Vinte Linhas 558

Memória justificativa para um lugar azul

Há neste lugar azul a mistura feliz das cores do oceano e do firmamento, o azul das viagens e o azul das recordações. O balcão é a memória convocada de velhos paneiros de feira em feira com oleados nas carroças; de velhas quiquilheiras com seus alforges com estampas, espelhos, pentes e agulhas; de velhos ourives de bicicleta a pedais à porta da casa dos pais da noiva anunciada do altar abaixo. Há no olhar destas duas mulheres uma topografia do bom gosto, um tripé feliz onde se cruzam o olhar arguto, a escolha certa, a rapidez da compra. Por isso tudo aqui se converte em harmonia: os postais com a gente da cidade, a flor do sal, os biscoitos artesanais, o azeite mais puro, o vinagre tão intenso, o livro diferente, o lápis com a tabuada da alegria. Mas há sempre mais nas prateleiras do lugar azul: licor de ginja e aguardente, tisanas e chás, caju e amêndoa, brincos prateados e garridos lenços, blocos-notas e sabonetes, piões e brinquedos de papelão, sacos feitos de material reciclado e o instrumento musical feito de latas de conserva – chama-se kalimba. E sem esquecer a grande mala onde cabem todas as viagens – as percorridas entre sol e pó e as sugeridas apenas em convite. Transformar produtos em mercadorias – foi sempre esse o sonho dos mais antigos comerciantes, os das caravanas nos grandes desertos da Ásia, os das feiras medievais em toda a Europa, os navegadores portugueses que traziam especiarias da Índia. Se não fosse o comércio não podíamos beber café temperado com açúcar – tão habitual que já não o dispensamos. Em oposto a Penélope, duas mulheres constroem uma teia de bom gosto a partir dum balcão quase navio onde todas as viagens se podem sonhar em azul.

8 thoughts on “Vinte Linhas 558”

  1. « Há no olhar destas duas mulheres uma topografia do bom gosto»!

    Topografia de bom gosto! O que é isso?

    Café temperado com açúcar? Que tipo de tempero é esse?
    JKF um dia faço uma crítica a sério aos seus apontamentos de bolso. A topografia de bom gosto, deixou-me incrivelmente sem fôlego, os neurónios histéricos, as cordas vocais emudeceram e os lábios teimosos, nem digo o que querem fazer.

  2. Agora tenho de dar razão ao JKF e contradizer os comentadores. O vocábulo Temperar está bem usado neste caso e basta ir ao Priberam para tirar teimas: http://www.priberam.pt/dlpo/default.aspx?pal=temperar
    Aliás, este texto é um exemplo de que o JKF consegue escrever boa poesia, sem a cagança que teima em usar em muitos dos posts aqui.
    Para que conste que não venho aqui só para apontar defeitos. Este texto é muito bom.

  3. Permita-me prezada Maria Albertina.

    Sem querer, naturalmente, fazer primar a minha crítica: a superficialidade, a imposição da rima, a simetria superficial, enfim, a falta de alma, é o que retiro de todo e qualquer texto deste autor de posts no aspirina b. Um poeta, um escritor, tem de escrever com alma, com sentimento, «de dentro para fora». Com arte. Atributos que não reconheço ao Senhor em causa que, de resto, nos desvia, com o seu recorrete expressionismo qualificativo.

    Cumpts.

  4. Desculpa lá, Maria Albertina, mas onde fica a palavra adoçar? Costumas perguntar: deseja tempero no chá? No Priberam temperar = colocar substâncias na COMIDA – não na bebida! Experimenta pôr lá a palavra adoçar e logo vês… Podes ser simpática com o autor do post, mas não induzindo os outros em erro…

  5. Mário, estás a ver apenas um dos 14 sentidos que a palavra pode ter.

    3. Tornar mais fraco ou brando.
    4. Tornar menos intenso. = amenizar, suavizar ≠ intensificar
    5. Fig. Tornar mais moderado. = conter, moderar
    7. Tornar mais forte. = avigorar, fortalecer
    8. Misturar, juntar ou acrescentar (algo) a.

  6. Continuo na minha, Maria Albertina. Quando dizes «O vocábulo Temperar está bem usado neste caso…», não concordo. Não é usual utilizar o termo «temperar» quando nos referimos ao café, mas, sim, adoçar. As palavras ajustam-se consoante o seu contexto…

  7. O facto de não ser usual, não significa que não seja correcto. Para mim é claro que para o sentido de “tornar mais brando” não bastaria “adoçar”.
    Lê Camilo ou Eça e descobrirás uma avalanche de vocábulos usados sem ser na sua utilização usual, mas muito correctamente.
    (E nem penses que estou a comparar o JKF com o Camilo e o Eça. Nessa não me apanhas tu.)

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