Carneiro mal morto

No debate quinzenal de hoje, o primeiro-ministro mostrou-se agastado com as perguntas da oposição. Diz ele que os deputados desperdiçam os debates com perguntas acerca de assuntos que são mais do que conhecidos e que estão mais do que esclarecidos e até os acusou de quererem assustar as pessoas com as questões que levam a debate como, por exemplo, a do pagamento do subsídio de férias, algo que só não percebe quem não quer ser esclarecido. E é verdade. Estamos mais do que esclarecidos quanto à incompetência deste Governo. E isso pode ver-se em todos os números que contrariam as “melhorias contínuas” referidas pelo primeiro-ministro. Pode confirmar-se pela total incapacidade de este Governo produzir uma ideia que seja que convença os portugueses e que os faça acreditar em qualquer coisa que não seja mais desemprego e mais empobrecimento. E até se pode ver pela forma como os debates quinzenais são conduzidos.

Devo ser mais uma que não quer ser esclarecida, lá está. Mas tenho desculpa, é que, ao contrário de muito boa gente, não gosto da voz do primeiro-ministro, soa-me sempre a voz de carneiro mal morto. É um facto que isso me distrai e muito provavelmente é o que me impede de ver a “luz ao fundo do túnel” que ele e os deputados da maioria vêem. Ainda não decidi se o problema tem mais a ver com a voz ou com o cérebro, mas carneiro mal morto é de certeza.

Mais política às escondidas e às pinguinhas

O Governo escondeu de todos nós  que se comprometeu junto da troika a cortar 4,7 mil milhões no âmbito da reforma do Estado até 2014, em vez de 2015. É uma brutaliidade.

Isto aconteceu através de uma cartinha de intenções apresentada à troika pelo Governo e pelo governador do Banco de Portugal e divulgada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), incluída na análise da instituição no âmbito da sétima avaliação do programa de assistência financeira a Portugal.

Ou seja: o Governo comprometeu-se a cortar 4,7 mil milhões e os portugueses só o sabem por aquele relatório do FMI.

Não é só desistir de Governar. É insistir no insulto.

 

 

Geografia da traição

O ministro das Finanças aproveitou o momento para repetir uma ideia que tem sublinhado, a de que este Governo conseguiu em dois anos dissociar Portugal da Grécia e aproximar-se da Irlanda.

7 de Junho de 2013

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Na semana passada, Vítor Gaspar atingiu o cúmulo da sua provocação às instituições e aos políticos portugueses. Algo que tem vindo a fazer continuadamente desde que resolveu cortar 50% no subsídio de Natal, naquela que foi a sua primeira medida no Governo logo em Junho de 2011, só para chegar ao fim do ano com um défice de 4,2%; muito abaixo da meta acordada com a Troika de 5,9% e muito além do Memorando que a tal não obrigava – portanto, tendo causado inutilmente um desfalque na classe média e no consumo interno que iria ter imediatas e fundas repercussões nas contas do Estado. Começava assim um ciclo de fanática destruição da economia ao arrepio de todas as cautelas e evidências, o qual nem agora com a guerra aberta entre o FMI e a Europa a respeito da matemática da austeridade dá sinal de ir parar por iniciativa deste Governo de mentirosos e incompetentes.

A chuva de Gaspar causou uma inundação de gargalhadas na última sexta-feira, a qual se estendeu até uma comissão parlamentar dias depois, para galhofa debochada do Álvaro. Foi apenas o mais recente episódio de um crescendo onde o procônsul da Troika se permite exibir em jeito de bravata ultra-sonsa o seu asco pelos representantes eleitos. Também nessa sexta admitiu que se tinha enganado nas ordens dadas ao tipo que lhe puseram ao lado para brincar aos primeiros-ministros. Parece que fez exactamente o contrário do que deveria ter feito, mas ’tá-se bem e não há cá desculpas e muito menos demissões, os portugueses aguentam tudo e mais alguma coisa. Somos as cobaias perfeitas.

Ao que ninguém deu atenção foi à frase em epígrafe, onde Gaspar despeja um sofisma que ilustra o que fizeram e estão a fazer a Portugal. Para o compreendermos na sua eficácia e consequências temos de recuar a Outubro de 2010, data em que António Borges é escolhido para dirigir o Departamento Europeu do Fundo Monetário Internacional. Este cargo era posto nas mãos de um português numa altura em que se apostava que Portugal não conseguiria resistir à pressão dos mercados, indo recorrer à ajuda externa algures em 2011. Borges ficava assim com o poder de elaborar as exigências do FMI nessa eventualidade. Bastaria a abertura de uma crise política para a situação periclitante do País não dar para qualquer outra solução a não ser a rendição aos credores. Foi exactamente o que se passou logo após a reeleição de Cavaco e chegando o plano a afrontar Merkel que pretendia dar a Sócrates a possibilidade de evitar o resgate. Para a Europa teria sido melhor seguir pela via das alterações ao PEC, dessa forma evitando que mais uma peça do dominó caísse, logo aquela colada a Espanha, e para Portugal estava em causa manter a plena soberania de modo a conseguir o ajustamento financeiro imposto pelos parceiros europeus com o menor dano económico possível. Esta realidade de Março de 2011 reúne neste momento um quase consenso nacional, pois contra factos não há argumentos, só sofismas.

Gaspar diz que com a sua educação caríssima e amor à pátria made in Bruxelas conseguiu livrar-nos dos horrores gregos e pôr-nos a caminho da verdejante Irlanda. O que Gaspar não diz, nem há quem lhe pergunte, é a razão de estar a gozar connosco num Governo que nasceu de nos terem afastado à canzana da Espanha e da Itália – países que têm acesso aos mesmo apoios que nós recebemos de uma Europa perdida no seu labirinto, mas que não aceitaram a demência de verem um conjunto de malucos a tratar os seus cidadãos como bandidos que têm de ser castigados ferozmente.

O presidente de todos os social-democratas

Cavaco, o presidente que recusa ser um actor político, decidiu atacar o FMI e, antes de partir, deixou ordens a Passos para fazer o mesmo. Passos, obediente, encheu-se de coragem e criticou o “espectáculo público” que a troika está a dar por causa das “divergências internas”. Percebe-se, por um lado, para espectáculos desses está cá ele e o Portas. E, por outro, há de facto uma diferença monumental entre o FMI e a Comissão Europeia: a senhora Lagarde não é do PSD, e não é ela que Cavaco está ver a suceder-lhe em Belém. E isso é que interessa. Não interessa nada a opinião dos que se espantaram com este ataque e que defendem que o FMI é o menos duro dos elementos da troika. Menos ainda interessa o facto de Durão Barroso ser um dos principais responsáveis pelo arrastar da crise europeia e de ter feito pouco ou nada para evitar a entrada do FMI em Portugal. Aliás, quando o PSD chumbou o PEC IV quem se enfureceu foi a Merkel, que, diga-se, tem o poder que tem na Europa muito à custa da mediocridade deste ex-ministro de Cavaco, que na altura assobiou para o lado. Afinal, era esta a forma de os seus companheiros de partido chegarem ao pote. Portanto, nada de novo, protegem-se uns aos outros, e quem se mete com eles, estejam onde estiverem, leva com o Cavaco.

A parentalidade, os afetos e a co-adoção

 

 Ao contrário do que alguns afirmam, o projeto de lei da co-adoção em casais do mesmo sexo (que já existe para casais de sexo diferente) não tem qualquer ligação com um ideal romântico e biológico das relações adultas ou na desconsideração da realidade que nos remete para ruturas e divórcios.

Trata-se precisamente do contrário. Só quem tem um conceito (pessoal) de família como unidade puramente biológica, só quem tem um conceito de casal contratualizado “até que a morte os separe” é que rejeita ab initio a complexidade do universo familiar, a complexidade da parentalidade, os divórcios frequentes e, portanto, não olha para a co-adoção, como para qualquer adoção, como um instituto jurídico centrado no superior interesse da criança, na manutenção dos seus laços afetivos permanentes.

A co-adoção não tem como finalidade usar a criança para legitimar todas as relações e mais algumas que os adultos tenham. O “direito a qualquer coisa” não está do lado do adulto, mas antes do lado da criança. É a criança, se, assim, caso a caso, um juiz decidir, munido de um processo de avaliação, que fica mais protegida, se a pessoa que representa uma parentalidade real for, em nome dos princípios que referi, reconhecida como pai ou mãe tal como o é o respetivo cônjuges ou unido de facto.

Estamos a considerar um instituto residual, na senda da decisão do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem que condenou a Áustria precisamente por não o prever. Não se trata de multiplicar vínculos jurídicos entre a criança e todas as pessoas adultas que entram na sua vida.

Trata-se de abrir os olhos à realidade das famílias homoparentais. As crianças em causa estão nas nossas escolas, nas nossas vidas. Se a realidade não chega, o consenso científico deve marcar o normativo, como tem feito quanto a outros institutos jurídicos: há mais de duas décadas que se vem demonstrando que as crianças que se desenvolvem no seio de uma realidade homoparental (por exemplo, uma mãe biológica e a sua companheira) não apresentam diferenças de relevo quanto a quaisquer crianças. Não custa passar os olhos pelo que foi estudado por entidades como estas: a American Academy of Child and Adolescent Psychiatry, a American Academy of Pediatrics, a American Academy of Family Physicians, a American Medical Association, a American Psychiatric Association, a American Psychological Association, a American Psychoanalytic Association, a Child Welfare League of America, a National Association of Social Workers e o North American Council on Adoptable Children. É antes um dever de quem opina (porque é da segurança jurídica de crianças que falamos) ler o comunicado do Instituto de Apoio à Criança saído em Maio ou os estudos académicos já desenvolvidos em Universidades portuguesas.

Há desamor nas relações? Há divórcios? Há ruturas? Claro que sim, tal como nos casais de sexo diferente. Essas ocorrências reforçam a necessidade de aprovar a co-adoção. Sem a mesma, ao contrário do que sucede nos casais de sexo diferente, uma criança que tem a representação afetiva e psíquica de duas figuras parentais fica (como fica atualmente porque ainda não há lei) surpreendida por desaparecer da sua vida o “dever de cuidar” por parte de quem cuidou, precisamente. É a co-adoção, em casais de sexo diferente ou do mesmo, que permite a tal continuidade das relações afetivas, pois quem foi para a criança, sempre, um pai ou uma mãe passa a ter os deveres jurídicos correspondentes, quer na vida em comum com o cônjuge, quer em caso de separação – passa a ter de haver regulação do poder parental e, assim, as decisões de adultos não afetam as relações parentais dos mesmos com a criança – , quer em caso de morte de um dos pais.

Não defender esta solução é, consciente ou inconscientemente, regressar ao passado, no sentido de valorizar a mãe (necessariamente biológica), no papel de cuidadora dos filhos (necessariamente biológicos) e de, nessa função, desvalorizar o pai.

Não posso acompanhar abusos lógicos que desprezam a dinâmica relacional em nome da cópula, o que teria de levar quem os abraça a propor a revogação de todos os regimes da adoção, a começar pelo da adoção singular, há décadas aberto a gays e lésbicas.

No P3

A democracia vai cair de Maduro

A Isabel já escreveu o que mais importava gritar-se a respeito da chungaria de tasca do novíssimo braço-direito do primeiro-ministro, acima pendurada: Da “narrativa”, segundo Poiares Maduro. Mas o que este palhaço, acabado de chegar ao circo que é a direita de Passos, Portas e Cavaco, diz em menos de um minuto permanece, seja qual for o ponto de vista, inacreditável e tem de ser destacado mais uma vez. Ou mais mil, tamanha a estupidez.

Quem é Luís Miguel Poiares Pessoa Maduro? Lemos a biografia governamental dos seus feitos académicos, profissionais e científicos e ficamos siderados. Temos homem; ou melhor, temos super-homem. Para o espanto ser de caixão à cova, uma consulta rápida aos seus artigos revela-nos um intelecto apaixonado pelo conceito da narrativa, a qual utiliza como instrumento de análise e reflexão. Por exemplo, em A New Governance for the European Union and the Euro: Democracy and Justice contamos o vocábulo 11 vezes. Até aparece no índice, todo pimpão. Dezenas de outros exemplos poderiam ser dados, mas o Poiares não me paga o suficiente para lhe estar a promover o produto. Chega este quadro prévio para saltarmos até ao que se lembrou de bolçar para animar o laranjal algures em Mira:

– Aqueles que nos levaram ao tapete procuram de novo fazer política – uma forma diferente, mas é fazer política – e criam de novo uma realidade alternativa.

– Agora, como estudaram filosofia, chamam-lhe narrativa.

– Passa-se por Paris e, subitamente, fica-se mais sofisticado.

– A narrativa, o que é um paradoxo para quem conhece filosofia, é a construção de uma realidade que não existe.

– A narrativa é uma realidade falsa que, constantemente repetida, procura passar pela verdade.

– O País não pode viver mais de narrativas.

Elementar justiça tem de ser feita ao senhor antes de iniciarmos a sorte: ele estava a discursar para militantes do PSD. Cumprida a obrigação, o problema está em saber por onde pegar em primeiro lugar. O melhor será seguirmos a ordem narrativa.

Aqueles que nos levaram ao tapete procuram de novo fazer política – uma forma diferente, mas é fazer política – e criam de novo uma realidade alternativa.

De facto, há para aí alguns que nos levaram ao tapete. Todavia, o tapete era fixe. Sim, era um tapete, não se pode negar, mas, que diabo, quem é que não gosta de estar deitado num tapete de vez em quando? Já aqueles com quem o Poiares foi trabalhar levaram-nos à pobreza, à miséria e ao desespero. E ainda têm vagar para nos dizerem que não há alternativas à real tragédia nascida da sua forma de fazer política.

Agora, como estudaram filosofia, chamam-lhe narrativa.

Afinal, estudar filosofia sempre serve para alguma coisa. A menos que o Poiares nos esteja a alertar para os perigos do convívio com Sócrates, filósofo que teve o que merecia por andar a desviar rapazes e atentar contra os deuses da cidade (quase todos eles com menos currículo do que o nosso passarão).

Passa-se por Paris e, subitamente, fica-se mais sofisticado.

Muito a audiência riu com este chiste, e para deleite do cómico de serviço. É que as gargalhadas não vinham da referência a Paris, que talvez os presentes nem consigam identificar num mapa daqueles com legendas. A explosão de alegria resultava da evidência de algo tão sofisticado como isso do uso da palavra “narrativa” não poder, em caso algum, resultar de uma breve passagem seja lá por onde for. Como é óbvio, se é para andar aí a disparar narrativas a torto e a direito, tal pede muitos estudos, muitos anos em Coimbra, que é a terra dos doutores, muita pestana queimada para tentar perceber os incríveis mecanismos das malvadas das narrativas.

A narrativa, o que é um paradoxo para quem conhece filosofia, é a construção de uma realidade que não existe.

É inestimável o serviço prestado à comunidade por aqueles que partilham a sua superior inteligência com os simples, como este prendado Maduro. Aposto que poucas pessoas no mundo, inclusive no outro mundo que não só este, sabiam que a narrativa era uma tanga ou uma léria e nada mais. Isto vai ser um sarilho colossal estar a corrigir à pressa dicionários, enciclopédias, tratados disto e daquilo, mas vai ter de ser. A menos que as pessoas desistam de conhecer a filosofia, o que é uma opção de último recurso mas tremenda e pavorosa. Maneiras que o melhor é tratar de alterar dois ou três mil anos de História e vamos todos fingir que nunca ninguém narrou os acontecimentos a ninguém, muito menos que alguém ousou apresentar a sua interpretação das coisas recorrendo às técnicas da narrativa. Last but not least, sempre que ouvirem este marmelo a falar de narrativas estão por vossa conta. Depois não venham narrar que não foram avisados.

A narrativa é uma realidade falsa que, constantemente repetida, procura passar pela verdade.

Poiares queria muito mostrar à Nação que é leitor de Goebbels, e conseguiu-o com este desembaraço e limpeza.

O País não pode viver mais de narrativas.

Eis a puta da verdade. Isto das narrativas é um luxo, um desperdício, o regabofe dos regabofes. Está na altura de acabar com todas as narrativas. Todas? Bom, poderá ficar uma para o gasto. E chega, que não há dinheiro. Não o tivéssemos gastado com a saúde e a educação, mais os salários que só provocam vícios consumistas. É que as narrativas acumulam-se na zona do voto livre, criando uma camada adiposa chamada democracia. Temos de as cortar. E pegar-lhes fogo. Ficam tão bonitas as narrativas empilhadas, a arder. Iluminando a noite. Aquecendo a turbamulta frenética que celebra a salvação.

Estado imoral

Milhares e milhares de pessoas no meio de uma crise a contarem com o legítimo subsídio de férias em Junho, tal como manda a lei, tal como decorre da decisão do TC. Milhares e milhares de pessoas que programaram a vida que é a que têm agora, no sentido, por exemplo, de usar o subsídio para uma pequena ajuda nas suas dívidas, em processos de execução, para se agarrarem como podem. Há meses e meses a contarem com isto. No mês em que receberiam o seu direito, nesse mês, concretamente pelas 23 h de dia 11 (!!!) são surprendidas pelas notícias: afinal o MF disse que os serviços estão proibidos de pagar, paciência.

 Antes mesmo de isto ser uma ilegalidade, estamos perante uma imoralidade gritante.

Os puros do Ocidente

Começo a ficar um bocado farta dos candidatos a heróis que, volta meia volta, com aparente desapego à vida, exacerbado sentido moral e valentia, decidem mostrar ao mundo as terríveis malfeitorias e os tenebrosos atentados à vida privada cometidos pela administração americana em nome da segurança e da luta contra o terrorismo. O terrorismo, note-se, essa fantasia, esse delírio em nome do qual somos obrigados praticamente a despir-nos em todos os aeroportos do planeta.

Depois de Bradley Manning e Assange, foi agora a vez de Edward Snowden, um informático subcontratado pela Agência Nacional de Segurança norte-americana, divulgar uns documentos secretos e dar de seguida o salto para Hong Kong, na China, e daí sabe-se lá para onde, para “revelar” que os serviços secretos controlam as comunicações de todo e cada americano (e “beyond”) na Internet e redes telefónicas. Como se o Google ou o Facebook ou simplesmente as empresas de telecomunicações não o pudessem fazer ou não o façam e sem qualquer controlo político!

O texto a seguir transcrito, que me parece bastante equilibrado, é um bom contrapeso para a histeria reinante nos media, a qual, pelos vistos, nem sequer tem correspondência com o que pensam os supostamente “devassados” cidadãos americanos. Com efeito, num inquérito realizado há uns dias na América, 62% dos inquiridos consideraram que o combate ao terrorismo tem prioridade sobre a proteção da vida privada. (Washington Post (sem link): “A large majority of Americans say the federal government should focus on investigating possible terrorist threats even if personal privacy is compromised, and most support the blanket tracking of telephone records in an effort to uncover terrorist activity, according to a new Washington Post-Pew Research Center poll.”)

Transcrevo excertos do texto de David Simon, que, apesar de considerar inevitável (e legal) o acesso às comunicações, tem a lucidez suficiente para ver que nem tudo está bem (e por isso merece ser lido na íntegra):

“When the government grabs every single fucking telephone call made from the United States over a period of months and years, it is not a prelude to monitoring anything in particular. Why not? Because that is tens of billions of phone calls and for the love of god, how many agents do you think the FBI has? How many computer-runs do you think the NSA can do — and then specifically analyze and assess each result? When the government asks for something, it is notable to wonder what they are seeking and for what purpose. When they ask for everything, it is not for specific snooping or violations of civil rights, but rather a data base that is being maintained as an investigative tool.

There are reasons to object to governmental overreach in the name of law enforcement and anti-terrorism. And it is certainly problematic that our national security apparatus demands a judicial review of our law enforcement activity behind closed doors […]

[…] But those planes really did hit those buildings. And that bomb did indeed blow up at the finish line of the Boston marathon. And we really are in a continuing, low-intensity, high-risk conflict with a diffuse, committed and ideologically-motivated enemy. And for a moment, just imagine how much bloviating would be wafting across our political spectrum if, in the wake of an incident of domestic terrorism, an American president and his administration had failed to take full advantage of the existing telephonic data to do what is possible to find those needles in the haystacks. After all, we as a people, through our elected representatives, drafted and passed FISA and the Patriot Act and what has been done here, with Verizon and assuredly with other carriers, is possible under that legislation.

Espero que seja mentira

Veio há pouco a público que o Ministério das Finanças “deu ordem aos serviços para não pagarem o subsídio de férias aos funcionários do Estado em Junho”, tal como é imposto pelo nº 2 do artigo 208 da Lei que aprovou o Regime do Contrato de Trabalho em Funções Públicas.

Estamos a falar numa imposição legal protegida constitucionalmente como retribuição, que o Governo tentou roubar às pessoas em causa, mas viu a medida declarada inconstitucional pelo Tribunal Constitucional.

Segundo as notícias de há pouco, o Governo que dissera “respeitar o TC e que teria de cumprir a sua decisão” – declaração redundante numa democracia -, vem agora, através de um despacho interno escondido cuidadosamente de todos nós desde quinta passada, afirmar que apesar da decisão do TC não há dinheiro.

Espero que tudo isto seja mentira.

A não ser assim, é o divórcio entre o Governo e a democracia.

Ainda não está em vigor qualquer lei – lei – que altere as datas de pagamento do referido subsídio.

Espero que seja mentira.

Um caso de moral ou de psiquiatria? Ambos.

Sempre discordei daqueles que entendem que a magistratura presidencial deve ser uma magistratura negativa e conflitual, daqueles que têm uma visão do Presidente da República como um ator político que participa e se envolve no jogo entre maiorias e oposições, na busca, muitas vezes, do engrandecimento do seu protagonismo pessoal.

Considero, pelo contrário, que o contributo de um Presidente da República deve ser dado pela positiva. Por isso, adotei como princípios-chave da minha atuação a cooperação estratégica e a magistratura ativa […]

10 de Junho de 2013, 2 anos depois de ter aberto uma crise política com o propósito de derrubar o Governo e afundar Portugal

*

Não se podem pedir sacrifícios sem se explicar a sua razão de ser, que finalidades e objectivos se perseguem, que destino irá ser dado ao produto daquilo de que abrimos mão. Quanto mais se exigir do povo, mais o povo exigirá dos que o governam.

[…]

Portugal tem de ser um País de justiça para todas as idades. Não podemos deixar que sejam os dois extremos da pirâmide etária, os mais velhos e os mais novos, a suportar os encargos sociais mais pesados das dificuldades do presente.

[…]

Os Portugueses anseiam por limpar Portugal, aspiram a um País mais são, mais limpo, não querem viver numa atmosfera carregada e irrespirável, numa paisagem cercada de lixo e desperdício.

[…]

Como avisei na altura devida, chegámos a uma situação insustentável.

[…]


10 de Junho de 2010, a 6 meses de eleições presidenciais

*

A abstenção deve, além disso, fazer reflectir os agentes políticos. A confiança dos cidadãos nas instituições democráticas depende, em boa parte, da forma como aqueles que são eleitos actuam no desempenho das suas funções.

Se não tivermos órgãos de representação prestigiados, será difícil aumentar a participação dos eleitores e demonstrar-lhes que o seu voto é importante e útil para a formação das decisões de interesse geral.

A credibilidade dos agentes políticos é tanto mais necessária quanto a situação económica e financeira actual representa um desafio, sem precedentes nas últimas décadas, à qualidade das instituições democráticas, à competência e visão de futuro dos decisores, e ao empenhamento responsável e solidário de cada um dos cidadãos. Da minha parte, asseguro aos portugueses que, nas boas como nas más horas, estarei aqui.

[…]

Conforme já tenho dito, «a verdade gera confiança, a ilusão é fonte de descrença». Só uma informação correcta permite às pessoas fazerem as escolhas mais adequadas para acautelarem o seu futuro e o das suas famílias.

Temos, antes de mais, de saber extrair da actual situação as lições que se impõem.

De pouco adiantarão os diagnósticos e, ainda menos, as lamentações ou recriminações, se nada, entretanto, mudar nas atitudes e nos comportamentos.

Face às dificuldades e aos desafios que temos pela frente, é imperativo promover uma cultura de valores, uma cultura que contemple a dignidade das pessoas, incentive o esforço e o mérito e favoreça a coesão social.

[…]

Mais do que simples regras formais, terá de haver, sobretudo, uma clara presença de princípios éticos nas instituições, no mundo dos negócios e no mundo do trabalho. A justiça, a equidade e a responsabilidade social não podem ser letra morta, simples palavras de que só nos lembramos em momentos de apuros.

Tanto no Estado como na sociedade civil é preciso adoptar uma cultura de transparência e de prestação de contas.

Não esqueçamos que, na origem de alguns dos principais problemas que o mundo actualmente enfrenta, esteve a ausência de escrúpulos e de princípios por parte daqueles que abusaram da confiança neles depositada, prejudicando milhões de pessoas e acabando por comprometer o bem-estar de muitos mais.

Se há um ensinamento claro a retirar da conjuntura actual é o de que o desenvolvimento económico não pode processar-se à margem da responsabilidade social e do respeito por normativos éticos, que vinculam tanto os governos e os políticos, como os mercados, os empresários e os gestores.

[…]

Sabemos bem quais são os grandes desígnios nacionais. Resta sabermos colocar o País no rumo certo, introduzir as mudanças necessárias, reajustar os comportamentos e expectativas individuais, apostar no que é, de facto, essencial para o aumento da nossa capacidade competitiva.

10 de Junho de 2009, a 3 meses de eleições legislativas

Revolution through evolution

15 Years Olds At Greatest Risk Of Sexual Assault
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LGBT-Inclusive Policies Lead To Healthier Workplaces And (Possibly) Better Bottom Lines
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Meet the new wave of activists making feminism thrive in a digital age
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Mental Imagery May Hasten Recovery After Surgery
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More TV Time Equals Higher Consumption of Sweetened Beverages Among Children
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Four Lifestyle Changes Will Protect Your Heart and Significantly Reduce Your Risk of Death
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‘Lending Circles’ Help Low-Income Communities Join the Financial Mainstream, Study Suggests

Continuar a lerRevolution through evolution

De como os ateus só pensam em comida

Imperdível. César das Neves explica-nos hoje, a partir do quarto parágrafo da sua crónica (ou será sermão?), como as necessidades desta vida, mesmo as vitais, pouco são face à realidade que “não vemos e não tocamos”, “o transcendente”.

Depois de um introito sobre as nossas dificuldades e privações atuais, palavras de esperança como estas:

O ser humano participa de um profundo drama existencial. Não é possível viver sem se colocar as perguntas fundamentais: Quem sou eu? De onde vim? Para onde vou? Que faço aqui? Na turbulência quotidiana estas interrogações apagam-se, mas todos os humanos, de todos os tempos e culturas, inevitavelmente as colocam em alguma forma.

Vivemos a primeira época que faz enorme esforço para silenciar a ansiedade primordial. Desde o Iluminismo um punhado de ideologias tenta defender a tese ingénua de que a realidade se limita ao que vemos e tocamos. Num esforço hercúleo de autodecepção, impõem a limitação do homem às funções vitais, recusando qualquer aspecto transcendente. A atitude tem razões louváveis e pragmáticas, defendendo a justiça social e direitos humanos contra a hipocrisia de muitos religiosos. Mas nunca drasticamente a existência daqueles mesmos que diz defender.”

[…] A recessão afecta todos, e todos sofrem injustiça, cortes, austeridade. Mas a forma como cada um enfrenta o sofrimento faz toda a diferença. O ateísmo da maioria dos activistas introduz no drama económico elementos devastadores.”

[…]Quem não tem a perspectiva da eternidade só pode ver uma crise financeira como o inferno. O único resultado plausível é o desespero.”

Resumo:

Irmãos que tendes fome, buscai consolo no Além. Sede místicos, que isso passa. Teletransportai-vos.

Conclusão:

Afinal, há quem consiga caminhar sobre brasas sem se queimar. É tudo uma questão psicológica. Mesmo assim, com limites e normalmente contra remuneração. Ateus.

Novo dicionário – Significados de não vacilar*

Aguentar, aguentar.

Ir a Fátima rezar.

Mendigar.

Emigrar.

Conformar-se com a sua sorte.

Confiar em Gaspar, um criado de Schäuble.

Compor um hino aos novos restauradores de Portugal.

Submeter-se, esperançado, a um programa de requalificação na FP.

Ir para o desemprego devidamente requalificado.

Esperar sem um grito pelas próximas eleições.

Permitir que PR confunda 10 milhões de portugueses com o seu umbigo ou com a sua pele.

Ver êxito na desgraça.

Obedecer.

Não largar o pote.

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* “Não podemos vacilar”, afirma Cavaco Silva

Da “narrativa”, segundo Poiares Maduro

Poiares Maduro teceu considerações pessoais sobre José Sócrates e depois afirmou que o ex-PM está a construir uma “narrativa”, o que por natureza é uma “ficção”, a qual, repetida várias vezes, pode passar por “verdade”.

Ouvir isto não nos faz recordar José Sócrates, mas a campanha de propaganda levada a cabo contra o anterior Governo, que passou pelo PSD e pelo PR (e não só). Isso sim foi uma narrativa descarada.

Hoje, quem tem construído uma narrativa de meses a meses é o Governo PSD/CDS, que chegou ao poder rejeitando ferozmente medidas “disparatadas” como o aumento de impostos ou o ataque a funcionários públicos e a reformados/pensionistas.

Este Governo vai levando a cabo uma agenda, que estava escondida (bom, havia aquela coisa, um projeto de Constituição que foi cuidadosamente posto de parte) anunciando, em prol de uma paz social útil, desde o início, medidas e metas, sempre com um prazo, para, de mês a mês, esmagar a segurança dos cidadãos com mais medidas de “austeridade expansionista”, novos números (resultados falhados) e novas metas.

Narrativa, pois. E medo. Viver de acordo com o anunciado e acordar para uma realidade diferente, à conta de revogações sistemáticas do anunciado (que o Governo previa desde o início), é viver com medo. E isso é ilegítimo. É, de resto, uma política de infantilização do povo.

Mas o que preocupa Poiares Maduro é Sócrates. E deve preocupar. Porque Sócrates diz coisas que têm correspondência exata com a realidade, sendo mais fácil tentar descredibilizar Sócrates, num regresso aos ataques obscuros do passado, do que referir-se, por exemplo, a Manuela Ferreira Leite.

Vamos com 8 trimestres consecutivos em que o investimento não para de cair a dois dígitos. Não sendo isto mentira, é realmente melhor atacar Sócrates e omitir instituições independentes e do Estado que andam entretidas nas mesmas narrativas que afligem Maduro.

Calha que ao fim de dois anos já não convence ninguém deslocar uma política concreta para Sócrates, fazendo mesmo piadas sobre escolhas pessoais, como ir para Paris estudar, o que não devia ser matéria de análise, não fosse uma atitude pidesca de desespero.

Podia Poiares Maduro, que no passado criticou o Governo que integra, tentar safar o Executivo culpando o triunvirato, para usar o inovador conceito do CDS. Mas isso já  PSD e CDS fizeram.

Outra narrativa? Sim.

O Triunvirato veio para Portugal à conta da verdadeira narrativa de propaganda que levou à queda do anterior Governo. E com muita utilidade  para a investida que a direita preparava.

O amor pelo memorando era tanto, que cortar subsídios e reformas foi assumir que havia um programa próprio muito para além do memorando, já revisto sete vezes. Cortes como os referidos foram sempre anunciados como provisórios, e cá estamos nós numa recessão sem memória, a qual, por este caminho, nada terá de provisório.

Vitor Gaspar anunciou à pátria uma reforma do Estado. Esqueceu-se que isso começa por repensar o aparelho governativo e por melhorar o Estado e não por despedir e cortar – o que causa mais recessão e mais despedimento – na exata medida do buraco criado pelas medidas do Governo.

Reformar o Estado também não passa por deitar fora, por mero preconceito ideológico, medidas do passado que flexibilizaram a Administração e melhoraram o Estado nas suas várias dimensões, como no ensino.

Narrativa?

Narrativa é ler a carta que o PM escreveu à Troica afirmando que a mobilização dos funcionários públicos facilita a sua transição para o privado. Isto não é despedimento, portanto. Andei anos a pensar que quebrar um vínculo laboral por iniciativa do empregador é despedimento, imagine-se.

Poiares Maduro não tem grande importância. Já se diluiu na semântica criativa de Gaspar e Passos. O que tem importância é estarmos onde estamos quando havia uma alternativa.

O que tem importância é a desesperança que encontramos a cada esquina.