da governação. Sim, porque foi como governante e não como o cidadão Relvas que ele perseguiu, ameaçou e infernizou a vida de jornalistas que apenas queriam fazer o seu trabalho. Ele foi a santa democracia do Valupi a perseguir!
    Pode, sr Valupi, escrever um livro inteiro a defender a intocabilidade de um governante quando está no exercício das suas funções, considerando que esse governante, seja quem for, é a democracia personificada. Veste a capa de governante, muito bem eleito, e representa a democracia. Logo depois, pode limpar o rabo à dita capa e ser um pulha, que democracia ficou garantida!!!
    Assim chegamos ao que chegamos. Começo a perceber até onde isto está apodrecido.

  5. o terrível augusto santos silva disse o que é politicamente correcto dizer nestes casos e vingou-se do que o relvas tinha dito do episódio de chaves. não perceber isto e defender legalidades absolutas que criminalizam um peido, é não saber o que é democracia e perceber pouco de merda.

  6. oh brochista! se em vez de brincares com as letras do zeca afonso, fosses brincar com a pilinha do menino jesus, pode ser mesmo o benfas. parola do caralho apanhou esquentamento cerebral e verte corrimento para o teclado.

  7. Apenas para me declarar entre esses poucos que deploram o facto de M. Relvas não ter podido falar. Que deploram isso, e só isso. E faço-o porque…

    «Um dia vieram e calaram o Relvas. Como não sou o Relvas, nem sou do partido dele, nem apoio o governo de que faz parte, e até me considero um opositor radical, não me incomodei (e até exultei)…»

    Cito de cor, mas é mais ou menos assim, não é?

  8. Diz o povo, desde há séculos, que “os frades são pobres mas a ordem é rica”. Dizem os católicos, desde há séculos, que os fiéis são pecadores mas a Igreja é Santa. E agora dizem o Valupi, o Santos Silva, o Assis, o Vital Moreira e também o raio que os parta, que os governantes podem ser uns pulhas que a democracia será sempre fixe. A democracia conceito apenas, palavra oca, Relvas Felibuster.

  9. “ignatz, ganhas ao comentário?”

    claro, topa-se à distância que me pagam para avacalhar o tasco, mas acho que o meu patrocinador não está contente com o serviço e diz que me vai substituir pela brochista que é muito mais eficaz.

    “Pedro, és estúpido ou comes merda às colheres?”

    bom argumento, mesmo com colheres de plástico.

  10. bom, é nestes casos – de sociopatas – que faz falta polícia de intervenção no html. ou então um documento de identificação disponível para a intervenção ser por conta própria.

    (o meu nome tatuado a bastão, um pequeno tratamento de choque em nome da minha assembleia da república, havia de ficar bem)

  11. Disse que aqui não viria mais aqui e mantenho, mas não posso, excepcionalmente, deixar de ser solidário com o Pedro, com quem partilho totalmente as ideias sobre a dita democracia – quer dizer, uns cobardes e pulhas do pior, são eleitos com base em declarações mentirosas de intenções políticas que depois, no governo, ignoram e passam a praticar o oposto, contra as classes mais desfavorecidas, ou seja o verdadeiro povo em geral – se a democracia é o poder do povo e não há instituição que ponha os aldrabões e ladrões fora da governação, quem é que o há-de fazer se não o POVO, directamente e quanto mais depressa melhor!?!?
    Continua Pedro e grande abraço!
    Torres

  12. ignatz,

    essa do “ganhas ao comentário?” fez-me lembrar os tempos em que muitos dos opositores do Val lhe perguntavam quanto lhe pagavam (quanto era o tacho, etc) para fazer os posts que fazia a defender o Sócrates dos pulhas. Sempre achei esse “argumento” do mais pobre e baixo.

  13. altruísmo do Val: receber broches de graça. Sacrifica-se a esse ponto, a troco de não mandar a outra aos sítios que antes mandava. A base de apoio escasseia e há que aproveitar o lixinho psicótico todo que apareça, desde que lhe engraxem o ego fálico.

  14. não obstante a gravidade da situação, ter dois terroristas em um blogue constantemente a perseguir, insultar, injuriar e desrespeitar uma comentadora, a coisa há-de ter a sua utilidade, pois claro, que nada acontece por acaso: constatar que sendo a sintonia em um casal tão difícil de encontrar, há aqui uma perfeita – por um lado a vergonha que sinto, como mulher, em verificar a eterna existência de gajas como a edie, Freud explicaria muito pior do que eu as causas de tamanha frustração e ordinarice já que estão completamente de fora, e igualmente a vergonha que sinto na também eterna existência de gajos como o ignatz. une-vos, desta feita, um sentimento tão grande, imenso, da minha vergonha que vos declaro aqui, edie e ignatz, o casal piolhoso e reles da blogosfera. desejo que efectivamente sejam muito, muito, felizes para talvez um dia destes conseguirem cá vir, acidez de maldade e despeito desfeita, sem se espumarem todos em cima de mim.

    (ah: deixo-vos o extril e também o hirudoid – se há coisa que não suporto é mau hálito e almas queimadas) :-)

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