Diz ele: Chuviscou torrencialmente (Ferreira Fernandes)

Na crónica de ontem, tratei, com a ironia que o assunto/sujeito me parecia pedir, da bizarra explicação de Vítor Gaspar sobre os fracos números do investimento português no primeiro trimestre. “Adversas condições meteorológicas”, disse ele, sem rir, o que é de gargalhada. Daí eu ter recheado a crónica de termos irrisórios: previsões tão falhadas na meteorologia quanto nas finanças, cortes cegos nas altas pressões dos Açores… Para declarações oficiais loucas, crónicas tolas. Admito, porém, que o ângulo esteve errado. Não que Gaspar não merecesse o escárnio. O habitual discursador seco tentar desculpar-se com o excesso de precipitação (foi outra das piadas) estava a pedi-las. O meu erro foi ter deixado que a anedota da árvore me tapasse a floresta de análises sérias que o episódio exigia. A questão grave é: Vítor Gaspar, o homem mais determinante numa das situações mais graves da História portuguesa, não é um político. E isso é uma tragédia. Na sexta-feira passada – quando meia-Europa estava mergulhada nas águas, Budapeste e Praga salvas com sacos de areia, mortos, dezenas de milhares de desalojados – Gaspar justificou os nossos falhanços assim: em Portugal chuviscou torrencialmente. Da Alemanha (milhares de desalojados, 25 mil socorristas e 16 mil militares nas estradas) é um tal Wolfgang Schäuble, com quem Gaspar tem de se explicar. Receio que o nosso ministro lhe apareça de capa encerada e botas de borracha e cano alto.

queres aquilo a que tens direito? só se for a prestações

Já foi explicado pelo Tribunal Constitucional (TC), a quem ainda não tinha dado conta da realidade remuneratória portuguesa, que os subsídios de férias e de natal são retribuição. Os baixos salários praticados em Portugal (com razões históricas e sociais conhecidas) foram compensados por um sistema remuneratório calculado em 14 meses.

Esta fórmula remuneratória é uma das possíveis quando olhamos para o mundo inteiro, bem diferente, por exemplo, do cálculo anual da remuneração, e não mensal, praticado nos EUA, onde a “questão salarial” nada tem a ver com a nossa.

Receber 14 salários garante alguma segurança aos trabalhadores, que podem, em dois momentos concentrados do ano, enfrentar com menos dificuldade as despesas que não são facilmente enfrentadas com um único salário mensal.

É por isso que subsídio de férias (e de Natal) é remuneração. É por isso que subsídio de férias dos reformados e pensionistas correspondem à mesma lógica, já que decorrem de uma carreira de descontos, não 12, mas 14 vezes por ano.

Este Governo tem sabido chamar “corte de despesa” a prestações constitucionais, insistindo já duas vezes em procurar receita onde é fácil: precisamente no corte de subsídios de férias e de Natal a funcionários públicos e a pensionistas, o que, digamos, é um exercício de contabilidade mais fácil do que enfrentar rendas excessivas.

Dois Acórdãos do TC depois, o Governo apresenta na sexta passada esta trapalhada.

Como devolver direitos?

O rancor útil para com o TC deu armas à imaginação de Gaspar/Passos/Portas, uma espécie de amuo por quem há muito tempo não vê, no seu horizonte, os destinatários das decisões do poder, aqueles que usualmente se trata como pessoas concretas. A ponderação governamental pende para uma réplica reles ao TC, sem que resista a qualquer teste uma outra justificação .

A tripla sabe que tem de respeitar o TC, mas eis que surge o documento e o povo descobre que tudo o que descrevi acima, e que é tido por banal,   foi morto e enterrado, porque o Governo “devolve”  mas trata de explicar que as férias e assim são quando um Gaspar quiser. Com isso, deitam por terra a função garantística do subsídio, mas isso não trava quem já é apenas desgoverno.

Assim, temos um menu: duodécimos; relativamente aos aposentados, reformados e demais pensionistas da CGA, ao valor do 14.º mês ou prestações equivalentes ao subsídio de férias que couber em cada mês será deduzida a contribuição extraordinária de solidariedade, aplicando-se a taxa percentual que couber a uma pensão de valor igual a doze vezes o valor da referida prestação ou subsídio mensais, bem como as quantias em dívida à CGA, I.P., e as quotizações para a Direção-Geral de Proteção Social aos Trabalhadores em Funções Públicas (ADSE); temos subsídio de Natal em Junho para quem recebe menos de 600 Euros; temos trabalhadores, aposentados, reformados e pensionistas (bem como o pessoal na reserva ou em situação análoga e o desligado do serviço a aguardar aposentação) com remuneração ou pensão mensal de valor entre os 600 e os 1.100 euros a receber o  subsídio de Natal às pingas (no mês de junho e  no mês de novembro);  temos trabalhadores do setor público  a receber  o subsídio de Natal no mês de novembro; temos  aposentados, reformados e demais pensionistas da CGA, bem como o pessoal na reserva ou em situação análoga, cuja pensão ou remuneração mensal seja superior a 1.100 euros, a receber  10% do subsídio de Natal no mês de julho, sendo o remanescente do subsídio pago no mês de novembro; temos  pensionistas do sistema de segurança social cuja pensão mensal seja superior a 1.100 euros também a receber 10% do subsídio de Natal no mês de julho, sendo o remanescente do subsídio pago no mês de dezembro.
 
A resistência ao insulto tem limites.

As “Caras da Semana” com cognomes ou algo do género

Não sei a opinião dos ilustres leitores, mas se há rubrica do Público que considero sem jeito é a intitulada “Caras da Semana”, na edição dos domingos. Não que tenha algo contra este tipo de apreciações semanais breves. Rubricas semelhantes, principalmente sobre acontecimentos da semana, existem em muitas outras publicações. É antes a forma escolhida. Passo a explicar. Ocupando o fundo de duas páginas consecutivas, em pequenas colunas, a rubrica elege algumas personalidades, nacionais ou internacionais, mostra a respetiva foto, identifica-as pelo nome e resume a razão de ser do seu destaque numa espécie de subnome, tipo “o impreparado”, ou “a alcoviteira”, ou ainda “o inteligente”, antes de nos dizer, em poucas linhas, o que fez ou não fez de bem, ou de mal, a pessoa em causa. Claro que o perigo de ficarem para a posteridade com tal classificativo é nulo, porque felizmente as semanas passam a galope. Mas ainda assim…

Hoje, temos, por exemplo, António José Seguro, o Preparador, Francisco José Viegas, o Displicente, Barack Obama, o Hipervigilante, etc. Como veem, estas escolhas de atributos são sem graça, ridículas, descabidas ou enganadoras. Vemos Seguro em muitos papéis, mas no de preparador de laboratório não vemos. Também apelidar Obama de hipervigilante me parece sem estilo, sem gosto, sem requinte, sem sentido político. Ainda se, ao menos, se abstivessem de usar o artigo definido, talvez encorajassem mais o leitor a ir ler o resto. Assim, não há semana em que o meu comentário não seja “This sucks” ou, em português, “Mas isto é o quê, um cognome, uma carta do Tarot?”. Na dúvida e desgostada, mudo de página.

É deslocado e francamente mau este misto de cognomes de reis de Portugal, como “D. João III, o Piedoso”, ou “D. Sebastião, o Desejado”, e de horóscopo/ cartas do Tarot (o tamanho da coluna lembra até uma carta), como “Gémeos – a Morte”, “Carneiro – a Papisa”. Já se melhorava esta secção, senhora diretora.

Ez TOVÁRES /elvtárs/ ismerjük őket a komcsi időből!

Rui Tavares em húngaro

Rui Tavares é o relator de uma investigação do Parlamento Europeu sobre a situação dos direitos fundamentais na Hungria. Não surpreende, pois, que a imprensa húngara dele dê notícias. Sequer que o Magyar Hírlap, órgão que apoia o Governo de Viktor Orban, fale no seu nome. Do que não estava à espera, e poderia esperar sentado até que o Inferno gelasse ou o caso BPN fosse julgado (o que acontecesse primeiro) sem conseguir antecipar, era de ver um grupo de húngaros a recorrer a um artigo meu – escrito em 2008! – para denunciarem o Rui Tavares como um antigo comunista. A realidade é sempre mais rica, e muito mais absurda, do que a imaginação.

Está aqui – A alegria do Rui Tavares – e quatro anos e meio depois não lhe mudava uma vírgula.

Uma maioria, um Governo, um Presidente..

Tudo para dar certo.

Primeiro trimestre deste ano:

1) consumo: caiu 6, 3 %

2) investimento: caiu 16, 8 %

3) PIB: 4, 0%

4) desemprego: mais 100 mil pessoas perderam o seu emprego

Tudo para dar certo e nem uma palavra. Só o estafado recurso ao passado, como se as pessoas fossem idiotas, como se ninguém se lembrasse da “austeridade expansionista”, como se ninguém se lembrasse de nada, como se tudo o que foi previsto por este Governo não tivesse falhado sempre, como se alguém tivesse escondido o número desastroso para a economia portuguesa, que vai cair, este ano, no mínimo 3% , como se o sucesso pudesse ser proclamado à conta da balança comercial, que é o que é  (saldo positivo de 1,4%) porque na desesperança importamos desesperados. Não, não temos um país povoado de empresas sem problemas a exportarem freneticamente.

Um Governo, uma maioria, um Presidente, boas relações com a concertação social: tinham tudo, tudo para dar certo, como nunca, e perdemos tudo.

Fundamentação na discussão da co-adoção em vez de meras opiniões pessoais: “Por um debate sério e fundamentado”

No seu último texto de opinião no Expresso, Miguel Sousa Tavares sublinhou, com toda a razão, a importância em assegurar que a discussão em torno da co-adoção por casais do mesmo sexo seja conduzida com seriedade, atenta a seriedade das várias questões que são convocadas para o debate.

E se, até agora, este debate tem sido marcado pelas intervenções de juristas e de defensores e opositores da alteração da lei, é fundamental que a passagem à discussão na especialidade na Assembleia da República permita convocar também o contributo de outras áreas científicas e os depoimentos de quem durante anos tem colocado o interesse das crianças no centro da sua atividade profissional. Essa é, neste debate, a principal e determinante questão.

Felizmente, o contexto no qual vamos aprofundar o tema é marcado pela existência de inúmeros resultados de investigação científica e de tomadas de posição de associações profissionais, com particular destaque para a realidade norte-americana, onde o tema tem vindo a ser abordado e estudado há mais de duas décadas. É hoje cada vez mais claro que o consenso científico se constrói em torno de uma ideia chave, a de que o desenvolvimento das crianças educadas numa família homoparental não é diferente daquele que ocorre no quadro de um casal de sexo diferente.

Citando apenas algumas das mais representativas tomadas de posição neste sentido, algumas com mais de uma década, assentes em estudos científicos credíveis e sujeitos a peer review, deparamo-nos com uma lista que inclui a Associação Americana de Psicanálise (2002), a Associação Americana de Psiquiatria (2002), a Associação Americana de Psicologia (2004), a Associação Médica Americana (2004) ou a Academia Americana de Psiquiatria Infantil e Adolescente (2008). Mais recentemente, em 2013, a Academia Americana de Pediatria, que também já se pronunciara em 2002, sublinhou ainda que é precisamente a ausência de protecção jurídica da criança que representa um risco acrescido para o seu desenvolvimento.

Devemos ainda ter em conta que, longe de se tratar de uma realidade assente apenas no estudo de um contexto social e cultural distinto do nosso, são já vários os trabalhos de investigação realizados em Portugal (na Universidade do Minho, na Universidade do Porto ou no Instituto Superior de Psicologia Aplicada, para citar apenas alguns), que vão chegando às mesmas conclusões da investigação realizada no estrangeiro e que oferecem dados reais sobre famílias portuguesas, que não podem ser ignorados.

O debate aberto que hoje realizamos, em torno do alargamento de um instituto de direito civil que visa acautelar o superior interesse da criança, não é distinto daquele que, em inúmeras ordens jurídicas, em vários pontos do mundo, permitiu concluir pela vantagem em assegurar a adoção plena por casais do mesmo sexo (em número superior, aliás, aos que permitem o seu casamento), ou, pelo menos, concluir que a co-adoção é uma solução valiosa para proteção da situação jurídica dos menores.

Finalmente, regressando ao jurídico, o debate em curso corresponde igualmente ao debate sério e bem fundamentado, que levou o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos a condenar a Áustria, já em 2013, por não assegurar a possibilidade de co-adoção, considerada necessária por aquele tribunal para garantir a proteção jurídica plena das crianças que já hoje são criadas por casais do mesmo sexo.

Pedro Delgado Alves, hoje,  no “Expresso”

Só pode ser humor negro

Se os membros deste Governo fossem tão criativos a arranjar soluções para resolver os problemas do País como são para arranjar desculpas esfarrapadas para o desastre das suas políticas, o PIB disparava. A última, e candidata a ser a desculpa mais disparatada de sempre, foi a do ministro das Finanças que culpou a chuva pela queda do investimento nos primeiros meses do ano. Teve o desplante de afirmar em pleno Parlamento que a chuva terá prejudicado o sector da construção. E logo o sector da construção, um dos mais afectados desde o início da crise de 2008, bem antes da chuva deste Inverno. O programa de recuperação das escolas, levado a cabo pelo Governo de Sócrates, e tão odiado pela direita, já teve como objectivo minorar os efeitos da crise neste sector. Odiaram esse programa e nestes dois anos de Governo, com chuva ou com sol, nada fizeram pelo sector, pelo contrário, diabolizam-no, já que o acusam de ser responsável pelo endividamento público e privado.

Foi pena ninguém lhe ter perguntado o que teria acontecido se não tivesse chovido no Inverno. Será que o Governo teria investido em obras públicas? Bem, para resolver a falta de investimento, e fazer com que as suas contas batessem certo, teriam de ser obras muito, mas mesmo muito, faraónicas. Ou será que o ministro estava a pensar no investimento privado? Vai na volta, se o Sol tivesse brilhado, e apesar da austeridade, do desemprego e da falta de crédito, os portugueses não teriam resistido a comprar casa nova ou, pelo menos, a fazer umas obras na casa velha.

Das duas uma, ou disse-o para ser levado a sério, o que é grave e revela que o ministro não está bem. Ou estava a gozar com a nossa cara, ou seja, a gozar com a tragédia dos outros e devia ser demitido. Afinal, contar uma anedota ou fazer uns corninhos talvez não seja tão grave e já deu direito a demissões.

Um país de mansos

O achincalhamento da governação Sócrates serviu (mas agora deixou de servir) como alibi para as políticas desastrosas da Direita. Já ninguém se atreve a usar tal alibi, sabendo que Domingo à noite a coisa seria desmontada.

Sócrates readquiriu um estatuto político excepcional num contexto em que o caos parece estar para durar. E enquanto os portugueses não disserem basta ao actual desgoverno, enquanto a contestação não se impuser, o presidente da República permanecerá “a mão por detrás do arbusto”.

Mas o que mais espanta na actual situação é a passividade dos portugueses, tanto mais que nos locais de trabalho as chefias parecem “mais papistas que o papa”. Mimetiza-se, um pouco por todo o lado, o estilo autoritaresco e persecutório da governação Cavaco / Passos / Portas e a malta encolhe-se.

Não sei exactamente a que se deve este fenómeno de um povo apático, preocupado mas condescendente, que não exerce o seu imenso (contra)poder perante ameaças impensáveis a cada dia que passa. Será que deveríamos ter em conta uma espécie de trauma após-Sócrates, uma espécie de culpabilidade colectiva daqueles que se deixaram enredar na tramóia que fez de Sócrates o bombo da festa, e não sabem agora como salvar a face?

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Um dos mais violentos artigos contra a Europa

O relatório de ontem da equipa de economistas do FMI e a resposta da Comissão inspiraram Ambrose Evans-Pritchard, do Telegraph, a escrever um dos mais violentos artigos contra a política europeia, capaz de fazer Olli Rehn (e não só) perder os óculos e a compostura. Aqui deixo pequenos excertos:

“The European Commission defended itself yesterday, saying a debt restructuring in 2010 would have caused havoc in the bond markets and virulent contagion. This is true, but what kind of a defence is that?
Yes, everybody feared a chain-reaction of sovereign defaults reaching Italy and Spain, but this was entirely because the ECB was recklessly refusing to carry out its responsibility as a lender of last resort, the ultimate purpose of any central bank. In doing so, it was endangering the entire global financial system.
You can trace this paralysis to Maastricht and the nature of the ECB mandate, but as the Draghi (OMT) backstop for Italy and Spain has since demonstrated, what it really showed was that a lot of ECB governors were out of their depth, or pursuing naked national agendas, or both, and hiding behind what are in reality very elastic treaty clauses)
[…]
What we see is a near perfect exhibit of what is wrong with the European Project. There is no mechanism of accountability. The buck stops nowhere.
I don’t wish to pick on Economics Commissioner Olli Rehn, although one’s patience runs out after listening to the Commission’s retort that the IMF is “plainly wrong”.

[…]
Yet Mr Rehn is the titular official in charge. The Troika is “his” baby. If he were the finance minister of a democratic state he would surely have to resign after such blistering demolition of his tenure.
The fact that nobody ever resigns for botched policies in the EU system (Pace, the Santer Commission: the exception that proves the rule) should not deter Mr Rehn from falling on his sword from a high sense of honour. Such a gesture would clear the air, and mark a recognition that the policy formulae of EMU must be swept away to allow for recovery.”

(Na íntegra aqui)

Como (não) discutir com um comuna

Existe uma parte do PS que acredita numa qualquer aliança da esquerda que permita viabilizar um Governo que inclua o BE e o PCP de modo a poder excluir qualquer aliança com a direita. Se tal acontecesse, e para além dos foguetes que ribombariam durante horas ou dias seguidos, a História teria de reservar um capítulo inteiro só para conseguir explicar como tal havia sido possível. Porque não foi ainda em quase 40 anos de democracia e não parece que algum dia o venha a ser. Vejamos um exemplo translúcido:

Pedro Nuno Santos apresenta-se, à superfície, convicto e generoso no estender de mão ao PCP. O seu argumento comporta três elementos: (i) suposta vontade maioritária ou relevante do eleitorado para que se alcance a união da esquerda; (ii) as coligações do PS com a direita são invariavelmente efémeras, como o passado demonstra; (iii) qualquer coligação implica a necessidade de fazer cedências, pelo que o PS tem mais a ganhar se as fizer à esquerda do que à direita. Qual o problema desta posição? É apenas para consumo caseiro, por um lado, e é simplista, não tocando na questão essencial. À sua frente, Jorge Pires, um representante da mais pura ortodoxia partidária comunista, apenas teve de meter a cassete para reduzir o socialista à sua condição de serventuário do imperialismo capitalista.

O Pedro, para lidar com a recusa do Jorge em promover a mínima convergência, enveredou por um apelo ao pragmatismo, a evidência de que o sofrimento do povo é tão grande e tão grave que deveria ser suficiente para que a esquerda aceitasse unir-se na defesa do comunidade, finalmente superando as diferenças e desconfianças entre si – nem que fosse só para responder à presente emergência. Embalado, chegou a ameaçar com uma punição eleitoral quem recusasse esta união. O estratagema, contudo, era fatalmente pífio, pois o PCP em Março de 2011 tinha abundantemente exibido qual a importância que dava ao interesse nacional visto a partir da contabilidade do que protege ou ataca os cidadãos. Sem surpresa, o Jorge repetiu, agora mais devagarinho, que “a unidade da esquerda não é um exercício de aritmética; 1+1+1=3“. A aritmética é pueril, actividade para meninos. Lá na Soeiro Pereira Gomes é tudo muito mais avançado, até conseguem “interpretar a vontade da maioria do povo” sem precisarem que esse mesmo povo lhes dê razão através do voto. E o que quer o povo, então, de acordo com os seus verdadeiros proprietários? Quer sair do Euro e da União Europeia e passar a viver não se sabe como, mas, indiscutivelmente, com patriotismo para dar e vender.

O momento mais interessante do debate, para quem tiver nos seus planos discutir com um comuna, foi aquele em que o Jorge explicou o fracasso eleitoral do PCP ao longo de décadas: a mensagem não chega a toda a gente em condições de igualdade com as mensagens da concorrência. Através desta falácia intencional, ou crença inamovível, um militante do PCP consegue lidar com a dissonância cognitiva de se imaginar na posse da ciência da História e, em simultâneo, se ver ignorado por essa mesma História que continua a adiar o nascer dos amanhãs que cantam. O processo mental é exactamente igual ao de qualquer seita apocalíptica, cujo exemplo mais conhecido por cá é o das Testemunhas de Jeová, onde as organizações têm de ir continuamente garantindo aos fiéis que a salvação está iminente apesar da chatice de não haver nenhum sinal inequívoco nesse sentido. Os comunas repetem que a culpa é da comunicação social, a qual terá o poder mágico de conseguir anular não só o frenesim e prolixidade incansável do Partido como até o de abafar as circunstâncias económicas e sociais que a doutrina marxista decreta serem as suficientes para que o proletariado saia à rua em ordem a consumar a revolução. Esta alucinação não mereceu nem do interlocutor nem do jornalista qualquer atenção, espantosamente. E essa alucinação é a que mais fácil e rapidamente conseguirá levar um comuna a confrontar-se com o sistema mitológico que lhe confere a identidade.

O comunismo é uma ideologia utópica tão legítima como qualquer outra. A muitos comunistas, ou enquanto o foram, devemos muito. A história da democracia, dos direitos humanos e da liberdade regista os seus nomes. Em Portugal, ainda devemos mais, pois a resistência contra uma ditadura novecentista e rural teve no PCP a principal força motriz. Mas um comuna é outra espécie de animal. O comuna tem aversão à democracia e, portanto, foge do pensamento crítico como se visse o Diabo. Discutir com um comuna, pois, deve ser um exercício de implacável curiosidade – esse tão perigoso desvio burguês aos dogmas do Comité Central.

Quando é que a “staff team” e o “Executive Board” do FMI se sintonizam?

Os economistas do FMI acabam de publicar um documento de avaliação do resgate da Grécia em 2010, em que reconhecem inúmeros erros de estimativas e erros na própria receita.

«O FMI admite erros significativos nos remédios do programa da Grécia e nos efeitos que estes teriam na economia grega. O resgate, segundo o FMI, terá sido uma operação feita para “dar tempo à zona euro para criar uma ‘firewall’ para proteger outros membros vulneráveis e evitar efeitos potencialmente severos na economia mundial”.»

Fonte: JN

Isto é o que se chama brincar com coisas sérias. Estas pessoas estudaram e são pagas o suficiente para não poderem ignorar as consequências num dado país daquilo que estavam a preconizar e a impor.

Não vou aqui remeter para todos os posts, artigos de jornais, livros e análises económicas que, há mais de dois anos, vêm dizendo que o resgate da Grécia (e não só) e os violentos termos em que foi feito, e que significariam uma tragédia social e económica sem fim, mais não eram do que uma forma de a Europa, numa altura de egoísmo centralizado, ganhar tempo. Ganhar tempo para, perante a ameaça iminente de colapso da Zona Euro com a saída de um só país, medir a gravidade do que se estava a passar e analisar se podia não fazer grande coisa enquanto a Alemanha e seus satélites continuassem bem, ganhar tempo para os bancos do norte se recomporem e recuperarem o dinheiro emprestado, ganhar tempo enquanto as transferências de depósitos se intensificava, enfim, ganhar tempo enquanto se faziam experiências. Toda a gente viu, toda a gente soube e muita gente o disse.

Quanto à flexibilização dos critérios, dizer também que o país não preenchia três dos quatro critérios para o resgate, mas mesmo assim tê-lo resgatado por não haver alternativa, é chover no molhado. Porque já está.

Não sei se o FMI considera agora que a Grécia devia ter sido deixada falir e sair do euro. Parece-me evidente que tal não iria acontecer, pelo que este reconhecimento póstumo dos chamados erros e do desrespeito de critérios é inútil. A menos que tenha consequências nos programas concretos em curso. Caso contrário, mais valia estarem calados. Até porque, como diz o documento logo na introdução, esta análise não representa a posição dos órgãos dirigentes do FMI.

>“The views expressed in this document are those of the staff team and do not necessarily reflect the views of the government of Greece or the Executive Board of the IMF

Então, quando saberemos a posição do conselho de administração? É divergente? E as divergências internas trazidas para a praça pública pretendem o quê? Limpar a má imagem da instituição, que continua alegremente a arrasar países ou a aliar-se a quem os arrasa, como no caso da Europa?

Mas, enfim, tendo em conta que esta gente trabalha no FMI e vai ser citada e acusada, como é o caso, o que nos interessa reter e questionar é o seguinte:

1) Se a ideia foi construir o tal “firewall”, parece não ter funcionado plenamente, ou seja, não funcionou para todos os países, porque, depois da Grécia, houve mais dois resgates, três se contarmos Chipre, e dois países – a Espanha e a Itália – estiveram à beira de resgates, dada a degradação das suas condições. Apenas a dimensão das suas economias impediu a mesma solução. O BCE interveio para baixar os custos de financiamento, mas a UE impôs-lhes condições draconianas de quase resgate e a situação não parece estar a melhorar. Aliás, toda a Zona Euro está entre a recessão e a depressão. Que conclusões tiram? Não têm nada a ver com isso? Mas são ou não membros da Troika? Houve também erros no que respeita a outros países? Não houve? Estão a cometer-se erros neste momento? Está tudo a correr bem? Ou faz parte do marketing do FMI só reconhecer os erros passados dois ou quatro anos e milhões de desempregados depois, ah, e através dos “staff teams”?

2) Está à vista que o programa aplicado a Portugal foi igualmente e comprovadamente errado, pelo que não se compreende que o não digam também, quando todos os indicadores da dívida, da economia, do défice, do desemprego, etc., estão no vermelho e a piscar há não sei quantos trimestres, deixando Portugal literalmente sem baterias. Quando sai o documento sobre Portugal? Com a dívida nos 130% do PIB e a economia numa desgraça, esperamos uma autocrítica semelhante, embora receie que nos valerá de tanto como irá valer à Grécia.

E também somos muito lavadinhos

Louvado seja Deus. Finalmente, somos vistos como um povo honrado e trabalhador. Bastaram apenas dois aninhos a Passos Coelho para pôr fim à preguiça e gandulagem que já durava vai para novecentos anos. E é extraordinário, logo agora que o desemprego atingiu valores nunca vistos, que há tantos portugueses sem trabalho e que por causa disso não conseguem cumprir os seus compromissos é que nos vêem como muito trabalhadores e honrados. Talvez um dia este destemido primeiro-ministro nos possa explicar isto. E, já agora, quando tiver um bocadinho, que nos diga quem foram os governantes que nos deram fama de caloteiros por esse mundo fora, e quando é que o País deixou de pagar o que devia. Nós sabemos quem são, mas é melhor ser ele a confirmar. Entretanto, em vez de o massacrarem com sondagens e eleições autárquicas, ele não liga patavina a essas coisas, façam-lhe mas é uma estátua e espalhem painéis com a sua fotografia. É o mínimo que se pode fazer para agradecer tudo o que tem feito por nós e pelo País.

Vencidos da Troika

É inútil acreditar que exista um “socratismo”, ainda para mais messiânico, à semelhança do muito lusitano sebastianismo. Assim como não existem – nunca existiram – “socráticos”.

Tudo isso são apenas categorias da impotência moral da Direita – que esperneia e relincha grotescamente sempre que a superioridade moral de Sócrates a vexa e a humilha da forma que mais lhe dói, isto é, nos seus próprios termos – e da impotência intelectual de certa Esquerda – que passa ao lado de qualquer mensagem política relevante por manifesta incapacidade cerebral, a menos que algum piedoso Lobo Xavier a ilumine caridosamente com uma lanterna a pilhas, dois anos depois de as coisas acontecerem e a percepção das mesmas ter relevância.

Por isso é que este pobre País do Lixo – Pacheco “dixit” – está condenado a viver uma situação de sub-desenvolvimento, material e cultural, e uma agonia de protestos anémicos e indignações pífias, comandadas por inúteis e estéreis, cuja eficácia política se resume à colaboração com a potente e demagógica narrativa da velha Direita de sempre, aliada à nova Direita deslumbrada do novo-riquismo bolsista, financeiro, especulativo, mediático e pedantemente anglófilo.

Estamos todos muito próximos, historicamente, da Geração de 70 do Séc. XIX, que lucidamente constatou o falhanço português do seu tempo, incapaz de acompanhar o surto de desenvolvimento que acompanhou a industrialização europeia e que prenunciou, entre o estertor do Rotativismo aristo-burguês e a decadência duma Monarquia ligada à máquina desde a Ditadura de Beresford, o levantar de um novo Portugal renascido das cinzas do Passado e com base numa realidade política completamente nova e risívelmente marginal no Séc. XIX – a República!

Só uma reviravolta desse calibre poderá de novo dar gás a uma Nação gasta e cansada como a nossa. A menos que estejamos já no derradeiro ciclo da sua existência, hipótese que também é bastante prudente ter em conta…

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Oferta do nosso amigo Baltazar Garção

Evolução da economia portuguesa: temos de parar de viver “acima das nossas possibilidades”

Os dados divulgados hoje pelo INE, revêm em baixa o valor do PIB avançados no mês passado na estimativa rápida. Assim, no 1º trimestre de 2013, a economia portuguesa caiu 4,0% em termos homólogos e 0,4% em termos trimestrais (-3,9% e -0,3% na estimativa rápida).

A economia portuguesa apresenta a recessão mais prolongada de sempre: dez trimestres consecutivos de quebra no PIB (em cadeia e/ou nove em termos homólogos). É o valor mais baixo do PIB, em termos reais, desde 2000. Em dois anos, esta recessão já retirou da economia 9,3 mil milhões de euros.

Segundo o INE, A redução mais acentuada do PIB em termos homólogos foi determinada pelo comportamento da procura interna, que passou de um contributo de -4,6 p.p. no 4º trimestre de 2012 para -6,4 p.p.. O contributo positivo da procura externa líquida aumentou, situando-se em 2,3 p.p. (0,8 p.p. no 4º trimestre de 2012), em resultado da diminuição mais intensa das Importações de Bens e Serviços.”

 

A procura interna caiu 6,3%, em termos homólogos, traduzindo-se numa redução mais acentuada que a verificada no trimestre anterior (-4,5%). Esta evolução deveu-se ao contributo mais negativo do Investimento, com uma variação homóloga de -16,8% (-2,1% no 4º trimestre de 2012).

O consumo diminuiu 4,2% face ao mesmo período de 2012, com o consumo privado a baixar 4,3% e o público 4,0%.

As Exportações cresceram de 0,1%, em termos homólogos. Este resultado foi determinado pelas exportações de serviços que aumentaram 1,2%. Em sentido oposto, as exportações de bens diminuíram 0,3%.

As importações cairam 6,0%, em termos homólogos, o que compara com a variação de -2,3% no trimestre anterior. Esta evolução refletiu, em larga medida, o comportamento das importações de bens, que apresentaram uma taxa de variação homóloga mais negativa (-6,0% e -2,0%, respetivamente no 1º trimestre de 2013 e no 4º trimestre de 2012), bem como o comportamento das importações de serviços (variações de -5,8% e -4,2%, pela mesma ordem).

dados do INE (5 de Junho de 2013)

Parabéns, Pedro – mas quando é que pensas ir entregar-te à esquadra?

O líder do PSD defendeu esta sexta-feira a responsabilização civil e criminal dos responsáveis pelos maus resultados da economia do país, para que não continuem «a andar de espinha direita, como se não fosse nada com eles».

«Quem impõe tantos sacrifícios às pessoas e não cumpre, merece ou não merece ser responsabilizado civil e criminalmente pelos seus actos?», questionou.

«Se nós temos um Orçamento e não o cumprimos, se dissemos que a despesa devia ser de 100 e ela foi de 300, aqueles que são responsáveis pelo resvalar da despesa também têm de ser civil e criminalmente responsáveis pelos seus atos e pelas suas acções», referiu Pedro Passos Coelho, citado pela agência Lusa.

«Não podemos permitir que todos aqueles que estão nas empresas privadas ou que estão no Estado fixem objectivos e não os cumpram. Sempre que se falham os objectivos, sempre que a execução do Orçamento derrapa, sempre que arranjamos buracos financeiros onde devíamos estar a criar excedentes de poupança, aquilo que se passa é que há mais pessoas que vão para o desemprego e a economia afunda-se», referiu.

5 de Novembro de 2010

pot of gold

Eu não estou agarrado ao meu lugar, não quero ser Primeiro-Ministro a qualquer preço. Mas ninguém no PSD quer ganhar mais estas eleições do que eu porque numa altura em que o País enfrenta, provavelmente, a última grande oportunidade nos próximos anos de inverter esta tendência de empobrecimento em que tem caído, Portugal tem crescido, nos últimos dez anos, em média 0,5%, o que significa que se não inverter esta situação os 700 mil desempregados que hoje tem crescerão para perto de 900 mil muito rapidamente – o que significa uma situação absolutamente desastrosa e caótica. Nós hoje só não temos 15% de desemprego em Portugal porque temos a maior taxa de emigração dos últimos 90 anos em Portugal. Portanto, ou vamos inverter esta situação rapidamente e as pessoas acham que é importante fazê-lo, e escolher um Governo que, de uma vez por todas, entregue este resultado e lute por ele, ou não temos isso e então o País terá escolhido o seu destino e eu assumirei a minha responsabilidade; é porque eu não fui suficientemente convincente. Mas estou muito determinado em entregar este resultado e não será por falta nem de preparação, nem por não escolher as pessoas com melhor perfil, nem de levar a maior isenção e abertura para o Governo que a estratégia não será bem sucedida.

4 de Maio de 2011