Arquivo da Categoria: José do Carmo Francisco

Balada para a Taberna do Manelvina

As paredes de madeira
Aquecem todo o salão
Quando é a vez primeira
Não se esquece a situação
A memória de uma praça
As cabeças dos animais
Entre triunfo e desgraça
Vida e morte são iguais
Pão de milho na peneira
Pão alvo sobre a mesa
Esta é a melhor maneira
É um início em beleza
Um prato de morcelas
Já começa a refeição
As batatas amarelas
São fritas na ocasião
Salada de bom azeite
Sabor a ervas que resta
O vinagre é um enfeite
Dos tomates em festa

Começa a entremeada
Segue febra e costeleta
Se parece já terminada
Afinal não está completa
Falta uma sobremesa
Um café e um bolinho
Água do Luso na mesa
Um cascol apertadinho
Quarta feira de Inverno
O cozido aconchegado
Traz ao tempo moderno
Todo o prazer do passado
No Verão são sardinhas
Com a frescura do mar
Junto às batatas vizinhas
É um prazer descascar
Taberna do Manelvina
Onde o prazer é preceito
Na despedia em rotina
Até sempre, bom proveito!

Vinte Linhas 566

Proença-a-Nova, o menino Diogo e as concertinas do Natal

O Grupo dos Amigos das Concertinas arrancou, a tocar um vira pelo Pavilhão Gimnodesportivo da Escola de Proença-a-Nova, de uma cabina onde estava escrito – Visitante. E não deixavam de ser visitantes trazendo no bojo do seu som, amplo e sentido, alto e antigo, uma memória que os antropólogos sabem definir e enquadrar mas que eu, simples mortal, me limito, de modo feliz, a usufruir.

Cinco concertinas tocadas por cinco homens feitos, um bombo tocado por um jovem adulto e a sexta concertina tocada por um menino (Diogo de seu nome) que já nasceu no século XXI. Tão menino o menino Diogo que precisou de uma cadeira para se sentar no palco. Estávamos no Domingo dia 19 de Dezembro, em vésperas de Natal de 2010 e o som da concertina do Diogo, misturado no som mais geral e mais amplo das outras cinco, tinha um timbre diferente. E nem era importante que a música fosse do Minho – «Tenho um amor em Viana, oh ai, outro em Ponte de Lima!» O mais importante foi a festa que irrompeu no Pavilhão onde se vendia pão, bolo finto, licores, enchidos, coscorões, filhoses, artesanato variado entre as peças de verga e de crochet, o ponto de Castelo Branco e a pureza da cortiça trabalhada.

Porque vejo nos olhos de Diogo o meu tempo de menino quando nas canções de roda ouvia cantar as meninas da escola primária ali ao lado: «Fui lavar ao rio Lima / Cheguei lá sem o sabão / Lavei a roupa com rosas / Ficou-me o cheiro na mão».

O Natal é, afinal, nada mais, nada menos do que o Diogo com a sua concertina no palco do Pavilhão da Escola em Proença-a-Nova. Sinal de que o Homem se recusa a morrer.

Um livro por semana 215

«No dorso do vento» de Alice Ruivo

O pano de fundo da acção deste romance de amor é o intervalo entre 1945 e 1974: o fim da II Guerra Mundial e a Revolução de Abril. Por oposição a uma Europa devastada o ponto de encontro (e de desencontro) é Sintra, lugar onde o romantismo a tudo resiste. No dorso do vento de 1945 havia conflito mas também amor: a família Ávila (Jeremias e Olívia) com sua fortuna e pergaminhos, encontra a família Teixeira (Manuel e Rosa) apenas com fortuna. O encontro breve entre Jacinta e João origina o desabafo com o mordomo Tomás («amo-o como nunca amei ninguém») e, tempos depois, nasce Mariazinha: «quando a menina a invadia com perguntas acerca do pai, Jacinta falava dele sem rancor». Anos depois o «25 de Abril» proporciona-lhe o relacionamento com o médico David: «Este interesse de David não passava despercebido a Jacinta mas ela, alegando respeito à filha, não queria qualquer envolvimento». Mas quando, anos depois, parecia ter chegado a paz entre João e Jacinta, esta descobre o seu drama em gente: «O meu pai teve outro filho? Então quer dizer que tenho um meio-irmão». E é num ritmo quase policial que a narrativa evolui. Obtidas certidões de nascimento dos pais de David se percebe melhor a frase de João: «se algo aconteceu… não tens de te sentir culpada. Vocês não sabiam».

Nem a morte física de David o levou no dorso do vento: «Para Jacinta ele fora o irmão, o apaixonado, o confessor e o amigo que lhe dera, ao longo de muitos anos, a força de que ela precisou para agora ser feliz».

(Editora: Terramar, Ilustração da capa: Rita Ruivo Simões)

Para um guarda-redes na sombra

Levanta os teus olhos para a luz que (embora amarga)
é o único destino das tuas lágrimas depois de secas,
depois de soltas pelo teu rosto, depois de convertidas
em agricultura no perímetro da pequena área. A tua.

Levanta-te e sai da sombra, sai do silêncio prolongado na nossa vida
depois da defesa feita em vão aos avançados da morte,
quando não foi mais possível segurar a bola
na direcção da baliza que sozinho defendias. A tua.

Levanta-te e volta as costas ao pó, ao sol e à chuva
do lado do Oceano Atlântico nas tardes de domingo.
Tu sabes. É urgente ter as quotas em dia, pagar à lavadeira,
pedir a quem possa costurar alguns números soltos nas camisolas:
o quatro, o seis e o número um. O teu.

Levanta-te e diz-me de novo tudo o que sabes sobre os jogos dos anos vinte,
as manias do Zamora, o Roquete, o Casoto, o Cipriano dos Santos,
as cambalhotas dos vencedores.
Tu estás do outro lado,
na dificuldade em sair do lugar da derrota, do silêncio e da sombra .

Levanta-te e vem à linha receber as instruções
para a segunda parte que só agora começou:
Pôr um boné por causa do sol, mudar de equipa e de lugar,
trocar a morte pela vida.

__

Virgínia Freire (foto)

Um livro por semana 214

«Rip Kirby» de Alex Raymond (volume 1)

Aguardado com impaciência pelos apaixonados da BD, este volume 1 de «Rip Kirby» integra três histórias com temas bem avançados para a época de 1946: as drogas duras em «O caso Faraday», uma fórmula química mortal em «A fórmula Hicks» e um país pária disposto a comprar uma arma química em «O Mangler».

Este volume inclui tiras reproduzidas das originais deste desenhador famoso cuja vida (1909-1956) só saiu do anonimato com o seu súbito desemprego em 1929 na sequência do «Crash» de New York. Depois de criar figuras como o Agente Secreto X-9, Jim das Selvas e Flash Gordon, Alex Raymond deu vida a um detective atípico nos EUA: usa óculos, é muito culto, é solteirão, cita Bernard Shaw, toca ao piano peças de Chopin e fuma com cachimbo.

Em Portugal a figura de Rip Kirby surge em 18-8-1949 no primeiro número de «O Mundo de Aventuras». De seguida apareceu em publicações como «Condor Mensal, Jornal do Cuto, Enciclopédia O Mosquito» e em álbuns da Editorial Futura.

Curiosamente esse mesmo ano de 1949 assinala a entrega a Alex Raymond do Reuben Award pela criação de Rip Kirby e pela carreira iniciada em 1929 no estúdio de Lyman Young ainda sem assinar os trabalhos com o seu nome – o chamado «ghost».

Este é o primeiro de 13 volumes com a obra total de Alex Raymond de 1946 a 1956.

(Editora: Bonecos Rebeldes, Tradução: Catherine Labey, Colaboração: Joaquim Talhe, Américo Coelho e Leonardo de Sá)

Vinte Linhas 565

O Sporting Clube de Portugal não se escreve com caixa baixa

Talvez por estarmos perto do Natal, data da fraternidade e também do marketing, recebi com duas datas (6-11-2010 e 16-12-2010) um exemplar do jornal «Sporting». Até aqui nada de especial. Sou um dos muitos sócios do Sporting Clube de Portugal que este ano desistiu de comprar a «box» anual e vê à distância o desmoronar lento e sistemático da principal equipa de futebol. Derrotas sucessivas, um treinador sem créditos para a tarefa, um desbaratar permanente dos valores criados na Academia de Barroca de Alva, um endividamento assustador para a compra de passes de jogadores com dinheiro emprestado e tudo para jogar para o quinto lugar – objectivo que poderia ser obtido sem recorrer ao endividamento e utilizando os jovens formados na Academia leonina.

Na página 20 uma notícia sobre o Núcleo de Sacavém que festejou o seu 27º aniversário deixou-me com os cabelos em pé: passando por cima da errada notícia de que Carlos Teixeira é o «presidente da autarquia local» quando é, de facto, presidente do município de Loures e Sacavém não tem câmara municipal, passando por cima da expressão «Clube de Alvalade» completamente errada pois além de redutora é falsa porque o Sporting é um clube de todo o Mundo com Filiais, Delegações e Núcleos em todos os Continentes, temos, por fim, o ponto mais negro com a frase «só desta forma se pode levar o sporting rumo ao título». Sporting com letra pequena ou, como se diz em jornalismo, Sporting em caixa baixa é um completo disparate. O Sporting Clube de Portugal não merece tamanha parvoíce. O Manuel Fernandes também não merecia ser tratado tão mal pelo seu Clube mas Deus afinal escreveu por linhas tortas.

Vinte Linhas 564

Pride Magazine, Alverca do Ribatejo, memórias felizes

A entrevista na página 10 da edição Vale Tejo de 9-12-2010 de O MIRANTE com Maria Judite Ribeiro (Agora falo eu) chegou-me às mãos no mesmo «giro» que me trouxe a recente edição da Revista londrina «Pride Magazine» onde a sua filha Isabel Matias é a responsável pela produção e paginação. Em inglês esta função define-se como «head of design/production». Excelente aluna do curso de «design gráfico», a Isabel está hoje a festejar os 20 anos da sua revista de moda, beleza, música, teatro, cinema, culinária, saúde, turismo, finanças e entrevistas às estrelas do momento, como Mariah Carey que faz a capa. O conteúdo pode ser lido em www.pridemagazine.com. Alverca do Ribatejo recorda-me de imediato o CEBI e o senhor Vidal que por diversas vezes celebrou comigo aqui no Príncipe Real a inclusão de verbas do PIDAC para o seu (e nosso) CEBI. Colaborei na divulgação dos livros editados pelo CEBI e cheguei a publicar textos no jornal dessa então bela pequena casa dos meninos e dos idosos. Recordo a escritora Soledade Martinho Costa que nos apresentou e que ofereceu os seus livros infanto-juvenis aos meus filhos Ana, Filipe e Marta. Recordo a jornalista Elisabeth França, sobrinha do keeper Costa Pereira do SLB que a ia esperar ao colégio Sousa Martins no Bom Retiro. Mais tarde cruzámo-nos nos caminhos do jornalismo onde ainda me mantenho (Revista Ler) e de onde ela se retirou para fazer algo mais do que notas sobre «Artes e espectáculos». Recordo o jornalista Sandro Baguinho que conheci como delegado ao jogo do Alverca nos encontros de juniores para, alguns anos mais tarde, trabalhar a seu lado como leal camarada na redacção do jornal «Sporting».

Vinte Linhas 563

Saudação breve para uma menina numa Ilha Verde

Eu te saúdo, Mafalda, eu te escrevo numa colina de Lisboa e sei que a tua casa se debruça também sobre o azul do Oceano Atlântico. Faço escritório na pastelaria onde há queques, queijadas e pastéis de nata. O teu olhar doce navega, vagaroso, nos metros quadrados do quarto, repetindo o olhar da tua mãe com a tua idade. Sei das tuas mãos em movimentos de patrulha, sentindo o tacto quente das mãos da avó, ansiosa por transmitir o calor da ternura nesta geografia. Também há altas pressões sentimentais, anti-ciclones de afecto, vulcões de carícias, ventos de paixão. Tu dormes o cansaço do trabalho de nascer, entraste exausta no mundo que te rodeia. O teu sono respira num ritmo igual ao das ondas; de sete em sete inspirações sai uma respiração lenta e profunda. Uma nesga de sol bate na árvore verde do teu Natal que vieste antecipar. O teu nome sonoro, a tua presença radiosa, a tua aposta na vida, são uma teimosa trilogia de afirmação num tempo triste de notícias sombrias. Há no teu olhar a herança de uma casa: entre as pedras do muro e as ondas da praia, entre o calor do forno e o frio da cisterna, entre as tulhas do celeiro e a adega de vinho com cheiro intenso. Mafalda, menina pequena, não sabes ainda que a vida é uma viagem cheia de cruzamentos, dúvidas e sinais difíceis de interpretar. Começas a balbuciar pequenas canções e vejo em ti a viajante destemida dos caminhos à tua espera. Tu serás o nosso juiz no futuro, nada desculparás e por isso a tua vida vai ser o nosso julgamento. Em teu nome vamos estar mais próximos da perfeição, da justiça, da lucidez e do amor. Porque, mesmo sem saber ainda, tu já sabes. Só há uma medida para o amor que é amar sem medida.

Vinte Linhas 562

A dama de ferro atirou o livro para a mesa e disse: É nisto que acredito!

Corria o ano de 1979 e, em vésperas de eleições gerais no Reino Unido, os responsáveis do Partido Conservador forneceram à senhora Thatcher um projecto de programa que procurava ser um documento pragmático, cuidadosamente colocado ao centro, evitando os radicalismos mas procurando derrubar os Trabalhistas ao tempo no governo.

A futura primeira-ministra do Reino Unido, com a frontalidade que se lhe reconhece, não deixou o colega terminar a apresentação, abriu a pasta bruscamente e atirou para a mesa o livro que lá trazia. O livro era A constituição da liberdade de Freidrich von Hayek e o seu grito foi muito claro: É nisto que acredito! Claro que calou os quadros do seu Partido e durante onze anos, de 1979 a 1990, aquele livro foi o programa do seu governo. O milagre económico que foi experimentado no Chile de Pinochet foi seguido quase ponto por ponto mas não podia ser igual. Numa carta ao seu Mestre de 1982, depois de louvar a redução substancial das despesas públicas no Chile, Thatcher adverte que «a nossa reforma deve estar em linha com a nossa Constituição». Não houve fuzilamentos em Londres, não colocaram Wembley como campo de concentração mas o desemprego disparou e a guerra contra os Sindicatos dos Mineiros em 1984 foi terrível. Valeu tudo. Polícia à porta das minas e forte propaganda atacando os sindicatos. O capitalismo popular estava a nascer através da famosa frase da dama de ferro: «A sociedade não existe. Apenas existem os indivíduos e as suas famílias». Quando saiu em 1990 não ficou pedra sobre pedra no conjunto das estruturas económicas do seu país.

(a partir de uma segunda leitura de «Pagadores de crises» de José Goulão)

Um livro por semana 212

«O peso do hífen» de Onésimo Teotónio Almeida

A partir de uma frase do presidente dos EUA Woodrow Wilson (1856-1924) aqui se reúnem 13 ensaios escritos entre 1983 e 2010 sobre a experiência luso-americana. O volume abre com dois quadros: Os emigrantes de Domingos Rebelo (1926) e Os regressantes de Tomaz Vieira (1987). A carroça dá lugar ao automóvel; a viola da terra é substituída pela câmara de filmar. Entre os dois quadros há 61 anos de diferenças. A frase em causa é: «Some americans need hifens on their name beause only part of them has come over».

Temos no ponto de partida que «a emigração é um bom laboratório para se fazer a radiografia de uma cultura: o núcleo duro dos seus valores é então recriado, cingindo-se ou alargando-se consoante as possibilidades do novo meio, mas recriado não obstante».
Continuar a lerUm livro por semana 212

Um livro por semana 211

«O jardim encantado ou o segredo da brisa» de Josefa de Lima

A narrativa arranca pela voz off da Terra numa determinada circunstância («como se estivesse a ver uma peça de teatro») e com dois protagonistas (Flor Pequena e Flor Grande) que discutem entre si a noite e o dia: «Também gosto do Dia mas a Noite é tão misteriosa…» A seguir surgem mais actores: o Sapo Seriró, o Cágado, a Lua e a Estrelinha que se lamenta de estar tão longe da Terra: «Ai, ai, estou tão alto e tão só!»

Entretanto aproxima-se outros: a Brisa, a Fadinha da Noite, os Melros, as Noites, o Sol e a Terra. O segredo da Brisa é, afinal, depois da notícia («Fugiu a Estrela de Natal») e da dúvida («como poderão os Reis Magos seguir o caminho?») poder dizer em segredo à Estrelinha que ela «vai ser ela a Estrela de Natal».

Peça de Teatro, originalmente representada na Junta de Freguesia de Olhos de Água, contou com a participação de pequenos actores, alunos das seguintes escolas: Vale Carros, Diamantina Negrão e Olhos de Água. Poderia chamar-se «Gramática da Noite» e termina com a voz off da Terra: «A Lua brilha, agora, com todo o seu esplendor e a Noite avança, então, intensa e dominadora no seu último movimento antes de desaparecer a pouco e pouco, empurrada brandamente pelo Sol. Levanto-me do banco e no caminho para casa vou pensando que tudo tem o seu tempo, a sua função, obedecendo a regras num Universo superiormente organizado. Por vezes o que aparenta estar estático, está em movimento contínuo, refazendo-se e inovando-se através de ciclos bem reais».

(Edição: Câmara Municipal de Albufeira, Preâmbulo: José Carlos Martins Rolo, Prefácio: Luísa Monteiro, Ilustrações: Anabela Furett)

Vinte Linhas 561

As fragatas do Michigan ou Saudação breve a Maria Alzira Seixo

O lume da queima do batel chega também ao lago Michigan. Hoje somos apenas memória. Era no fim das Festas de São Pedro no Montijo em 1960. Já depois da meia-noite, recolhidos os touros, surgia o lume na praia. Em Sarilhos Pequenos vinha gente aos telhados do estaleiro naval. No Alto Estanqueiro, nas malhadas, via-se o lume no Cais da Cortiça, ao lado do Cais dos vapores para Lisboa. Na Lançada, a meio dum jantar de ossos carregados, há quem suba para os muros com cadeiras e escadotes para ver a queima do batel.

Quando Maria Alzira Seixo passa na Jardia há, no que resta da casa do apeadeiro da CP, uma sombra daquela criança triste de 1960. Sou eu. Nunca de lá saí. Mesmo quando em 1961 fui estudar para Vila Franca de Xira e vi Alves Redol a escrever no Café Capote. Mesmo quando fui trabalhar para Lisboa em 1966 e quando viajei do Barreiro para Évora nos comboios de 1972 a caminho do Hospital Militar. Mesmo quando ia à Verderena ver jogos do Barreirense e ao Lavradio ver jogos da CUF no Estádio Alfredo da Silva. Mesmo quando vi mais jogos em Sarilhos Pequenos onde a água do Mar da Palha quase entra nas balizas. Sempre estive no apeadeiro da CP na Jardia. Mesmo no dia do funeral do meu amigo António Lopes no cemitério da Moita. Mesmo quando parava no Rosário e nomeava os nomes dos barcos de antes da ponte de 1966: cangueiro, catraio, bote, batel, canoa, bateira, falua, enviada, varino, muleta e fragata. A cortiça vinha nas galeras de Vendas Novas, as que tinham rodas de pneu e eram mais velozes. Hoje somos apenas memória. E não há fragatas no lago Michigan.

Um livro por semana 210

«Esta cidade!» de Irene Lisboa

A primeira edição deste livro de Irene Lisboa é de 1942 e marca o fim do seu pseudónimo João Falco. A proximidade entre texto e facto surge na página 97: «aquele retrato escapado do naufrágio ou do tempo atestaria sempre uma era: 1938, 1939, 40».

Irene Lisboa usa o retrato de Adelina para contar a cidade: «Devia ter sido bonita e ainda era engraçada. A vida da Adelina interessa-me tal como é afinal e não pelo que de empolgante ou de propício a romance possa em si conter». Mas a cidade também é personagem: «Há quem julgue que a monotonia da cidade, a de escrever cartas e ofícios, dar lições, apanhar lugar sentado nos carros, ouvir pregões, ver caras parecidas, embota os sentidos. Mas não!» Lisboa tem a sua paisagem: «A minha rua não é feia, tinha-me dito a Adelina um dia. E não era, dava uma bonita volta em cima, onde se avistava Monsanto de esguelha. Realmente, aquela pobreza dos lados da Rua da Cruz era muito mais sórdida que esta das Necessidades». E tem o seu povoamento – refugiados e saloios, por exemplo. Helma, que foi para o Brasil («Era uma intelectual inocente e inteligente») e o saloio «que só enquanto vendeu bacalhau podre é que viu dinheiro!». Sem esquecer os conflitos, os da vida da Adelina («a mim serviu-me de muito ser arrecebida…Fiquei com uma filha nos braços e um tostão na gaveta da cozinha») mas também os da Escola – «Cada rapaz que não saiba a lição paga uma multa de berlindes para ela não ter de os comprar para o filho». Há uma inesquecível menina que vai a pé do Arco Carvalhão à Rua da Atalaia: «a minha mãe gostava muito de ter uma casinha…temos só um quarto e sem janela. Ela tem um câncaro no nariz». Entre o pitoresco da rua («Os eléctricos parece que entram pelas lojas dentro») e o tempo da II Guerra («O pãozinho está muito escasso e anda por aí muito braço caído») a eterna questão da linguagem: «A linguagem é uma terrível fixadora de modas! Chega porém a envelhecer com elas, a criar bafio…É um espelho com a propriedade de conservar as imagens que um dia reflecte mas que de repente apetece atirar fora, pôr de banda…»

(Editora: Presença, Organização e prefácio: Paula Morão, Patrocínio: Instituo Camões e Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro)

Vinte Linhas 560

Continua à espera da carrinha dos Capristanos

A vida é um mistério, não é um negócio. O sacristão de Santa Catarina morreu mas continua à espera da carrinha dos Capristanos. A encomenda de 400 partículas para a missa campal não veio na carreira das sete e vinte; foi preciso o Vítor trazê-la de propósito. Vem na curva da Forca. Nas Caldas o Guimarães marca os desdobramentos para Peniche e Atouguia da Baleia. Se a vida fosse um negócio e não um mistério, o Álvaro teria trocado a sua pela do filho Zé Carlos em 1989 naquela manhã de domingo. Fui eu o padrinho que na pia baptismal lhe segurei a caixa dos santos óleos, tal como já antes tinha segurado ao Luís e ao Fernando. O Zé Carlos teria hoje 41 anos, poderia ter emigrado para a Suíça como o Luís ou vendido arcas congeladoras como o Fernando, poderia ter casado e continuado a ser aquilo que todos nós somos mesma quando não parece – navalheiros numa terra de oficinas de cutelaria. A Milu que agora cantou na missa de corpo presente foi a mesma que lhe fez as últimas contas do empregado Zé Carlos em 1989. Presidiu o padre Joaquim Nazaré e concelebrou o padre Maximino mas não vi os padres da nossa terra que ele tanto ajudou a preparar as missas novas nos anos 60. Mas vi o Henrique do Carvalhal. A vida é um mistério, não é um negócio Sei que o Álvaro tem andado às quartas de milho de casa em casa, saco cheio, na tulha vai subindo devagar mas há quem dê sete e quinhentos em vez do milho. Quando os fregueses dão dinheiro o sacristão fica a perder porque cada quarta de milho são oito escudos. Na sexta-feira doirada pelo sol, o pão de milho que comi na Taberna do Manelvina sabia ao milho das quartas da côngrua do sacristão de Santa Catarina.

Doença

Mais dum ano já tinha então passado
Do nosso último adeus neste jardim
Ainda o arvoredo não fora derrubado
Só a nossa tarde triste chegava ao fim

Não havia ainda lágrimas escondidas
Entre os táxis e os longos corredores
Batas brancas, decisões, as nossas vidas
Enquanto olhas a chaminé e os vapores

Mas há um bar que não fecha mais além
A vida continua porque não foi suspensa
Quem passa por mim não vê ninguém
A pressa não pode ser só a indiferença

No hospital um corpo vive na solidão
Perto do calor do grupo da enfermaria
Sai para a luz do sol com uma razão
A dar passos na direcção da alegria

Aviso ainda a tempo por causa das coisas da Cultura

Pois é, apareceram aqui no «aspirinab» uns parvalhões a tentar dizer que a Direcção Geral da Cultura não existe. É óbvio que o símbolo está na contracapa e nunca se reproduz a contracapa dum livro numa nota de leitura. Mas a título excepcional fui colocar esta no scanner.

Para quem ainda tiver dúvidas, para quem possa ter acreditado que eu me tinha enganado, aqui vai a imagem da contracapa do livro de Carlos Lobão.

Ainda a tempo por causa das coisas.

Vinte Linhas 559

Pequenos e médios formatos fazem um Natal com Arte

As inesperadas freiras voadoras de Carole Perret com os eléctricos de J. B. Durão encostados aos velhos autocarros de dois andares e os táxis verde e preto – são algumas das atracções da exposição de obras em pequeno e médio formato na Rua da Misericórdia nº 30, ao Chiado.

A mostra está patente ao público até ao dia 15 de Janeiro de 2011 e não se resume aos quadros a óleo e a acrílico. Os deliciosos bonecos de Maria Rita, colocados sobre velhos livros muito antigos e usados, recriam histórias de encantar como a do Capuchinho Vermelho.

Vejamos agora a lista completa dos artistas presentes na galeria da Rua da Misericórdia: Ada Breedveld, Alain Carron, Alain Donnat, Alessandra Placucci, Carole Perret, Christine Haslé, Davy-Bouttier Elisabeth, Guido Vedovato, Irene Brandt, J.B. Durão, Luiza Caetano, Lluisa Jover, Maria Rita, UKÉO, VÈCU e Victor de la Fuente.

Num tempo que todos sabemos de crise, com tantas dificuldades no dia-a-dia, com menos dinheiro para gastar em ofertas de Natal, aqui está uma opção diferente com obras de qualidade mas de preço mais acessível – exactamente por serem de pequeno formato.

Para quem vive por aqui (Camões – Bairro Alto – Chiado) não deixa de ser reconfortante ter assim à mão de semear um conjunto de obras de arte. A arte não substitui a vida mas proporciona momentos felizes na vida – mesmo que sejam apenas alguns momentos não deixam de ser menos felizes pela sua brevidade.

Um livro por semana 209

«Pagadores de crises» de José Goulão

O ponto de partida do livro é a regressão das condições de trabalho: «Desde que Pinochet restaurou os despedimentos por necessidade das empresas e arrasou os sindicatos a tiro, desde que Thatcher e Reagan liquidaram as lutas dos mineiros e dos controladores do espaço aéreo, as condições de trabalho regrediram, em países ditos civilizados, a situações que nalguns casos, podem comparar-se às existentes no século XIX». O pano de fundo é a lista de danos colaterais da globalização: «fosso crescente entre ricos e pobres, manchas cada vez mais vastas, à beira de se tornarem irreversíveis, de refugiados e de vítimas das várias formas de exclusão social, degradação ambiental acelerada, disseminação da fome e da subnutrição em todo o planeta».

Para o autor, a origem da crise não está no subprime mas sim «no regime económico, político e social imposto a todo o mundo a partir da América ao longo dos últimos trinta anos» porque «o neoliberalismo tomos conta dos mecanismos da democracia representativa, adulterou-a de maneira perversa e distribuiu-a universalmente com base na chantagem sobre os méis de sobrevivência dos povos e das nações, impondo-a à força de mísseis e bombas quando necessário».

Aqui a linguagem tem o seu lugar: não por acaso a palavra trabalhador foi substituída por colaborador, desemprego e despedimento são substituídos por dispensa, suspensão ou supressão do posto de trabalho sem esquecer exploração que foi substituída por produtividade. Ou, como queria David Stockman, secretário do Tesouro de Reagan, «o papel do governo é criar e defender mercados e proteger a propriedade privada».

(Editora: Sextante, Capa: Henrique Cayatte/Susana Cruz)

Vinte Linhas 558

Memória justificativa para um lugar azul

Há neste lugar azul a mistura feliz das cores do oceano e do firmamento, o azul das viagens e o azul das recordações. O balcão é a memória convocada de velhos paneiros de feira em feira com oleados nas carroças; de velhas quiquilheiras com seus alforges com estampas, espelhos, pentes e agulhas; de velhos ourives de bicicleta a pedais à porta da casa dos pais da noiva anunciada do altar abaixo. Há no olhar destas duas mulheres uma topografia do bom gosto, um tripé feliz onde se cruzam o olhar arguto, a escolha certa, a rapidez da compra. Por isso tudo aqui se converte em harmonia: os postais com a gente da cidade, a flor do sal, os biscoitos artesanais, o azeite mais puro, o vinagre tão intenso, o livro diferente, o lápis com a tabuada da alegria. Mas há sempre mais nas prateleiras do lugar azul: licor de ginja e aguardente, tisanas e chás, caju e amêndoa, brincos prateados e garridos lenços, blocos-notas e sabonetes, piões e brinquedos de papelão, sacos feitos de material reciclado e o instrumento musical feito de latas de conserva – chama-se kalimba. E sem esquecer a grande mala onde cabem todas as viagens – as percorridas entre sol e pó e as sugeridas apenas em convite. Transformar produtos em mercadorias – foi sempre esse o sonho dos mais antigos comerciantes, os das caravanas nos grandes desertos da Ásia, os das feiras medievais em toda a Europa, os navegadores portugueses que traziam especiarias da Índia. Se não fosse o comércio não podíamos beber café temperado com açúcar – tão habitual que já não o dispensamos. Em oposto a Penélope, duas mulheres constroem uma teia de bom gosto a partir dum balcão quase navio onde todas as viagens se podem sonhar em azul.

Vinte Linhas 557

Carlos Pato fica um pouco mais à esquerda na foto

«O Povo reunido, jamais será» – é o título da exposição de Carla Filipe no Museu do Neo-Realismo em Vila Franca de Xira. Inaugurada em 13 de Novembro pp. a mostra pode ser vista até 6 de Março de 2011. O ponto de partida é a memória dos passeios culturais pelo Tejo acima do barco varino «Liberdade» cujo arrais era Jerónimo Tarrinca (alcunha). Na entrevista e na reportagem de 18 de Novembro em O MIRANTE, assinadas por Ana Santiago, além das perguntas e das respostas da autora da instalação, descreve-se a visita do filho do arrais do varino (José Anjos Tavares de Matos) à inauguração de exposição e referem-se algumas peças de memória do barco – bandeira, boné, matrícula.

O que me causa espécie é a lista das pessoas que viajaram no «Liberdade». Vejamos: Alves Redol, Dias Lourenço, Álvaro Cunhal, Manuel da Fonseca, Arquimedes da Silva Santos, Bento de Jesus Caraça e Pulido Valente. Nem uma referência a Soeiro Pereira Gomes, a Carlos Pato e António Vitorino.

Nesta foto (que não é a mesma da exposição) verificamos (da esquerda para a direita) as presenças de Carlos Pato, Soeiro Pereira Gomes, Álvaro Cunhal e António Vitorino. Aliás não é preciso ser um especialista em história do Neo-Realismo para saber que há diversas fotos tiradas durante os passeios culturais. Mas a expressão «No mesmo barco chegaram a entrar…» diz tudo sobre os erros e as omissões. Se esta foto não consta desta exposição, então quem prestou informações à jornalista tinha a obrigação de não esconder estes nomes – Soeiro Pereira Gomes, Carlos Pato e António Vitorino.