Arquivo da Categoria: Valupi

Diz tudo, como os malucos

É importante os partidos, ainda para mais em ano eleitoral, terem a transparência de dizerem ao que vêm, definirem com clareza a sua estratégia para futuro. Isso deve ser saudado.

Passos Coelho, Abril de 2015

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O responsável máximo pela campanha eleitoral do PSD em 2011 discursa em público como um amnésico. Tratar-se-á de uma amnésia colectiva, pois à sua volta as reacções são de assentimento, tranquilidade, apatia. Não importa o calibre da enormidade que o Pedro largue na via pública; jornalistas, políticos e cidadãos desviam-se imperturbáveis e seguem o seu caminho. Ou talvez não seja amnésia (não é, pois não?), talvez tenha outro nome.

Sendo justo, reconheço que alguns verbalizam alguma indignação perante o desplante com que Passos mente e nos trata como borregos. Mas mesmo esses logo aliviam as suas dores acrescentando que o outro, o que lá estava antes, era igual. “Passos igual a Sócrates” é uma receita que neste tópico acaba por proteger o Pedro dada a radical diferença entre eles: Sócrates foi leal com o eleitorado até ao limite das suas capacidades, Passos planeou trair o eleitorado até à plenitude das suas incapacidades. Para falar de promessas falsas de Sócrates apenas se consegue ir buscar a questão dos impostos, e mesmo aí há factores atenuantes, enquanto em Passos estamos perante um chumbo do PEC, consequente crise política e queda do Governo e uma campanha eleitoral onde todas as principais mensagens, de todos os dirigentes do PSD, foram intencionais mentiras. Já abraçados ao pote, quem fizer o levantamento do que foi sendo dito a cada medida além-Troika e acerca das responsabilidades pelo Memorando vai encontrar o mesmo padrão.

Aparentemente, um fulano que nos enganou tragicamente, causando com as suas acções sectárias e fanáticas desgraças incontáveis, não poderia ficar impune se abrisse a boca para se armar em político decente. Aparentemente, isto devia ser simples. Mas talvez Portugal seja um país que já tenha desistido de se respeitar a si próprio.

Revolution through evolution

Polarization in US Congress is worsening, and it stifles policy innovation
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Strontium atomic clock accurate to the second — over 15 billion years
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Google, Apple, Amazon spend record amounts on lobbying
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Four-dimensional printing unfolding as technology that takes 3D printing to an entirely new level
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We think better on our feet, literally
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60 = 50: New Study Reveals Increases in Life Expectancy Reflect Slower Population Aging
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Caloric Restriction: A Fountain of Youth for Aging Muscles?

Bem esgalhado

A ‘troika’ em Portugal agora chama-se Portas, Passos e Cavaco

Vai ser interessante observar se Costa mantém, campanha eleitoral a chegar e adentro, a pressão sobre Cavaco. Visto aqui da janela, todas as razões e mais algumas recomendam essa táctica. Por um lado, tem o condão de unir a esquerda, o centro e até parte da direita numa repulsa comum. Por outro, é de elementar justiça não ter qualquer tipo de misericórdia com quem tanto mal fez à democracia portuguesa e quem conspurcou os dois mandatos presidenciais.

Costa, porém, é imprevisível naquilo que parece ser o mais previsível, pelo que temos de esperar.

Na rotunda do Marquês

Não é uma beleza esta sincronia entre as fugas ao segredo de justiça, e as acções públicas de Rosário Teixeira e Carlos Alexandre gerando parangonas, com os momentos de afirmação do PS de António Costa? Começou em Julho de 2014, e na altura a lógica dessa primeira fuga favorecia Seguro contra o socrático de Lisboa. Seguiu-se um tumular silêncio. Costa ganhou. E esperou. Quando se preparava para, solenemente, lançar o seu ciclo de afirmação política, o Ministério Público ofuscou e condicionou a ocasião com a prisão de Sócrates a dias do evento. Agora, em cima do lançamento de um importante documento económico que servirá de base à elaboração do programa e que prestigia o PS, alguém decidiu chamar de novo à ribalta a Operação Marquês. Porquê agora? As autoridades não estão obrigadas a dar essa explicação ao público. Talvez a ninguém. E, mesmo que fosse prática corrente, poderiam invocar o que bem entendessem para terem o calendário justificado sem direito a contraditório. Isso implica, por cima do poder judicial, um poder político de vastas consequências quando estão em causa acusações de corrupção dirigidas a um ex-primeiro-ministro e num ano eleitoral.

Mas não só. Os esgotos a céu aberto, onde se inclui o Observador, aproveitaram para espalhar que teriam sido apanhadas “provas” de corrupção no computador do gestor ontem detido, e que as casas de Paulo Campos e Mário Lino já tinham sido revistadas, ficando sugerido que eles serão os detidos seguintes e que novos processos serão abertos respeitando a outros casos de corrupção envolvendo governantes dos Governos de Sócrates. Serão? E se o forem, quando? Vai ser por alturas da apresentação do programa socialista, em Junho? Ou estará a investigação à Operação Marquês a obedecer ao pedido de Marcelo Rebelo de Sousa para que se lavre acusação antes do Verão, em ordem a que os prejuízos para o PS sejam os maiores possíveis? E por que razão a investigação demorou tanto tempo para ir vasculhar o computador de Joaquim Barroca? Não tinham medo que, passado quase um ano desde as primeiras notícias, ele apagasse as cenas, trocasse de máquina, derretesse em ácido o hardware ou mudasse os números no Excel? E como é que um jornal e seus jornalistas se permitem veicular as suspeições de algum agente do Estado a respeito do que está ou não está, vale ou não vale, na posse de um detido em cima do momento da sua detenção? Ou essas suspeições não nasceram nalgum agente do Estado, daqueles com nome e responsabilidade criminal, sendo tão-só puras invenções de certos jornais e de certos jornalistas?

Sócrates poderá ser culpado de corrupção. Ou poderá ter recebido prémios que, não configurando actos de corrupção, sejam infracções fiscais. Ou poderá ter mesmo pedido dinheiro emprestado, ou até emprestadado, a um amigo que o tinha para emprestar ou dar. Nada disso, que só se poderá aferir caso haja acusação, primeiro, e julgamento, depois, impede a presente constatação de que esta é uma prisão política como nunca se conheceu outra igual em democracia.

Ricardo in the sky with diamonds

Deixo a análise profunda das medidas apresentadas esta terça-feira pelo PS aos especialistas em economia. Há ali, felizmente, muita coisa para se discutir, o que é meio caminho andado para deixarmos a política de casos e podermos falar do futuro do país. É um bom ponto de partida para a oposição e para o governo. E um passo que o PS levou demasiado tempo (anos!) a dar: só agora é que o maior partido da oposição esqueceu os lamentos do PEC IV e de chorar os idos de 2011.


Mano do mano

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Ricardo Costa garante que só agora é que o PS se está a libertar do PEC IV e de 2011. Ricardo Costa acumula com a autoria desta ideia a responsabilidade de dirigir o Expresso. Ora, gostava de saber se o Ricardo Costa quando está a dar ordens no Expresso se encontra no estado lastimoso em que damos por ele ao garantir que o PS andou desde 2011 a chorar e a lamentar-se à pala do PEC IV e dos idos de 2011. Não seria rápido a concluir pela intoxicação alcoólica ou de outra origem, mas alguma forma de alucinação se abateu sobre a sua cachimónia.

Até finais de 2014, o secretário-geral do PS era aquela figurinha que jamais gastou uma caloria a defender o PS que em 2011 tentou livrar Portugal da Troika e do casal Passos-Relvas. Pelo contrário, Seguro estava alinhado com os permanentes insultos, ofensas e calúnias e com o discurso da punição que a direita martelava diariamente, tanto no aspecto das causas da crise (culpa de Sócrates), como no aspecto da moral da crise (PS de Sócrates era corrupto, daí Seguro ter como missão desinfectar a casa com a sua imaculada pureza). Em Setembro de 2014, aparece um novo secretário-geral. Ninguém lhe ouviu qualquer lamento ou choro a respeito do PEC IV ou de 2011. Aliás, nas pouquíssimas ocasiões em que se refere a esse período, mostra-se invariavelmente com pressa para sair do assunto e faz questão de frisar que tem críticas a apontar ao Governo socialista de então. Ainda mais espectacularmente para esta análise do que o aquilino Ricardo afiança, temos tido um António Costa calado desde a sua chegada à liderança do PS. Esse silêncio de meses exasperou muito boa gente, o que não provocou em ninguém foi a peculiar “trip” que o mano partilhou com os leitores do Expresso.

Esta é uma boa ocasião para lembrar que Sócrates não tinha em Março de 2011 condições políticas para continuar a governar. Não tinha porque não podia ter, porque Cavaco queria que ele caísse o mais rapidamente possível, porque não existia maioria no Parlamento e, acima de tudo, porque o PSD estava convencido de que a aprovação do PEC IV iria levar a que o Governo socialista conseguisse evitar o resgate. Então, não quiseram dar a mínima oportunidade a que tal pudesse acontecer e afundaram o País sem qualquer remorso. A lógica do poder pelo poder é a única a que obedecem.

Ricardo, quem não larga o PEC IV e os idos de 2011 é a direita decadente que tu apoias e para quem trabalhas. Bem podes limpar as mãos à parede.

Festina lente, Costa

António Costa começou o discurso no Pavilhão Rosa Mota, neste domingo, acelerado. Acelerado continuou. E ainda mais acelerado terminou. É preciso que alguém lhe diga para se acalmar se a ideia for a de acelerar o eleitorado.

Há características psicológicas em Costa que prejudicam a sua afirmação como líder e, muito provavelmente, estão também na origem da surpreendente inépcia estratégica que tem revelado. Por exemplo, no primeiro debate com Seguro a sua prestação foi comedida, tendo procurado passar uma imagem conciliadora, quiçá amistosa, no trato público com o então secretário-geral. Após o debate, todos os comentadores de direita aproveitaram a oportunidade para fingirem que Costa tinha perdido o páreo, que nem sequer se teria preparado. Tudo conversa da treta face à inanidade de Seguro, mas treta permitida pelo amadorismo ou sobranceria de Costa. O segundo debate levou-o para um urgente exercício de intensa pressão sobre Seguro, não deixando dúvidas quanto à percepção geral produzida. E o terceiro foi um misto dos dois anteriores, tendo esse debate acabado por ficar marcado pelo descontrolo emocional de Seguro. O ponto que realço é este: Costa mostra-se desconfortável em situações de antagonismo, parecendo não saber qual é a medida certa para a sua agressividade. Esta hipótese também radica na por si mesmo admitida imagem de ser alguém dado a provocar, ou a não impedir, explosões de violência emocional para com os seus subordinados. Exemplos vários poderiam ser dados, inclusive o modo ambíguo e passivo como lidou com a prisão de Sócrates, e ainda antes na forma como se exibia perante os ataques de carácter a Sócrates por parte do Pacheco e Lobo Xavier na Quadratura – marcas de um desequilíbrio entre dois extremos, a afirmação e a abstenção.

Referir estes aspectos da sua pessoa pública não pretende ser uma avaliação da sua capacidade como político. Costa é Costa é Costa, e assim será. Os factores que estão a prejudicá-lo são parte de um todo onde têm uma função que não pode ser desligada dos factores que lhe têm dado o sucesso político que obteve até agora, a sua reputação incluída. Todavia, algo poderá ser melhorado. E pode ser algo tão simples, aparentemente, como a alteração do quadro psicológico associado às suas intervenções tribunícias. Porque, como o exemplo da “Festa da Democracia” revela, ter um líder afectado pela ansiedade não é benéfico para si, para os seus e para a cidade.

Conselhos:

– Não querer imitar Fulano, Beltrano ou Sicrano.
– Começar devagar.
– Não gritar por convenção, gritar só por paixão.
– Falar para alguém, não falar para ninguém.
– Quando há algo para dizer a Passos, Portas ou Jerónimo, imaginar que Jerónimo, Portas e Passos estão ali, mesmo em frente, e dizer o que há para dizer como se.
– Nunca, mas nunca, gritar “PS, PS, PS” ao ritmo de uma metralhadora.

E prontos. Por hoje é tudo.

Revolution through evolution

Teaching children in schools about sexual abuse may help them report abuse
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Should a political party form a coalition? Voters and math decide
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Civic engagement may stave off brain atrophy, improve memory
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Faculty in doctoral programs more responsive to white male prospective students, research finds
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Nothing beats a good night’s sleep for helping people absorb new information, new research reveals
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Why Everything You’Ve Heard About Women and Negotiation Might Be Wrong
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Professional golfers live a lonely life in the midst of rivalries on a meager income
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Verdade com sabor a laranja

Já em 2009, às portas das eleições mas com o País em pré-bancarrota, o PS de Sócrates usara da mesma estratégia. Aumentou os salários na função pública e reduziu a taxa normal do IVA e, pelo caminho, prometeu TGV's e cheques bébé.


Francisca Almeida

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Tendo convocado Yourcenar para um exercício que se esgota em tratar os socialistas como mentirosos, esta deputada do PSD introduz um acrescento refrescante na cassete da “bancarrota”: em Setembro de 2009 já estávamos em “pré-bancarrota”. Porquê? Não terá tido tempo, ou caracteres, para explicar. Aliás, talvez convenha nada explicar para não tirar encanto literário à imagem. O talento romanesco não carece do zelo e aridez da racionalidade demonstrável.

Acontece que o conceito “pré-bancarrota” é de irresistível utilidade. Pode ser aplicado sem limite lógico por ser desvairadamente plástico. Podemos até perguntar se haverá algum período na História onde os Governos, nacionais e internacionais, não tenham estado em “pré-bancarrota”; exclusão para os que, de facto, entraram em bancarrota e só durante essa altura. Por aqui, a Francisca está a representar com garbo a “política de verdade”, outro conceito que conhece muito bem posto ter sido eleita para o Parlamento sob a sua égide. A chatice começa quando nos recordamos do que não ouvimos nem lemos nesses idos de 2009. E não ouvimos nem lemos ninguém do PSD ou CDS a falar em bancarrota, pré-bancarrota ou ante-quase-pré-bancarrota. Do que se falava era das contas que as “gerações futuras” teriam de pagar por causa de umas estradas algures. E também se falava muito da “asfixia democrática”, do “Freeport”, “da PT e da TVI”, da “Manuela Moura Guedes”, do “clima de medo” e de uma malandragem que andava a espiar o correio electrónico do Sr. Cavaco. Pode dar-se o caso de essa asfixia ter reduzido drasticamente o oxigénio a circular pela mioleira dos estrategas da direita ao tempo, eventual razão pela qual deixaram escapar o tema da franciscana “pré-bancarrota”. Enfim, um dia o Pacheco revelará em livro o que realmente se passou.

A “bancarrota” está connosco desde meados de 2011 e não tem tido um dia de descanso. A campanha eleitoral da direita não terá muito mais para berrar do que esse estribilho. Se tudo se mantiver igual, e vai manter, não teremos direito a qualquer explicação acerca do que causou a tal festejada “bancarrota”. Terá sido causada pelo TGV que não chegou a ser construído e para o qual havia fundos comunitários, sendo que o projecto tinha nascido num Governo PSD onde contemplava 4 linhas? Terá sido causada pelo novo aeroporto que não chegou a ser construído? Terá sido causada pelas PPP cujos custos só iriam ser pagos pelas gerações futuras? Terá a “bancarrota” nascido do gasto em combustível de avião para carregar os computadores Magalhães daqui para fora? Terá a “bancarrota” aparecido como consequência do investimento em energias renováveis e consequente diminuição das importações de petróleo que originaram? Será que a “bancarrota” foi o resultado inevitável da instauração do Simplex? A lista é fastidiosa, pelo que nos daria muito jeito ter os arautos da “bancarrota” a fazerem uma pausa no estado de êxtase com que celebram a chegada da mesma e dignarem-se apresentar alguns dados carnudos para mastigarmos.

Claro que o problema se torna ainda mais bicudo quando olhamos para o que literalmente se passava em 2011 até à “bancarrota”. Tendo o Governo socialista apresentado um plano que continuava e alargava as políticas iniciadas em 2010, por imposição europeia, para diminuir as despesas do Estado, vimos a direita a chumbá-lo e a levar o País para uma crise política que de imediato o afundou nos mercados de financiamento, acabando por obrigar ao resgate em poucas semanas. Até parecia que a direita não queria mais medidas de austeridade e que assim anunciava aos portugueses e ao Mundo que vinha aí o fim dos sacrifícios.

Não sei se a Francisca Almeida se lembra desta história. Não sei se tem uma memória de Adriano. Mas lá que ela e o tempo são dois grandes escultores, isso fica patente na extraordinária capacidade para moldar o passado segundo o seu gosto e fantasias. Fantasias verdadeiras, obviamente, e com sabor a laranja.

Zeitgeist – A era dos liberais à portuguesa

Mariano Gago?!... Mas esse tipo não foi um socrático do pior, tendo andado a esbanjar o rico dinheirinho dos meus impostos em ciência, educação, tecnologia e inutilidades dessas só para o dar aos xuxas em vez de ir a correr guardá-lo para encher os nossos cofres? E a corrupção toda que ele andou a esconder e de que é cúmplice? Querem ver que não sabia dos milhões na Suíça que o cabrão andou a roubar com o amigo... LOL!! Ninguém fala nisso porquê? Por medo dos serviços secretos, e do Noronha e do Pinto Monteiro, né? Só pode... FILHOS DA PUTA. Ainda por cima era gago!!! LOLOLOLOLOLOLOLOL!!!!!!!!!!

A festa e a festança

Voltando a 2011, Pedro Passos Coelho considerou que, "mesmo quem não votou no PSD, sabe que a 'festa' não podia continuar e que era preciso ajustar".

Abril, 2015

"Nós calculámos e estimámos e eu posso garantir-vos: Não será necessário em Portugal cortar mais salários nem despedir gente para poder cumprir um programa de saneamento financeiro", afirmou Pedro Passos Coelho, no encerramento do fórum de discussão "Mais Sociedade", no Centro de Congressos de Lisboa.

O PSD quis "vasculhar tudo" para ter contas bem feitas e, "relativamente a tudo aquilo que o Governo não elucidou bem", procurou "estimar", preferindo fazê-lo "por excesso do que por defeito", referiu.

Para Passos Coelho, a solução é "austeridade para o Estado" e quem lidera deve dar o exemplo, "porque isso tem um efeito multiplicador muito importante em toda a sociedade", o que só pode ser feito "mudando a liderança em Portugal".

Abril, 2011

“A nosso ver, o último pacote de austeridade não iria potenciar o crescimento mas impor sacrifícios inaceitáveis aos membros mais vulneráveis da sociedade. Eram demasiados impostos e uma redução de despesa insuficiente”, refere, num artigo que será publicado na quarta-feira na edição impressa do Wall Street Journal.

Março, 2011

Isto da inteligência é muito cansativo

Há um secreto alívio na destruição do património histórico iraquiano, sírio, líbio, o que conseguirem apanhar e não queiram vender – o qual é igualmente património da humanidade – levada a cabo com invejável entusiasmo e atenção videográfica pelos doentes do Estado Infâmico. Podemos até reunir todos esses actos num apocalíptico “momento zen”, o qual simbolizaria a libertação das amarras da cultura e do passado. De facto, para quê estar a conservar ruínas já num estado de ruína? E aquelas estátuas foleiras não representam déspotas ou falsidades mitológicas? Não fizeram o mesmo os cristãos e os civilizadíssimos europeus ao longo de séculos e séculos? Também de um ponto de vista marxista, a criação do “homem novo” não se compadece com agarramentos aos velhos homens das velhas explorações dos trabalhadores doutrora. São muitas e boas as razões para simpatizarmos com a razia, pois.

E que não restem dúvidas, no dia em que um destes doentes consiga pôr a mão numa arma que destrua o Planeta inteiro ele irá carregar no botão na primeira oportunidade. Talvez esteja aí uma das explicações para o paradoxo da previsível infinidade de planetas com condições para desenvolverem vida neste Universo e nem um singelo sinal de rádio com lógica comunicacional nos ter ainda chegado às antenas. É que talvez a inteligência, ao atingir o ponto em que consegue extinguir os seres que a albergam, não resista à tentação de descansar de si própria.

O jornalista do jornalista

Estive a passear pelos arquivos do blogue e encontrei este vídeo, publicado por cá originalmente em 2009. A situação nele registada remete para 2006, ou antes.

Rodrigo Amarante é um músico brasileiro e a questão em que se envolve numa discussão com o jornalista não poderia ser mais fútil, ou mais típica daquele contexto geral de futilidade que decorre da questão ela própria. Contudo, a resposta que o Rodrigo teve a felicidade de dar ao atarantado jornalista é brilhante e paradigmática. Aplica-se a qualquer outra questão, seja ela qual for, mas em especial em situações onde os jornalistas estão a explorar suspeições, difamações e calúnias.

É simples, basta ser o jornalista do jornalista.

Parabéns Pedro&Paulo

Passos e Portas estão de parabéns, e o Pedro ainda mais. Muito mais. Não entender porquê será um erro, mais um, da oposição.

Durante as eleições para a liderança do PSD em 2008, uma parte do partido sentiu asco da conduta do então apodado imitador de Sócrates. Os seus elogios ao dito, e os seus ataques a Ferreira Leite – que valeram ao casal Passos-Relvas a exclusão da lista de deputados laranjas – exibiam uma personalidade ainda totalmente mergulhada na cultura política adolescente e estouvada da JSD. Com a saída da Manela, a disputa interna parecia favorecer Paulo Rangel, visto como o preferido dos cavaquistas, e levar a uma repetição do desaire passista da anterior eleição. Porém, as bases o que queriam mesmo era o seu Sócrates e justamente castigaram um Rangel que estranhamente se revelou um fiasco nos debates, inclusive tendo perdido com escândalo o mano a mano com o bimbalhão do Aguiar-Branco.

Tínhamos agora o Pedro à frente do partido e com a certeza de que a legislatura não chegaria ao fim, dado não haver maioria parlamentar nem interesse em alcançá-la. O caos nos mercados de financiamento externo e a certeza de que Cavaco apoiaria o derrube do Governo na primeira oportunidade colocavam o calendário das legislativas nas mãos do PSD. Neste período, a grande dúvida na direita ocupava-se com a capacidade de Passos para se aguentar no confronto eleitoral com Sócrates. A percepção geral era a de ser altamente improvável que conseguisse bater o primeiro-ministro de então. Ironicamente, o ostracismo parlamentar acabou por protegê-lo, tendo chegado ao período eleitoral sem qualquer desgaste na imagem e sem derrotas em duelos. Na única ocasião em que enfrentou a fera, no debate televisivo, apareceu à sua frente um Sócrates interiormente derrotado pelos acontecimentos que levaram ao resgate, descrente de que valesse a pena lutar pela vitória. Ainda assim, quem revir os 60 minutos tem de se render à evidência: Sócrates denunciou correctamente a agenda secreta da direita e Passos mentiu quanto pôde e do princípio ao fim. Os que consideraram, e consideram, que o “homem invulgar” venceu o debate estão acto contínuo a definir o estatuto da sua relação com os factos e com a decência.

Nestes 4 anos, que estão quase a acabar, Passos superou obstáculos gigantes. Por exemplo, excelentes cabeças não concebiam que o primeiro-ministro conseguisse manter-se no cargo caso perdesse Vítor Gaspar ou Miguel Relvas. Pois ele perdeu os dois e viu a sua autoridade reforçada também por causa dessa perda. As crises da TSU, em 2012, na Educação e na Justiça não o derrubaram, nem derrubaram qualquer ministro, podendo mesmo dizer-se que não o molestaram. A inversão radical do discurso ao sabor dos acontecimentos passa impune, a própria oposição mostra-se incapaz de capitalizar nesse deboche. E o contraste entre as promessas eleitorais e a prática governativa, entre a aclamação do Memorando como obra própria e salvífica e a sua utilização como arma de arremesso contra o PS, entre o património ideológico da direita e a fúria do empobrecimento e do saque fiscal, tudo isto e o resto não faz ninguém sair à rua. Nem sequer os profissionais do protesto, tão fogosos num passado ainda recente. O episódio da demissão de Portas acabou por ser favorável aos dois, dando a Passos uma liderança do Governo reforçada e a Portas o consolo das prebendas a que reduziu a sua intervenção política. O ciclo acaba com o supremo e colossal troféu de ter Sócrates preso e cada vez mais desprestigiado, o que igualmente contribui para a reactivação e reforço dos discursos da culpa e do ódio com que a direita justificou o chumbo do PEC IV, o logro eleitoralista e o além-Troika devastador.

Será tudo mérito de Pedro&Paulo? Não. Por um lado, existe um Presidente da República que actua despudoradamente como chefe de facção. O que Cavaco hoje faz é rigorosamente simétrico do que fez com o Governo socialista a partir de 2008. Onde atacou sem piedade, agora defende sem vergonha. Por outro lado, enquanto os anteriores Governos socialistas enfrentaram uma permanente barragem de campanhas negras fazendo o pleno na comunicação social, posto que o PS não tinha qualquer órgão que assumisse as suas dores, o actual Governo dispõe da maioria dos comentadores políticos e ainda conta com órgãos de imprensa cuja agenda ostensiva é a defesa dos interesses políticos da direita portuguesa. Não existem assassinatos de carácter nem casos de perseguição patológica por parte de jornalistas com vasta influência, como se viu, e vê, contra Sócrates e quem esteve ao seu lado. Last but not least, as condições económicas são completamente diferentes graças à intervenção do BCE que levou à baixa dos juros nos mercados e graças à baixa do preço do petróleo.

As sondagens aí estão para introduzir realidade eleitoral nestas impressões casuais. Do PCP e do BE, cúmplices da chegada ao poder daquela que é a mais violenta e decadente direita que já conhecemos na governação, nada se deve esperar. Mas no PS, que era suposto defender a sua História, algo poderia ser feito. Esse algo consistia em dar nome às coisas. Não o dando, dão os outros. E os outros devem estar neste momento aparvalhados pela facilidade com que se pode tratar os portugueses como gado para abate.

A esquerda apodrece Portugal, reconhece Louçã

Louçã escreveu um texto na passada quarta-feira que, sem surpresa, deixou indiferente o mundo político nacional – As três alianças e os meios de as conjurar: a terceira, a da esquerda. Todavia, o seu tema é fascinante, e de estrutural importância para a qualidade da nossa democracia: o bloqueio do sistema partidário à esquerda.

O resumo do problema consiste nisto: a esquerda pura e verdadeira (BE, PCP e grupelhos a escolher pelo Anacleto) não se une por “rotina de fechamento“, “tradição dos partidos” e “falta de vontade e audácia“. Consequentemente, reconhece com humildade merecedora de aplauso, estamos num “situacionismo que apodrece Portugal“. O resto do texto é ocupado com a sua augusta pessoa, tendo chegado ao ponto de largar este delicioso naco da sua exorbitante megalomania:

(e sobre isso não faço agora nenhuma sugestão, para não condicionar nem influenciar ninguém, nem discuto aqui a evidente importância das eleições presidenciais para novos sinais de novos tempos)

Louçã está mais perto dos 60 do que dos 50. Tem uma existência dedicada à política e pode reclamar ter sido um dos mais inovadores dos seus agentes. O que conseguiu com o PSR e com o BE é notável a vários títulos. Pois bem, que tem ele para nos dizer sobre uma das mais graves questões do regime, a tal impossibilidade de termos um PS com alianças à esquerda? Que se trata de um fatalismo onde a única coisa que há para fazer é ir sofrendo até que o País caia de podre.

Não faço ideia de qual possa ser o ideólogo de esquerda, ou tão-só da esquerda que o Louçã se considera proprietário, que recomende a desistência perante a adversidade – por maior que seja a adversidade. Pegando de empréstimo a referida audácia, ouso declarar que não existe ninguém de esquerda que passe tal receita. E é com base nessa convicção que chego ao corolário: Louçã não é de esquerda.

Colocada assim a questão, tudo de repente parece fazer cristalino sentido. Só alguém que abomina a esquerda consegue dedicar uma vida inteira ao boicote da democracia.

Revolution through evolution

Recognizing the signs of child abuse and how to help prevent it
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Winning women: Fielding more female candidates helps political parties gain votes
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Stop complaining about the moral decline of western society, expert says
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A grateful heart is a healthier heart
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Execs sitting on each’s other’s boards: How unethical behavior can inflate executives’ pay
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Managers: Motivating the employee willing to go the extra mile
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Working up a sweat: It could save your life
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Defender o Estado de direito é bestial

André Macedo escreve sobre uma dimensão da prisão de Sócrates – A justificação – que também me levou a planear um texto para este domingo. De facto, o argumento acerca da suposta desconfiança de Sócrates no sistema bancário para assim justificar as entregas em dinheiro através de terceiros até poderá ser verídico, quiçá por excelentes razões adentro da sua mónada existencial, mas ao chegar à praça pública torna-se excêntrico, primeiro, e, logo de seguida, fatalmente incorrecto para a generalidade dos seres dotados de inteligência dado o perfil da figura em causa e o seu papel na História de Portugal pelos cargos ocupados e decisões tomadas.

Isso significa que mesmo sem a formalização de uma acusação, ou com absolvição em eventual julgamento, há uma realidade que fica incontornável: o comportamento privado de Sócrates terá permitido o seu envolvimento num caso judicial que em muito ultrapassa a importância da sua pessoa enquanto vulgar cidadão – pois aquilo que lhe está a acontecer afecta o PS, e a própria qualidade da democracia por esta e outras correlações. Logo, estamos perante uma questão de regime.

Também será uma questão de regime avaliar a acção da Justiça neste caso, havendo neste momento questões graves em aberto sem que se saiba quando, ou se, terão esclarecimento. Porém, admitindo-se a hipótese de uma qualquer intenção política na origem da “Operação Marquês”, fosse por motivação partidária e/ou corporativa, ainda assim tal possibilidade não ilibaria Sócrates perante a sua responsabilidade, pelo contrário, pois seria sua obrigação prever que tal lhe pudesse acontecer por todos os factores e mais alguns.

Posto isto, haverá melhores ocasiões para fazer esse julgamento moral (no sentido em que a política é também uma prática moral) sobre as consequências do que aparece como uma deslealdade de Sócrates à cidade. Por agora, a bela batalha trava-se nas muralhas dela. De um lado estão as bestas do ódio, para quem só o linchamento daquele que mais temem conseguirá satisfazer a sua pulsão de morte. Do outro, uns poucos que defendem Sócrates como defenderiam as próprias bestas caso elas fossem vítimas de injustiça – aliás, caso se temesse que essas bestas viessem a ser vítimas de algum tipo de injustiça.