Exactissimamente

A questão é esta: Marcelo Rebelo de Sousa representa, ao mais alto nível, um discurso que quer passar por análise ou comentário políticos, mas de onde a política foi completamente evacuada. Ele assimilou completamente a política quer à luta pelo poder, quer ao exercício e ao objecto desse poder. Para ele, toda a política é uma questão de tácticas e estratégias, de fintas e simulações. E ganha o que for mais cretino. É desta matéria que são feitas as suas prelecções, enquanto animador do crochet televisivo. E, nesse posto, ele é “o professor”, isto é, aquele que ocupa o lugar da verdade e detém o saber do expert. Esta ideia de uma inteligência que sabe da coisa política e se dirige às pessoas que não sabem, e que por isso lhe fazem perguntas para obter a resposta oracular, é uma negação da política. Na melhor das hipóteses, aquilo de que Marcelo Rebelo de Sousa fala pertence à ordem da polícia (ele próprio transformou-se num cartoon de polícia sinaleiro) e não à ordem da política, para nos referirmos a uma oposição já clássica. Esta noção de polícia deve ser entendida não no sentido da repressão, mas da lógica puramente gestionária que ordena a sociedade por funções, lugares e títulos a ocupar. Ora, um cartoon pode chegar até a Presidente da República (não seria, aliás, o primeiro), mas não serve para iniciar qualquer conversa ou diálogo que tenha como tarefa repolitizar o espaço político. Em relação ao que Marcelo Rebelo de Sousa diz e opina não importa discordar, estar mais à direita ou mais à esquerda, ou convidá-lo para o espectáculo pluralista do conflito das opiniões. É de outra coisa que se trata, se a tarefa é também a de impedir a cretinização comunicativa e opinativa. Essa coisa chama-se “diferendo” e significa um desentendimento de base.

António Guerreiro

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Daniel Oliveira, copiando a turbamulta que ganha do belo a escrevinhar para a indústria da calúnia, teve também de enfiar Sócrates num texto a respeito de António Costa e do seu incompreensível SMS enviado a João Vieira Pereira. Assim:

Não se passa a fronteira que Sócrates passou, quando tentou usar o Estado para perseguir um canal de televisão que não lhe era simpático.

Fonte

Ai Sócrates tentou usar o Estado para perseguir um canal de televisão? E esse canal limitava-se a “não ser simpático”?… Mas isso é fascinante! Como foi que fez? Isto é, que sabe o Daniel acerca dessa ignomínia, quiçá crime? O canal foi, de facto, perseguido? Se não o foi por qualquer razão, o Daniel estará em condições de garantir que o seria não fora esse percalço? E onde se está a basear para as suas conclusões? Será em escutas ilícitas de conversas privadas?

Quando a Prisa entrou no capital da TVI, em 2005, Marques Mendes veio de imediato denunciar que o PS estaria a querer controlar essa televisão através do PSOE. Em 2007, quando Pina Moura entrou na Administração da Media Capital, o PSD veio de imediato falar de “descaramento total” e de “tomada de controlo” da TVI pelo PS. Em 2008, a TVI iniciava uma campanha de assassinato de carácter e de calúnias contra Sócrates sem antecedentes conhecidos em Portugal tal a sua logística e aparato mediático, a qual durou até às eleições de 2009. Que se teria então passado sem o domínio do PS na linha editorial da TVI durante esse ano eleitoral? Provavelmente, o casal Moniz teria seguido uma das sugestões dos magistrados que se divertem no Facebook a malhar em Sócrates e lançaria um reality show onde os concorrentes teriam de matar militantes e dirigentes socialistas no Largo do Rato, mas perdendo pontos caso acertassem na porteira.

Quando o Grupo Lena, o tal que só corrompe socialistas, anunciou que ia lançar um projecto de imprensa, correu logo o boato de que vinha aí o jornal dos xuxas. E finalmente, convenhamos. Estávamos em princípios de 2009, a construtora que andava a encher um primeiro-ministro de dinheiro através da Suiça teria o maior interesse em que ele continuasse no poder para que a copiosa corrupção não abrandasse. O jornal ajudaria nessa missão, era limpinho e clássico. Ora, se bem o pensaram, bizarramente o fizeram, pois foram entregar o serviço ao Martim Avillez Figueiredo. A nojeira resultante até meteu perseguições a bloguers que ousavam apelar ao voto no PS ou que, meramente, não odiavam o engenheiro. Não admira que o Grupo Lena ande a passar por dificuldades financeiras, dado o desvario da sua estratégia.

Entretanto, um dos maiores grupos de comunicação portugueses é pertença do militante número 1 do PSD. A Cofina detém o Correio da Manhã. A Controlinveste tem o DN, o qual sob a direcção de João Marcelino foi instrumental para a subida ao poder de Passos Coelho. O Sol é um tablóide de direita. E o Grupo Renascença não se coíbe de apoiar os mesmos de sempre (pista: não apoiam esquerdistas, cruz-credo!). Quanto à RTP, é pedir ao Pacheco as cronometragens dos telejornais da hora de almoço para se conferir que o PS também nunca se safou por aí. Esta paisagem explica muito, se não for tudo, da apatia cívica com que se aceita a degradação do Estado de direito no processo de entregar a uma direita decadente o poder total: Parlamento, Governo, Presidência, Justiça e comunicação social.

O Daniel não parece muito preocupado com isso. Com tentativas do Sócrates para não sei quê, sim, isso é foleiro e não podemos esquecer tanta maldade. Agora, ter ricalhaços da oligarquia que curtem pagar a malta baril da esquerda para teclarem umas cenas ou para serem filmados na converseta de café? ‘Tá-se bem. E viva a liberdade de imprensa.

10 thoughts on “Exactissimamente”

  1. Daniel Oliveira faz apenas o que lhe compete como ilustre e coerente membro da esquerda pura e verdadeira tantas vezes denunciada neste espaço: procura conquistar votos onde os pode ir buscar ! Se isso implicar entregar de novo poder à direita, tanto melhor, Oliveira não se inibirá de atribuir mais uma vez a responsabilidade ao PS ! Porquê ? Bem, na altura ele encontrará uma explicação qualquer ! Quem sabe se não se servirá do SMS do Costa ….

  2. Exactissimamente

    “Em última análise, a aplicação do programa de austeridade foi para o Governo uma oportunidade e uma alavanca. Uma oportunidade para implementar um conjunto de políticas que faziam parte da sua agenda ideológica. Uma alavanca porque foi utilizado para reforçar as capacidades políticas do executivo, que assim foi capaz de ultrapassar pontos de veto e a representação dos interesses organizados, concretizando políticas que pretendia implementar, mas que, sem esse constrangimento externo, não teriam sido concretizadas.
    No fim, resta uma certeza, os sacrifícios exigidos aos portugueses foram desproporcionados e, em importante medida, inúteis.”
    Fonte: http://www.publico.pt/politica/noticia/mitos-sobre-as-politicas-de-austeridade-do-governo-1695612

  3. essa coisa de ” enfiar Sócrates num texto a respeito de António Costa e do seu incompreensível SMS enviado a João Vieira Pereira” também passou por aqui, ou não?

  4. ignatzia, passou, mas para tomar partido contra a acusação de que o SMS de Costa estaria a configurar uma pressão ilegítima sobre um jornalista. Logo, para descrever a exploração deste tipo de casos onde há comunicação privada entre políticos e jornalistas. No caso do Daniel, Sócrates aparece metido ao lado de Relvas e fica embrulhado nos processos usuais da difamação e calúnia que preenchem o espaço público onde o PS é o bombo da festa.

  5. … e andamos há uma década a aturar os trombos de um “psicopata” pago pela Impresa.
    Mas, como dizes: tá-se bem. E viva a liberdade de imprensa.

  6. Qualquer cronista ou comentadeiro como o Daniel Oliveira acaba por
    sofrer de vertigens, razão próxima do modo como observam algumas
    situações que, devido à “maleita”, são distorcidas sem tocar a realidade
    dos factos em apreciação! Também reparei no caso na crónica recente
    onde, metido à força aparece o José Sócrates, só por exigir algum rigor
    a certas “estrelas” do mundo do diz-se, caso da Judite e do escritor J.
    Rodrigues dos Santos em má hora virado para a política!!!

  7. No ponto n.º 1 do seu primeiro programa (1974) o então PPD declarava que o seu objectivo era a “conquista do poder”.
    Depois, envergonhados, esconderam isso, que continua hoje a ser o seu verdadeiro ponto n.º 1 e, no fundo, o seu ponto único.
    O Marcelito é a mais fiel incarnação do “espírito PPD”.

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