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Lunático pretende que teria evitado a crise…

…se não se tivesse demitido.

 

 

Campos e Cunha em entrevista ao i de hoje disse que “o Estado foi à falência com base nas políticas seguidas, em particular desde 2008, pelo engenheiro Sócrates”. E acrescentou: “Não esqueço quem nos levou à bancarrota”.

Curioso. O fulano opta por não falar de 2005-2008, pois seria penoso reconhecer a consolidação orçamental desses anos, dirigida por Teixeira dos Santos. Mas que terá acontecido a partir de 2008 que precipitou uma crise económica e das finanças públicas em Portugal? Talvez uma crise financeira internacional seguida da crise europeia das dívidas soberanas? Estavas acordado, Campos e Cunha?

Impõe-se uma pergunta: se Campos e Cunha não tivesse feito chichi pelas pernas abaixo e não se tivesse demitido em 2005, poucos meses depois de ter tomado posse como ministro das Finanças, e se tivesse continuado no governo, como é que ele teria passado entre as pedras de granizo a partir de 2008? Porque é isso que, na entrevista ao i, ele pretende que teria conseguido fazer.  Não tem coragem para o afirmar claramente, o que é típico da sua índole esquiva e temerosa. Mas insinua, de facto, que teria evitado a crise das finanças públicas em Portugal.

Que solução milagrosa teria ele para evitar a quebra das exportações, a retracção da procura interna e externa, a subida do desemprego, a descapitalização dos bancos e das empresas, a dramática quebra das receitas fiscais, a urgente necessidade de financiamento do Estado, dos bancos e das empresas privadas, a subida dos juros das obrigações da dívida pública no mercado internacional, etc.? Teria Campos e Cunha evitado a crise internacional, a crise na Europa ou só a crise portuguesa? Teria posto Portugal a pão e água desde 2005, ou mesmo desde 2008, quando ainda se estava longe de conhecer a duração e todos os efeitos da crise? E teria sido isso uma boa solução? Não sabemos nem ele o explicou. Nem hoje nem nunca.

Mas da bancada do ex-ministro cobardola e ressabiado é fácil pôr culpas, mandar postas de pescada e, em matéria política, dar palpites cabotinos como este, revelador do lunático que ele é:

“Os votos em branco deviam estar representados no parlamento por lugares vazios. Tinha duas vantagens. A primeira era trazer pessoas que não votam para dentro do sistema. Em segundo lugar, levaria a que os partidos competissem entre eles, mas também que ganhassem confiança do seu eleitorado.”

A solução mágica de Campos e Cunha, insistentemente exposta por ele na comunicação social – e hoje novamente no i – para o problema político português, tal como o fulano o diagnostica (a alegada falta de representatividade do parlamento e do sistema de partidos), é esta: incentivar o voto em branco. Uma imbecilidade nunca experimentada em nenhum país do mundo, porque nenhum país do mundo tem o azar de ter um governante lunático como Campos e Cunha. O fulano acha que cadeiras vazias no parlamento significaria “trazer pessoas para dentro do sistema” e “levar os partidos a competir entre eles”. Esta é a lógica da batata do tal especialista em finanças públicas que pretende que teria evitado a actual crise financeira do Estado português.

Não sei se a abécula fez as contas, mas a habitual percentagem de votos em branco não daria, com sorte, para mais de uma cadeira vazia no parlamento. Para Campos e Cunha bastaria. Seria a cadeira dele, vazia. É uma boa imagem.

RTP: a Igreja lava as suas mãos?

O que diriam os bispos italianos, alemães, ingleses, franceses ou espanhóis se o governo resolvesse privatizar as televisões públicas dos seus países? A questão lá nem se põe, mas aposto que, se tal eventualidade surgisse, fariam uma santa guerra a propósito tão idiota. Mesmo no caso da água, que Berlusconi queria entregar aos privados, a Igreja católica italiana levantou uma onda de protesto, cujo curioso slogan era “A água é de Deus”. Mobilizaram-se os católicos, padres, bispos e até cardeais contra o plano do governo italiano, que acabou, aliás, rotundamente vencido num referendo nacional sobre o tema. Diga-se que Berlusconi, com as suas sete cadeias de televisão, nem sequer arriscou a ideia de privatizar a TV pública.

E por cá o que pensa a Igreja das privatizações anunciadas da RTP e das Águas de Portugal? Ninguém sabe. Paira um silêncio manhoso e pouco santo, hoje denunciado numa coluna do Público pelo cineasta António Pedro Vasconcelos, relativamente ao projecto de privatização da RTP. O que parece fortemente é que a Igreja católica portuguesa, desde que continue a ter os seus espaços nas estações de rádio e televisão privatizadas ou concessionadas a privados, não se importa nada com os planos do governo. Lava as suas mãos, como sugere Vasconcelos.

Marques Mendes, não se sabe se na qualidade de pequeno conselheiro de Estado omnipresente na política ou se na – até agora desconhecida – qualidade de católico, foi há dias a Fátima tranquilizar as hostes da Igreja. Segundo ali declarou, o tempo de emissão das confissões religiosas no serviço público de rádio e televisão “pode e dever manter-se”. E acrescentou esta coisa curiosa: “Esse debate ainda não foi iniciado, mas tem que ser feito e, na altura própria, essa componente de serviço público das confissões religiosas, tem de ser salvaguardado”. A ideia do pequeno conselheiro é a de que, com a Igreja posta em stand by, o projecto do governo passa sem novidade de maior. O desplante do fulano: agora não é a altura própria! Quis ele dizer: não estrilhem, mantenham-se quietinhos e caladinhos, que no final têm o rebuçado. Isto é, o prato de lentilhas, de que reza a Bíblia.

Não sendo católico, quero reconhecer na Igreja uma entidade cuja independência, espiritualidade, valores éticos e doutrina social representam valores estimáveis em qualquer sociedade plural. Quero reconhecer, mas ela não me deixa… Então a Igreja católica portuguesa, se não lhe forem ao tempo de antena, não tem nada a dizer sobre o projecto de transformar Portugal no único país europeu sem uma televisão pública generalista e sem um canal público vocacionado para programação cultural de qualidade? Então a Igreja está-se nas tintas para os planos borgianos-coelhinos de transformar a RTP-1 em mais um canal de novelas e tele-lixo e de extinguir a RTP-2?

Quem é que disse isto?

Sem ir ao Google, quem é que você acha que disse a frase abaixo?

A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, a alma de situações sem alma.

Escolha, que é fácil:

João César das Neves

Álvaro Cunhal

Christopher Hitchens

Madre Teresa de Calcutá

Mitt Romney

Irmã Lúcia

Hugo Chávez

Padre Américo

Barack Obama

Frei Bento Domingues

George W. Bush

Papa João XXIII

Karl Marx

António Borges

Richard Dawkins

Fidel Castro

D. Januário Torgal Ferreira

 

Aqui vai a solução, sem o nome do autor, mas com a citação completa:

“O sofrimento religioso é, ao mesmo tempo, a expressão do sofrimento real e um protesto contra o sofrimento real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, a alma de situações sem alma. É o ópio do povo.”

 

Atenção pessoal, o governo perdeu os travões

Primeiro foi a história da TSU. Foi preciso encenar aquela coisa do Conselho de Estado para que Passos Coelho parasse e fizesse marcha atrás.

Agora é a história da privatização da Caixa que, segundo o Expresso, foi “travada” in extremis por Belém e pelo… Banco de Portugal (não estou a delirar).

O governo dá cada vez mais a impressão de ser inimputável, necessitando ter sempre alguém à perna para se evitar o pior. Filme de terror, não é?

Será que o Borges fez os exames todos lá na América?

Sobre a abortada reforma da TSU, que todos os assalariados, a maioria dos empresários, grande número de comentadores económicos e cerca de 90% dos portugueses consideraram uma estupidez e/ou um roubo, disse hoje António Borges, no seu português algo claudicante:

Que a medida é extremamente inteligente, acho que é. Que os empresários que se apresentaram contra a medida são completamente ignorantes, não passariam do primeiro ano do meu curso na faculdade, isso não tenham dúvidas.

O super-pseudoministro Borges assegurou ainda que a abortada reforma da TSU não implicava uma transferência de rendimentos dos trabalhadores para as empresas: “Não se trata de transferir rendimentos de ninguém para ninguém”. Dando-se conta de estar a negar o inegável, observou todavia, agitando o seu papão preferido:

Acho extraordinário o debate de que estamos a transferir dinheiro do trabalho para o capital. Parece que voltámos ao marxismo e que o capital é uma coisa má.

O Borges tem razão, só mesmo o marxismo é que seria capaz de chamar transferência de dinheiro a uma transferência de dinheiro. Mas ficámos a saber pela boca deste especialista de managerial skills que a maioria dos empresários portugueses é “completamente ignorante” e que jamais passaria no primeiro ano do curso dele. O Borges não se pronunciou sobre as centenas de milhares de manifestantes contra a medida, mas podemos conjecturar sem risco que os considera abaixo de lixo marxista, qualquer coisa como C- num imaginário rating da Standard & Poor’s.

Entretanto, à revelia do Borges, a revista online The American, órgão do American Entrerprise Institute, um think tank da direita, publicou uma artigo sobre a reforma portuguesa da TSU, intitulado Um auto-golo em Portugal

Vale a pena citar uma parte, que só diz aquilo que a massa dos portugueses “completamente ignorantes” está farta de saber, isto é, que a medida não faria qualquer sentido do ponto de vista económico e que a última coisa de que Portugal precisa neste momento é de uma quebra substancial da procura agregada:

The public outrage against the government’s social security proposal would suggest that it was ill-advised from a political standpoint in a way that is all too reminiscent of Margaret Thatcher’s poll tax in the United Kingdom in 1989, which cost her so dearly politically. However, the more disturbing aspect of the proposal is that it makes very little economic sense, especially when Portugal is in a deep recession and the IMF-EU program is already forcing it to pursue a pro-cyclical fiscal policy.

The last thing that Portugal needs right now is a further meaningful reduction of aggregate demand. Yet that is precisely what this social security proposal would do. A hike of as much as 7 percentage points in employees’ social security contributions will surely lead to an immediate substantial decline in household consumer spending. This would especially be the case considering how income-constrained most Portuguese households are.

E o artigo termina fazendo votos para que a medida não vá avante, caso contrário a economia portuguesa em 2013 ficará boa para a extrema-unção.

Perante tal atestado de inépcia passado pelos seus pares dos states, resta a pergunta: – Será que o Borges fez os exames todos lá na América? Ou teve umas equivalências à Relvas?

As somas nulas do governo

Na oposição, a plateia laranja agitava histericamente o espantalho das fundações e das PPP – símbolos máximos das gorduras e da ruína do Estado. No poder, os Abranhos, Gouvarinhos e Acácios, obrigados a fingir que cumprem algumas promessas, só têm produzido pilhérias, como diria o pai deles, o Eça.

Com previ, a histeria anti-fundações pariu um rato. Gastaram um pipa de massa num censo de palhaçada que classificou a Gulbenkian, a mais importante fundação portuguesa, abaixo da fundação do Alberto João Jardim, denunciada na Madeira como uma falsa fundação, ou seja, uma organização que existe para receber “donativos” de origem duvidosa, para financiar actividades partidárias e para isentar esse partido de diversos impostos e taxas, como o IMI. Agora vêm os governantes propor a extinção de 11 fundações universitárias, medida essa que não vai representar 1 cêntimo de poupança e quiçá, a prazo, vai aumentar a despesa do Estado. No melhor dos casos, será de soma nula.

Quanto a Serralves, Casa da Música, Casa das Histórias de Paula Rego, etc., a decisão segue o lema principal de Passos Coelho: “Que se lixem!” De facto, Portugal não merece ter museus nem salas de concertos. A propósito: quanto terá custado a construção e manutenção até hoje do Centro Cultural de Belém, obra faraónica da época do sr. Silva, em cujo reinado se fez também a mais faraónica sede de um banco em Portugal, a da CGD? Será que Ferreira Leite também engloba o CCB e a sede da CGD naqueles investimentos que “arruinaram o Estado” e “comprometem o futuro dos nossos filhos”?

O guru de Economia da Rádio Católica, o esverdeado Sarsfield, foi ontem à TV explicar que antigamente é que era bom: um milionário quando morria deixava o pastel para uma fundação e o Estado não tinha que lá meter um tostão. (Nunca foi verdade: o próprio Botas perdoou todos os impostos a Calouste Gulbenkian e à Fundação). Agora não, lamenta-se o esverdeado comentador, as fundações querem “viver à pala” do Estado. Sarsfield, que de vez em quando não recua perante as opiniões mais trogloditas, não explicou (também ninguém lhe perguntou!) porque é que o censo do governo não abrangeu as 100 fundações da Igreja e quanto é que estas recebem em subsídios e benefícios fiscais do Estado.

Quanto às PPP, o governo fez mais ou menos o mesmo passe de ilusionismo. A tal poupança que a renegociação dos contratos vai originar tem como contrapartida para as empresas que o Estado – através das Estradas de Portugal, etc. – vai assumir encargos que nos contratos cabiam às empresas. Soma nula, no melhor dos casos, previu ontem na SIC o economista Caldeira Cabral, da Universidade do Minho.

Seguramente, demite-se

Na sondagem da Católica o PSD consegue nas intenções de voto 24%, ou seja, uma queda de 12 pontos percentuais em relação a Junho. Sobem os comunistas quatro pontos para 13%, o Bloco dois pontos para 11% e até o CDS um ponto para 7%. O PS, que aparece agora à frente com 31%, desce no entanto dois pontos dos 33% que tinha em Junho. A sondagem foi realizada nos dias 15, 16 e 17, já depois do anúncio das novas medidas de austeridade do governo.

Que ilações tira Seguro a seu próprio respeito desta sondagem? E que vai fazer?

Obviamente, demite-se.

Se, se, se…

“Se me perguntam se eu soube? Claro que soube. Se me perguntam se eu tive uma opinião diferente? Tive uma opinião diferente. Se me perguntam se eu alertei? Alertei. Se me perguntam se eu defendi que havia outros caminhos? Defendi. Se me perguntam se eu bloquei a decisão? Não bloqueei”. (Paulo Portas, 16 de Setembro de 2012).

E se te perguntarem se não tens vergonha, o que é que respondes? Que nunca a tiveste?

O povo na rua

Bom, parece que foram todos para as manifs.

Nunca esquecerei a maior manif em que participei: Alameda D. Afonso Henriques, 19 de Julho de 1975. Fez história.

Espero, sinceramente, que as de hoje, por todo o país, também façam história. Por razões muito diferentes…

Mau em tabuada

Hoje, os passageiros que entravam no 46 da Carris eram recebidos por um efusivo “Boa-tarde a todos!” do jovem motorista, que usava óculos escuros de ski e era particularmente expansivo. Sentei-me perto e observei como palrava animadamente com toda a gente que ia entrando. Metia conversa, fazia perguntas, ajudava quem não lhe pedia ajuda. Em S. Sebastião, entra um rapaz de mochila às costas e é recebido com o sacramental “Boa-tarde a todos!” O rapaz devolve-lhe o cumprimento inesperado, mas o motorista engraça com ele e trata-o por tu:

– Então já começaram as tuas aulas?

– Ainda não, sou estudante universitário – responde o rapaz.

– És estudante universitário? Muito bem, muito bem. Então, diz-me lá uma coisa: sete vezes oito?

O rapaz fica atrapalhado, não consegue responder e sorri envergonhado. O motorista consola-o:

– Não és muito bom em contas, pois não? Deixa lá, o nosso ministro das Finanças também não…

Banqueiro laranja foge aos impostos e ameaça pirar-se

Atenção Direcção-Geral de Impostos! Nogueira Leite acaba de confessar que do dia 1 de Agosto até 31 de Dezembro de 2012 foge totalmente aos impostos. Num texto publicado no Facebook, o ex-conselheiro de Passos Coelho, que fez um sacrifício enorme em ir para administrador da Caixa, confessa que durante os últimos cinco meses do ano corrente não paga impostos:

 “Em 2012 o meu dia de libertação de impostos foi 1 de Agosto. Ou seja, até esse dia tudo o que ganhei entreguei ao Estado.”

Solicito à DGI que verifique a veracidade desta alegação e que tome providências urgentes, pois no mesmo texto do Facebook o banqueiro ameaça pirar-se, não sabemos se da Caixa Geral de Depósitos se do país:

“Se em 2013 me obrigarem a trabalhar mais de 7 meses só para o Estado, palavra de honra que me piro, uma vez que imagino que quando chegar a altura de me reformar já nada haverá para distribuir, sendo que preciso de me acautelar.”

E porque não se pira já?

Comentando esta tomada de posição, Francisco Louçã escreveu, também no Facebook:

“Eu fico. Porque é preciso enfrentar o governo, correr com a troika, não desistir de recuperar os salários e as pensões.”

Afinal sempre fica. Já avisou o Semedo e a Catarina?

O enterro de Portugal

Uma cegada tradicional portuguesa organizada em Agosto em Guimarães, berço da nacionalidade, acabou na demissão do comandante da GNR de Braga. O enterro de Portugal, num caixão feito por medida (video aqui), tinha sido apoiado pela Capital Europeia de Cultura 2012 e contou com a participação de um aprimorado grupo de militares da GNR armados de espingardas, por sinal disparadas para o ar no final de féretro da falecida nacionalidade.

As ótoridades iam tendo um fanico e, não havendo verba para bombardear Guimarães, demitiram de imediato o comandante da GNR da região. Ainda não foi divulgada justificação oficial da demissão, mas, de facto, não se pode deixar que se espalhe a notícia do falecimento de Portugal. Imagine-se que a troika sabia…

Post-scriptum:

A GNR participa todos os dias em procissões da Igreja católica por esse país fora, apesar do regime vigente de separação entre o Estado e a Igreja, mas pelos vistos não pode participar num acto cultural. Afinal é a cultura que está separada do Estado, não a Igreja?

O medo de criticar

O Público cedeu ontem duas páginas ao historiador Diogo Ramada Curto para fazer o balanço da polémica Loff-Ramos. Foi de bom augúrio a escolha de um verdadeiro historiador e investigador para comentar a troca de galhardetes entre dois militantes políticos que escrevem sobre história contemporânea. Sabia-se de antemão que Ramada Curto torce o nariz (é dizer pouco) a obras como as dos historiadores Ramos e Loff. A coisa prometia. Quebrando uma jura, fui levado a investir 1,60 € na compra de um exemplar do jornal de Belmiro de Azevedo – o tal que se ri dos que querem “mandar” politicamente no seu pasquim “sem pôr lá dinheiro nenhum”.

Pois bem, o artigo de Ramada Curto é uma relativa desilusão. Apostando numa alegada “serenidade académica” que, me parece, o faz abdicar da sua própria sinceridade académica, Ramada Curto declara-se pouco interessado em abordar os pontos quentes da polémica – a questão do “branqueamento” ou não do salazarismo e a questão do fanático e estapafúrdio denegrimento do republicanismo e da 1.ª República por Rui Ramos na sua parte da História de Portugal. Em lugar disso, afirma ser necessário recentrar o debate sobre essa obra de que Ramos é co-autor. Ramada Curto recusa, pois, entrar nos temas concretos da polémica suscitada entre Loff e Ramos, mas aproveita a ocasião para falar do que lhe interessa e tentar erguer, ao mesmo tempo, um modelo de debate alegadamente despolitizado, centrado em “aspectos analíticos”. Dito de outra maneira, Ramada Curto propõe-se analisar uma obra politizada e de fins políticos recentrando a atenção em aspectos criteriosamente seleccionados para evitar uma execrável politização do debate, a que ele chama “mera guerra de bandeiras à esquerda ou à direita”. Como se a própria politização de uma obra de história não fosse susceptível de ser estudada ou analisada.

Ramada Curto escolhe, assim, livremente um único tema da obra de Ramos, a guerra colonial, para em torno desse assunto tecer um punhado de considerações críticas que oferece à comunidade dos historiadores como modelo da boa e necessária crítica, que, segundo ele, tem estado ausente do panorama académico nacional. As críticas que tece à obra de Ramos são todas certeiras, valha-nos isso. Pelo tema que seleccionou para servir de modelo (a guerra colonial), adivinham-se as críticas que Ramada Curto poderia fazer às tais teses de Ramos sobre o salazarismo e a 1.ª República. Adivinham-se só, pois não as faz. O que causa mais perplexidade é que o próprio Ramada Curto denuncia neste artigo do Público o “medo de criticar” que segundo ele existe no mundo académico português. Será que Ramada Curto tem medo de criticar a politização de direita da obra de Rui Ramos? Ou terá medo de ser emparceirado com Fernando Rosas no campo esquerdista apoiante de Loff? O medo raramente é bom conselheiro…

Freitas ganha pouco

Há muito tempo que não se falava de Freitas do Amaral, o que em ex-celebridades desse calibre costuma provocar engulhos e obstipação. Anteontem Freitas dormiu mal, sempre a ruminar no seu nulo protagonismo na era Coelho – uma injustiça que só vem confirmar a ingratidão congénita do partido laranja e do gajo de Belém. Freitas nunca esquecerá que, nos anos 80, o mangas de Boliqueime se baldou a participar nas despesas da campanha Prá frente Portugal e o obrigou a trabalhar à noite durante dez anos para pagar as dívidas. O fabricante dos chapelinhos de plástico também o vigarizou, mas isso são outros contos.

Ontem, entre o peido contrito do pequeno almoço e a água de Colónia, Freitas voltou a meditar em tudo isto três vezes, o que nele costuma preceder explosões de génio. Vai daí, nasceu-lhe uma ideia poderosa. Foi ao armário roupeiro e procurou nos cabides de trás aquela camisola proletária que já não vestia desde que o filho, o futuro escritor pimba, o tratou de burguês. Sacou do telefone, convocou a RTP e largou a bomba:

“Uma pessoa que ganha mais que 15 mil euros é privilegiada. Os que ganham 50 são muito privilegiados. E os que ganham 200 mil euros mensais – porque os há – são os tubarões. Devia haver, por parte do Governo, um imposto, uma tributação especialmente pesada sobre essas pessoas”.

Que ninguém se engane. O que rigorosamente se pode inferir desta bocarra mediática do fundador da democracia cristã lusitana é isto, e só isto:

1. Que Freitas ganha actualmente menos de 15 mil por mês.

2. Que supostos amigos de Freitas, que ele secretamente despreza e inveja, ganham mais de 15 mil euros por mês.

3. Que alguns dos mais perniciosos inimigos de estimação de Freitas ganham todos, por um caprichoso acaso do destino cruel, mais do que 200.000 euros por mês. Por exemplo, o merdas do Pires de Lima quanto ganha?

 

Cara Cândida Almeida

Excelentíssima Senhora Procuradora-Geral Adjunta:

Continuamos sem saber, e gostaríamos que a Senhora Procuradora procurasse, que destino foi dado aos 30 milhões de Euros que o GSC – German Submarine Consortium pagou à ESCOM, do grupo Espírito Santo, a empresa que fez “assessoria” (lindo nome) na negociação das contrapartidas e que até criou uma empresa offshore para receber as massas.

Continuamos sem saber, e gostaríamos que a Senhora Procuradora procurasse, se alguns militares, políticos e partidos portugueses abifaram parte ou a totalidade desses 30 milhões – em suma, quem, quais e quanto.

Continuamos sem saber, e gostaríamos que a Senhora Procuradora procurasse, se o então presidente da ESCOM, Luís Horta e Costa, o “Luís das Amoreiras”, já respondeu a estas perguntas e, se sim, como respondeu. Já agora, Luís Horta e Costa ainda está em liberdade e, se sim, porquê?

Continuamos também sem saber, e gostaríamos que a Senhora Procuradora procurasse, se Paulo Portas não terá fotocópias – ou porventura os originais – dos tais documentos relacionados com os contratos dos submarinos que, segundo o DCIAP, desapareceram do Ministério da Defesa.

Alguém da escolinha da JSD se lembrou de lhe fazer perguntas sobre estas matérias, cara Senhora Dona Cândida Almeida? E se não, porque não?

 

Os amanhãs que cantam, segundo Louçã

No chamado “Fórum de Ideias” do Bloco de Esquerda em Vila da Feira (rebaptizada Santa Maria da Feira), Louçã voltou a defender a necessidade de um governo de esquerda para o país. Ouçamos o grande líder, agora demissionário após ter ajudado a direita portuguesa a deitar abaixo o governo de Sócrates (já não havia mais nada para fazer depois disso):

“A pergunta que a esquerda tem que fazer para merecer ser esquerda é porque é que o povo não há-de governar? Esse governo de esquerda, que é a grande luta que temos que travar, criará muitos debates certamente, muita contraposição, muitas dúvidas. Mas uma coisa ele fará, perante toda a oposição social [sic], ele dirá que luta pela igualdade e pelo respeito [re-sic]. Sim senhor, nacionalizará a EDP e as redes energéticas nacionais por mais que isso incomode o Partido Comunista chinês; nacionalizará serviços financeiros por mais que isso incomode a família presidencial angolana, trará os hospitais públicos para o Serviço Nacional de Saúde por mais que isso incomode os Mellos e os Espíritos Santos”.

Leram bem, é tirado da esquerda.net.

O peralvilho lunático, que não deve conhecer os resultados das últimas eleições legislativas portuguesas, quer agora, mediante intensa luta a travar em sonhos, empossar um governo do povo, perdão, um “governo de esquerda”, para “incomodar” os comunistas chineses, a família Dos Santos e os interesses dos grupos Melo e Espírito Santo no sector da saúde.

Nacionalizar os investimentos dos chineses, dos poucos estrangeiros que têm investido em Portugal, parece-lhe uma excelente ideia. Com indemnização ou de assalto, camarada Louçã? Para indemnização o putativo governo do povo, perdão, o “governo de esquerda” não terá um tostão. Resta o assalto, pelo modelo de 12 de Março de 1975. O mesmo esquema se aplica aos “serviços financeiros” dos angolanos. Para os nacionalizar, ou o tal “governo de esquerda” lhes devolve o que cá investiram ou os rouba. Não há mais hipóteses. Os Mello e os Espírito Santo aparecem na lista das futuras nacionalizações de Louçã como o diabo no Credo.

O que o Bloco de Louçã deixa em herança é esta salgalhada vomitada após uma bebedeira de alucinogénios soviéticos em terceira mão comprados na Feira da Ladra.

Um caso de histeria colectiva

Basta ler os comentários que por todo o lado se fazem à notícia das recentes declarações da procuradora-geral adjunta Cândida Almeida para nos apercebermos bem de como está difundida em Portugal uma certa histeria paranóide em torno do tema da corrupção. A senhora disse afinal meia dúzia de coisas muito simples e claras, por vezes óbvias, mas a histeria epidémica impede até de ouvir o que ela diz, quanto mais tentar entendê-lo. E quem não alinhar nessa onda colectiva histérica é logo considerado suspeito ou chalado.

Quem não disser que Portugal é um país profundamente corrupto não é patriota!

 Para o cidadão médio, Portugal é um país corrupto e a grande maioria dos políticos e funcionários são corruptos, pelo facto de os media falarem quase diariamente de casos de alegada corrupção, geralmente não provada. Basta referir-se um caso, uma acusação, uma suspeita, fica logo provado não só esse caso como todos os outros. A simples distinção entre corrupção (peculato, suborno, extorsão, nepotismo, abuso de poder, etc.) e os chamados crimes económicos e financeiros (muito mais difundidos estes) devia ser ensinada desde a escola primária, tal a confusão que reina na cabeça das pessoas. As comparações internacionais também não interessam aos paranóicos nem os consolam, porque eles têm a certeza de que a corrupção é generalizada em Portugal, uma certeza baseada não em factos, mas em conjecturas e boatos, alimentados pela sanha política, pelo sectarismo e pelo bota-abaixismo.

 Primarismo e insanidade mental é o que caracteriza este fenómeno de massas, simultâneo e complementar da peste anti-política e da aversão aos políticos, que sempre foram as antecâmaras mentais da aceitação pública das ditaduras e dos autoritarismos de todas as cores. Aliás, para gente primária e paranóica, política = corrupção, consequentemente acabar com a corrupção é acabar com a política.

 Uma das consequências mais negativas desta histeria paranóide em torno do fenómeno da corrupção é que, com tanta gente a gritar ao lobo, as pessoas acabam por se desinteressar da real ameaça de corrupção e achá-la natural e inevitável. Os verdadeiros casos de corrupção atravessam incólumes por entre esta gritaria pública e, no fim, são relativizados e perdoados. Se a corrupção é supostamente “geral”, porque não se haveria de desculpar este ou aquele caso provado? “Eles são todos iguais” – diz a bacoqueira nacional.

O ping-pong de Loff e Ramos

 Sobre a polémica entre os historiadores Rui Ramos e Manuel Loff, que tem andado nos jornais e na blogosfera, por exemplo aqui  ou aqui , apetecia-me quase dizer que estão bons um para o outro. Não o digo, porém, porque sendo ambos cultores duma história ideologicamente orientada e politicamente militante, que não me agrada, é-me contudo mais antipática a obra do relativizador-edulcorador-amnistiador do salazarismo, Rui Ramos. Em vários livros, Ramos consegue ir mais longe do que os velhos historiadores monárquicos no denegrimento sistemático da I República, raiando frequentemente o delírio. A visão alucinada que Ramos tem da I República serve-lhe precisamente para adocicar a imagem da Ditadura Militar e do salazarismo que lhe sucederam. Não me parece duvidoso que Ramos obteria um prémio do SNI com a sua História de Portugal (na parte da sua autoria), se o saudoso organismo da propaganda salazarista tivesse durado até hoje, com alguma inevitável “renovação na continuidade” pelo caminho. De Loff conheço menos obra, é certo − apenas dois ou três capítulos de um seu antigo livro, além de entrevistas em que expõe a sua visão sobre o fascismo e o salazarismo. Não li O Nosso Século é Fascista!, nem desejo ardentemente lê-lo.

 São precisamente o conceito de fascismo e o qualificativo de fascista que mais têm andado às bolandas neste chato ping-pong entre Ramos e Loff. Na raiz do problema, para Ramos, parece estar a facilidade com que em Loff salta o qualificativo de fascista; em compensação, o que enfurece Loff é o rebuscado branqueamento do salazarismo que o Ramos faz na sua história do Estado Novo. Se calhar têm ambos razão, o que sói acontecer nestes casos.

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