Some things hugs can’t fix: Parental warmth does not remove anxiety that follows punishment
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Direct Engagement with Constituents a Plus for Political Leaders
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Laughter is an effective catalyst for new relationships
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Trust increases with age; benefits well-being
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Mental health misdiagnosis twice more likely for socially disadvantaged groups
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‘Distracted driving’ at an all-time high; new approaches needed, experts say
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Buyer’s remorse: Model shows people demand all that bad news
Arquivo da Categoria: Valupi
Septimana horribilis
João Araújo teve uma semana desgraçada, tanto para a defesa do seu cliente Sócrates como para a sua imagem de advogado competente e digno. Por um lado, viu dois tribunais, e seus colectivos de juízes, concordarem com Rosário Teixeira e Carlos Alexandre quanto ao essencial do processo. Por outro lado, a forma como se apresentou aparentemente descontrolado e indubitavelmente violento nas declarações aos jornalistas leva a acreditar no teor da sua primeira chalaça ao chegar ao Campus de Justiça, tinha Sócrates sido detido na noite anterior, quando se descreveu como “advogado estagiário”.
No ataque à jornalista do CM, acreditando piamente que possa ter sido um acto involuntário, saiu-lhe um insulto que é um clássico da misoginia. Conseguiu fazer da Tânia Laranjo (um nome que é um destino) uma vítima a merecer a solidariedade de toda a classe jornalística, a qual foi igualmente atacada com a mesma fúria, e ainda conseguiu despertar um sentimento de asco na grande maioria, talvez totalidade, das mulheres que tomaram conhecimento da cena. Que ganhou com esse número? Nada de nadinha de nada, é só prejuízo, para si e para Sócrates.
Todavia, o mais grave no seu comportamento irracional estava guardado para Évora nesse mesmo dia. Foi à saída do Estabelecimento Prisional que se lembrou de disparar contra Costa Andrade. De facto, havia por onde pegar no plano de argumentação jurídica, mas o nosso Araújo resolveu – e aqui aparentemente de cabeça fria – espalhar suspeições difamatórias, sugerindo que existiria alguma coisa errada relativamente a supostas viagens de avião do Professor de Coimbra. Ora, havendo ou deixando de haver, ao recorrer à pulhice obriga a que tudo e mais alguma coisa que tenha dito e feito até agora seja reavaliado a outra luz. Pela simples razão de ser inadmissível atentar contra o bom nome de terceiros, para mais enquanto advogado e, por cúmulo, andando a denunciar aqueles que fazem o mesmo contra um cliente seu. De resto, que se pretendia atingir com esse assunto? É incompreensível. O episódio fica especialmente absurdo dado ser provável que Sócrates nunca tenha lançado qualquer suspeição nem difamação enquanto teve responsabilidades políticas ou depois. Seguramente, nenhuma deste calibre chunga da referência às viagens. Donde, esta cagada faz parte de alguma estratégia ou será a prova de não haver estratégia alguma?
Finalmente, Araújo e Delille anunciaram em modo de farronca que vão tentar derrotar a Justiça portuguesa por atacado, procurando impugnar as decisões do Supremo e da Relação, embora sem revelarem onde nem como. Com isso, terão levado a plateia para onde falam a ficar quase vazia, pois a percepção no espaço público da culpabilidade de Sócrates nunca esteve tão alta; e aumenta a cada novo dado que a acusação lança sobre as trocas e baldrocas de dinheiros entre Santos Silva e Sócrates.
Foi uma semana de perdas sucessivas, e perdas graves, para a causa da inocência de Sócrates. Contudo, não serei um daqueles que irá desistir de estar na plateia a dar atenção à sua defesa. Continuo a pensar exactamente o mesmo que pensava a 24 de Novembro de 2014 e dias, semanas e meses seguintes. E o mesmo que pensei em todos os casos, desde 2005, em que Sócrates foi alvo de campanhas negras, investigações e ódio colectivo. O que penso é simples, e é belo: o Estado de direito, mais do que nos proteger uns dos outros, serve para nos proteger de nós próprios.
Moedas no lixo
Segundo Carlos Moedas, que é um dos principais conselheiros do presidente do PSD, Pedro Passos Coelho, os mercados "olham para uma nova equipa de gestão como uma boa notícia", porque "há muito tempo não dão credibilidade ao Governo português".
No seu entender, "assim que os mercados incorporem a informação de que o PSD vai respeitar as metas do défice, e fará tudo o que for necessário para que se cumpram essas metas, até porque foi o PSD que sempre anda atrás do Governo para cortar, essas agências voltarão a dar credibilidade a Portugal".
"Com as reformas que o PSD vai implementar, eu digo-lhe que ainda vão subir o 'rating', não sei se nos próximos 6 meses, se nos próximos 12 meses - ainda não se sabe quando haverá um novo Governo", acrescentou.
Standard & Poor's mantém "rating" de Portugal no "lixo"
Bravo
Perguntas simples
Relação e ralação
A decisão do Tribunal da Relação de Lisboa, ao manter a prisão preventiva de Sócrates, é um doloroso golpe contra a sua estratégia de defesa. Por um lado, descredibiliza as afirmações feitas até hoje por João Araújo acerca da inevitabilidade da libertação à luz da correcta interpretação da Lei. Por outro lado, reforça a postura e imagem de Rosário Teixeira e Carlos Alexandre ao vir reconhecer a existência de “fortes indícios” de prática criminal. Obviamente, a presunção de inocência mantém-se no plano da legalidade, mas agora só um punhado de bravos estará com disposição para a manter no plano da convicção. Amanhã poderá adensar-se este resultado caso o recurso de Santos Silva seja igualmente indeferido pela Relação. Só na eventualidade de diferentes juízes considerarem de forma radicalmente diferente os mesmos indícios é que se poderia dar uma volta-face na percepção pública.
Este é o cenário actualizado, e ele leva-nos para uma sequente reflexão acerca da prisão preventiva e do que Sócrates foi expressando mediaticamente após o seu início. Para além de se declarar inocente com veemência, as visitas de amigos e camaradas foram valorizadas pelo próprio como manifestações de solidariedade com esse estatuto. Particularmente significativo foi o seu diálogo, privado e também publicitado, com Mário Soares. O ex-Presidente da República, ex-secretário-geral do PS e uma das mais importantes, se não for a mais importante, figura da consolidação da democracia em Portugal, batalhou com todas as forças que lhe restam pela libertação incondicional de Sócrates dado acreditar absolutamente na sua inocência. Mais: por acreditar que está a ser vítima de uma golpada política. Ora, no caso de os indícios virem a dar lugar a provas, e as provas a uma acusação, esta parte do período relativo à prisão preventiva de Sócrates seria um acrescento de supina ignomínia àquele que por si só já ficaria como um abalo histórico de consequências imprevisíveis na relação dos portugueses com a classe política e com o PS. A gravidade cultural, no sentido em que afecta a identidade da comunidade, deste caso não tem paralelo na memória viva.
Colhe ainda reconhecer que mesmo numa situação em que Sócrates não fosse acusado de coisa alguma, mas onde Santos Silva acabasse como culpado de fraude fiscal, tal continuaria a atingir com um impacto perto do máximo a sua reputação. Porque teria beneficiado de um crime, ainda que alegasse desconhecimento. Donde, a presente situação de Sócrates só poderá levar a um resultado positivo para o seu futuro – seja qual for a dimensão; política, cívica ou profissional – caso saia ilibado no plano judicial e moral. Irá isso acontecer? Impossível prever, embora a acusação esteja a ganhar em toda a linha, até se permitindo cometer irregularidades processuais e alimentar um clima de assassinato de carácter e julgamento popular sistemático sem que alguém na República pareça ter poder para o impedir.
É com grande alívio que assisto a este caso. Porque um ciclo de descoberta de quem somos se irá cumprir com o seu desfecho. Se Sócrates estiver inocente, decorre que muitos dos que detêm poderes fácticos em Portugal não passam de canalhas. O interesse desta descoberta não estará na banalidade da abstracção, mas por os ficarmos a conhecer melhor e muito melhor. Se Sócrates for culpado, decorre que aos canalhas anteriores teremos de juntar mais uns quantos. Com sorte, apenas uns poucos.
Acerca do esgoto a céu aberto
João Araújo insultou uma jornalista, quiçá uma matilha/bando/grupo (riscar o que não se aplicar) de jornalistas. Insultou-a, justifica a própria, referindo-se a uma experiência que só a subjectividade do autor da frase na berlinda pode validar. Considerou que a senhora cheirava mal naquela precisa ocasião em que fez a declaração (presume-se, ou será o âmbito literal da afirmação, posto que se trata de uma sensação, a percepção de um odor).
Outra possibilidade será a de a leitura conotativa ser aquela intencionada. Nesse caso, estaremos no domínio da metáfora, onde o “mau cheiro” quererá expressar uma qualquer forma de censura (provavelmente, moral, mas também poderá ser deontológica, cívica, profissional, política e até filosófica, entre ilimitadas opções).
Consta que a jornalista e o seu jornal não deixarão escapar esta oportunidade para reclamarem que se faça justiça. Umas dezenas de manchetes já estão garantidas só à pala do sensível nariz do dr. Araújo. Por mim, desejo ardentemente que todas as eventuais reparações por direito merecidas se façam à jornalista e à sua entidade patronal.
Por que razão terá o nosso estimado causídico (de quem sou fã) dado uma imagem de si que quase ninguém aprovará? Basta o senso comum para concluir que sai prejudicado do episódio, igualmente estendendo o prejuízo para a imagem de quem defende no processo em causa. Será que é mal-educado? Será que vinha frustrado por antecipar que o habeas corpus iria ser recusado? Será que anda num estado de intensa e prolongada ansiedade? Será que é diabético, daí estar sujeito a ficar exaltado com mais facilidade e frequência? Outra causa qualquer ou a mistura de várias? Não faço ideia.
Só de uma coisa tenho a certeza: o Correio da Manhã cheira mal, quem trabalha para o Correio da Manhã cheira mal e quem colabora ou colaborou com o Correio da Manhã fica com a roupa toda empestada de um fedor que leva muito tempo a passar (nos casos em que passa).
Cidadão castrado, não!
Mais um legítimo candidato presidencial:
«É preciso mudar uma justiça que está hoje ao serviço da contra-revolução»
Revolution through evolution
Assessing feedback interactions in a creative setting
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New moms more satisfied after giving birth in a public hospital
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Age-related discrimination can add to healthcare woes
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Have a Sense of Purpose in Life? It May Protect Your Heart
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Move over Mozart: Study shows cats prefer their own beat
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Developers neglect privacy, security in health apps
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Political liberals display greater happiness, study shows
Escavacados

Nuvem de palavras do Discurso de Tomada de Posse do Presidente da República, 9 de Março de 2011
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Há, no mínimo, três factos absolutamente extraordinários, mesmo extravagantes para algum eventual investigador de História ou Ciência Política interessado pela coisa ou pelo coiso, no discurso que Cavaco decidiu fazer na Assembleia da República como inauguração do seu segundo mandato em Belém:
– Não se encontra qualquer referência à crise das dívidas soberanas europeias; a qual estava no seu auge, afectava decisivamente a situação nacional e decorria directamente da crise internacional de 2008, da política de investimento público assumida pela União Europeia em 2009 como resposta à ameaça de depressão e da ausência de mecanismos europeus de ajuda aos países em dificuldades por causa do aumento do desemprego, da quebra de receitas fiscais e do crescimento das despesas sociais. Aliás, nem sequer o termo “Europa” se encontra nas mais de quatro mil palavras do texto.
– Não se encontra qualquer referência às Forças Armadas, nenhuma de nenhuma. O Comandante Supremo ignorou tanto os militares em funções em território português como aqueles que desempenhavam variadas missões em diferentes palcos de conflito fora do País, aí arriscando a sua vida para representarem Portugal e defenderem a liberdade. Há algo de admirável neste feito, pois supõe-se que o discurso tenha sido lido por alguns conselheiros do Presidente, dentro e fora da Casa Civil, e, pelos vistos, ninguém reparou ou se incomodou com esta ofensa à História e estatuto das Forças Armadas Portuguesas, já para não falar do seu papel na fundação do regime democrático e do sentido republicano (obrigação patriótica?) de enaltecer esse legado na solenidade da tomada de posse.
– Encontra-se um apelo à revolta popular na rua, liderada pelos jovens, contra a classe política apresentada como corrupta, caduca e a única responsável pela crise social. Este apelo é feito a dias de uma manifestação organizada por um grupo de jovens e a qual congregava o apoio de todas as forças opositoras. Cavaco incendeia os ânimos anunciando que o tempo dos sacrifícios tinha chegado ao fim e que bastava mudar de governantes para que os problemas se resolvessem de imediato.
Antes destas omissões e agitprop, Cavaco soube que o Governo socialista tinha estado durante o mês de Fevereiro a negociar com todos os parceiros europeus uma alternativa aos desfechos dos casos grego e irlandês. Cavaco sabia que esse acordo tinha sido alcançado e sabia que sem ele só havia um cenário: o resgate de emergência, o mal maior para o povo. Os urros, uivos e grunhidos com que as bancadas do PSD e CDS reagiram ao comício no Parlamento anunciavam o que se iria passar: era a hora de ir ao pote! Em coerência com um plano desenhado ainda em 2009, ao dar posse a um Governo minoritário destinado a ser queimado até à sua reeleição, Cavaco tratou de criar uma crise institucional assim que Teixeira dos Santos anunciou o acordo que evitava o resgate, alegando não ter sido informado previamente, e depois não fez qualquer tentativa para salvar Portugal da Troika, assistindo impávido e feliz ao boicote do interesse nacional que se consumou duas semanas depois da tomada de posse com o chumbo do PEC 4.
Estas recordações por causa dos “Roteiros IX”, onde Cavaco se apresenta como um especialista em questões europeias (tem livros publicados e tudo, lembra à populaça) e onde louva a sua pessoa no trato das questões relativas às Forças Armadas. Vale bem a pena ficarmos a meditar nas suas sábias palavras:
"É por tudo isto que, nos tempos que correm, os interesses de Portugal no plano externo só podem ser eficazmente defendidos por um Presidente da República que tenha alguma experiência no domínio da política externa e uma formação, capacidade e disponibilidade para analisar e acompanhar os dossiês relevantes para o País."
Perguntas simples
Revolution through evolution
Fewer Women Run Big Companies Than Men Named John
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New research aims to refine increasingly popular plastic surgery procedures: Buttock augmentation and vaginal rejuvenation surgery
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Creative genius driven by distraction
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Mediterranean diet cuts heart disease risk by nearly half
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Poverty, not the ‘teenage brain,’ accounts for high rates of teen crime
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Teachers become healthier when they learn
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Peanut consumption associated with decreased total mortality and mortality from cardiovascular diseases
Deixa vir a ti os jornalistas, Costa
A cena de Costa com a jornalista da SIC não pode passar sem reparo. Ela relaciona-se com duas dimensões sob permanente escrutínio num líder político: o controlo emocional e a coragem guerreira. Quanto à primeira, o que ali vemos é um completo disparate. Já seria um erro de imagem estar a fugir crispadamente perante a câmara, mas a decisão de tirar desforço com a jornalista é uma estupidez inexplicável. Para quem ia alegando que não queria falar por falta de tempo ou por não aceitar o modo como foi interpelado, acabou a oferecer um episódio mediático onde a única mensagem transmitida foi a da sua fragilidade emocional naquela situação. Quanto à segunda, há mérito e benefícios estratégicos em tratar qualquer questão que envolva eventuais falhas legais ou morais de Passos Coelho com o máximo rigor institucional, deixando para os tenentes no Parlamento, preferencialmente, a primeira linha do confronto político. Isso fará sentido, tanto como demarcação da cultura caluniosa da actual direita, tanto como afirmação da cultura republicana e democrática do PS – na qual a defesa do Estado de direito deve ter um papel sacrosssanto. Todavia, essa manifestação de força guerreira, onde se resiste ao impulso da baixa política gritado pela turbamulta, acabou boicotado numa ocasião em que podia ter sido realçado.
Costa já tem referido que é preciso acabar com a agressividade reles no trato entre adversários, escusando-se a fazer uma campanha de casos e de bacoradas para o taxista aplaudir. Nada de mais louvável, para a cidade, e nada de mais inteligente, para o PS, pois também por essa postura o eleitorado irá avaliar os agentes políticos em 2015. Compare-se com a actividade diária do PSD e CDS, cuja concepção do jogo político não ultrapassa a dimensão da chicana. A forma com diabolizaram Sócrates e os seus Governos, para além de os atacarem para os marcar como bode expiatório da própria crise que provocaram ao afundarem o País e assim esconderem o logro eleitoralista de 2011 e suas promessas de “fim dos sacrifícios”, ou a forma como agora se tratou as banais afirmações de Costa aos chineses, numa bebedeira de gozo já próxima da demência, não são epifenómenos inócuos, castiços, adereços no espectáculo. Antes, revelam uma natureza política que depende da menorização intelectual e cívica da sociedade. Não é um acaso que a tabloidização da comunicação social portuguesa esteja ao serviço de uma agenda de direita. A razão é simples: esta direita chafurda na cultura da calúnia e da bronquite asnática e obtém ganhos directos e indirectos dessa indústria.
O PS irá apresentar as suas propostas quando as tiver, sendo que já anunciou que as vai referendar para chegar a um programa final. Essa poderá ser uma boa ideia. Até lá, Costa passará por muitas ocasiões para mostrar o seu carisma de chefe e para gerir sabiamente os silêncios. Diz-se que Colin Powell tinha uma frase espúria atribuída a Tucídides visível na sua mesa no Pentágono, a qual rezava assim (numa tradução aqui do pilas): “De todas as manifestações de poder, a que mais impressiona as gentes é o autodomínio”. A parte gaga com a jornalista não o revelou. As palavras acutilantes que exibem Passos e Cavaco no mesmo barco, sim. É escolher.
A miséria moral como epidemia
A presença de Teresa Leal Coelho na Prova dos 9 de 5 de Março merece ser vista por quem se interessar pelo que pode ser legitimamente descrito como epidemia de miséria moral. O seu papel no programa era o de passar por uma pessoa, com responsabilidades políticas relevantes, totalmente destituída de honestidade intelectual. E se assim o planeou, brilhantemente o conseguiu representar. A coroa de glória foi-lhe entregue (aos 35m44s) quando declarou que não tinha tomado conhecimento nem da carta de Sócrates (!!) nem da respectiva manchete do Diário de Notícias (!!!!). É genial. A genialidade consiste nisto de se oferecer em imolação na hecatombe da política como fantochada circense, aversão à inteligência e celebração da cobardia, sabendo que não haverá consequências, que o poderá repetir até que o Inferne gele.
O actual PSD é deste nível para baixo. O casal Passos&Relvas não foi um acaso, antes a síntese apuradíssima de uma organização que não conseguirá voltar à decência sem um corte radical com a redução da política à luta do poder pelo poder.
Exactissimamente
Isto de enfrentar os interesses sai bué da caro
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A carta de Sócrates onde acusa Passos Coelho de miséria moral é chocante. Como é que este tipo, preso preventivamente sob suspeita de um crime que, a ser provado, abrirá um novo capítulo na História de Portugal, se atreve a defender a sua honra? Como é que o alvo das maiores, mais prolongadas e mais ferozes campanhas negras neste país, desde que há democracia, tem a lata de vir descrever a realidade como ela é, dimensão onde existe um Passos Coelho que faz da pulhice uma táctica política? Como é que um ser humano que se pretende afastar, humilhar e destruir por medo do seu poder político consegue ainda ter o desplante de reclamar o seu estatuto de cidadão? Chocante.
Essas ondas de choque estão manifestas nas reacções de dois sofisticados guardas pretorianos da actual direita. Ricardo Costa, que se imagina mais inteligente do que todos os políticos juntos, mas que nunca fará política por ainda ter uma réstia de lucidez, deu os parabéns a Passos. Parece que ele já sabia como é que Sócrates iria responder, pelo que engendrou este resultado, garante o mano jornaleiro. É a visão de um cínico inveterado, o qual tem um entendimento da política ao nível da Feira da Malveira. Mas cumpre o seu papel de spin doctor com zelo, Balsemão deve estar satisfeito. David Dinis vai por outro caminho, culpa a vítima. E é delicioso o grau de hipocrisia atingido quando alega que Passos nem sequer estava a pensar em Sócrates quando fez as declarações que toda a gente, a começar por quem o aplaudiu aos urros, entendeu como se pretendia fossem entendidas. Um craque perante audiências cuja idade mental não ultrapasse os 12 anos (e vá lá, vá lá…).
A direita para quem Ricardo e David falam não se importa nada com a sonsice de Cavaco e Coelho, tal como estava encantada com a sonsice de Seguro. A sonsice é uma característica intrínseca à cultura da oligarquia, fazendo parte dos códigos ancestrais da vida palaciana. A calúnia nasce como necessidade de comunicação num ambiente onde toda a frontalidade será castigada. O rei vai nu, o bispo de ceroulas e o general usa sutiã. Falai baixinho e para o lado, aprendem no berço. Em contraste com esta celebração da cobardia, Sócrates é bem capaz de nunca ter sido apanhado em público a proferir uma calúnia, sequer uma difamação ou suspeição. Aliás, o ódio que sobre ele despejam figuras estruturantes do poder português, como Cavaco, Belmiro e Soares dos Santos, justifica-se cristalinamente se recorrermos ao argumento de Marco António Costa utilizado para proteger o tal primeiro-ministro que pertence à raça dos homens que garantem com voz de barítono pagar todos os impostos: “Nos últimos anos o primeiro-ministro enfrentou muitos interesses, isto paga-se caro.“.
Olá se paga.
A década encardida
Em 2004, pessoas ligadas ao CDS, PSD, Judiciária e imprensa juntaram-se secretamente para lançar o caso “Freeport” em cima das eleições de 2005. Em 2009, agentes da Justiça operaram ilicitamente para espiar um primeiro-ministro em funções, tendo procurado levá-lo a tribunal com uma acusação infundada nos meses que antecederam as eleições. Também nesse ano, mas tendo começado a seguir ao Verão de 2008, o caso “Freeport” regressou em modo à outrance. Ainda nesse ano, a semanas das eleições, pessoas ligadas à Presidência da República e à imprensa conspiraram para lançar uma escabrosa campanha de calúnias e difamação que permanece como o maior escândalo de sempre a envolver a Casa Civil e o estatuto de Presidente da República. No final de 2014, coincidindo com o lançamento institucional e solene da nova liderança no PS, agentes da Justiça, em conluio com órgãos de comunicação social, organizaram um acontecimento que condiciona gravemente, e imprevisivelmente, a acção política do PS num ano duplamente eleitoral. Estas vão ser as quartas legislativas seguidas, pois em 2011 continuou a fazer-se render os casos anteriores, onde a direita aposta tudo na judicialização da política – como ontem o primeiro-ministro demonstrou no seu melhor estilo.
Entretanto, a “Operação Marquês” permite envolver um número indefinido de actuais e antigos quadros partidários socialistas, chegando para o efeito que tenham desempenhado funções governativas entre 2005 e 2011. Esse envolvimento ficará efectivo mesmo sem que algum deles seja constituído arguido, basta que se seja chamado a prestar declarações adentro do caso para a indústria da calúnia estar servida de material fresco. Mas não só. Correm mais dois processos na Justiça que poderão, a qualquer momento, aparecer como armas caluniosas e atingir quem se quiser abater: a investigação sobre as PPP e a investigação sobre os gastos com cartões de crédito dos membros dos Governos socialistas. À luz do padrão nos casos “Freeport”, “Face Oculta” e “Operação Marquês”, o que tiver utilidade caluniosa e golpista irá ser fonte de manchetes e será utilizado por esta direita. Figuras como Passos Coelho, Miguel Relvas, Aguiar-Branco, Luís Montenegro e Marco António Costa, para dar exemplos ao correr do teclado, ufanam-se de serem exímios nesta decadência a que chamam “fazer política”.
A tese de que “a impunidade acabou” consiste, literalmente, em declarar que Pinto Monteiro e Noronha do Nascimento, entre outros responsáveis superiores na Justiça, protegeram Sócrates e demais bandidos nos casos em que havia indícios suficientes para os acusarem de crimes variados. Temos uma ministra da Justiça que o diz de boca cheia para a posteridade, e uma mole de comentadores e jornalistas que enchem o espaço público com o mesmo veneno. A nova procuradora-geral da República, imune à corrupção socialista, aí está a provar que era possível prender Sócrates. Bastava ter vontade para tal, tantas as pontas por onde pegar; assim corre a narrativa do fim da impunidade. O que este discurso revela, para além da cultura do ódio a que se reduziu a direita desde 2008, é uma predisposição simétrica à das calúnias para cometer violações ao Estado de direito sancionadas pela lógica do “eles fazem pior”. Há muitos estudos, há muitos anos, do foro psicológico e cognitivo sobre os mecanismos em acção nesta frequente hipocrisia que acomete tão mais frequentemente quanto os visados se projectam como pertencendo a uma “raça de homens que paga impostos” e que os restantes (homens, quiçá igualmente mulheres e crianças), para os poderem imitar na exemplaridade moral, teriam que arranjar maneira de nascer duas vezes.
A decadência da direita, todavia, não se explica sem a decadência da esquerda. Os esquerdistas puros e verdadeiros que assistem às chamas que varrem a cidade, felizes da vida ao imaginarem os lindos mamarrachos que lá irão construir quando chegar a sua vez – e ela vai chegar, está escrito – sorriem, uns, aplaudem, outros, e juntam-se à destruição, os restantes. A imbecilidade não perde uma oportunidade para mostrar que aguenta bem sem estar no poder, não aguentaria era o desmame da alucinação.
O PS não irá responder a esta pulhice?
Desferidos os ataques a Costa, Sócrates voltou implicitamente à intervenção do primeiro-ministro - para diferenciar aquela que diz ser a sua postura enquanto governante. "Nunca o cidadão Pedro Passos Coelho usou o cargo que tinha para disfarçar, esconder ou evitar qualquer tratamento exatamente igual ao que qualquer outro cidadão teria. Nem para enriquecer, prestar favores ou viver fora das suas possibilidades."
Com a operação Marquês ainda fresca, Passos insistiu: "Quando sair do lugar de primeiro-ministro, aconteça isso quando os portugueses entenderem, voltarei à minha vida normal, que não alterei e a viver com as minhas posses, que são as mesmas - para não dizer que são muito menores que aquelas que tinha."
Muito aplaudido pelos deputados sociais-democratas - o pagamento tardio à Segurança Social causou um indisfarçável mal-estar entre os parlamentares que estiveram no Porto -, Passos sentenciou um dos discursos mais incendiados desde que é primeiro-ministro com a ideia de que nunca tomou qualquer decisão com outro desígnio que não o "interesse nacional", renovando a tese de que nunca fez favores, protegeu grupos de maior ou menor dimensão ou pressionou jornalistas.
Passos contra-ataca: “Não somos todos iguais, não usei o meu cargo para enriquecer”
Escolher a boa parte
Os últimos quatro dias terão provocado grave dano na presunção de inocência de Sócrates aos olhos da opinião pública que vê televisão. Começou na sexta-feira, no Telejornal na RTP, com esta peça: Ex-mulher de Sócrates reagiu a todas as suspeitas que a associam à Operação Marquês. A reportagem está construída com o propósito de enfatizar as suspeições e deixar um resultado difamatório inequívoco. Acresce que José Rodrigues dos Santos a promoveu e introduziu esforçando-se por reforçar, com o tom de voz e a expressão facial, o seu estatuto de “denúncia chocante”. O que se viu não é muito diferente do que passa na CMTV.
Nesta segunda-feira, foi a vez de a TVI atacar com Empresas de Santos Silva ganham 115 milhões. Mais uma vez, a narrativa intenta realçar as suspeições e deixa um resultado difamatório inequívoco. Empresas que ganham concursos, ainda para mais em projectos estatais, está visto que só graças à corrupção, é a lógica da peça.
No sábado, foi a vez de Clara Ferreira Alves, no Eixo do Mal, revelar a sua conversão à verdade do Correio da Manhã e de qualquer ranhoso que se preze. Segundo disse, percebeu que “Sócrates tinha uma relação com o dinheiro, no mínimo, leviana“. Porquê? Porque pedia dinheiro emprestado, em especial aos amigos. Então, continuou, assim se explica a pré-bancarrota de 2011 e devemos estar agradecidos por terem apeado o sujeito pois ele continuaria a pedir dinheiro emprestado caso lá continuasse. O interesse do episódio não está na espectacular tonteira do raciocínio mas no que ele assinala como demarcação moral por parte da sua autora.
É provável que mais de 90% das audiências destes momentos televisivos tenha reagido sem qualquer espírito crítico e tenha aderido ao sentido proposto pelos mensageiros. Todavia, seja na história do apartamento de Sofia Fava e da sua ligação pessoal a Santos Silva, seja na história da actividade empresarial de Santos Silva, não há qualquer prova de actividades ilícitas. A par da linha da suspeição, que foi a opção explorada, é igualmente fácil imaginar um quadro de perfeita correcção para explicar os mesmos factos. Só que a opinião pública não desenvolverá esse esforço, a condenação sem julgamento adensa-se a cada exposição dos laços que unem os protagonistas e do que eles fizeram com os seus rendimentos e património.
Na “Operação Marquês” não haverá empate nem se farão prisioneiros. De um lado, temos uma figura que representa muito mais do que a sua esfera privada, pelo que terá de sair imaculada para estar à altura dessa responsabilidade. Do outro lado, temos uma Justiça que assumiu o risco de provocar um terramoto político em cima de um duplo ciclo eleitoral, legislativas e presidenciais. De acordo com Ricardo Costa – Sócrates, os próximos anos – a vitória será da acusação. Este Costa adora fazer profecias, talvez por não ter grande jeito para a função. Antes da crise governativa, no Verão de 2013, andava a proclamar como quem desafia os deuses que o Governo chegaria ao fim da legislatura. No auge dessa crise, veio dizer que se tinha enganado e que o Governo iria cair, fatalmente. Com Sócrates, pode ou não ter razão, como sempre e como qualquer um. Mas se tiver, e mesmo que o caso se fique por uma acusação de fraude fiscal, tal desfecho será demolidor para o PS e doloroso para a boa parte deste país. A boa parte é aquela que prefere uma inocência falsa a uma falsa acusação, seja quem for o cidadão, pelo que tem resistido sem vacilar à formidável indústria, e ubíqua cultura, da calúnia.
Está-se muito bem entre essa gente. É gente livre e da liberdade.
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[Clara Ferreira Alves também vocaliza “acórdos” em vez de “acôrdos”. Não admira que esteja confusa em relação a outras matérias.]

