Um livro por semana 210

«Esta cidade!» de Irene Lisboa

A primeira edição deste livro de Irene Lisboa é de 1942 e marca o fim do seu pseudónimo João Falco. A proximidade entre texto e facto surge na página 97: «aquele retrato escapado do naufrágio ou do tempo atestaria sempre uma era: 1938, 1939, 40».

Irene Lisboa usa o retrato de Adelina para contar a cidade: «Devia ter sido bonita e ainda era engraçada. A vida da Adelina interessa-me tal como é afinal e não pelo que de empolgante ou de propício a romance possa em si conter». Mas a cidade também é personagem: «Há quem julgue que a monotonia da cidade, a de escrever cartas e ofícios, dar lições, apanhar lugar sentado nos carros, ouvir pregões, ver caras parecidas, embota os sentidos. Mas não!» Lisboa tem a sua paisagem: «A minha rua não é feia, tinha-me dito a Adelina um dia. E não era, dava uma bonita volta em cima, onde se avistava Monsanto de esguelha. Realmente, aquela pobreza dos lados da Rua da Cruz era muito mais sórdida que esta das Necessidades». E tem o seu povoamento – refugiados e saloios, por exemplo. Helma, que foi para o Brasil («Era uma intelectual inocente e inteligente») e o saloio «que só enquanto vendeu bacalhau podre é que viu dinheiro!». Sem esquecer os conflitos, os da vida da Adelina («a mim serviu-me de muito ser arrecebida…Fiquei com uma filha nos braços e um tostão na gaveta da cozinha») mas também os da Escola – «Cada rapaz que não saiba a lição paga uma multa de berlindes para ela não ter de os comprar para o filho». Há uma inesquecível menina que vai a pé do Arco Carvalhão à Rua da Atalaia: «a minha mãe gostava muito de ter uma casinha…temos só um quarto e sem janela. Ela tem um câncaro no nariz». Entre o pitoresco da rua («Os eléctricos parece que entram pelas lojas dentro») e o tempo da II Guerra («O pãozinho está muito escasso e anda por aí muito braço caído») a eterna questão da linguagem: «A linguagem é uma terrível fixadora de modas! Chega porém a envelhecer com elas, a criar bafio…É um espelho com a propriedade de conservar as imagens que um dia reflecte mas que de repente apetece atirar fora, pôr de banda…»

(Editora: Presença, Organização e prefácio: Paula Morão, Patrocínio: Instituo Camões e Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro)

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.