Arquivo da Categoria: Valupi

Revolution through evolution

European banks as vulnerable now as before crash
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Bathroom Graffiti: From phallic doodles and insults to humor, satire and supportive messages
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Rats will try to save other rats from drowning
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No laughing matter: Some perfectionists have a dark side
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Seven in 10 take early pension payout
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Brains of smokers who quit successfully might be wired for success
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Playing games can shift attitudes, study shows
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Mais vale tarde

Não é preciso “ser do PS”, “gostar do PS” e “votar PS” para reconhecer a importância crucial do PS no regime democrático nascido com o fim da ditadura e com a vitória sobre a nova ditadura que se preparava. Essa importância é tão grande que o sistema partidário se organiza implícita e mesmo explicitamente como um jogo de todos contra um. E neste “todos” devemos incluir o próprio PS, que parece ter nos últimos anos adquirido uma pulsão autodestrutiva.

A temática dos “erros” da governação socialista entre 2005 e 2011 é o terreno onde essa pulsão é mais insidiosa e donde se geram vastas consequências. Aparentemente, o tema é banal, pois desde que há política que as oposições fazem campanha apontando os erros dos governantes que pretendem substituir, sejam os tais erros agitados factos ou mentiras. Esses erros, na sua concepção mais benévola, serão ideológicos, correspondendo à competição entre diferentes formas de organizar a sociedade e compreender o mundo. Este é o domínio da ideologia, e poderíamos ficar felizes e contentes se o debate entre partidos e políticos não saísse dos seus limites. Porém, a dinâmica agónica da disputa política invariavelmente leva as oposições a estenderem a mesma acusação para os domínios morais e pessoais, quando não para os legais (como tem feito a direita portuguesa desde 2008 e continua a fazer na “Operação Marquês”). Trata-se do lado mais nefando da prática política, sem qualquer antídoto conhecido para além do exemplo individual.

O que confere um carácter crucial à temática dos erros dos Governos socráticos, e isto 4 anos após a sua saída do poder, é a questão relativa às causas da crise política que levou ao resgate de emergência em 2011. O assunto surge espectacularmente ridículo por ser óbvio o logro que ocorreu quando direita e esquerda se uniram para chumbar uma solução que evitaria no momento a perda da soberania e a chegada ao poder de uma direita decadente e punitiva. Nenhuma das razões invocadas ao tempo por essa coligação negativa tem hoje qualquer legitimidade, os resultados mostrando o contrário do que apregoaram ser o melhor para o País e para os portugueses. Então, como é possível que PSD e CDS tenham desde princípios de 2012 passado a massacrar o PS diariamente com a cassete da culpa pela “bancarrota”, que não existiu, e pelo “Memorando”, que foi alterado para pior por Passos e Portas sem o PS sequer ter sido informado? E como é que a esquerda pura e verdadeira foi reflectindo sobre o seu fundamental contributo para estes 4 anos de empobrecimento material e moral?

É chegados aqui que temos de nos voltar para o PS. Este é o partido que elegeu como sucedâneo de Sócrates uma patética figura que não só se recusou a ser aquilo que exigia sonsamente aos outros, transparente, como ainda por cima levou o partido para uma cumplicidade cada vez mais obscena com os carrascos que enganaram radicalmente o eleitorado e traíram o interesse nacional. Afastado do poleiro por quem promete reconduzir o PS à sua tradição republicana de coragem e liberdade, estranhamente, bizarramente, perplexamente, mostra não ter na sua agenda o ponto relativo à justiça por fazer sobre o que se passou nos idos de Março de 2011. E, concomitantemente, tem-se ficado por críticas vagas e pífias à governação socialista da qual chegou a fazer parte. Resultado: aquela massa enorme de eleitores flutuantes, mais os indecisos, mais os que estão sujeitos à pressão mediática de sentido único, tendem a identificar-se com os infantilismos para broncos que a direita serve caudalosamente e que Passos assume com bandeira principal do seu discurso e pose: os socialistas são loucos e/ou corruptos, deram cabo disto com dinheiro esbanjado em pobres e alcatrão, nós salvámos Portugal porque os xuxas nem o Memorando teriam conseguido cumprir, e agora temos de evitar que os loucos e/ou corruptos voltem senão vai ser o caos.

Correia de Campos fez um pequenino exercício do que deveria ser uma táctica colectiva do partido:

O PS não deve enjeitar responsabilidades passadas. Por ela pagou o afastamento do poder, muitas acusações injustas e esquecimentos oportunistas. Foi forçado a assistir à omissão de que até 2008 se recuperou crescimento e reformou a administração, a universidade e a ciência, a Educação, a Saúde e a Segurança Social. Criaram-se fileiras produtivas ligadas à energia de que agora o país colhe frutos. Investiu-se pesadamente na refinação, na indústria papeleira e na aeronáutica, que hoje ufanam os que delas descriam. Prosseguiu uma silenciosa revolução da agricultura que mudou padrões, empresários, exportação e criou a base para a auto-sustentação financeira do respectivo produto. Tal como a formação profissional, a modernização do secundário contra ventos e marés do sindicalismo de sector, abençoado pela direita. E sobretudo a formação superior com doutoramentos, projectos e parcerias internacionais que nos emparelham com o que de melhor se faz. Também se cometeram erros, que os detratores se não cansam de ampliar. Talvez se tenha deixado prolongar a crença nos equilíbrios automáticos e na solidariedade europeia. Fiámo-nos na sorte e não corremos quando devíamos. Acreditou-se que o grande capital doméstico tinha o mesmo patriotismo que os peões da lide, que a ganância era estigma reservado aos milionários americanos e que o mundo se havia de recompor num patamar sempre superior. Admitiu-se, tempo de mais, a solidão governativa como sinónimo de eficácia na acção.

Fonte

Cada um desses “erros” enunciados por Campos carece de mais explicitação, e análise, e crítica, e debate, claro. Uns concordarão, outros não, inteligente e inevitavelmente. Mas ao se discutirem os “erros” adentro da esfera de responsabilidade política do PS está-se a desmontar a retórica para borregos da direita e a oferecer ao eleitorado uma alternativa intelectual que pode ser o que está a faltar a muitos para uma decisão. Seja qual for o ponto de vista, o PS tem todo o interesse em retirar aos adversários o monopólio do discurso sobre “erros”, “bancarrota” e “memorando”. E já vai muito tarde, se é que chegará a ir.

Exactissimamente

A questão é esta: Marcelo Rebelo de Sousa representa, ao mais alto nível, um discurso que quer passar por análise ou comentário políticos, mas de onde a política foi completamente evacuada. Ele assimilou completamente a política quer à luta pelo poder, quer ao exercício e ao objecto desse poder. Para ele, toda a política é uma questão de tácticas e estratégias, de fintas e simulações. E ganha o que for mais cretino. É desta matéria que são feitas as suas prelecções, enquanto animador do crochet televisivo. E, nesse posto, ele é “o professor”, isto é, aquele que ocupa o lugar da verdade e detém o saber do expert. Esta ideia de uma inteligência que sabe da coisa política e se dirige às pessoas que não sabem, e que por isso lhe fazem perguntas para obter a resposta oracular, é uma negação da política. Na melhor das hipóteses, aquilo de que Marcelo Rebelo de Sousa fala pertence à ordem da polícia (ele próprio transformou-se num cartoon de polícia sinaleiro) e não à ordem da política, para nos referirmos a uma oposição já clássica. Esta noção de polícia deve ser entendida não no sentido da repressão, mas da lógica puramente gestionária que ordena a sociedade por funções, lugares e títulos a ocupar. Ora, um cartoon pode chegar até a Presidente da República (não seria, aliás, o primeiro), mas não serve para iniciar qualquer conversa ou diálogo que tenha como tarefa repolitizar o espaço político. Em relação ao que Marcelo Rebelo de Sousa diz e opina não importa discordar, estar mais à direita ou mais à esquerda, ou convidá-lo para o espectáculo pluralista do conflito das opiniões. É de outra coisa que se trata, se a tarefa é também a de impedir a cretinização comunicativa e opinativa. Essa coisa chama-se “diferendo” e significa um desentendimento de base.

António Guerreiro

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Daniel Oliveira, copiando a turbamulta que ganha do belo a escrevinhar para a indústria da calúnia, teve também de enfiar Sócrates num texto a respeito de António Costa e do seu incompreensível SMS enviado a João Vieira Pereira. Assim:

Não se passa a fronteira que Sócrates passou, quando tentou usar o Estado para perseguir um canal de televisão que não lhe era simpático.

Fonte

Ai Sócrates tentou usar o Estado para perseguir um canal de televisão? E esse canal limitava-se a “não ser simpático”?… Mas isso é fascinante! Como foi que fez? Isto é, que sabe o Daniel acerca dessa ignomínia, quiçá crime? O canal foi, de facto, perseguido? Se não o foi por qualquer razão, o Daniel estará em condições de garantir que o seria não fora esse percalço? E onde se está a basear para as suas conclusões? Será em escutas ilícitas de conversas privadas?

Quando a Prisa entrou no capital da TVI, em 2005, Marques Mendes veio de imediato denunciar que o PS estaria a querer controlar essa televisão através do PSOE. Em 2007, quando Pina Moura entrou na Administração da Media Capital, o PSD veio de imediato falar de “descaramento total” e de “tomada de controlo” da TVI pelo PS. Em 2008, a TVI iniciava uma campanha de assassinato de carácter e de calúnias contra Sócrates sem antecedentes conhecidos em Portugal tal a sua logística e aparato mediático, a qual durou até às eleições de 2009. Que se teria então passado sem o domínio do PS na linha editorial da TVI durante esse ano eleitoral? Provavelmente, o casal Moniz teria seguido uma das sugestões dos magistrados que se divertem no Facebook a malhar em Sócrates e lançaria um reality show onde os concorrentes teriam de matar militantes e dirigentes socialistas no Largo do Rato, mas perdendo pontos caso acertassem na porteira.

Quando o Grupo Lena, o tal que só corrompe socialistas, anunciou que ia lançar um projecto de imprensa, correu logo o boato de que vinha aí o jornal dos xuxas. E finalmente, convenhamos. Estávamos em princípios de 2009, a construtora que andava a encher um primeiro-ministro de dinheiro através da Suiça teria o maior interesse em que ele continuasse no poder para que a copiosa corrupção não abrandasse. O jornal ajudaria nessa missão, era limpinho e clássico. Ora, se bem o pensaram, bizarramente o fizeram, pois foram entregar o serviço ao Martim Avillez Figueiredo. A nojeira resultante até meteu perseguições a bloguers que ousavam apelar ao voto no PS ou que, meramente, não odiavam o engenheiro. Não admira que o Grupo Lena ande a passar por dificuldades financeiras, dado o desvario da sua estratégia.

Entretanto, um dos maiores grupos de comunicação portugueses é pertença do militante número 1 do PSD. A Cofina detém o Correio da Manhã. A Controlinveste tem o DN, o qual sob a direcção de João Marcelino foi instrumental para a subida ao poder de Passos Coelho. O Sol é um tablóide de direita. E o Grupo Renascença não se coíbe de apoiar os mesmos de sempre (pista: não apoiam esquerdistas, cruz-credo!). Quanto à RTP, é pedir ao Pacheco as cronometragens dos telejornais da hora de almoço para se conferir que o PS também nunca se safou por aí. Esta paisagem explica muito, se não for tudo, da apatia cívica com que se aceita a degradação do Estado de direito no processo de entregar a uma direita decadente o poder total: Parlamento, Governo, Presidência, Justiça e comunicação social.

O Daniel não parece muito preocupado com isso. Com tentativas do Sócrates para não sei quê, sim, isso é foleiro e não podemos esquecer tanta maldade. Agora, ter ricalhaços da oligarquia que curtem pagar a malta baril da esquerda para teclarem umas cenas ou para serem filmados na converseta de café? ‘Tá-se bem. E viva a liberdade de imprensa.

O nosso querido pulha

O The Economist tem uma Intelligence Unit. No Country Report de Janeiro de 2015, dedicado a Portugal, por várias vezes os inteligentes reunidos para descreverem e avaliarem a situação portuguesa referem que um dos factores cruciais para os resultados das eleições legislativas deste ano consiste na prisão de Sócrates. Tal circunstância explicará a dificuldade, e previsível impossibilidade, do PS em ter uma maioria absoluta nas intenções de voto, afirmam. O que há de notável nesta reflexão é o facto de aparecer completamente desapaixonada, resultando apenas de uma ponderação objectiva por especialistas estrangeiros em economia, política e sociologia.

Acontece que a previsão feita em Janeiro a pecar será por defeito. Como o dia de hoje confirma, sem necessidade alguma de confirmação, na prisão de Sócrates o que volta a estar em causa é mais um caso de espionagem política, para além do choque moral da situação. Estar a escutar Sócrates desde 2013 levaria inevitavelmente a recolher material que aludiria a inúmeros agentes polítícos, fossem do PS, de outros partidos, do Governo e da Presidência, pelo menos. E saber que essa captação fatalmente teria impacto público – portanto, também político, para mais em ano duplamente eleitoral – caso fosse utilizada nesse intento não é algo que concebamos ter escapado aos neurónios dos responsáveis judiciais do processo. Então, que foi feito para proteger as pessoas, as instituições e a democracia de uma possível violação dos direitos de privacidade de Sócrates e terceiros? Alguma coisa? E ninguém se importa, é isso? Nem sequer o PS?

Esta direita, com a conivência complacente e divertida da esquerda, tem apostado as suas principais cartas na judicialização da política e na onda populista que aí cresce selvagem. Andaram a exigir que ex-governantes fossem julgados por terem tomado certas decisões políticas que não configuram qualquer ilegalidade, apenas divergência de opinião. Andaram a explorar as escutas feitas no “Face Oculta”, daí partindo para o ataque aberto a magistrados que defenderam a Lei. Com a prisão de Sócrates, e a chafurdice permitida pelo processo judicial às escâncaras e a soldo, vivem um momento de glória e êxtase. O emporcalhamento do PS, de Costa e da sua equipa está garantido de cada vez que se alimentar a cultura da calúnia reinante e o ódio ao bode expiatório do regime.

Dir-se-á, com supino bom senso, que tal desfecho seria obrigatório – dada a natureza humana. A política, repetem alguns com voz cansada, é isto e só isto, a eterna luta pelo poder, a impiedade para com os adversários. Pode ser que sim. E pode ser que não. Mas que seja o que cada um de nós quiser para si. Acaso queremos viver com um pulha dentro de nós? Será essa uma das mais importantes decisões políticas a tomar por quem se sinta cidadão.

Acorda, Saraiva

Por norma, e mesmo considerando o exercício pleno da liberdade que comporta o direito de não votar, não gosto de abstencionistas. Sobretudo porque são estes, maioritariamente, que, demitindo-se de participar e fazer escolhas, passam a vida a queixar-se e a dizer mal de tudo.

É evidente que os partidos têm culpas no cartório. Quando sistematicamente, legislatura atrás de legislatura, rasgam as promessas que fazem em nome do voto logo no dia seguinte às eleições, ficam com a parte de leão da responsabilidade pelo facto de mais de 80% dos portugueses estarem descontentes com a política.


Nuno Saraiva

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Este jornalista é uma figura mediana da comentação política. Porém, com um alcance que não tenho forma de medir, ele influencia o espaço público através da projecção mediática de que desfruta. É neste sentido que lhe dou importância, pois existem dezenas como ele – e, juntos, emitem uma vozearia opressiva.

O artigo donde faço a citação intitula-se “Pela democracia” e trata-se de um involuntário texto cómico por causa da contradição que o molda do princípio ao fim (excepção para a nota dedicada ao Oscar Mascarenhas, escusado será dizer). Tendo a intenção de reeducar e converter o leitor abstencionista mais comum, aquele que conduz táxis e telefona para o Fórum TSF, o nosso Saraiva acaba por contribuir para a consolidação e aumento da percepção de que “eles são todos iguais” e que “eles são todos corruptos”.

A forma como se embrulha no paradoxo está sintetizada na citação acima. Nela, podemos ler que “sistematicamente”, os “partidos”, “rasgam promessas” no “dia seguinte às eleições”. Como o autor não explicita nem exemplifica a declaração, temos que pretende deixá-la genérica. Ora, será verdade? A ser verdade, a maior parte de nós conseguirá encontrar na sua memória, e rapidamente, abundantes factos que comprovem a tese. Aliás, mesmo que a memória não ajude, em minutos poderemos encontrar na Internet milhares, ou centenas, ou dezenas, ou uma ou duas referências objectivas e datáveis para dar razão ao senhor Saraiva. Conseguimos? Deixo esse desafio em aberto. Desafio qualquer um a identificar os Governos que “rasgaram promessas” no começo da sua legislatura. E desafio qualquer um a detalhar que promessas rasgadas foram essas e porquê.

Entretanto, o que nós já sabemos de ciência certa sem carência de esforço de memória ou investigação é que nunca se enganou tão obscena e radicalmente o eleitorado como em 2011. Quem o enganou foram o PSD e o CDS. O que fizeram não é comparável com nada que tenha acontecido antes na democracia portuguesa. É por isso que estar a fazer equivaler essa prática deliberada, a qual passou por afundar o País na gula do poder, com outras situações anteriores está ao serviço de um branqueamento político e moral. E assistir a essa manipulação por um passarão da imprensa armado em educador do povo fica tristemente caricato.

“O que faz falta é acordar”, verbera quem nos serve soporíferos ou, pior, quem não se sabe sonâmbulo.

Revolution through evolution

Employers prefer male managerial potential to female proven track record
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Companies’ bottom lines benefit when former politicians join leadership teams
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Real stereotypes continue to exist in virtual worlds
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When bosses ‘serve’ their employees, everything improves
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We All Want High Social Status
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Personal cues can have a strong effect on craving in individuals with addiction
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Traumatic brain injury linked to increased road rage
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Exactissimamente

O partido aparentemente liberal (PSD) e o partido autoproclamado dos contribuintes (CDS) juntaram vozes e argumentos para gritar aos quatro ventos que o PS, se fosse governo, regressaria às políticas “que conduziram o pais à ruína”. Sim, o mesmo Passos Coelho, que chumbou o PEC 4 e derrubou o governo socialista porque não podia aceitar uma subida parcelar do IVA, e que depois subiu esse e todos os outros impostos de forma que o próprio Vítor Gaspar classificou de “enorme”, está agora escandalizado com a ideia de que o PS queira descer alguns dos impostos que ele aumentou, fazendo tábua rasa das suas promessas eleitorais. E Paulo Portas, que queria que as “gorduras do Estado” deixassem de chular a riqueza criada fora dele, e tantas vezes contra ele, que se demitiu às tantas porque viu, e bem, na nomeação de Maria Luís Albuquerque a continuação de uma política rigorosamente oposta, e que há quatro anos assim assiste resignado ao aumento constante da despesa pública, sustentado por um aumento corresponde da carga fiscal, agora “teme” novo resgate, se se inverter a política que, para compensar a falta de coragem na realização das tão faladas “reformas”, gerou 300.000 desempregados, 250.000 novos emigrantes, inúmeras falências de empresas e uma perda de 12% da riqueza do país nestes quatro fatídicos anos para a economia portuguesa.


[...] Aqui, desgraçadamente, temos o pior de dois mundos: são liberais para privatizar ao desbarato empresas públicas, gerando monopólios privados em sectores essenciais da economia, ou para, em nome da “competitividade”, reduzirem salários a um nível indigno (mais 5% de trabalhadores a ganharem menos de 310 euros do ano passado para este ano). Mas praticam o pior do socialismo a gastar dinheiros públicos e a aumentar a dívida do Estado, a entregarem-se à voragem fiscal sem freio ou a nomear amigos e correligionários para lugares públicos, muitos dos quais deveriam ter extinto se tivessem ou memória ou pudor.


Miguel Sousa Tavares

O enterro da “Política de Verdade” pelo mais furioso dos seus publicistas

A “direita” hoje chama-se “realidade”, e não há arrogância maior, nem maior prosápia do que essa. Não só são donos da “realidade”, que só a eles cabe definir, como, mais do que isso, eles são a própria “realidade” incarnada. Isto significa que as suas políticas são as únicas possíveis e não há alternativas. O seu quadro impositivo, a que todas as políticas se tem que conformar, é uma variante pouco complexa de uma folha de Excel, um “modelo macroeconómico” cujas variantes são apenas as permitidas pelo pensamento único do “economês”. Não é neutro, significa interesses. Na prática, significa para Portugal (ou a Grécia) apenas “pagar aos credores”, atitude benévola se a dívida pudesse ser paga sem ser pela tísica do pagador ou a morte a prazo do devedor. Resta, no limite, a prisão por dívidas. Tudo isto é um absurdo e, como de costume, uma história bem mais complicada do que aquela que nos contam.


Pacheco

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Que será feito do Pacheco Pereira que enlouqueceu de 2008 a 2010, só se curando do seu ódio alucinado quando, abusando do seu mandato de deputado, conseguiu chafurdar nas cuecas de Sócrates? Que será feito do cão raivoso que andava a cronometrar o telejornal da tarde na RTP à procura do segundo a mais dado a uma qualquer notícia que envolvesse membros do Governo socialista? Que será feito do biltre que alinhou na “Inventona de Belém” e que a um ou dois dias das eleições de 2009 garantia que Cavaco sabia coisas sobre Sócrates do foro criminal que apenas não estavam ainda a ser reveladas por causa… das eleições?

O Pacheco, cujo asco pelo povoléu é publicamente assumido, vendeu a sua alma de cidadão ao fausto plástico e aspirado dos estúdios televisivos e radiofónicos, mais as catilinárias que escreve noite dentro na Marmeleira. Tendo em conta as suas capacidades intelectuais e a sua influência mediática, trata-se de um dos maiores caluniadores adentro da indústria da calúnia onde é uma estrela milionária.

Sim, Costa imita Sócrates

O PS não irá perder um só voto por causa do SMS de Costa a João Vieira Pereira. Por exemplo, não irá perder o meu, que já está perdido faz tempo. Iremos todos esquecer o disparate dentro de pouco tempo. Mas o que aconteceu não foi um episódio irrelevante. Trata-se da exibição de uma insensatez burlesca face ao que estava em causa no texto supostamente visado (caso seja só isso) e, em especial, ao que está em causa nas consequências morais daquele acto. É que o grau de escrutínio de um candidato a primeiro-ministro, para mais a poucos meses das eleições, é máximo e implacável.

Que pretendia Costa com aquilo? Esta é a pergunta a fazer. Que raio de resposta pretendia obter de forma a que considerasse ter sido reposta a justiça? Estaria à espera de um pedido de desculpas? Ficaria satisfeito com o absoluto silêncio por parte do destinatário? Contava receber um convite para almoçarem juntos e fazerem as pazes com uma bacalhauzada? A situação é demasiado estúpida, e, nesse sentido, alarmante.

Questão diferente é a de saber se tal reacção configura algum tipo de pressão ilegítima sobre o visado. E aí estamos no campo da simplicidade: só pulhas dirão que sim. É o próprio exagero da atitude de Costa, numa matéria estritamente de opinião e não de informação, a colocá-lo numa fragilidade que pode ser explorada de várias formas. A sua indignação saiu-lhe impetuosa, e por isso ingénua e mesmo galharda. João Vieira Pereira optou por atacar, expondo e explorando num registo de vitimização a oportunidade. Também não haverá por aí nada de ilegítimo, apenas de moral. É moralmente desagradável, para um certo tipo de público, estar a ver bater em fracos. E Costa é o fraco desta história.

Isto lembra outro episódio famoso e análogo, da responsabilidade de Henrique Monteiro, quando este foi para a Comissão Parlamentar de Ética, em 2010, fazer queixinhas de Sócrates. E contou com os detalhes que lhe apeteceu contar o que se tinha passado: Sócrates, na noite de 29 para 30 de Março de 2007, ligou-lhe para tentar convencê-lo a não publicar uma notícia sobre a sua licenciatura na Universidade Independente. Nesse telefonema, Sócrates emitiu “berros exaltados”. Quanto tempo demorou o telefonema? “Horas”, revelou Monteiro aos deputados. E como é que os dois se tratavam à época? Por tu. E qual foi o desfecho desse telefonema? O Expresso publicou a notícia. Quer-se dizer: dois tipos que se conhecem há vários anos, que privaram em variadas ocasiões, falaram um com o outro sobre um assunto do interesse de ambos e nessa conversa deram vazão, ou um deles deu, a estados emocionais mais intensos. No final, aquele que tentou convencer o outro saiu derrotado.

Monteiro afiançou na altura que as horas nocturnas de cavaqueira configuravam um caso de pressão ilegítima. Daí para cá, sempre que fala no assunto, só lhe falta chorar ao recordar o atroz sofrimento desse ordálio. Para mim, contudo, o que vejo de grave, gravíssimo, na ocorrência é a constatação de que Sócrates, então primeiro-ministro, dispunha de horas para estar ao telefone com o Monteiro e acreditava que essa auto-humilhação pudesse chegar para que o Expresso não alimentasse uma difamação ou calúnia. Tal parece-me veramente extraordinário e merecedor do mais visceral repúdio. Que desilusão, Sócrates…

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Economic Instability Could Contribute to Low Fertility Rates, Finds New Research
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Toxic combination of air pollution and poverty lowers child IQ
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Is the universe a hologram?
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Framing time in days instead of years could spur action toward goals
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Challenging work tasks may have an upside for the brain
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Keep It Long: Most Science Writing Advice Flops, Analysis Finds
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Could Smell Hold the Key to Ending Pesticide Use?

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Exactissimamente

Carta aberta a um possível candidato

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Adenda

Seria interessante saber em que altura Sampaio da Nóvoa se convenceu de que daria um magnífico Presidente da República. Será um sonho de infância ou de adolescência? Surgiu-lhe quando visitava o Palácio de Belém à época em que era consultor do primeiro Sampaio? Terá aterrado na sua ilustríssima cabeça aquando da organização do 10 de Junho em 2012? Ou é fenómeno ainda mais recente, de meses? Conhecer esse calendário íntimo talvez permitisse decifrar um candidato cujo discurso é vexante e não tem ponta por onde se pegue.

Esta entrevista foi dada na sequência da apresentação da sua candidatura presidencial. Ou seja, é suposto que nesta altura ele já esteja em campanha. E estar em campanha implica ter previamente decidido quais são as principais mensagens que se quer transmitir. Pois bem, no final da entrevista foram estas as três principais ideias que retive:

– Sampaio da Nóvoa considera que o principal problema de Portugal radica na falta de uma ideia de futuro para Portugal.

– Sampaio da Nóvoa pretende ser Presidente da República para ouvir as pessoas e, a partir do que vier a ouvir, conseguir estabelecer que ideia seja essa.

– No entretanto, Sampaio da Nóvoa ocupará o tempo que medeia até à sua eleição no esforço de explicar ao País a sua própria ideia para o País – “uma e outra vez, e outra vez, e outra vez” – ideia essa que nasce de mais ninguém ter tido ideias, garante, e a qual consiste em ouvir as ideias de toda a gente ao mesmo tempo que se olham essas pessoas nos olhos pedindo confiança e espalhando energia. Ah! Não esquecer que a ideia com que for eleito terá de ser respeitada, independentemente dessa outra ideia que irá sacar aos portugueses após a sua audição. Isto ficou dito, é conferir.

Eis uma figura que parece a réplica vingativa de Seguro, embora menos tonta do que o original, alimentando o mesmo “magma de afectividade” e cultivando o mesmo populismo antipartidos de quem se imagina superior à política. Mas o mais extraordinário, ou assustador, é constatar que as suas palavras apagam a própria História. Ele descreve o País e a sua missão no topo da hierarquia do Estado como se tivesse aterrado em Portugal em 2015 e nada soubesse do nosso passado para além de generalizações e abstracções. Só se sente à-vontade para apresentar factos e referentes concretos quando fala da sua experiência académica ou biográfica. Quanto ao que se tem registado desde o 25 de Abril no regime e na comunidade, nicles ou merda. Daí o seu entusiasmo com o vocábulo “confiança”, precisamente aquilo que temos para gastar com os estranhos. Quão mais afastado do nosso quotidiano, mais confiança temos de convocar para permitir que alguém entre na nossa intimidade. Faz todo o sentido que se concentre no pedido da confiança.

Uma das piadas do ano está a ser a criação do mito a respeito dos seus dotes oratórios. Nunca a capacidade para o copy/paste tinha sido tão valorizada cá pelo rectângulo. Ora, sem o papel à frente, uma entrevista revela muito melhor os seus recursos dialógicos. O que saiu nesta ocasião foi confrangedor, e não me refiro só à vacuidade transversal a qualquer uma das temáticas abordadas. A perplexidade é a de que nada se salva. Aliás, algumas passagens merecem castigo. Como esta:

"- O que é que significa que estará numa luta intransigente em defesa do Estado social?

- Significa que quando alguém se apresenta a uma candidatura com esta responsabilidade tem que dizer claramente quais são as suas ideias para o País. E, em particular, no caso do Estado social, as minhas ideias são claras. Eu acho que Portugal precisa de ter um Estado social na Educação, na escola pública, no Serviço Nacional de Saúde, nas questões do trabalho, nas questões da Segurança Social, precisa de ter uma sociedade que tenha essa coesão que é dada pelo Estado social. E precisa de ter um Estado que, além disso, tenha a capacidade de investir nos sectores estratégicos para o futuro. Um Estado que tenha capacidade de acção e de actuação. Eu creio que isso é absolutamente decisivo.

Agora, o Estado não substitui muitas dinâmicas da sociedade civil. Eu julgo que aliás uma das experiências, uma das aprendizagens, que esta crise nos trouxe é a extraordinária qualidade e dedicação do trabalho, sobretudo nos sectores sociais, no País inteiro. No País inteiro... Em associações ligadas à Igreja, em associações sociais, em movimentos diversos, nas próprias famílias que criaram uma malha, uma rede de apoio. Muitas vezes de apoio aos jovens, que vivem estas situações dramáticas de desemprego e de emigração. Muitas vezes de apoio aos netos. Noutros casos ao contrário, de apoio aos idosos, de apoio às pessoas que estão numa situação difícil do ponto de vista do envelhecimento. Eu acho que um dos exemplos mais extraordinários dos últimos anos foi esta capacidade de construir estas redes. Estas redes são muito importantes, estas redes são essenciais para o futuro de Portugal."

A única parte clara neste segmento está na pergunta. Ana Lourenço não lhe perguntou se ele sabia o que era o Estado social. Contudo, a sua resposta foi tão básica que se ficou por esse nível. O que a Ana queria inquirir remetia para o adjectivo “intransigente”; o qual é cabeludo, valente. Quem promete uma “luta intransigente” a respeito seja lá do que for está, acto contínuo, a declarar-se radical nesse ponto. Daí a relevância da pergunta.

Se a primeira parte da sua resposta é um nada onde cabe tudo, na segunda temos a defesa intransigente da política além-Troika e do discurso da culpa com que a direita decadente embrulhou a gula pelo pote. Descrever o propósito do empobrecimento e do desmantelamento do Estado social como a génese do “homem novo” que cria redes solidárias “essenciais para o futuro de Portugal” só não provocou o mínimo alarido porque se calhar ninguém conseguiu aguentar a entrevista até essa altura e a própria Ana Lourenço terá fingido que não ouviu.

Sampaio da Nóvoa é um provinciano. E uma excelente pessoa que deseja ardentemente aumentar o número de casos onde se valida o Princípio de Peter. Infelizmente, do que precisamos na Presidência da República é de um candidato que o fosse a contra-gosto, por obrigação, empurrado à força. Do que não precisamos é destes todos que se babam na via pública sonhando-se com autoridade para nos massacrarem com o seu bocejante narcisismo.

Do queijo ao chouriço

O episódio do elogio de Passos Coelho a Dias Loureiro não tem especial interesse desse ponto de vista onde o Pedro se deleita a gozar com a República. Essa será até uma faceta simpática do actual primeiro-ministro, exibindo-se como um certo impulso dadaísta que lhe molda o discurso trôpego, a gramática kitsch, o pseudo-liberalismo saloio e o atrevimento em registo Feira da Malveira. Não.

Ademais, Dias Loureiro, o porco-riquenho, nunca foi acusado de nada de nadinha de nada. Sim, mentiu ao Parlamento, mas, quer-se dizer, terá isso alguma importância? Ainda por cima sendo um ícone pop do laranjal e uma das traves mestras do cavaquismo? Pois.

O que realmente interessa no sapateado de Passos é o regresso dessa consciência de não haver fugas ao segredo de justiça na miríade de processos judiciais originados pela roubalheira do BPN – e já lá vão 7 anos. Dado o número exorbitante de agentes policiais e de Justiça envolvidos, tal quantidade desmente forçosamente a tese da disfunção sistémica na origem de algumas fugas. Como se constata, é possível manter processos altamente complexos, demorados e melindrosos sem o espectáculo dos assassinatos de carácter e da judicialização da política. Mas, porquê? Será por não haver mercado, dado não existirem órgãos de comunicação social especializados em chicana, calúnias e ódio na área do PS? Será apenas uma questão de falta de comprador, uma questão de dinheiro? Ou haverá nesta dinâmica das fugas selectivas, sempre com o mesmo alvo, um elemento estratégico e/ou passional?

Já li, numa direitola intensamente fanática, a ideia de que a nacionalização do BPN tinha sido decidida pelo Governo de Sócrates exclusivamente para assim os monstros poderem deitar a mão aos papeluchos que comprovavam a ligação umbilical de Cavaco ao banco do seu genial secretário de Estado dos Assuntos Fiscais. Aparentemente, porém, os xuxas não devem saber o que fazer com essa documentação, talvez por serem muito burros ou por não terem frequentado as mesmas escolas da rapaziada do PSD e do CDS. Seria maravilhoso ver o Pedro, com a sua fluência deslumbrada quando o tema é a probidade dos ricos, a explicar estas matérias ao nosso povo tão carente de ensino e comando. Talvez numa próxima ocasião, calhando visitar uma fábrica de chouriços.

A violência dos sonsos

O estado de insanável contradição moral que Cavaco ostenta desde 2008 é um microcosmo daquilo que na cultura da direita portuguesa decadente se considera ser o “fazer política”. Não tem qualquer novidade por comparação com outras práticas em geografias e calendários diferentes, pelo contrário. Antes fica como a síntese do que de mais baixo se pode levar a cabo em democracia para conquistar o poder: diabolizar e conspirar. Com uma diferença, contudo, a de Cavaco juntar à vilania a alucinação. Ele, de facto, imagina-se puro, superior, iluminado. Já nos dirigentes e militantes do PSD e CDS, tomados aqui em grupo na sua condição de cúmplices, trata-se apenas de pragmatismo. O poder conquista-se com mentiras e canalhices, valendo tudo desde que não se seja apanhado pela bófia, e não há cá noites mal dormidas à pala disso.

Veja-se este trecho notável, retirado do último discurso que fez enquanto Presidente da República nas comemorações do 25 de Abril. É notável do ponto de vista político, do ponto de vista antropológico e também, ou principalmente, do ponto de vista psicológico, quiçá psiquiátrico:

Noutro domínio, de grande importância, tornou-se evidente a necessidade de garantir a segurança dos cidadãos face a novas ameaças transnacionais, a que devemos dar resposta através da afirmação dos nossos valores e princípios, mas também com recurso a meios preventivos e repressivos. Portugal é uma sociedade aberta e tolerante. Para continuar assim, tem de rejeitar com firmeza os extremismos e ser intransigente com a violência e o terrorismo.

Um desafio premente que aqui se coloca é o de adequarmos a organização e o funcionamento de todas as estruturas que compõem o nosso sistema de segurança nacional às exigências que decorrem destes novos perigos, que não se fazem anunciar e que não conhecem fronteiras.

Ainda que num plano claramente distinto, a violência não se manifesta apenas através da força física e das armas. Temos assistido, no debate público em Portugal, a um nível de crispação e de agressividade verbal que, muitas vezes, não hesita em extravasar da controvérsia de opiniões para os ataques e os insultos de caráter pessoal.

A quem mais é que lembraria passar directamente da temática do terrorismo, e sua galeria de crimes contra a humanidade, para a temática da tipologia superficial do debate político? A quem mais senão a quem esteja, nesta específica altura do campeonato, preocupado em equivaler assassinos dementes com políticos e cidadãos desagradáveis? E quem é que poderão ser esses políticos e cidadãos senão os da oposição?

Quando Cavaco lançou a estratégia do “falar verdade aos portugueses”, em conluio com a “Política de Verdade” da sua amiga Manela, não se mostrava nada preocupado com os níveis de crispação e com as calúnias. Precisamente o oposto, essa estratégia o que pretendia era o crescendo da agressividade no espaço público, de forma a criar um ambiente insuportável onde o adversário político se transformasse num inimigo moral. Em vez daquele que tinha uma proposta diferente, a direita a partir de 2008 apostou tudo em fazer de Sócrates e do PS aqueles que violavam as leis compulsivamente e não eram dignos de qualquer confiança, por isso devendo ser escorraçados da cidade por estarem possuídos pelo mal.

Será que Cavaco não se lembra do que já conseguiu alcançar em matéria de violência? Quando Cavaco, ou alguém em seu nome, lançou a “Inventona de Belém” em cima das eleições de 2009, atingiu-se um grau inaudito de crispação, difamação, calúnia, mesmo alarme público. O normal funcionamento das instituições foi para o galheiro e chegou-se ao ponto de vermos o Correio da Manhã a noticiar que se tinham chamado as secretas militares a Belém para averiguarem se havia escutas posto que a Presidência não confiava nas secretas civis, as quais ficavam sob suspeita de estarem a mando dos socialistas. Isto aconteceu a poucas semanas das eleições. Quando Cavaco foi para o comício da tomada de posse em 2011, a três dias de uma manifestação de protesto contra o Governo socialista, insultar os políticos por atacado e pedir para que as pessoas se revoltassem na rua, que nível de agressividade terá atingido? E como é que Cavaco avalia as seguintes declarações que, numa bizarra coincidência, lhe pertencem e foram gritadas na noite da sua reeleição – as quais ficam igualmente como uma estreia histórica quanto à degradação da figura presidencial:

“Nesta eleição há vencidos: são aqueles políticos e seus agentes que preferem o caminho da mentira das calúnias, dos ataques sem sentido, ao debate de ideias sobre o futuro de Portugal. Foi o povo que democraticamente os derrotou”, frisou Cavaco Silva, arrancando mais aplausos. “Uma vez mais, o povo português não se deixou enganar. Esta é a noite da vitória da dignidade. A honra venceu a infâmia e a qualidade da democracia ganhou com esta vitória da dignidade”, reforçou.

Sobre uma grande bandeira portuguesa, numa varanda interna do Centro Cultural de Belém, voltaria a falar aos seus apoiantes para dizer, uma vez mais, que prevaleceu perante o que considerou ser a “vil baixeza” das estratégias dos adversários. E também para deixar críticas aos média: “Eu penso que seria extremamente benéfico para o funcionamento da política em Portugal que a nossa comunicação social revelasse os nomes daqueles que estão por detrás desta campanha que foi orquestrada contra mim”.

Deste homem não se poderá dizer que tenha qualquer aproximação com a natureza, sequer a imagem, de um terrorista. Mas espero que um dia a História lhe faça justiça. Espero que a História não esqueça o terror institucional que a sua ambivalência e sectarismo representaram para a qualidade da democracia.

Na república dos cidadões iguais

O discurso de Sua Excelência o Presidente da República, na 41ª Sessão Solene Comemorativa do 25 de Abril, foi interrompido por vários aplausos dos deputados do PSD e CDS. Eis as passagens que eles saudaram:

– Aplausos para a descrição positiva da economia nacional

– Aplausos para o apelo ao regresso dos jovens emigrados

– Aplausos para o apelo ao consenso em nome do interesse nacional

– Aplausos para o combate à corrupção + 1 + 1

– Aplausos para o mérito como critério de recrutamento na administração pública

– Aplausos para a qualidade dos serviços públicos como factor da qualidade da democracia + 1

– Aplausos para a defesa do SNS

– Aplausos para a elevação do debate, acabando com as difamações e calúnias

– Aplausos para a celebração dos compromissos de Abril

– Aplausos finais, de pé

Duvido muito que os deputados do PSD e do CDS sejam hipócritas. Não creio nessa hipótese porque é sabido que a gente séria e os filhos-família só escolhem esses dois partidos para exercerem a sua actividade política, desde sempre e para sempre. É também do conhecimento público que o PS selecciona os seus deputados, dirigentes, militantes e até os simpatizantes de acordo com atestados médicos onde se diagnostique baixeza moral e a pulsão para a violação da Lei na primeira oportunidade.

Não se tratando de hipocrisia, portanto, os aplausos exibiram as convicções e práticas da Maioria. Revelaram estar de acordo com o empobrecimento dos portugueses para além do que o Memorando impunha, revelaram estar contra os convites para que os portugueses abandonassem a chamada “zona de conforto”, revelaram abominar a pressa em ir ao pote e com isso afundar-se o País num resgate de emergência, revelaram que a luta contra a corrupção é o combate das suas vidas, revelaram estar muito chateados com as políticas do Governo de recrutamento de quadros para o Estado através do cartão partidário, revelaram que tudo têm feito para melhorarem os serviços públicos, revelaram que estão felizes e contentes com o que se passa no SNS, revelaram serem alérgicos à chicana, à difamação e à calúnia, revelaram que se inspiram no exemplo da Assembleia Constituinte e seu espírito de compromisso, e, finalmente, revelaram que Aníbal António Cavaco Silva é o seu grande líder, o modelo supremo das qualidades e virtudes da direita portuguesa.

Do que mais gostei, e em sintonia com a tripla de aplausos, foi do entusiasmo com que os deputados do PSD e CDS mostraram estar com o Presidente da República nesse pleito homérico contra a corrupção. Se há pessoas em Portugal que consigam ter mão nesse flagelo – que de tão ubíquo nem precisa de números, só de títulos na imprensa especializada – são os deputados do PSD e do CDS, guiados pela presciência e coragem do actual Presidente de todos os portugueses.

[clap!clap!clap!]