Vinte Linhas 560

Continua à espera da carrinha dos Capristanos

A vida é um mistério, não é um negócio. O sacristão de Santa Catarina morreu mas continua à espera da carrinha dos Capristanos. A encomenda de 400 partículas para a missa campal não veio na carreira das sete e vinte; foi preciso o Vítor trazê-la de propósito. Vem na curva da Forca. Nas Caldas o Guimarães marca os desdobramentos para Peniche e Atouguia da Baleia. Se a vida fosse um negócio e não um mistério, o Álvaro teria trocado a sua pela do filho Zé Carlos em 1989 naquela manhã de domingo. Fui eu o padrinho que na pia baptismal lhe segurei a caixa dos santos óleos, tal como já antes tinha segurado ao Luís e ao Fernando. O Zé Carlos teria hoje 41 anos, poderia ter emigrado para a Suíça como o Luís ou vendido arcas congeladoras como o Fernando, poderia ter casado e continuado a ser aquilo que todos nós somos mesma quando não parece – navalheiros numa terra de oficinas de cutelaria. A Milu que agora cantou na missa de corpo presente foi a mesma que lhe fez as últimas contas do empregado Zé Carlos em 1989. Presidiu o padre Joaquim Nazaré e concelebrou o padre Maximino mas não vi os padres da nossa terra que ele tanto ajudou a preparar as missas novas nos anos 60. Mas vi o Henrique do Carvalhal. A vida é um mistério, não é um negócio Sei que o Álvaro tem andado às quartas de milho de casa em casa, saco cheio, na tulha vai subindo devagar mas há quem dê sete e quinhentos em vez do milho. Quando os fregueses dão dinheiro o sacristão fica a perder porque cada quarta de milho são oito escudos. Na sexta-feira doirada pelo sol, o pão de milho que comi na Taberna do Manelvina sabia ao milho das quartas da côngrua do sacristão de Santa Catarina.

9 thoughts on “Vinte Linhas 560”

  1. Exmª. Senhor

    «A vida é um mistério, não é um negócio».

    No seu caso a vida não é um mistério. VExª. diz a cor dos cartões que tem, as padeiras que conhece, os amigos pessoais que tem e até vem no dicionário do JPrado Coelho.
    V. Exª. é um livro aberto.

  2. Para mim, o problema está no pão de milho. Porque cada quarta de milho são oito escudos. Quando é o Álvaro a pedir e não lhe dão milho, mas sete e quinhentos, fica a perder cinco tostões. Como já não temos escudos mas euros, é natural que o pão de milho ao fim destes anos, esteja feito numa verdadeira pedra! Será que jcFrancisco tem dentes para isso?! Com tanta gente e tanta complicação, acabei por não entender patavina do texto, a começar pelo título. Ganda bagunça! Ó pá, desculpa lá a implicância, mas estou como o novo CD do Tony Carreira: «O Mesmo de Sempre»…

  3. De repente, lembrei-me de algum vocabulário utilizado no espaço da minha infância, como tulha, canistrel, jigo, alqueire e outros que há muito não ouço ou leio. E o sacristão e a missa que me lembrou os breves tempos de catequista adolescente…
    Que raio de nostalgia é esta que se aproximou de mim sem ter pedido licença?

  4. Frankie, VExª. comparado ao Tony Carreira? E esta hein?

    My Name, vamos ter que gramar com mais um atributo do JKF.

    Confessadamente me perco de riso, verto por onde não devo, só de imaginar-me na Assembleia da Republica dirigindo àqueles que por lá se sentam e assentam palavras como
    «tulha, canistrel, jigo, alqueire».

    Valupi, me diga meu bom amigo, qual a marca do vinho que o seu autor nunca larga?

  5. IDEIAS, antes que vazes totalmente nas tuas próprias verteduras, venho informar-te que onde se lê jigo, deve ler-se gigo. Cumprimentos e bom feriado.

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