Vinte Linhas 561

As fragatas do Michigan ou Saudação breve a Maria Alzira Seixo

O lume da queima do batel chega também ao lago Michigan. Hoje somos apenas memória. Era no fim das Festas de São Pedro no Montijo em 1960. Já depois da meia-noite, recolhidos os touros, surgia o lume na praia. Em Sarilhos Pequenos vinha gente aos telhados do estaleiro naval. No Alto Estanqueiro, nas malhadas, via-se o lume no Cais da Cortiça, ao lado do Cais dos vapores para Lisboa. Na Lançada, a meio dum jantar de ossos carregados, há quem suba para os muros com cadeiras e escadotes para ver a queima do batel.

Quando Maria Alzira Seixo passa na Jardia há, no que resta da casa do apeadeiro da CP, uma sombra daquela criança triste de 1960. Sou eu. Nunca de lá saí. Mesmo quando em 1961 fui estudar para Vila Franca de Xira e vi Alves Redol a escrever no Café Capote. Mesmo quando fui trabalhar para Lisboa em 1966 e quando viajei do Barreiro para Évora nos comboios de 1972 a caminho do Hospital Militar. Mesmo quando ia à Verderena ver jogos do Barreirense e ao Lavradio ver jogos da CUF no Estádio Alfredo da Silva. Mesmo quando vi mais jogos em Sarilhos Pequenos onde a água do Mar da Palha quase entra nas balizas. Sempre estive no apeadeiro da CP na Jardia. Mesmo no dia do funeral do meu amigo António Lopes no cemitério da Moita. Mesmo quando parava no Rosário e nomeava os nomes dos barcos de antes da ponte de 1966: cangueiro, catraio, bote, batel, canoa, bateira, falua, enviada, varino, muleta e fragata. A cortiça vinha nas galeras de Vendas Novas, as que tinham rodas de pneu e eram mais velozes. Hoje somos apenas memória. E não há fragatas no lago Michigan.

9 thoughts on “Vinte Linhas 561”

  1. Uma redacção. Nada mais do que uma redacção. O poeta, o artista, é diferente. Leva-nos onde quer. O que não é o caso.

  2. Mesmo quando nos apeamos na Jardia, é preciso que a viagem continue, num desses barcos do Tejo, num desses barcos do Doiro ou num couraçado do almirante que não chegou este Verão.
    Ainda que lhe chamem redacção, eu acho que é uma bela redacção !
    Obrigado
    Jnascimento

  3. Meu caro JNascimento,

    Portugal está cheio de boa gente redactora. A língua presta-se a isso. Não é esse o problema, mas estoutro: HUMILDADE, SERENIDADE, ARTE. Estes dons nem todos têm, pelo que quando, não os tendo, os impõem a outros do «alto de uma inexistência», essa pessoa só merece os comentários que tem recebido. Fonte, de resto, de mensagem que o seu autor devia aproveitar. Um escritor é um MUNDO dentro de outro mundo. Tão simplesmente isso.
    Cumpts.

  4. Gostei. Falta uma menção à ti Mari dos ossos e aos chouriços do Isidoro. Só que o Mar da Palha, revolto em dias de mau tempo, é lá mais promeio, frente a Lsboa, pois. Que não há fragatas no Michigan até o Al Capone sabia disso. E um comunista nunca devia esquecer a Mundet. E a lancha, e a chata, não eram barcos, antes da ponte?

  5. IDEIAS, Você fala de humildade sem ter nenhuma.
    É um apontador de dedos profissional, portanto.
    Queira fazer o favor de nos mostrar essas suas poesias ou redações, essa sua arte.
    Caso contrário fazia melhor figura em estar caladinho.
    Se não gosta porque vem cá sempre ler?

  6. Não percebo em que é que o JCF lhe impõe seja o que for. Você vem cá parar porque quer. Porque entre bater mais uma punheta ou vir ao aspirina escrever imbecilidades optou pela segunda. Deixe de dar desculpas e assuma-se.
    Você não é o “IDEIAS” mas sim o verdadeiro IDIOTA.

  7. Jaime, pá, então passas-te ou quê? Que conversa é essa, pá? Não me digas que te chamas Francisco. Imbecilidades? Mas tu queres mais imbecilidades e porcarias do que aquelas que escreveste? Conta aí, pá?

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.