Passos e Portas estão de parabéns, e o Pedro ainda mais. Muito mais. Não entender porquê será um erro, mais um, da oposição.
Durante as eleições para a liderança do PSD em 2008, uma parte do partido sentiu asco da conduta do então apodado imitador de Sócrates. Os seus elogios ao dito, e os seus ataques a Ferreira Leite – que valeram ao casal Passos-Relvas a exclusão da lista de deputados laranjas – exibiam uma personalidade ainda totalmente mergulhada na cultura política adolescente e estouvada da JSD. Com a saída da Manela, a disputa interna parecia favorecer Paulo Rangel, visto como o preferido dos cavaquistas, e levar a uma repetição do desaire passista da anterior eleição. Porém, as bases o que queriam mesmo era o seu Sócrates e justamente castigaram um Rangel que estranhamente se revelou um fiasco nos debates, inclusive tendo perdido com escândalo o mano a mano com o bimbalhão do Aguiar-Branco.
Tínhamos agora o Pedro à frente do partido e com a certeza de que a legislatura não chegaria ao fim, dado não haver maioria parlamentar nem interesse em alcançá-la. O caos nos mercados de financiamento externo e a certeza de que Cavaco apoiaria o derrube do Governo na primeira oportunidade colocavam o calendário das legislativas nas mãos do PSD. Neste período, a grande dúvida na direita ocupava-se com a capacidade de Passos para se aguentar no confronto eleitoral com Sócrates. A percepção geral era a de ser altamente improvável que conseguisse bater o primeiro-ministro de então. Ironicamente, o ostracismo parlamentar acabou por protegê-lo, tendo chegado ao período eleitoral sem qualquer desgaste na imagem e sem derrotas em duelos. Na única ocasião em que enfrentou a fera, no debate televisivo, apareceu à sua frente um Sócrates interiormente derrotado pelos acontecimentos que levaram ao resgate, descrente de que valesse a pena lutar pela vitória. Ainda assim, quem revir os 60 minutos tem de se render à evidência: Sócrates denunciou correctamente a agenda secreta da direita e Passos mentiu quanto pôde e do princípio ao fim. Os que consideraram, e consideram, que o “homem invulgar” venceu o debate estão acto contínuo a definir o estatuto da sua relação com os factos e com a decência.
Nestes 4 anos, que estão quase a acabar, Passos superou obstáculos gigantes. Por exemplo, excelentes cabeças não concebiam que o primeiro-ministro conseguisse manter-se no cargo caso perdesse Vítor Gaspar ou Miguel Relvas. Pois ele perdeu os dois e viu a sua autoridade reforçada também por causa dessa perda. As crises da TSU, em 2012, na Educação e na Justiça não o derrubaram, nem derrubaram qualquer ministro, podendo mesmo dizer-se que não o molestaram. A inversão radical do discurso ao sabor dos acontecimentos passa impune, a própria oposição mostra-se incapaz de capitalizar nesse deboche. E o contraste entre as promessas eleitorais e a prática governativa, entre a aclamação do Memorando como obra própria e salvífica e a sua utilização como arma de arremesso contra o PS, entre o património ideológico da direita e a fúria do empobrecimento e do saque fiscal, tudo isto e o resto não faz ninguém sair à rua. Nem sequer os profissionais do protesto, tão fogosos num passado ainda recente. O episódio da demissão de Portas acabou por ser favorável aos dois, dando a Passos uma liderança do Governo reforçada e a Portas o consolo das prebendas a que reduziu a sua intervenção política. O ciclo acaba com o supremo e colossal troféu de ter Sócrates preso e cada vez mais desprestigiado, o que igualmente contribui para a reactivação e reforço dos discursos da culpa e do ódio com que a direita justificou o chumbo do PEC IV, o logro eleitoralista e o além-Troika devastador.
Será tudo mérito de Pedro&Paulo? Não. Por um lado, existe um Presidente da República que actua despudoradamente como chefe de facção. O que Cavaco hoje faz é rigorosamente simétrico do que fez com o Governo socialista a partir de 2008. Onde atacou sem piedade, agora defende sem vergonha. Por outro lado, enquanto os anteriores Governos socialistas enfrentaram uma permanente barragem de campanhas negras fazendo o pleno na comunicação social, posto que o PS não tinha qualquer órgão que assumisse as suas dores, o actual Governo dispõe da maioria dos comentadores políticos e ainda conta com órgãos de imprensa cuja agenda ostensiva é a defesa dos interesses políticos da direita portuguesa. Não existem assassinatos de carácter nem casos de perseguição patológica por parte de jornalistas com vasta influência, como se viu, e vê, contra Sócrates e quem esteve ao seu lado. Last but not least, as condições económicas são completamente diferentes graças à intervenção do BCE que levou à baixa dos juros nos mercados e graças à baixa do preço do petróleo.
As sondagens aí estão para introduzir realidade eleitoral nestas impressões casuais. Do PCP e do BE, cúmplices da chegada ao poder daquela que é a mais violenta e decadente direita que já conhecemos na governação, nada se deve esperar. Mas no PS, que era suposto defender a sua História, algo poderia ser feito. Esse algo consistia em dar nome às coisas. Não o dando, dão os outros. E os outros devem estar neste momento aparvalhados pela facilidade com que se pode tratar os portugueses como gado para abate.