Um livro por semana 212

«O peso do hífen» de Onésimo Teotónio Almeida

A partir de uma frase do presidente dos EUA Woodrow Wilson (1856-1924) aqui se reúnem 13 ensaios escritos entre 1983 e 2010 sobre a experiência luso-americana. O volume abre com dois quadros: Os emigrantes de Domingos Rebelo (1926) e Os regressantes de Tomaz Vieira (1987). A carroça dá lugar ao automóvel; a viola da terra é substituída pela câmara de filmar. Entre os dois quadros há 61 anos de diferenças. A frase em causa é: «Some americans need hifens on their name beause only part of them has come over».

Temos no ponto de partida que «a emigração é um bom laboratório para se fazer a radiografia de uma cultura: o núcleo duro dos seus valores é então recriado, cingindo-se ou alargando-se consoante as possibilidades do novo meio, mas recriado não obstante».

Nos EUA coloca-se o problema do nome (Fox por Raposo, Foster por Faustino, Ferry por Faria ou Fellow por Fialho) mas alguns ultrapassam a imaginação: quando Joe King parecia ser José Reis, é afinal um Joa-quim. Vemos como a expressão PIGS mudou de conteúdo: de Polacos, Irlandeses, Gregos e Eslavos passou a Portugueses, Italianos, Gregos e Espanhóis. WASP (White Anglo-Saxon Protestant) não mudou. Conhecemos o romance da vida de William Wood, filho de emigrantes do Pico que chegou a ter 60 empresas e 40 mil empregados e foi, no seu tempo, o maior nome no Mundo dos lanifícios. As obras de José Rodrigues Miguéis e de Jorge de Sena são estudadas em capítulos separados antecedendo «Três décadas de literatura luso-americana de 1978 a 2010». Sem esquecer o caso «Big Dan´s» em New Bedford em 1983 num trimestre em que se registaram 62 casos de estupro no Massachusetts: «De seis, o número de alegados violadores desceu para dois e já não se fala em violações sucessivas. As alegadas duas horas são agora quinze minutos. Em vez de uma paragem para comparar cigarros ouvimos que a mulher tomou várias bebidas e se ofereceu para pagar outras aos presentes». A Pedra de Dighton, os irmãos Côrte-Real, a Costa Leste em 1920, o 25 de Abril na imprensa norte-americana, os equívocos do período de 1975/76 entre Portugal e os EUA completam este livro de 346 páginas – fora o índice – que se lê como um romance. O romance da emigração portuguesa nos EUA.

(Editora: Imprensa de Ciências Sociais, Apoio: Fundação para a Ciência e Tecnologia, Capa: João Segurado sobre quadro de João de Brito, Foto: Rui Sousa)

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