A mariana pessoa publicou um excerto de Pedro Santos Guerreiro – A verdade e o azeite e tal – onde se pode ler o seguinte:
“Cavaco Silva descobriu que lhe estavam a esconder a negociação de um PEC IV. Então, vingou-se por antecipação: dois dias antes da apresentação do plano, no discurso da tomada de posse para o seu segundo mandato como Presidente, disse que não havia espaço para mais austeridade.“
Trata-se do parágrafo final da citação. Como não conheço o texto na sua totalidade, quero evitar ser injusto para com o autor. Porém, tratando-se de um parágrafo, vale como uma unidade argumentativa. É nessa abstracção que surge como surpreendente, denso e polémico – quiçá assustador.
De chofre:
– Cavaco Silva, ex-ministro das Finanças e ex-primeiro-ministro, que sempre se vangloriou (inclusive, ou sobretudo, em período eleitoral) de ser uma luminária em Economia, ignorava quais seriam as consequências do chumbo do PEC IV?
– O Governo tinha alguma obrigação institucional de partilhar com o Presidente o que estava a negociar com os parceiros europeus, de resto um acto de gestão executiva imposto pelo calendário, antes desse acordo estar fechado?
– O Governo, depois do que se tinha passado desde 2008, onde Cavaco assumiu protagonismo na liderança da oposição, e especialmente depois da “Inventona das Escutas”, tinha alguma condição para manter sequer módica confiança institucional no Presidente e na Presidência da República?
– Quais as consequências políticas que a comunidade deve tirar ao se concluir que um Presidente da República age por “vingança”, para mais numa matéria onde não tem legitimidade política (a governação), e ainda por cima com as consequências devastadoras para toda a população que tal comportamento promovia, ou até impunha?
Cada uma destas questões, e outras congéneres, chegaria e sobrava para ajuizar do essencial que estava em causa nesses idos de Março de 2011: havia uma alternativa à Troika, a qual foi recusada pela direita portuguesa com o único objectivo de alcançar o poder. Todos os discursos que apelavam à entrada do FMI, que bendiziam as opções do Memorando e que justificavam com os males endémicos a punição despejada com asco para cima de um País que tinha comprado a promessa do “fim dos sacrifícios” só encontram racionalidade nas suas contradições e antinomias se os lermos como uma retórica para borregos. Podia-se, e pode-se, dizer tudo e o seu contrário porque não há punição, nem mesmo mediática para inglês ver. É assim que pensa a nossa oligarquia, e prova mais uma vez ter razão pois está a ganhar em toda a linha, domina o Estado como nunca se viu antes em democracia.
Vou apenas estender a análise ao aspecto mais assustador na citação, esse de, aparentemente, PSG acreditar que “Cavaco Silva descobriu que lhe estavam a esconder a negociação de um PEC IV“. Esta questão não é secundária na tragédia que se viveu há 4 anos, pois Cavaco acabou por explorar até ao limite esse sofisma gadelhudo, tendo chegado a receber o apoio de figuras na área socialista que igualmente se tinham rendido ao interesse em correr com Sócrates. E quando, por fim, respondeu aos que rogavam por uma intervenção sua a favor do interesse nacional, a desculpa que usou, alegando que os partidos tinham sido rápidos demais a radicalizar posições pelo que ele não iria mexer uma palha, era a segunda parte da patranha.
Factos:
– A Troika é constituída pela Comissão Europeia, pelo Banco Central Europeu e pelo FMI.
– Durante o mês de Fevereiro de 2011, representantes dessas entidades estiveram reunidos várias vezes com membros do Governo português para elaborarem um acordo especialmente complexo dado o momento das crises soberanas e da falta de mecanismos europeus de resposta a elas, a que se juntava a circunstância da ausência de maioria parlamentar. O previsível sucesso dessa negociação levou o Expresso a antecipar o seu desfecho com uma célebre parangona saída a 5 de Fevereiro, a qual deixou os direitolas a espumar de raiva: “O FMI já não vem“. Atente-se, no fundo dessa página, à notícia “Assessor de Cavaco acusa Governo de provocação”. Vista retrospectivamente, estamos perante a criação de um ambiente de frontal hostilidade que iria desembocar no comício da tomada de posse e no caso da alegada recusa em informar Cavaco acerca do PEC IV.
– Também durante o mês de Fevereiro, Cavaco recebeu dezenas de responsáveis dos principais órgãos económicos e sociais do País.
– Na Comissão Europeia a chefia era de Durão Barroso, no BCE trabalhavam portugueses, e no FMI havia um tal de António Borges, talibã do empobrecimento a mata-cavalos, que era só o presidente do departamento europeu. A estas figuras, colhe ainda juntar as da imprensa e do corpo diplomático em países europeus que, por inerência, igualmente acompanhavam, fosse em que grau fosse, as movimentações a ocorrer na tentativa de evitar que Portugal se juntasse à Grécia e à Irlanda.
Temos então que o homem que conseguiu encontrar fundas suspeitas de ter o seu computador invadido por seres maléficos vestidos de cor-de-rosa é o mesmo homem que não conseguiu descobrir que o Governo de Portugal estava a suar as camisas e as gravatas para que se evitasse o mal maior. Dada a quantidade estapafúrdia de dirigentes, altos quadros, funcionários superiores, políticos e jornalistas portugueses e europeus que sabiam do que se passava, nem um vagido ter atravessado os muros do Palácio de Belém com a boa nova é a prova suprema de que um Presidente da República sério não tem ouvidos. Nem vergonha. Nem neurónios.
Se uma vedeta da elite jornalística como Pedro Santos Guerreiro não percebe o que é uma golpada presidencial quando ela lhe cai em cima, há que ter medo. Se percebe, e finge que não percebe, há que ter ainda mais medo.
