A Isabel já escreveu o que mais importava gritar-se a respeito da chungaria de tasca do novíssimo braço-direito do primeiro-ministro, acima pendurada: Da “narrativa”, segundo Poiares Maduro. Mas o que este palhaço, acabado de chegar ao circo que é a direita de Passos, Portas e Cavaco, diz em menos de um minuto permanece, seja qual for o ponto de vista, inacreditável e tem de ser destacado mais uma vez. Ou mais mil, tamanha a estupidez.
Quem é Luís Miguel Poiares Pessoa Maduro? Lemos a biografia governamental dos seus feitos académicos, profissionais e científicos e ficamos siderados. Temos homem; ou melhor, temos super-homem. Para o espanto ser de caixão à cova, uma consulta rápida aos seus artigos revela-nos um intelecto apaixonado pelo conceito da narrativa, a qual utiliza como instrumento de análise e reflexão. Por exemplo, em A New Governance for the European Union and the Euro: Democracy and Justice contamos o vocábulo 11 vezes. Até aparece no índice, todo pimpão. Dezenas de outros exemplos poderiam ser dados, mas o Poiares não me paga o suficiente para lhe estar a promover o produto. Chega este quadro prévio para saltarmos até ao que se lembrou de bolçar para animar o laranjal algures em Mira:
– Aqueles que nos levaram ao tapete procuram de novo fazer política – uma forma diferente, mas é fazer política – e criam de novo uma realidade alternativa.
– Agora, como estudaram filosofia, chamam-lhe narrativa.
– Passa-se por Paris e, subitamente, fica-se mais sofisticado.
– A narrativa, o que é um paradoxo para quem conhece filosofia, é a construção de uma realidade que não existe.
– A narrativa é uma realidade falsa que, constantemente repetida, procura passar pela verdade.
– O País não pode viver mais de narrativas.
Elementar justiça tem de ser feita ao senhor antes de iniciarmos a sorte: ele estava a discursar para militantes do PSD. Cumprida a obrigação, o problema está em saber por onde pegar em primeiro lugar. O melhor será seguirmos a ordem narrativa.
Aqueles que nos levaram ao tapete procuram de novo fazer política – uma forma diferente, mas é fazer política – e criam de novo uma realidade alternativa.
De facto, há para aí alguns que nos levaram ao tapete. Todavia, o tapete era fixe. Sim, era um tapete, não se pode negar, mas, que diabo, quem é que não gosta de estar deitado num tapete de vez em quando? Já aqueles com quem o Poiares foi trabalhar levaram-nos à pobreza, à miséria e ao desespero. E ainda têm vagar para nos dizerem que não há alternativas à real tragédia nascida da sua forma de fazer política.
Agora, como estudaram filosofia, chamam-lhe narrativa.
Afinal, estudar filosofia sempre serve para alguma coisa. A menos que o Poiares nos esteja a alertar para os perigos do convívio com Sócrates, filósofo que teve o que merecia por andar a desviar rapazes e atentar contra os deuses da cidade (quase todos eles com menos currículo do que o nosso passarão).
Passa-se por Paris e, subitamente, fica-se mais sofisticado.
Muito a audiência riu com este chiste, e para deleite do cómico de serviço. É que as gargalhadas não vinham da referência a Paris, que talvez os presentes nem consigam identificar num mapa daqueles com legendas. A explosão de alegria resultava da evidência de algo tão sofisticado como isso do uso da palavra “narrativa” não poder, em caso algum, resultar de uma breve passagem seja lá por onde for. Como é óbvio, se é para andar aí a disparar narrativas a torto e a direito, tal pede muitos estudos, muitos anos em Coimbra, que é a terra dos doutores, muita pestana queimada para tentar perceber os incríveis mecanismos das malvadas das narrativas.
A narrativa, o que é um paradoxo para quem conhece filosofia, é a construção de uma realidade que não existe.
É inestimável o serviço prestado à comunidade por aqueles que partilham a sua superior inteligência com os simples, como este prendado Maduro. Aposto que poucas pessoas no mundo, inclusive no outro mundo que não só este, sabiam que a narrativa era uma tanga ou uma léria e nada mais. Isto vai ser um sarilho colossal estar a corrigir à pressa dicionários, enciclopédias, tratados disto e daquilo, mas vai ter de ser. A menos que as pessoas desistam de conhecer a filosofia, o que é uma opção de último recurso mas tremenda e pavorosa. Maneiras que o melhor é tratar de alterar dois ou três mil anos de História e vamos todos fingir que nunca ninguém narrou os acontecimentos a ninguém, muito menos que alguém ousou apresentar a sua interpretação das coisas recorrendo às técnicas da narrativa. Last but not least, sempre que ouvirem este marmelo a falar de narrativas estão por vossa conta. Depois não venham narrar que não foram avisados.
A narrativa é uma realidade falsa que, constantemente repetida, procura passar pela verdade.
Poiares queria muito mostrar à Nação que é leitor de Goebbels, e conseguiu-o com este desembaraço e limpeza.
O País não pode viver mais de narrativas.
Eis a puta da verdade. Isto das narrativas é um luxo, um desperdício, o regabofe dos regabofes. Está na altura de acabar com todas as narrativas. Todas? Bom, poderá ficar uma para o gasto. E chega, que não há dinheiro. Não o tivéssemos gastado com a saúde e a educação, mais os salários que só provocam vícios consumistas. É que as narrativas acumulam-se na zona do voto livre, criando uma camada adiposa chamada democracia. Temos de as cortar. E pegar-lhes fogo. Ficam tão bonitas as narrativas empilhadas, a arder. Iluminando a noite. Aquecendo a turbamulta frenética que celebra a salvação.