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Alberto Martins é uma das mais ilustres figuras da política nacional, tanto pelo seu papel na Crise Académica de 1969 com pelo seu serviço ao Estado assumindo diferentes responsabilidades públicas que foi sucessivamente prestigiando. As suas intervenções são invariavelmente marcadas por uma ponderação benfazeja nascida de uma genuína autoridade vivencial e intelectual, tendo ainda obra publicada no campo da cidadania. Eis um perfil ideal para senador da República.
Ora, desta pessoa esperava uma radical defesa da liberdade de expressão e da participação política, especialmente quando se trata de um governante por ser este um representante do Soberano. Aquilo que podemos ouvir abaixo mostra uma enrolada defesa da violência que se abateu sobre Miguel Relvas no ISCTE. Para o desgosto ser maior, tudo aquilo que Alberto Martins diz é inquestionável – só tendo a lamentar o que deixa por dizer: que o direito à manifestação cessa quando, ou enquanto, viola o direito de terceiros à participação na cidade. E que, em democracia, não há excepções a este princípio, Alberto.
É o que pergunta no Fórum TSF um apoiante típico deste Governo atípico, para mais reclamando-se jurista. Tal como ele diz, “Se formos a ver, o ministro José Relvas é um caso estranho em Portugal.” Se é, compadre, se é…
É sempre uma cena circense ver alguém que se diz de esquerda a validar e promover a arruaça da multidão contra um cidadão cuja função governativa é democraticamente legítima. E constatar que uma instituição de ensino superior pode ser palco da celebração da barbárie só acrescenta espectacularidade ao acontecimento. Que saberão estas inteligências de História? Que noção têm estes valentes do Estado de direito? Que leitura estes iluminados fazem, se alguma alguma vez fizeram, da Constituição? Que grotesca concepção do que seja a democracia estes justos transportam no bestunto?
Miguel Relvas é uma decadente e degradante figura, um autêntico traste. É um político do PSD paradigmático da lógica da conquista do poder pelo poder a que o partido se reduziu desde a fuga de Barroso. Não tem existido mais nenhuma ambição na São Caetano, mais nenhuma ideia que mereça ser discutida pela sociedade, daí a política de terra queimada e permanente chicana que apareceu para lidar com um inimigo que tinha ocupado o centro com um espírito de esquerda e deixado os social-democratas sem bandeiras. A resposta do laranjal, também por causa da crise internacional que fez ruir o seu império bancário, foi a da violência máxima, num frenesim de ódio e calúnias que ocupou todos os órgãos de comunicação social onde controlavam a edição e que se serviu da Justiça para perseguir e conspurcar os adversários. O tipo que ofendeu os filhos de Sócrates na sua raiva cega contra o pai – algo que, creio, nunca antes tinha ocorrido na política portuguesa desde que há memória – foi uma peça de capital notoriedade e impacto nessa estratégia.
Mas Miguel Relvas não teria sido possível sem a conivência de um país de cidadania larvar, iliteracia maciça, sectarismo obsessivo e cobardia epidémica. Um país que não reage quando um governante mente no Parlamento sob juramento em matérias que envolvem os serviços secretos, quando um ministro é apanhado a chantagear jornais e jornalistas, quando um político se revela um hipócrita pestilento. Esse é o pais onde uns mandam calhaus contra a Assembleia da República e outros ficam a olhar para o Palácio. O país que alinhou com este Miguel Relvas na golpada que interrompeu uma legislatura e entregou a soberania aos fanáticos do quanto pior melhor.
Relvas defendeu que “os líderes da oposição precisam de estabilidade para poder desempenhar a sua função”, sendo “muito importante para os governos que os líderes da oposição tenham estabilidade para não só poderem construir pontes” como para “se assumirem como alternativa e encontrarem consensos”.
“Um líder da oposição que tem problemas internos é um líder mais frágil para poder colaborar e poder chegar a entendimentos com os governos”, acrescentou.
Sem o recurso à fonte do texto (se conseguires resistir, e não consegues…), adivinha a que ano se refere Pacheco Pereira neste naco laudatório do valor da blogosfera:
“Veja-se o caso da blogosfera. A blogosfera devia ter um “depósito obrigatório” imediato. Os blogues, enquanto formas individualizadas de expressão, originais e únicas, são uma voz imprescindível para se compreender o país em [20..]. Eles expressam um mundo etário, social, comunicacional, cultural, político que, sendo uma continuação do mundo exterior, tem elementos “sui generis””.
No dia 18 de Janeiro do corrente, Paulo Campos esteve a ser interrogado na Comissão Parlamentar de Inquérito à Contratualização, Renegociação e Gestão de todas as Parcerias Público-Privadas do Setor Rodoviário e Ferroviário. A sua passagem por lá gerou menos atenção mediática do que a ida de Liedson para o Porto; a qual, por sua vez, já tinha causado menos comoção pública do que o regular trânsito da sardinha ao largo de Sesimbra. No entanto, este perigoso e nojento socrático é responsável pelo roubo de centenas de milhões de euros ao Estado, dinheiro que ele depositou nas mãos de algumas empresas amigas – tal como os pulhas, a gente séria, o Correio da Manhã e o Mário Crespo não se cansam de repetir, grupo a que se juntam entusiasmados os imbecis da esquerda pura e verdadeira. Essas falcatruas, a que se somam os gastos em automóveis, fundações, TGV e aeroportos por tudo quanto é sítio, é que nos levaram à bancarrota e obrigam agora o nosso amado Governo a ter de empobrecer a mata-cavalos os portugueses, é sabido e está decorado. Aparentemente, o Ministério Público ainda não o conseguiu apanhar, embora a Judiciária já lhe tenha revistado a casa, pelo que ele continua a pavonear-se por aí e por ali mas terá fatalmente os dias contados e um calabouço à espera.
Ora, a sessão consta de 6 horas de paleio. Dir-se-ia que o infeliz do Paulo Campos, invariavelmente julgado e condenado sem piedade de cada vez que alguém debita sentenças sobre as PPP, que nem sequer do líder do seu partido recebe qualquer prova de confiança (bem ao contrário), quando apanhado numa sala com os honestos e competentes deputados do laranjal e seus aliados de ida ao pote seria trucidado, saindo em maca a soro e oxigénio. Afinal, como pode um só homem resistir contra uma maioria, um Governo, um Presidente da República, uma Procuradora-Geral da República e dezenas, ou centenas, dos mais brilhantes jornalistas que este país alguma vez viu, ainda por cima quando os seus crimes são tão graves, tão grandes e tão evidentes?
Não faço ideia de quantos indivíduos irão ver a sessão completa. Deixo abaixo um excerto que representa o que por lá se passou. Porém, aqueles que optarem por gastar assim o seu tempo irão ter uma lição de sociologia que é, simultaneamente, uma radiografia da classe política que nos governa, assim como da classe política que nos desgoverna. Campos exibe-se altamente preparado, completamente disponível para apresentar factos e responder a todas as perguntas. Mas mais: ele aproveita para reclamar contra a exploração difamatória e caluniosa que fazem do seu nome e passado executivo, oferecendo-se para o confronto com os acusadores. E ainda mais: Campos expõe e denuncia a máquina de manipulação da imprensa e do espaço público com que o laranjal faz “política”. E quem é que lhe aparece à frente? A escória da direita portuguesa. Umas alimárias que nem sequer dominam as noções básicas das matérias sobre as quais bolçam deturpações por cima de deturpações. É estonteante ver a degradação moral desses deputados que se comportam como rufias de tasca. No contraste, Paulo Campos, cujos maneirismos ansiosos não promovem a simpatia imediata, é um monumento de educação, classe e decência.
1. Às vezes dão-me umas angústias totalmente absurdas. A de hoje tem a ver com o nosso ambientalismo.
2. De facto, que é feito dos ecologistas e das suas associações, que nunca mais ouvi falar deles? Dantes tão pressurosos em denunciar poluições, lixos, desrespeitos pela natureza, violações das Diretivas, atrasos nos PROTs, violações da REN, da RAN e já não sei que mais – e agora tão calados, tão mortiços, tão invisíveis?
3. Terão hibernado? Então, porque não acordam, agora que se já sente um cheirinho de primavera?
4. Adorarão a ministra do Ambiente, subscreverão a sua política? Então, porque se acanham de dizê-lo?
5. Ou pertencerão à longa lista daqueles que só verdadeiramente se excitam quando é a esquerda que está no governo?
Não sou católico, sequer cristão, mas compreendo a legitimidade – e naturalidade – do fenómeno religioso, tanto nas suas manifestações sociológicas como psicológicas; em suma, como matriz antropológica e necessidade histórica. Alguns antecipam um futuro onde a cultura científica e secular conclua o trabalho iniciado com o Renascimento, Iluminismo e Humanismo, já antes com a filosofia grega, levando a religião a perder por completo o poder político e a influência cultural, reduzindo-se a uma experiência privada e individualista. Tudo aponta nesse sentido nas sociedades democráticas, capitalistas e tecnológicas, mas não se podem ter certezas.
Entretanto, a religião ainda conserva muito poder e influência, mesmo nas comunidades já completamente secularizadas. No caso dos países onde a Igreja Católica está presente, e bem mais grave do que as eventuais falácias à volta da posição da Igreja em relação ao uso do preservativo, o escândalo maior é o da pedofilia. É grave pelos actos e suas consequências devastadoras, e é escândalo pela insegurança das crianças nas instituições católicas e o encobrimento dos crimes pelos superiores hierárquicos. Por esta razão, a voz de Januário Torgal Ferreira é um clamor no deserto, para vergonha de todo aquele que em Portugal se conceba católico e não lhe siga o exemplo da frontal e sentida denúncia:
Os fulanos que deixaram Portugal com um Governo minoritário no meio da maior crise económica mundial dos últimos 80 anos só para o derrubar logo que as condições fossem propícias custasse o que custasse às contas do Estado e à vida dos portugueses, que encheram a comunicação social de ódio, conspirações e deturpações grotescas durante três anos, que levaram a extrema-esquerda a votar na sua golpada para entregarem a soberania do País aos credores e assim obterem esse escudo e carta branca para desmontar o Estado social, que mentiram à má fila do princípio ao fim da campanha eleitoral, que tratam os indígenas como calaceiros e estroinas, que fizeram do crescimento da pobreza e da emigração as únicas metas políticas que conseguem atingir, que lançaram o maior aumento de impostos da nossa história, que dizem exactamente o contrário do que andavam a berrar na oposição, são também os mesmos que pretendem fazer de cada cidadão um fiscal das finanças para o saque ao seu vizinho. Entretanto, nem mesmo este escândalo onde a incompetência rivaliza com a inimputabilidade consegue despertar a direita, alvoraçar o centro ou unir a esquerda, sequer encher ruas que ainda recentemente fervilhavam contra os malvados socialistas.
Isto merece estátua. O casal Passos-Relvas bem merece uma estátua como espectacular conquistador de dez milhões de mansos.
Ao explicar a descida da produção de riqueza nacional anunciada esta quinta-feira pelo INE, Álvaro Santos Pereira lembrou que «as previsões macroeconómicas são sempre sujeitas a um grau de incerteza que depende de circunstâncias externas».
«Nos últimos meses, é sabido que a economia europeia teve um comportamento bastante inferior ao que era esperado e por isso mesmo isso refletiu-se nas nossas exportações, ou seja, na procura externa».
Nunca o PSD teria permitido que o número de desempregados chegasse a 700.000!!! Teria criado de imediato medidas de incentivo à criação de emprego, tal como algumas que já propõe neste documento. Não estaria sempre a queixar-se de uma crise internacional onde todos os outros já estão a crescer.
Mas mesmo nestas condições tão difíceis como as que estamos a passar, existem diferentes caminhos que se podem seguir: o Nosso é o de conseguir, simultaneamente, responder a um programa de emergência social de forma a estar sempre ao lado dos mais desprotegidos (idosos, doentes, desempregados, famílias em risco social) e, simultaneamente, iniciar um processo de retoma de uma rota de crescimento na nossa economia, essa sim, geradora de confiança, riqueza, emprego e um futuro com esperança para os nossos filhos.
Uma governação de esquerda nunca poderá reclamar sucesso enquanto corporações e elites determinarem a realidade mais do que a legitimidade democrática o faz. Não vale de nada querermos submeter os mercados à política quando não conseguimos sequer submeter elites e corporações nacionais à política e aos políticos democraticamente legitimados.
3. Infelizmente têm-se vindo a manifestar preocupantes sinais populistas na vida política portuguesa. Uns à direita e outros à esquerda. Uns na maioria e outros na oposição. Perturbam-me sobretudo, como é compreensível, aqueles que afectam o Partido Socialista. Quando vejo figuras do meu próprio Partido a acolherem o discurso protofascista do ataque às elites tenho razões para ficar preocupado. Muito preocupado até.