Para um guarda-redes na sombra

Levanta os teus olhos para a luz que (embora amarga)
é o único destino das tuas lágrimas depois de secas,
depois de soltas pelo teu rosto, depois de convertidas
em agricultura no perímetro da pequena área. A tua.

Levanta-te e sai da sombra, sai do silêncio prolongado na nossa vida
depois da defesa feita em vão aos avançados da morte,
quando não foi mais possível segurar a bola
na direcção da baliza que sozinho defendias. A tua.

Levanta-te e volta as costas ao pó, ao sol e à chuva
do lado do Oceano Atlântico nas tardes de domingo.
Tu sabes. É urgente ter as quotas em dia, pagar à lavadeira,
pedir a quem possa costurar alguns números soltos nas camisolas:
o quatro, o seis e o número um. O teu.

Levanta-te e diz-me de novo tudo o que sabes sobre os jogos dos anos vinte,
as manias do Zamora, o Roquete, o Casoto, o Cipriano dos Santos,
as cambalhotas dos vencedores.
Tu estás do outro lado,
na dificuldade em sair do lugar da derrota, do silêncio e da sombra .

Levanta-te e vem à linha receber as instruções
para a segunda parte que só agora começou:
Pôr um boné por causa do sol, mudar de equipa e de lugar,
trocar a morte pela vida.

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Virgínia Freire (foto)

2 thoughts on “Para um guarda-redes na sombra”

  1. Quando se escreve sobre esta equipa… renasce a rapaziada, anula-se a distância medida em anos, sessenta e tal, certo?
    Da grande equipa … comentários tornam-se desnecessários.
    O pai, antes de o ser; o pai, fantástico que foi… que é!
    O tio, que não foi pai, mas foi! E os amigos… do pai e do tio… que bom!
    Um mix de emoções e sensações pela partilha destas palavras… obrigada!

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